O Aroma do Gelo : Entre Contratos e Cicatrizes
14 Capítulo 14: O Pacto das Alianças de Gelo
Capítulo 14: O Pacto das Alianças de Gelo
O sol da Toscana começava a se pôr, pintando as colinas de um laranja melancólico. Ethan estava de pé, sem o auxílio da bengala pela primeira vez. Ele observava a linha do horizonte, sentindo o peso do silêncio daquela casa. Fisicamente, ele era um homem recuperado; os traços de cansaço e os ferimentos do acidente haviam cicatrizado, deixando apenas cicatrizes que ele agora carregava com uma estranha humildade.
Claire entrou na biblioteca, onde ele estava. Ela usava um vestido de seda cinza, tão pálido e frio quanto seu olhar. Ela não trazia sopa ou remédios desta vez. Trazia uma pasta de couro preto.
— Os médicos deram alta total para você, Ethan — disse ela, sentando-se à mesa de carvalho e cruzando as pernas com uma elegância letal. — Amanhã você deixa esta casa.
Ethan se virou lentamente. Ele não tinha mais o brilho arrogante nos olhos, apenas uma aceitação sombria.
— Eu sei. E eu agradeço por tudo, Claire. Mas há algo que você precisa saber antes de eu partir. — Ele soltou um riso curto, desprovido de alegria. — Eu não tenho para onde voltar. Meus advogados ligaram hoje. O conselho administrativo não apenas me destituiu, eles usaram as cláusulas de moralidade para confiscar minhas ações remanescentes. Minhas contas em Nova York foram congeladas por processos de má gestão. Eu estou quebrado, Claire. Totalmente.
Ele estendeu as mãos, as mesmas mãos que um dia moveram bilhões.
— Eu não tenho o império. Não tenho o terno de três mil dólares. Eu não tenho nada além da roupa que você comprou para mim.
Claire não demonstrou surpresa. Ela permaneceu imóvel, observando-o como se ele fosse um problema matemático interessante, mas sem vida.
— Eu já sabia disso, Ethan. Eu comprei as suas dívidas há duas semanas através do fundo Sterling.
Ethan travou, o choque percorrendo seu corpo.
— Por que você faria isso?
— Porque eu ainda não terminei com você. — Ela abriu a pasta e deslizou um documento sobre a mesa. — Você se lembra do meu "contrato de acompanhante"? Aquele que você me fez assinar quando eu estava desesperada? Pois bem, eu redigi um novo. Mas os termos mudaram.
A Nova Ordem
Ethan caminhou até a mesa e começou a ler. Seus olhos se arregalaram a cada parágrafo. Não era um contrato de trabalho. Não era uma prestação de serviços temporários.
— Casamento? — ele sussurrou, a voz falhando. — Você quer que eu me case com você?
— Não se iluda, Ethan. Não é um "felizes para sempre". — Claire levantou-se e caminhou até ele, parando a uma distância onde ele podia sentir o frio que emanava dela. — A imprensa ainda fala do escândalo de cinco anos atrás. Minha imagem como "Face da Europa" precisa de uma narrativa de redenção. Um casamento com o ex-magnata caído, uma história de "perdão e recomeço", é o golpe de marketing perfeito para consolidar meu império e o do meu tio.
Ela tocou o colarinho da camisa dele, ajeitando-o com uma frieza mecânica que o fez estremecer.
— Você será meu acompanhante exclusivo. Meu marido no papel. Viverá sob o meu teto, comerá da minha comida e aparecerá em todos os eventos que eu ordenar, sorrindo e fingindo ser o homem que se redimiu pelo amor de uma mulher superior. Em troca, eu garanto que você nunca mais passe fome ou durma na rua.
O Xeque-Mate
Ethan olhou para o papel e depois para a mulher que ele amava desesperadamente. O carinho que ela tivera com ele durante a recuperação agora parecia o treinamento para este momento: ela o curou para que ele pudesse ser um troféu funcional.
— Você está me comprando, Claire — ele disse, a dor evidente em sua voz. — Exatamente como eu fiz com você.
— Não — ela corrigiu, o tom de voz suave e cortante. — Eu estou fazendo um investimento. Você me disse uma vez que "tudo tem um preço". Eu apenas estou pagando o seu. Você não acredita no amor, lembra? Acredita em transações. Esta é a maior da sua vida.
Ethan sentiu uma lágrima solitária queimar seu rosto. Ele tinha o que sempre quis: estar ao lado dela para sempre. Mas o preço era ser um fantasma em um casamento de fachada, sendo tratado com a mesma indiferença que ele um dia dedicou a ela.
— Onde eu assino? — ele perguntou, a voz quebrada.
Claire entregou a caneta de ouro — a mesma que ele usava em Nova York, que ela fizera questão de recuperar nos leilões de seus bens.
Com a mão trêmula, Ethan assinou seu nome, selando seu destino. Claire pegou o documento, fechou a pasta e deu um tapinha leve no rosto dele, um gesto carinhoso na forma, mas humilhante no contexto.
— Ótimo. O jato sai às oito. Tente não parecer tão miserável, Ethan. O mundo precisa acreditar que você é o homem mais sortudo da terra por ter me conquistado de volta.
Ela saiu da biblioteca sem olhar para trás. Ethan caiu de joelhos no chão de mármore, segurando a caneta contra o peito. Ele estava noivo da mulher de sua vida, e nunca se sentira tão sozinho. Ele tinha voltado para a luz, mas descobriu que, sob o comando de Claire, a luz podia ser muito mais gelada que a escuridão.
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