O Apocalipse do Sangue | Dramione
6 Sᴀɴɢᴜᴇ Cᴏʀʀᴏᴍᴘɪᴅᴏ
Notas iniciais

O Beco Knockturn não era mais o reduto sombrio de contrabandistas e bruxos das trevas; havia se tornado um labirinto de silêncio mortal e fumaça verde-escura. A névoa rastejava pelo chão de paralelepípedos, ocultando os detritos de lojas saqueadas e os corpos que não haviam se levantado.
A desolação era absoluta.
As vitrines antes repletas de artefatos amaldiçoados agora exibiam vidros estilhaçados e marcas de garras desesperadas nas portas de madeira pesada. Draco caminhava na frente, a varinha empunhada de forma baixa, os olhos se movendo constantemente pelas sombras das ruelas. Cada músculo de seu corpo parecia tensionado, pronto para explodir em ação ao menor estalo. Hermione vinha logo atrás, cobrindo a retaguarda, segurando sua varinha com os nós dos dedos brancos de tanta força. A atmosfera era pesada, saturada com o cheiro de carne queimada, um odor que se misturava à névoa mágica e tornava o ato de respirar uma tarefa penosa.
— Mantenha-se perto — Draco ordenou em um sussurro áspero, sem quebrar o ritmo de seus passos. — Se eu disser para correr, você corre. Sem discussões, porra.
— Guarde seus insultos para os monstros, Malfoy — Hermione respondeu no mesmo tom de voz, embora seu coração batesse como um tambor em seu peito.
De repente, um som de garras arrastando no chão de pedra ecoou à esquerda. O barulho quebrou a monotonia do silêncio como um chicote. Da escuridão de um beco estreito, três silhuetas emergiram cambaleantes. Eram bruxos, ou o que restara deles, com suas túnicas outrora elegantes rasgadas e os rostos desfigurados por mordidas profundas e pela necrose que avançava em veias negras ramificadas. Seus olhos brilhavam com um reflexo esbranquiçado, opaco, sob a luz fraca da rua.
Ao verem os vivos, as criaturas emitiram um som agudo, um sibilar que lembrava cobras encurraladas, e avançaram com uma velocidade assustadora.
— Diffindo! — Draco urrou, brandindo a varinha com precisão. O feitiço cortante atingiu o primeiro morto-vivo no peito, abrindo uma fenda profunda na carne, mas o monstro nem sequer hesitou. O sangue escuro e espesso espirrou nas pedras, e ele continuou a avançar com os dentes estalando.
— No crânio, Malfoy! Tem que destruir o sistema nervoso central! — Hermione gritou, instintivamente dando um passo à frente para alinhar seu ângulo, apontando a varinha para o segundo atacante: — Bombarda!
A cabeça do segundo monstro explodiu em uma nuvem de fragmentos ósseos e magia negra dissipada. O impacto sonoro da detonação bateu contra as paredes estreitas e confinadas do Beco Knockturn, reverberando como um trovão enclausurado. A onda de choque fez poeira antiga e fuligem despencarem dos tetos decrépitos das lojas vizinhas, o corpo desabou como um saco de batatas sobre o chão.
Draco mudou o movimento da varinha em um arco rápido, focando no perigo imediato que ameaçava o perímetro deles.
— Incarcerous! — Correntes de ferro espessas brotaram do chão, prendendo as pernas do último zumbi com um estalo metálico. A criatura caiu de joelhos, ainda tentando rastejar na direção de Hermione. Com um movimento violento de seu pulso, Draco conjurou: — Reducto!
O feitiço de alta intensidade obliterou o que restara da cabeça da criatura presa, encerrando o confronto de forma abrupta.
No entanto, o eco do último feitiço sequer havia cruzado o beco quando um estalo violento de madeira ecoou acima deles. Uma quarta criatura, cujas pernas haviam sido dilaceradas pela necrose, rastejara silenciosamente pelo teto de gesso podre de uma antiga loja de poções, despencando direto na direção das costas de Hermione.
— Granger, abaixa! — o grito de Draco rasgou o ar antes que ela pudesse processar o perigo.
Em um reflexo puramente moldado pelos anos de sobrevivência, ele não hesitou. Draco avançou em um salto, o corpo colidindo contra o dela com força suficiente para derrubá-la contra o chão, usando o próprio peso e a rigidez de sua capa para protegê-la do impacto. No mesmo segundo em que caíam, ele girou a varinha por cima do ombro dela, conjurando um Incendio a queima-roupa. As chamas engoliram o morto-vivo no ar, transformando-o em uma pira de cinzas antes que ele sequer tocasse os cabelos de Hermione.
Por um breve instante, o mundo reduziu-se ao som da respiração descompassada dos dois. Draco estava sobre ela, uma de suas mãos firmemente espalmada ao lado da cabeça de Hermione, o peito dele subindo e descendo contra o dela, os olhos cinzentos dele estavam fixos nos dela, dilatados pelo susto de quase tê-la visto ser atacada.
Com um rosnado baixo, ele se impulsionou para cima, oferecendo a mão para puxá-la do chão com uma força desnecessariamente brusca, um esforço óbvio para restabelecer a distância e o controle que quase haviam evaporado.
O silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pela respiração arfante dos dois bruxos. Draco virou-se para ela, o rosto salpicado com algumas gotas do fluido escuro das criaturas. Seus olhos varreram o corpo dela de cima a baixo, procurando vestígios de sangue ou rasgos em suas vestes com uma urgência que ele simplesmente não conseguiu disfarçar sob seu habitual cinismo.
— Você está inteira? — ele perguntou, a crueza defensiva dando lugar a uma preocupação genuína que bateu no peito de Hermione com a força de um feitiço de impacto, desarmando suas defesas por um instante.
— Estou — ela respondeu, tentando acalmar o tremor em suas mãos enquanto limpava o suor frio da testa com as costas da manga. — Estou bem. Graças a você.
Draco permaneceu imóvel, com a varinha ainda estendida na direção onde o último cadáver havia desabado. Aquela não era a primeira patrulha dele desde o início do surto, mas a presença de Hermione ali mudava drasticamente a equação de risco em sua mente. Ele deu um passo à frente, os sapatos pesados esmagando os estilhaços de vidro no chão, e aproximou-se do corpo decapitado pelo feitiço dele.
Com a ponta da bota, Draco virou o ombro da criatura morta. A túnica rasgada revelou um tecido fino, com abotoaduras de prata envelhecida que carregavam um brasão familiar.
— Granger, olhe para isso — ele chamou, a voz tensa, os olhos fixos nos detalhes do tecido.
Hermione engoliu em seco, se inclinou ligeiramente, a varinha iluminando os restos mortais com um Lumos fraco.
— É seda de acromântula legítima — ela murmurou, os olhos se estreitando ao notar o padrão heráldico. — Esse padrão de tecelagem pertence à família Jugson.
— Exatamente — Draco confirmou. — Jugson desapareceu há mais de dois meses, logo antes do colapso do Ministério. O boato entre os informantes era de que ele e outros antigos Comensais da Morte sobreviventes estavam se escondendo no norte, tentando restabelecer uma linha de contrabando, mas ele não fugiu. Ele estava aqui, transformado nessa abominação.
— Isso apoia a pista que Theo encontrou — Hermione raciocinou alto, a mente trabalhando em alta velocidade enquanto o medo remanescente do combate se transformava em pura dedução. Aproximando a luz da varinha do pescoço exposto do cadáver, ela notou as veias enegrecidas. Elas não se ramificavam de forma aleatória; a necrose seguia linhas angulares rígidas que se cruzavam de maneira geométrica sob a pele, desenhando o exato padrão das runas de ligação que Nott isolara no plasma em laboratório.
— Os Comensais da Morte não sumiram por vontade própria ou por covardia. Eles foram caçados primeiro. Seus núcleos mágicos deteriorados serviram como o vetor perfeito para o início da replicação do Anima Putrefacta. Quem quer que tenha liberado isso, mirou neles deliberadamente antes de a praga se espalhar para a população geral.
Draco manteve os olhos nela, ouvindo atentamente cada palavra. A capacidade dela de teorizar no meio de um matadouro o impressionava tanto quanto o irritava. No entanto, o foco dele rapidamente voltou para o estado físico de Hermione. As mãos dela, embora firmes ao segurar a varinha, ainda carregavam um tremor residual que denunciava as muitas horas consecutivas sem descanso.
— Você está se desmoronando, Granger — ele pontuou, dando mais um passo na direção dela, diminuindo a distância entre ambos até que a fumaça verde-escura parecesse contornar apenas os dois. — Sua precisão com o Bombarda foi impecável, mas você hesitou meio segundo antes de conjurar. Se seu reflexo falhar lá dentro, não haverá tempo para contra-ataques.
— Eu não hesitei por medo, Malfoy — ela rebateu, erguendo o queixo, enfrentando o olhar cortante dele. — Eu estava calculando a trajetória para garantir que os fragmentos ósseos não atingissem você.
A resposta dela fez Draco travar, a ideia de que ela, mesmo sob exaustão extrema, estava atenta à segurança dele durante o caos de uma emboscada atingiu-o. Ele desviou o olhar, limpando uma gota do fluido escuro da bochecha com as costas da própria mão livre antes de voltar a encará-la. O sarcasmo e a apatia que ele costumava usar como escudo parecia pesado demais para manter naquele beco deserto.
Já Hermione pensava na forma como ele avançara para protegê-la segundos atrás, quebrando ainda mais a imagem de Sonserino egoísta que ela guardara por anos. Ele não era mais o garoto covarde de Hogwarts; era um homem que escolheu se colocar entre ela e aquele monstro. E o pior: Malfoy parecia odiar o fato de que se importava.
— Você não deveria ter feito aquilo — ela sussurrou. — Se jogou entre mim e o infectado. Eu tinha um feitiço de escudo pronto. Você quebrou o protocolo de campo, Malfoy. Podia ter se ferido.
— O protocolo de campo que se foda, Granger — ele rebateu, a voz vibrando com uma irritação crua que vinha do puro pânico reprimido.
— Você é a única mente que sabe decifrar a cura. Minha função é garantir que você respire. Se eu tiver que servir de escudo humano para que você termine a porcaria do seu trabalho, eu vou servir. Não confunda pragmatismo com heroísmo.
— Não é só pragmatismo e nós dois sabemos disso — ela rebateu, dando meio passo à frente, recusando-se a deixá-lo se esconder atrás daquela desculpa. O olhar dela perfurou as barreiras dele. — Você se arriscou por mim.
Draco engoliu em seco, a mandíbula contraindo-se, ele queria mentir, queria cuspir uma piada cruel para restabelecer a distância segura que sempre os separara, mas encarando os olhos obstinados dela, a mentira morreu em sua garganta. Ele percebeu, com um amargor assustador, que ela estava certa. Não fora uma escolha lógica ou estratégica; fora um impulso desesperado de mantê-la inteira.
Ver Hermione em perigo acionara nele um gatilho que nenhuma técnica de oclumência conseguia conter.
A névoa ao redor parecia isolá-los completamente do resto de Londres. O cheiro de carne queimada ainda pairava no ar, mas a atenção de Draco estava inteiramente voltada para os olhos castanhos dela, que pareciam grandes demais em seu rosto pálido pela fadiga. Ele deu mais um passo, reduzindo o espaço entre eles a quase nada. A proximidade forçada trazia de volta a mesma gravidade sufocante da sala do laboratório, mas ali, sob o céu escuro do Beco Knockturn, a ilusão de controle de Draco evaporava mais rápido.
Ele a viu piscar devagar, lutando contra o peso das pálpebras, e percebeu como a postura dela era sustentada por pura força de vontade. Não era apenas o cansaço físico; era o peso esmagador de carregar a responsabilidade de encontrar uma cura enquanto enterrava o luto pelos pais em algum canto inalcançável da mente.
Draco reconhecia aquele olhar de desespero contido.
Ele o vira no espelho durante todo o seu sexto ano em Hogwarts e nos anos que se seguiram após a queda de Voldemort. A diferença era que ela lutava para salvar os outros, enquanto ele lutara para salvar a si mesmo.
Essa constatação fez algo se romper profundamente dentro dele. O instinto Sonserino de autopreservação, que o governara por toda a vida, simplesmente não funcionava quando se tratava de Hermione. A perspectiva de vê-la falhar, ou pior, de vê-la se transformar em uma daquelas cascas vazias e famintas que acabaram de destruir, causou-lhe um aperto genuíno no peito, uma pontada de pânico que nem mesmo Voldemort jamais conseguiu instalar nele.
Ele estendeu a mão na direção dela, os dedos movendo-se com uma lentidão calculada para não assustá-la.
Com uma hesitação perceptível que revelava a batalha interna em sua mente, Draco tocou o rosto dela, conectando os dedos à pele pálida. Com uma delicadeza que contrastava violentamente com a brutalidade com que matara os mortos-vivos minutos atrás, ele limpou a bochecha dela. O toque de seus dedos na pele quente foi lento, uma carícia involuntária e carregada de uma eletricidade que fez o tempo parecer congelar no Beco Knockturn.
Seus olhos fixaram-se nos dela com uma intensidade que a impediu de desviar o olhar. Havia um conflito mudo, um medo que ele nunca demonstrara nas missões do Ministério. Ele estava focado apenas nela, como se o mundo em ruínas ao redor tivesse desaparecido.
— Não me faça te perder, Granger — ele substituiu o tom cortante por um sussurro, as palavras escapando por entre seus lábios antes que sua mente racional pudesse contê-las ou cobri-las com a ironia usual.
Era uma confissão, um vislumbre das fendas que vinham se abrindo em sua armadura ao longo dos últimos dias de vigília. Draco Malfoy, o garoto que fora moldado para odiá-la por sua origem sanguínea, estava admitindo em silêncio que a mera ideia de vê-la cair ou se transformar em uma daquelas abominações era o suficiente para suprimir o que restara de sua própria sanidade.
Ele a colocava em uma categoria única, isolada do resto do mundo decadente pelo qual ele não nutria nenhuma simpatia.
Hermione olhou bem no fundo das pupilas dele, captando a vulnerabilidade oculta naquela postura imponente. Ela sentiu uma onda de calor subir por seu peito, uma sensação que dissolveu o frio paralisante do luto que a acompanhava desde a Austrália. Ela não recuou do toque dele; em vez disso, inclinou o rosto sutilmente contra a mão dele, um gesto silencioso de aceitação e confiança que estabeleceu uma conexão sólida e nova entre os dois, fincada no meio daquela névoa doentia.
— Você não vai me perder — ela prometeu, a voz saindo firme e suave. — Nós vamos sair disso. Juntos.
Draco engoliu em seco ao ouvir aquelas palavras, o pomo de adão movendo-se logo acima dos primeiros botões abertos de sua túnica. Ele afastou a mão lentamente da bochecha dela, como se estivesse se forçando a se distanciar de uma substância altamente perigosa e viciante. Ele limpou os dedos na calça e deu as costas para ela, assumindo novamente a posição de vanguarda, mas Hermione pôde ver nitidamente que a rigidez severa em seus ombros havia relaxado ligeiramente.
— A Borgin é logo ali — ele disse, a voz recuperando a velha e conhecida rigidez defensiva, o tom áspero voltando a camuflar o que acabara de ser exposto. — Vamos acabar com essa porra.
Ela apenas assentiu em silêncio, ajustando a alça de sua bolsa e seguindo os passos dele rumo às profundezas do Beco, sabendo que as regras que os governavam haviam mudado sob a névoa verde.
Fale com o autor