O Apocalipse do Sangue | Dramione

5 Sᴏᴍʙʀᴀs ɴᴏ Sᴜʙsᴏʟᴏ


Notas iniciais
Para entrar na vibe: https://tinyurl.com/ismrf-writing

As primeiras quarenta e oito horas foram um borrão de pergaminhos e tubos de ensaio. Hermione não havia dormido. Suas roupas estavam amassadas, os cabelos castanhos presos em um coque desfeito que desafiava a gravidade, e seus olhos queimavam pela falta crônica de descanso. O antigo Departamento de Mistérios operava agora como o último reduto de sanidade em uma Londres sitiada.

Ela havia montado seu quartel-general em uma sala anexa ao laboratório. Harry e Theo haviam voltado, alinharam com ela os últimos acontecimentos e saíram horas depois para conter um princípio de pânico e um colapso de barreiras no Beco Diagonal, deixando-a completamente sozinha com suas análises.

Ou quase sozinha.

Após voltar com um novo espécime, Draco Malfoy não havia deixado o laboratório. Ele se recusava terminantemente a sair. Em vez disso, instalara-se em uma cadeira de encosto alto no canto da sala de Hermione. Ocasionalmente, bebia café e fumava cigarros — que ela tinha certeza de serem trouxas —, acendendo-os com a ponta da varinha e soprando a fumaça em direção ao teto.

— Esse hábito vai te matar antes dos monstros — ela comentou, sem tirar os olhos do microscópio mágico que fundia engenharia trouxa com lentes de aumento encantadas. Sua mão ajustou o foco da lente, um reflexo mecânico para evitar olhar na direção dele.

— Pelo menos a fumaça disfarça o cheiro de cadáver que exala de você, Granger — Draco respondeu, a voz arrastada, a aspereza usual cobrindo algo que parecia quase vigilância. Ele deu mais uma tragada longa, o brilho vermelho do cigarro iluminou brevemente as linhas duras do seu próprio rosto.

Foi nesse instante, que Draco se permitiu observá-la de verdade.

Ele a estava vigiando há horas.

Observando a forma como ela mordia o lábio inferior quando estava concentrada, como seus dedos manipulavam os frascos com uma delicadeza que ele não via desde os tempos das aulas de poções, e como os ombros dela caíam a cada meia hora, sob um peso invisível. Havia uma rigidez nela que ele conhecia bem: a postura de alguém que se quebraria em mil pedaços se parasse por um único segundo.

Draco sabia o que era perder os pais. Sabia o gosto exato que vinha à boca quando a última linha de defesa familiar desmoronava sob os pés. Ele vira o nome dos Granger no relatório de tráfego internacional trouxa que passara pela mesa dos Aurores antes de ela chegar ao subsolo.

Ele queria dizer algo? Não.

Ele odiava palavras; palavras eram o que os juízes do Wizengamot usavam para condenar e o que os heróis usavam para mentir na imprensa. Ele preferia o pragmatismo cortante, mas o silêncio fustigado dela o atraía de uma forma que ele já não conseguia controlar, contornar ou camuflar.

Houve um tempo em que ele se permitiu flertar com a ideia de um futuro comum, um vislumbre pálido de uma vida normal. Ele se imaginava casado — a identidade da esposa nunca importou muito, apenas uma presença aristocrática e conveniente de sangue-puro —, caminhando pelos jardins da Mansão Malfoy nos fins de semana para visitar Narcisa. Queria dar netos à mãe, vê-la sorrir entre as roseiras francesas e, acima de tudo, reconstruir o legado de seu sobrenome do zero.

Desejava, com uma fome silenciosa e desesperada, criar filhos que olhassem para ele com orgulho e admiração pura, não com o asco e o ressentimento que ele próprio nutria por Lucius. Por causa dos erros, da soberba e da covardia daquele filho da puta, Draco perdeu a juventude, a dignidade e a própria identidade.

Mas aquele sonho estúpido fora enterrado junto com os mortos.

Hoje, ele olhava para as próprias mãos e via apenas o que restara: uma máquina de execução. Uma ferramenta fria e afiada que ele permitiu que o Ministério moldasse, usada para limpar o lixo que a magia corrompida deixava nas ruas. Draco não via mais futuro, não esperava por uma redenção e não acreditava que haveria um amanhã pacífico para alguém que carregava a marca escura na pele e o cheiro de sangue nas roupas.

Ele era apenas um vazio funcional, uma engrenagem que girava até quebrar.

No entanto, encarando as costas curvadas de Hermione sob a luz fraca do laboratório, um estalo incômodo ecoou em seu peito. Pela primeira vez em anos, Draco pensou que talvez ela estivesse navegando exatamente no mesmo barco sem rumo. A heroína da Grifinória, a mente mais brilhante da geração, reduzida a uma carcaça exausta que trancava o luto e a dor em frascos de ensaio para não desabar. De certa forma, perceber os mesmos estilhaços nela fez o isolamento dele recuar.

Sabendo que Granger também carregava o peso de um mundo destruído nas costas, Draco não se sentiu tão sozinho.

Não se sentiu tão... nada.

Hermione soltou um suspiro frustrado e afastou-se do microscópio, jogando a cabeça para trás no encosto da cadeira. Suas mãos subiram ao rosto, massageando as têmporas onde uma enxaqueca latejava ritmicamente.

— Não faz sentido — ela desabafou. — A estrutura celular está biologicamente morta, mas as mitocôndrias... elas estão se multiplicando como se estivessem em um hospedeiro vivo e saudável. É uma inversão completa das leis de Gamp sobre a Transfiguração Elemental. A morte está gerando energia cinética residual. Estamos lidando com algo que viola os alicerces mais básicos da magia teórica.

Draco levantou-se lentamente, ele caminhou até a mesa dela, cruzando a sala com passos medidos que ecoavam na pedra. Parando próximo da cadeira dela, ele estendeu a mão e, com uma audácia que fez o sangue de Hermione subir para as bochechas, puxou o pergaminho de anotações que ela estava preenchendo.

— Você está procurando a resposta no lugar errado — ele disse, mantendo os olhos fixos nas linhas escritas enquanto segurava o papel com firmeza. Draco sempre fora o segundo da classe, uma mente que rivalizava diretamente com a dela, embora distorcida por anos pela herança familiar. Ele bateu levemente com o dedo longo em uma das anotações à margem.

— Você está tratando isso como uma criação patológica nova, Granger. Olhe para as runas de ligação que Nott encontrou no plasma do primeiro espécime. Isso não é uma mutação biológica ou uma doença natural; é uma variação de um feitiço de necromancia do século XV, o Anima Putrefacta. Meu pai tinha um tomo encadernado sobre isso na biblioteca restrita da Mansão. Lembro-me de vê-lo estudar aquelas páginas quando o Ministério começou a apertar o cerco contra os velhos artefatos.

Hermione ergueu os olhos para ele, a respiração curta. Ela sustentou o olhar, recusando-se a abaixar a cabeça, mas a proximidade física dele, naquele cubículo subterrâneo, era avassaladora. Ela podia ver as pequenas linhas douradas e frias nas íris cinzentas dele e a curvatura exata de seus lábios, que pareciam permanentemente esculpidos em uma linha de amargura defensiva.

O calor que emanava dele parecia disputar espaço com o ar gelado do laboratório.

— Se for o Anima Putrefacta, a cura não está na medicina ou na alquimia tradicional — ela sussurrou, a mente trabalhando a mil milhas por hora à medida que as peças se encaixavam com um peso avassalador. — Está na quebra da contra-maldição. Precisamos reverter o feitiço a partir de sua matriz original, não tratar os sintomas do corpo que colapsou.

— E para achar a engenharia dessa contra-maldição, precisamos do grimório original escrito por Malaclypse, o Cínico — Draco completou, dando meio passo à frente. Seus olhos descendo por um segundo inevitável para a boca dela antes de voltarem a focar em seus olhos. Ele inclinou ligeiramente o rosto, estreitando a distância.

A tensão emocional entre os dois esticou-se até o limite da resistência física. Havia um magnetismo bruto, perigoso, nascido do mais absoluto isolamento e da urgência do fim do mundo, que os empurrava inexoravelmente para o mesmo centro de gravidade. Eles eram dois sobreviventes traumatizados operando no escuro, dividindo um espaço que parecia menor a cada segundo.

— O problema — continuou Draco, a voz caindo um oitavo, tornando-se mais baixa e perigosamente íntima — é que o Ministério confiscou e queimou publicamente a maior parte da biblioteca dos Malfoy após o segundo julgamento daquele desgraçado do Lucius. Eles queriam fazer um espetáculo de purificação. O único lugar na Grã-Bretanha que ainda deve manter uma cópia, salva pelos colecionadores de lixo das trevas, é a seção restrita de penhores da Borgin & Burkes, no subsolo do Beco Knockturn — um lugar onde os ratos normais têm medo de entrar.

— Empreender uma busca teórica agora é inútil, então nós vamos lá — ela disse, endireitando a coluna e levantando-se da cadeira.

A imprevista e rápida mudança de posição fez com que seus corpos quase se tocassem na totalidade. Hermione sentiu o calor emanando dele, um contraste violento, quase febril, com a aura fria e distante que ele projetava para o resto do mundo. Ela sentiu o peito arfar levemente, mas manteve os ombros firmes.

Draco não recuou; em vez disso, deu um passo curto à frente, encurralando-a contra a mesa de trabalho. Suas mãos espalmaram-se na madeira com um baque surdo, uma de cada lado dos quadris dela, sem de fato tocá-la, mas prendendo-a completamente em seu campo de força e controle. Ele se inclinou sobre ela, os olhos brilhando com uma fúria contida.

— "Nós" o caralho, Granger — ele rosnou entre dentes, a boca perto o suficiente para que ela sentisse o hálito quente de tabaco, café e menta. Suas sobrancelhas se juntaram em uma expressão de pura incredulidade. — O Beco Knockturn transformou-se em um abatedouro a céu aberto. Está infestado dessas porras famintas, você não dura cinco minutos lá fora com esse seu sentimentalismo humanitário de Grifinória e uma varinha que mal foi testada em combate recente. Você é uma acadêmica, Granger, eu vou sozinho.

— Eu não sou mais aquela menina de Hogwarts, Malfoy — ela respondeu, sustentando o peso daquela proximidade com a voz surpreendentemente baixa, firme.

Sem romper o contato visual, ela ergueu a mão direita devagar e pousou os dedos diretamente sobre o centro do peito dele, sentindo os batimentos cardíacos acelerados e violentos de Draco sob a túnica de Auror. O toque dos dedos dela, gelados pelas horas de manuseio de frascos, perfurou a vestimenta dele como um choque térmico. O contraste físico fez o Sonserino congelar no lugar, travando a respiração enquanto o maxilar dele se contraía visivelmente.

— Meus pais morreram há poucas semanas em um país estrangeiro porque eu apaguei as memórias deles e os deixei indefesos enquanto achava que estava salvando o mundo — ela continuou.

Eu não tenho absolutamente nada a perder, Malfoy. O medo morreu junto com eles. Se você vai para o inferno, eu vou com você, porque eu sou a única mente nesta porcaria de país capaz de decifrar o código médico intricado com magia. Se você for sozinho e morrer encurralado, a cura morre com você. Não vou deixar que cometa uma estupidez e ponha tudo a perder. Precisamos da sua força, mas eu conheço a estrutura do conteúdo que buscamos. Juntos, encontramos o grimório na metade do tempo e saímos vivos de lá. Você precisa de mim viva, Malfoy. E precisa de mim lá.

A revelação brutal da culpa dela ecoou no silêncio da sala, atingindo-o exatamente onde suas próprias defesas eram mais frágeis. Por um segundo, a máscara de frieza e fúria do Malfoy rachou por completo. Ele conhecia aquela anatomia da culpa; passou o sexto ano inteiro quebrando as próprias engrenagens para proteger a própria família, afogando-se em escolhas impossíveis. Encontrar o mesmo desespero nos olhos da Grifinória o desarmou de uma forma inesperada.

Draco olhou para baixo, fixando os olhos na mão dela espalmada contra seu peito, sentindo o calor dos dedos dela, que agora começavam a se aquecer contra o seu próprio corpo, atravessar o tecido grosso, e depois voltou a encarar o rosto determinado, mas exausto de Hermione. Por trás de toda a sua fachada de fúria, preconceito antigo e sarcasmo defensivo, algo estrutural nele desmoronou completamente.

Ele se viu atraído por aquela mulher.

A faísca obstinada que ela carregava nos olhos, mesmo no meio da ruína total, era a única coisa viva e real capaz de aquecer o gelo em que ele se transformara para não enlouquecer.

— Que se foda — ele praguejou baixo entre dentes, afastando-se abruptamente para quebrar o feitiço daquela proximidade, embora seus olhos ainda queimassem com uma intensidade quase predatória. Ele puxou a varinha do coldre com um movimento fluido, verificando os feitiços e a integridade do cabo com um estalo rápido do pulso.

— Arrume suas coisas e pegue todas as poções de estase rúnica que puder carregar, saímos em dez minutos pela rede de dissipação de fumaça do Departamento para evitar o nível superior. E se você vacilar lá fora diante de um deles, Granger, eu não vou hesitar em arrastar você pelos cabelos de volta para cá. Entendido?

Hermione não se deu ao trabalho de responder verbalmente, apenas assentiu com um movimento rápido de cabeça. Puxou sua bolsa com feitiço de extensão indetectável e começou a colocar dentro dela os frascos, pergaminhos essenciais e instrumentos da bancada com uma eficiência fria e calculada que assustaria o próprio Snape.

O tempo da teoria e das discussões de laboratório havia acabado; o subsolo de Londres os esperava na escuridão.

Notas finais
Vocês sobreviveram a essa tensão toda?! A máscara de frieza do Malfoy rachando ao perceber que se sente atraído por ela no meio do fim do mundo?! 🔥🫠 Se está com vontade de ler mais, não se esqueça de favoritar, comentar e acompanhar a fanfic! São essas pequenas ações que ajudam a plataforma a recomendar a história para novos leitores. Nos vemos no próximo capítulo! 🐍🦁 ─── ❖ ── ✦ ── ❖ ─── Ainda não quer sair desse universo? Me acompanhe no TikTok para ver a estética dos personagens, spoilers e descobrir quando sai o próximo capítulo! Siga: https://www.tiktok.com/@ismrf_author