O Baile Em Silverydew
1 Capítulo 1
Maria
A frase “Promete tomar cuidado?” havia sido repetida quase tantas vezes quanto “Eu vou, prometo.”; e eu já estou começando a me sentir angustiada! Silverydew é um lugar seguro, repleto de pessoas conhecidas e gentis. É minha responsabilidade salvar Moonacre dos homens do bosque sombrio, eu não posso ficar sob supervisão para sempre! Entendo a preocupação de Miss Helitrópio e também entendo que Sir Benjamin e Loveday não querem me perder logo agora que voltaram a ficar juntos (quando eu cheguei, eles já haviam reatado, porém só faz 1 ano , não é muito) mas este conhecimento não me impede de ficar ansiosa para ir a um baile de máscaras como os que eu sempre ouvi falar.
Passei a tarde inteira procurando a roupa certa, e no final, como sempre, Mãe Minette tinha o vestido perfeito: azul escuro de veludo e com uma pequena lua crescente bordada na parte inferior do pulso em cada manga. Minha máscara, também de Loveday, era azul escura com pontinhos brancos, que se assemelhavam a estrelas, combinando com o vestido.
Agora estou esperando Digweed terminar de preparar a carruagem. Estou sorrindo e cerrando os punhos de ansiedade.
“Vamos?” pergunta ele. Faço um gesto com a cabeça e entro na carruagem a minha frente, pensando mais uma vez em quem eu menos deveria pensar: Pisco.
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Pisco
“Você não vai!” berra meu pai, totalmente bêbado.
Será que era pedir demais ir a um lugar onde a conversa não se concentrava em matar Maria, pegar as pérolas (que se encontravam em posse da mesma, havíamos descoberto algumas semanas atrás) ou cantar uma musica idiota sobre um galo idiota!?
“Por que não?” berro de volta.
“Eu não te devo explicações! Mesmo que a contragosto, ainda sou seu pai, seu inútil!” ele grita.
"Como se eu me importasse..." penso.
Viro-me de costas e vou para o meu quarto. Tento ignorar a dor.
Eu continuo pensado em Maria a todo momento! Só quero um pouco de paz! “Eu sei que ela não me quer mesmo; por que o faria? Eu sou um idiota!“ penso. “Não mais que o Cocq De Noir” murmuro. “E mesmo que ela também gostasse de mim, e ai? Meu pai só me odiaria mais!” minha mente grita.
Chego ao meu quarto, pego meus trajes sociais brancos, que eu guardava para ocasiões em que não queria ser reconhecido, e um colete preto. Coloco a máscara negra que consegui após perceber que aquele pedaço de pano definitivamente não era um bom disfarce.
Paro em frente a um espelho na parede. Observo-me.
“Tente me parar...” eu rio com descaso “Papai”.
Viro-me em direção à janela (por onde eu iria escapar), porém congelo ao me recordar do detalhe mais importante. "Volto logo." penso ao olhar meu querido chapéu e guarda-lo em segurança, eu um cofre que eu mesmo escavei na espessa parede, atrás de um antigo quadro.
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Chegando a Silverydew , tem sido muito estranho me deparar com tantas cores diferentes, elas me lembram tanto Maria...Meu maxilar fica tenso e, mentalmente, repreendo-me: “Foco, Pisco!”
O baile está sendo realizado em uma das principais ruas de Silverydew, perto da igreja. “Quanto já não roubamos só nesta rua?” penso. Meus lábios se curvam em um meio sorriso. Automaticamente, observo tudo ao meu redor, memorizando onde cada coisa está e procurando rotas de fuga.
Apesar de estar gostando da festa (é tão diferente das festas no bosque sombrio), não tenho falado com ninguém. Não me imagino conversando com nenhuma destas pessoas. Meu olhar para. Eu consigo me imaginar falando com ela: A bela garota, talvez um pouco mais nova que eu, vestindo um vestido de veludo azul. Ela parece elegante e majestosa. Ela é ruiva como Maria. Meu coração bate mais forte. Acho que descobri alguém para tirar a Merryweather de meus pensamentos...
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Maria
Estou andando pela rua, tentando descobrir quem são as pessoas sob as máscaras, dançando ou conversando, e ouvindo o Pároco tocar. Sinto-me tão feliz.
Já falei com muita gente e, como sempre, o povo de Silverydew aquece o meu coração.
“A senhorita gostaria de dançar comigo?” pergunta uma voz atrás de mim. Eu sinto como se conhecesse aquela voz... Em Londres, seria de praxe nos cumprimentarmos antes. A atitude do dono da voz me parece um tanto rude, mas ainda não conheço todos os costumes das pessoas de Moonacre.
Viro-me e me deparo com um garoto de lindo cabelo cacheado e máscara negra com a mão direita estendida para mim.
“Certamente” respondo sorrindo.
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O que seria apenas uma dança acabou durando metade da festa! O garoto é muito divertido! Ele é adorável, engraçado e inteligente. Também é meio contido e misterioso, o que só aumenta a minha natural curiosidade. Ao longo das danças (e das conversas que tivemos enquanto dançávamos), descubro que ele tem dois anos a mais que eu, que tenho 14, que tem problemas com o pai e que sua mãe havia morrido muito cedo, assim como a minha. Descubro que ele gosta muito dos amigos (apesar de ter medo de parecer fraco diante deles e ser julgado) e que gosta de tocar flauta. Em compensação ele descobre o quanto gosto de animais, meus passatempos, que nunca fui muito próxima de meu pai e, provavelmente, também presume que sou muito curiosa.
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Em um momento estamos em uma rua adjacente a da festa, nas sombras, conversando, e no próximo estamos nos beijando. Ainda consigo ouvir os músicos e a boca dele é tão, tão macia. Minhas mãos estão em seu pescoço e as dele na minha cintura.
É tão maravilhoso.
Separamo-nos, respirando pesadamente. Damo-nos as mãos e entrelaçamos nossos dedos. Meus olhos em seus olhos castanhos e seus olhos em meus olhos cinzentos. Quero registrar cada detalhe. Olho para nossas mãos...
Arregalo os olhos.
Inconscientemente, prendo a respiração.
Estou pensando em tudo e em nada. É tão caótico e tão pacifico.
O momento infinito passa.
Volto a respirar, meu coração bate em um ritmo frenético.
A cicatriz. “Pisco” penso.
Solto minhas mãos das dele e me viro para correr.
“O que houve?” Pisco pergunta atordoado. Congelo. Não sei o que fazer. Ele segura minha mão direita com a sua, maior, e seus dedos roçam em meu pulso. Deve ter sido o bastante para ele sentir a lua crescente e presumir o resto, pois ele também congela.
“Maria?” ele sussurra meu nome como se fosse uma pergunta e uma afirmação, simultaneamente.
“Oi, Pisco.” É só o que consigo responder.
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