​A semana seguinte foi um teste de resistência. Ethan estava mais impiedoso do que nunca. No escritório, ele a tratava com uma frieza cortante, exigindo que ela refizesse relatórios e a ignorando durante horas. Era como se ele estivesse tentando puni-la — ou punir a si mesmo — pela proximidade daquela noite no restaurante.

​— Você está atrasada três minutos, Mackenzie — ele disse, sem tirar os olhos do monitor. O tom era seco, desprovido de qualquer calor.

​— O metrô parou, Sr. D’Strass. Sinto muito — Claire respondeu, tentando manter a calma, embora o cansaço de cuidar da tia e estudar estivesse pesando em seus ombros.

​— Não me interessam suas desculpas suburbanas. Se não pode cumprir o horário, não serve para o cargo. Saia.

​Claire sentiu o impacto das palavras. Ela respirou fundo, os olhos brilhando com uma mistura de mágoa e orgulho, e saiu da sala sem dizer uma palavra.

​O Instinto que ele não pode controlar

​Duas horas depois, a chuva desabava sobre Manhattan. Claire estava na calçada, tentando inutilmente conseguir um táxi. Ela estava encharcada, o suéter fino colado ao corpo, e uma crise de tosse começou a castigá-la devido à friagem.

​De repente, um SUV preto parou bruscamente junto ao meio-fio. A janela baixou, revelando o rosto endurecido de Ethan.

​— Entre no carro. Agora — ele ordenou.

​— Eu prefiro o metrô — ela retrucou, a voz falha.

​Ethan saiu do carro em um movimento ágil, ignorando a chuva que começava a estragar seu terno de três mil dólares. Ele parou na frente dela, a expressão de fúria.

​— Eu mandei você entrar, Claire! Pare de ser teimosa! — Ele a pegou pelo braço, mas no momento em que sentiu como a pele dela estava gelada e como ela tremia, sua expressão mudou drasticamente.

​A dureza em seus olhos vacilou. Antes que ela pudesse protestar, ele a envolveu em um abraço protetor e a guiou para dentro do veículo.

​Entre o Gelo e o Fogo

​Dentro do carro, o silêncio era denso. Ethan pegou uma manta de cashmere que ficava no banco de trás e, com uma delicadeza que não condizia com o homem que a expulsara da sala horas antes, começou a secar os cabelos ruivos dela.

​— Você é uma idiota — ele resmungou, mas suas mãos eram suaves enquanto ele afastava os fios molhados do rosto dela. — Podia ter ficado doente.

​— Por que você se importa? — Claire perguntou, olhando-o de perto. — Eu sou apenas uma diversão, lembra?

​Ethan parou o movimento. Ele estava tão perto que ela podia ver a confusão em suas pupilas. Ele apertou o maxilar, a luta interna visível em seu rosto.

​— Eu não me importo — ele mentiu, a voz falhando. — É apenas... irritante ver você nesse estado.

​Mas, contrariando suas próprias palavras, ele não se afastou. Pelo contrário, ele segurou o rosto dela com as duas mãos, os polegares acariciando as bochechas pálidas dela. Por um segundo, o "homem de gelo" desapareceu. Havia uma ternura tão profunda em seu toque que Claire sentiu o coração parar.

​— Claire... — ele sussurrou, e o nome dela soou como uma prece desesperada.

​Ele se aproximou, e seus lábios roçaram a testa dela em um beijo demorado, carinhoso e protetor. Foi um gesto de puro afeto, sem a agressividade que ele costumava fingir.

​Mas, logo em seguida, como se tivesse levado um choque, ele se afastou bruscamente, voltando para o lado oposto do banco. A máscara de frieza voltou, mas suas mãos, escondidas sob as pernas, ainda tremiam.

​— Vou pedir para o motorista te levar direto para casa. Não apareça no escritório amanhã. Tire o dia de folga... com pagamento.

​— Ethan... o que foi isso? — Claire perguntou, confusa com a mudança repentina.

​— Isso foi um erro — ele disse, olhando fixamente para a janela, recusando-se a encarar a doçura dela que o estava destruindo por dentro. — Vá dormir, Mackenzie. E esqueça que eu tenho mãos.

​Claire ficou em silêncio, observando o perfil rígido dele. Ela percebeu que Ethan D'Strass estava apavorado. Ele estava começando a sentir, e para um homem que vivia no gelo, o calor dela era a coisa mais perigosa do mundo.