O Aroma do Gelo : Entre Contratos e Cicatrizes
16 Capítulo 16: O Incêndio sob o Gelo de Paris
A noite parisiense estava carregada de uma eletricidade pesada, prenúncio de uma tempestade que se formava sobre o Rio Sena. O jantar de gala no Musée d’Orsay deveria ser o encerramento perfeito da primeira etapa da "lua de mel" midiática. Claire, em um vestido de seda negra que parecia moldado em sombras, caminhava pelo salão com a altivez de uma divindade, mantendo Ethan a uma distância segura de seu coração, mas sob o alcance constante de seu comando.
No entanto, o destino decidiu cobrar o resto da dívida. No meio do salão, cercada por fotógrafos, surgiu Bianca — a mulher que fora o pivô da destruição cinco anos atrás. Ela não era mais a modelo em ascensão, mas uma mulher amarga que perdera espaço no mercado para a própria Claire.
— Ora, se não é o casal do ano — Bianca sibilou, aproximando-se com uma taça de vinho na mão e um sorriso venenoso. — O magnata falido e a modelo que o comprou por caridade. Diga-me, Claire, o gosto dele é melhor agora que ele tem um dono, ou você ainda sente o cheiro da humilhação quando o beija?
Ethan sentiu o sangue ferver, mas antes que pudesse abrir a boca, Claire respondeu com uma calma cortante.
— Bianca, querida, para falar sobre o que eu sinto, você primeiro precisaria ter uma alma. E para falar sobre o Ethan, você precisaria ter tido, ao menos por um segundo, a importância que ele me deu. Agora, saia daqui antes que eu peça para os seguranças limparem o lixo do salão.
Bianca, furiosa, tentou atirar o vinho no vestido de Claire, mas Ethan agiu por instinto. Ele se colocou na frente, recebendo a mancha escura em seu terno caro. A cena causou um alvoroço silencioso. Claire não agradeceu. Ela apenas olhou para o terno manchado de Ethan com um desprezo que parecia gelo seco.
— Patético — ela sussurrou para ele. — Vamos embora. Você não consegue nem ser um acessório sem causar problemas.
O Estopim na Suíte Presidential
O trajeto de volta ao hotel foi um vácuo de silêncio. Ao entrarem na suíte, Claire jogou sua bolsa sobre a mesa de mármore com uma força que ecoou pelas paredes douradas.
— Você tinha que se meter, não é? — ela explodiu, finalmente deixando a frieza ser consumida pela raiva. — Tinha que fazer o papel de herói agora? Onde estava esse herói quando eu precisei dele em Nova York?
Ethan, que estava tentando limpar o vinho do terno, parou. Ele jogou o paletó no chão, os olhos brilhando com uma dor que ele não conseguia mais conter.
— Eu estava tentando proteger você, Claire! Mesmo que você me trate como um cão, eu ainda não suporto ver ninguém tentar te atingir!
— Me proteger?! — Ela riu, uma risada histérica e dolorosa. — Você me destruiu, Ethan! Você me fez assinar um contrato de cama, me traiu com aquela mulher e agora quer me proteger de um comentário maldoso? Você é um hipócrita! Eu te trouxe para cá para te ver rastejar, para te mostrar que eu sou a dona da sua vida, e você... você continua tentando me fazer sentir algo por você! Eu te odeio por isso!
— Então me odeie! — Ethan gritou, dando três passos largos e encurralando-a contra a janela que dava para a Torre Eiffel. — Me odeie, me humilhe, me faça limpar o chão que você pisa, mas pare de agir como se eu fosse um estranho! Esse gelo está me matando, Claire! Eu prefiro que você me mate de uma vez a viver nesse carinho mecânico que não chega aos seus olhos!
A Explosão de Verdades
Claire tentou empurrá-lo, os punhos batendo contra o peito dele, mas Ethan não se moveu. Ele era uma rocha contra a tempestade dela.
— Você não sabe o que eu senti! — ela gritou, as lágrimas finalmente rompendo a barreira e escorrendo pelo rosto perfeito. — Eu tive que me transformar em uma pedra para não morrer de dor! Eu chorei todas as noites por cinco anos! Eu rezei para que você estivesse sofrendo tanto quanto eu! E quando eu te vi naquele hospital... eu queria te deixar morrer, Ethan! Eu juro que queria!
— Mas você não deixou! — ele segurou o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhar para ele. — Porque você ainda me ama, por mais que isso te fira! E eu te amo de um jeito que está me consumindo. Eu sou um lixo, eu sei disso. Eu quebrei o seu coração, mas o meu parou de bater no dia em que você saiu daquela cobertura. Eu não sou mais o homem de gelo, Claire. Eu sou apenas um homem quebrado implorando por uma chance de ser seu, de verdade!
— Não existe "de verdade" para nós! — ela soluçou, a voz quebrada. — Existe apenas esse contrato... essa mentira...
— Então quebre o contrato! — Ethan colou a testa na dela, as respirações misturadas e frenéticas. — Quebre tudo, me mande embora, mas me beije uma última vez como a Claire que eu conheci no escritório. Sem câmeras, sem vingança. Apenas você e eu.
A Entrega nas Sombras de Paris
O silêncio que se seguiu foi carregado de cinco anos de saudade acumulada. Claire olhou para os lábios dele, a raiva lutando contra a sede que sentia daquele homem. O ódio e o amor eram duas faces da mesma moeda, e naquela noite, em Paris, a moeda caiu do lado da entrega.
Claire o puxou pela nuca e o beijou. Não foi um beijo de "lua de mel" para as câmeras. Foi um beijo faminto, desesperado, com gosto de lágrimas e de uma paixão que o gelo não conseguiu apagar. Era um embate de línguas e dentes, uma guerra onde ambos queriam se render.
Ethan a pegou no colo, e Claire envolveu a cintura dele com as pernas, as unhas cravando-se nos ombros dele. Ele a levou para a cama, e ali, sob a luz difusa da cidade lá fora, as roupas foram arrancadas como se fossem as correntes que os prendiam ao passado.
Quando ele entrou nela, Claire soltou um gemido que foi metade nome dele e metade um grito de alívio. Não havia mais a modelo fria ou o CEO caído. Havia apenas dois corpos que se conheciam em cada cicatriz, em cada curva. Ethan a amou com uma reverência carinhosa, beijando cada centímetro de sua pele como se estivesse pedindo perdão em silêncio, enquanto Claire respondia com uma intensidade que mostrava que, por baixo de todo aquele gelo, ainda queimava um vulcão.
Pela primeira vez em cinco anos, eles não estavam interpretando papéis. Eles eram apenas dois amantes perdidos no labirinto que eles mesmos criaram.
O Despertar da Realidade
Horas depois, com o suor secando em seus corpos e o cansaço finalmente trazendo a paz, Ethan mantinha Claire protegida em seu abraço. Ela estava com a cabeça em seu peito, ouvindo o coração dele bater ritmadamente. O quarto estava em silêncio, mas não era mais o silêncio pesado de antes. Era o silêncio do pós-guerra.
Claire passou a ponta dos dedos pela cicatriz que Ethan tinha no pulso, a mesma que ela vira anos atrás.
— Isso não muda o que você fez, Ethan — ela sussurrou, a voz ainda rouca. — Isso não apaga o passado.
Ethan beijou o topo da cabeça dela, apertando-a um pouco mais.
— Eu sei. Mas agora eu tenho o resto da minha vida para construir um futuro onde você nunca mais precise sentir frio. Eu não sou mais seu dono, Claire. E nem seu funcionário. Eu sou o homem que vai passar cada segundo tentando merecer o ar que você respira.
Claire não respondeu com palavras. Ela apenas fechou os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, dormiu um sono profundo e sem pesadelos, enquanto a chuva finalmente começava a cair sobre Paris, lavando as cinzas da vingança e deixando apenas o que era real.
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