O Aroma do Gelo : Entre Contratos e Cicatrizes
15 Capítulo 15: O Altar de Vidro e a Cidade das Sombras
A Catedral de Milão parecia esculpida em gelo e luar para o casamento do século. Do lado de fora, milhares de fãs e jornalistas se acotovelavam para ver a "Face da Europa" perdoar o homem que quase a destruiu. Era o golpe de mestre de Claire: transformar sua dor em uma narrativa de santidade e poder.
Ethan esperava no altar. O terno, cortado pelos melhores alfaiates da Itália e pago pela conta bancária de Claire, era impecável. Mas, por baixo do tecido caro, o coração de Ethan batia com a irregularidade de um condenado. Ele olhava para as portas de carvalho, sentindo o peso da aliança de platina no bolso — uma algema de luxo.
Quando as portas se abriram e Claire surgiu, o mundo pareceu parar. Ela estava deslumbrante em um vestido de renda francesa que parecia flutuar ao redor de seu corpo, mas seu rosto, por trás do véu de seda, era uma máscara de indiferença absoluta. Ela caminhou até ele com passos firmes, sem o tremor que uma noiva apaixonada teria.
Ao chegar ao lado dele, Ethan sussurrou, a voz embargada:
— Você está... maravilhosa, Claire.
Ela não sorriu. Apenas inclinou a cabeça minimamente e disse, em um tom que só ele podia ouvir:
— Lembre-se do ângulo das câmeras, Ethan. Tente parecer grato.
O "sim" de Claire foi claro e frio como um cristal quebrando. O de Ethan foi um sussurro carregado de uma esperança desesperada. Quando o padre os declarou marido e mulher, Ethan inclinou-se para o beijo. Claire ofereceu o rosto, permitindo que os lábios dele tocassem sua bochecha em um gesto que, para as fotos, pareceria recatado e doce, mas que para Ethan, foi como beijar uma estátua de mármore.
O Baile de Máscaras
A festa de gala no Palazzo Reale foi um espetáculo de opulência. Ethan era o acessório perfeito. Claire o guiava pelo salão, sua mão pousada com leveza no braço dele, apresentando-o a embaixadores e magnatas como se ele fosse um troféu de caça domesticado.
— Sorria, querido — ela dizia entre dentes, enquanto brindavam com champanhe de mil dólares. — Você está sendo o marido redimido perfeito. Continue assim e talvez eu permita que você escolha o vinho no jantar de amanhã.
A humilhação de ser um fantoche nas mãos da mulher que amava era o maior preço que Ethan já pagara. Ele via a Claire suave e atenciosa atendendo aos convidados, mas, no momento em que ficavam a sós em um canto do salão, o gelo voltava a cobrir o olhar dela.
A Lua de Mel em Paris: O Quarto do Silêncio
O jato particular os levou para Paris naquela mesma noite. A suíte presidencial do Hotel Plaza Athénée estava decorada com pétalas de rosas vermelhas e velas perfumadas. A vista da Torre Eiffel brilhava lá fora, a cidade do amor zombando do vazio que havia entre eles.
Claire entrou no quarto e começou a retirar o véu, jogando-o sobre uma poltrona de veludo.
— Estou exausta — disse ela, a voz monótona. — Amanhã temos uma coletiva de imprensa às dez. Tente não ter olheiras.
Ela caminhou até Ethan e, com uma atenção que o deixou confuso, começou a desabotoar os botões da camisa dele. Seus dedos eram ágeis e suaves, roçando a pele do peito dele com uma delicadeza que fazia o sangue de Ethan ferver.
— Claire... — ele murmurou, segurando o pulso dela. — Por favor, não faça isso se for apenas parte do contrato.
Ela parou e olhou para ele. Por um segundo, a barreira pareceu tremer. Ela levou a mão ao rosto dele, acariciando a mandíbula com uma ternura que ele reconheceu dos seus dias de doença.
— Eu cuido do que me pertence, Ethan. E, conforme o contrato, você me pertence.
Ela terminou de despi-lo e indicou a cama imensa.
— Deite-se. Você ainda precisa de repouso, sua recuperação não foi total.
Eles se deitaram na mesma cama, sob lençóis de seda que prometiam um calor que não existia. Claire apagou a luz, mas antes de se virar, ela ajeitou o travesseiro de Ethan e puxou a coberta até os ombros dele, batendo levemente em seu peito, como se estivesse acalmando uma criança.
— Durma bem, Ethan — ela sussurrou, a voz carregada de uma doçura que o torturava.
Ethan sentiu o perfume de flores brancas inundar seus sentidos. Ele estendeu o braço e a puxou para perto, abraçando-a por trás. Claire não recuou. Ela permitiu que ele a segurasse, permitiu que ele escondesse o rosto em seu pescoço. Ela até acariciou a mão dele que repousava sobre sua cintura.
Mas ela não disse "eu te amo". Ela não retribuiu o aperto. Ela apenas ficou ali, atenciosa na forma, mas ausente no espírito.
Ethan chorou silenciosamente contra as costas dela, sentindo o calor do corpo de Claire, enquanto percebia que Paris, a cidade das luzes, seria o cenário da sua mais escura solidão. Ele tinha o corpo dela em seus braços, mas a alma de Claire era um território que ele não tinha mais permissão para visitar. Ele dormiu sentindo o toque suave dela em seus dedos, um carinho que era, ao mesmo tempo, sua cura e sua sentença de morte emocional.
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