O Aroma do Gelo : Entre Contratos e Cicatrizes

13 ​Capítulo 13: O Eco da Ternura Gelada




​A casa de campo na Toscana era um refúgio de pedra e videiras, longe dos olhos curiosos da imprensa. O silêncio das colinas era quebrado apenas pelo som dos pássaros e pelo ritmo lento da recuperação de Ethan. Transferido para lá sob a custódia de Claire, ele era agora uma sombra do titã que um dia governou Manhattan.

​Ethan estava sentado em uma poltrona de linho na varanda, uma manta sobre as pernas. Ele perdera a arrogância junto com os quilos que o acidente lhe levara. Seus olhos seguiam Claire toda vez que ela entrava na sala. Ele era como um náufrago observando a única ilha no horizonte.

​Claire entrou no quarto com uma bandeja de sopa quente e medicamentos. Seus movimentos eram precisos, elegantes e desprovidos de qualquer calor emocional.

​— Está na hora, Ethan — disse ela, a voz tão melodiosa quanto fria.

​Ela se sentou ao lado dele. Com uma colher, começou a alimentá-lo, soprando suavemente o líquido quente antes de levá-lo à boca dele. Era um gesto de uma doçura extrema, idêntico ao que ele fizera por ela naquela noite de chuva anos atrás. Mas, quando ele tentava buscar o olhar dela, encontrava apenas um azul glacial e profissional.

​— Claire... você não precisa fazer isso — sussurrou ele, a voz ainda rouca pelas sequelas pulmonares. — Pode pedir para uma enfermeira.

​— Eu prometi ao meu tio que cuidaria de você até que pudesse andar sozinho — ela respondeu, limpando o canto da boca dele com um guardanapo de seda, um toque leve que fez a pele de Ethan formigar. — Não confunda minha responsabilidade com afeto. Eu sou uma mulher de palavra, ao contrário de certos empresários que conheço.

​A Tortura do Carinho Distante

​A rotina era uma tortura refinada para Ethan. Claire era impecável. Ela trocava seus curativos com dedos leves, massageava suas pernas atrofiadas para estimular a circulação e lia para ele durante as tardes de febre. Ela era carinhosa no toque, mas gélida na alma.

​Certa noite, a febre de Ethan voltou com força. Ele delirava, revirando-se nos lençóis, chamando o nome dela entre soluços de dor e arrependimento. Claire entrou no quarto e, sem dizer uma palavra, sentou-se na beira da cama. Ela molhou uma toalha em água fria e começou a passá-la pelo peito e pescoço dele para baixar a temperatura.

​— Por favor... me perdoa... — Ethan murmurou, segurando a mão dela com a pouca força que tinha. — Não me olha assim... como se eu fosse nada...

​Claire parou o movimento. Ela sentiu o calor da pele dele e o desespero naquele aperto. Por um segundo, a máscara vacilou. Ela sentiu uma vontade avassaladora de deitar a cabeça no peito dele e chorar tudo o que guardara por cinco anos. Mas a memória daquela modelo na cobertura de Nova York e da humilhação pública voltou como um chicote.

​Ela retirou a mão dele com suavidade, mas sem hesitação.

​— Durma, Ethan — ela sussurrou, a voz caindo para aquele tom suave e amoroso que ele tanto amava, mas as palavras eram uma barreira. — Você está delirando. Amanhã você estará melhor e poderá voltar a ser o homem que não precisa de ninguém.

​— Eu nunca mais quero ser esse homem! — ele gritou subitamente, sentando-se na cama com esforço, os olhos brilhando com uma lucidez dolorosa. — Eu perdi tudo, Claire! Meu império, meu nome, minha saúde... e eu daria o que sobrou da minha vida só para ver um pingo de verdade nesse seu carinho. Você está sendo carinhosa porque é boa, mas está sendo fria porque quer me matar aos poucos, não é?

​Claire levantou-se lentamente, segurando a bacia com a água. Ela o olhou de cima, as sombras da noite esculpindo seu rosto de modelo.

​— Eu estou tratando você exatamente como você me ensinou, Ethan. Lembra? "Apenas uma cláusula". "Apenas uma diversão". Eu estou apenas cumprindo a cláusula da minha consciência. Você queria que eu fosse como você? Parabéns. Você conseguiu criar um monstro de gelo com rosto de anjo.

​O Reverso da Medalha

​Ela caminhou até a porta, mas parou antes de sair. Sem se virar, ela disse:

​— Amanhã o fisioterapeuta vem. Você vai andar, Ethan. Vai se recuperar. E quando estiver forte o suficiente, eu mesma vou te colocar em um avião de volta para Nova York. E dessa vez, eu não vou estar lá para te buscar quando você cair.

​Ela saiu, fechando a porta suavemente. No corredor escuro, Claire encostou a testa na parede e fechou os olhos com força, lutando contra o soluço que subia por sua garganta. Ela o estava destruindo com a mesma "suavidade" que ele um dia usou para desarmá-la.

​Lá dentro, Ethan soluçou pela primeira vez em décadas. Ele preferia que ela gritasse, que o batesse, que o odiasse abertamente. Mas aquele carinho mecânico, aquela ternura desprovida de alma, era o pior castigo que ele poderia receber. Ele percebeu que a Claire amorosa ainda estava lá, mas ela a trancara em um cofre onde ele não tinha mais a combinação.

​Ele estava sendo curado fisicamente, mas sua alma estava sendo estilhaçada pelo reflexo de sua própria frieza.