O Apocalipse do Sangue | Dramione
9 O Sᴀɴɢᴜᴇ ᴅᴏ Cᴀʀʀᴀsᴄᴏ
Notas iniciais

Quando Hermione acordou, ela percebeu que não estava deitada no catre estreito no canto da sala de pesquisa; ela ainda estava aninhada nos braços de Draco, sentada em seu colo com a cabeça apoiada no ombro dele. Ele havia estendido sua pesada capa sobre os dois, e o cheiro dele a envolvia por completo, trazendo uma sensação de segurança que parecia deslocada no meio daquela crise.
O subsolo do Ministério mantinha uma temperatura gélida, mas ali, contra o peito de Draco, Hermione sentia um calor quase febril. Ela permaneceu imóvel por alguns instantes, ouvindo a batida compassada e forte do coração dele contra seu ouvido. A túnica dele, de um tecido áspero e utilitário, contrastava com a suavidade com que seus braços longos a enlaçavam. Havia um cálculo silencioso em sua imobilidade: ela sabia que, se mudasse de posição, a realidade do mundo lá fora desabaria sobre os dois.
Ela se moveu minimamente, percebendo que ele permaneceu ali apenas para segurá-la. Draco estava com os olhos fechados, a respiração lenta, mas seus dedos longos continuavam firmes ao redor da cintura dela, um refúgio contra o fim do mundo. Hermione levou os olhos ao rosto dele, tão perto do seu. Lembrou-se do beijo demorado que ele dera em seus cabelos antes de ela adormecer, e uma clareza avassaladora a atingiu.
Ela estava apaixonada por ele.
Mas, junto com a percepção, veio um frio cortante no estômago: o medo. O medo de estragar a trégua frágil que haviam construído, o medo de que demonstrar aquela vulnerabilidade pudesse quebrar a única coisa real e segura que lhe restava no meio do caos.
Ela tinha pavor de perdê-lo.
Enquanto processava o impacto daquela constatação, um detalhe menor, mas igualmente profundo, atingiu a mente de Hermione: ela não sonhara. Pela primeira vez em anos, desde a Batalha de Hogwarts e do que fizera com a memória de seus pais, o sono não foi um labirinto de gritos, flashes de luz verde e culpa. Não houve o rosto de Bellatrix, nem o som da lâmina cortando sua pele. Dormir nos braços do homem que um dia representou o pior da aristocracia elitista silenciou os fantasmas da sua mente. Restou apenas um vazio calmo, escuro e totalmente restaurador.
Draco se mexeu sutilmente abaixo dela, um suspiro pesado escapando de seus lábios. Os olhos dele se abriram devagar e as íris cinzentas focaram nela, limpas de qualquer barreira ou do sarcasmo de outrora, ele não tentou afastá-la; pelo contrário, seus braços ao redor da cintura dela se apertaram.
— Você não sabe o quanto é difícil ficar quieto sabendo que você está acordada — ele sussurrou, com a voz ainda mais rouca por causa do sono recente.
Hermione engoliu em seco, sentindo o calor da pele dele emanar através da túnica.
— Há quanto tempo você está acordado? — ela perguntou baixinho, com medo de que o som normal de sua voz quebrasse a magia daquele momento.
— O suficiente para perceber que você pensa demais, Granger, até mesmo quando está dormindo. — Um vislumbre de um sorriso cansado surgiu no canto dos lábios dele, mas logo desapareceu, substituído por uma intensidade que a fez perder o fôlego.
— Você está bem?
— Eu estou — ela respondeu, com os dedos de sua mão espalmando-se timidamente contra o peito dele. — Mas você devia ter me colocado na cama. Suas costas devem estar destruídas.
Draco soltou uma risada extremamente baixa, o som vibrando contra o peito onde ela ainda se apoiava, ele inclinou a cabeça ligeiramente para trás.
— Confie em mim, Granger, minhas costas vão sobreviver. Eu não dormia bem assim há anos — ele confessou, a honestidade crua de suas palavras quebrando qualquer resquício da pose aristocrática dos Malfoy. — Mesmo nesta posição completamente ridícula e desconfortável. Passei os últimos anos acordando de hora em hora com o meu próprio cérebro tentando me sufocar. Aqui, eu simplesmente apaguei.
Hermione sentiu o peito apertar, uma mistura de ternura e melancolia invadindo-a. Ela subiu a mão timidamente pelo peito dele, parando perto da curva de seu pescoço.
— Eu não ia a lugar nenhum — Draco disse, com a voz caindo para um tom sério, quase solene. Ele ergueu uma das mãos com cuidado, os dedos tocando de leve a linha do maxilar dela. — E, francamente, eu precisava ter certeza de que você ainda estava aqui quando eu acordasse.
Durante longos segundos, nenhum dos dois disse mais nada.
— Eu também não tive pesadelos — ela admitiu — escolhendo falar sobre o assunto que menos denunciava seu desejo —, olhando diretamente nos olhos dele. — Nenhum.
— Fico feliz em saber que sirvo de antídoto para os seus monstros, Granger. Porque, de alguma forma, você acabou se tornando o meu.
Draco a encarou, absorvendo a confissão de Hermione, o polegar dele, que ainda descansava em seu rosto, subiu em um traço lento pelas bochechas dela, como se estivesse memorizando a sensação de tê-la ali, desarmada e inteira.
A proximidade era magnética, quase sufocante. O medo que Hermione sentiu momentos antes foi abafado pela urgência do que existia entre eles. Draco inclinou o rosto sutilmente para a frente e Hermione, entregando-se ao impulso, fechou os olhos e reduziu a distância a milímetros. Ela sentia o calor da respiração dele contra sua boca, e os lábios dele roçaram os seus de leve, uma promessa prestes a se cumprir.
A porta se abriu com um baque surdo.
Um ódio fulminante e primitivo atingiu o peito de Draco no exato instante em que o contato foi cortado. Hermione se afastou em um sobressalto, enquanto ele se endireitou na poltrona com os dedos se contraindo nos braços do estofado com tanta força que os nós de suas mãos ficaram brancos. Internamente, Draco sentiu uma vontade violenta de esganar quem quer que estivesse cruzando aquele batente; ele queria cobrir a distância e quebrar o pescoço com as próprias mãos por terem destruído a primeira fração de paz real que ele experimentara em anos. Ele forçou cada músculo do rosto a permanecer em uma expressão fria, embora seus olhos ainda queimassem com uma fúria assassina mal contida.
Harry entrou, parecendo ainda mais desgastado do que no dia anterior. Seus óculos estavam desalinhados e sua túnica de Auror exibia novas manchas de sangue seco. Atrás dele, Nott vinha com uma expressão sombria, com os braços cruzados sobre o peito.
No segundo em que cruzou a porta, Harry congelou, seus olhos captaram perfeitamente a respiração descompassada de Hermione, acima de tudo, o fato de ela estar sentada exatamente no colo do Malfoy. Houve um embate silencioso quando os olhos de Harry se cruzaram com os de Draco. Este não vacilou, nem adotou a postura defensiva de quem fora pego; em vez disso, seus ombros se mantiveram rígidos, e as mãos tocaram na cintura de Hermione por um segundo extra, um gesto territorialista que não passou despercebido pelo Auror.
Internamente, a mente de Harry trabalhou rápido. Ele conhecia Hermione desde os onze anos; a vira sofrer por Rony, depois viu ela erguer barreiras intransponíveis após o trauma da guerra e o fato de os pais não mais a reconhecerem. Mas a expressão no rosto dela agora não era de pânico ou desconforto; era um misto de vergonha e de uma entrega que ele nunca testemunhara. Harry engoliu em seco, sentindo uma pontada de choque misturada com uma súbita onda de alívio. Malfoy já havia se provado confiável; se era ele o homem que conseguia mantê-la inteira no fim do mundo, ele não seria o estúpido a intervir.
Ao lado dele, Theo observou a cena com uma sobrancelha erguida. Seus olhos astutos de Sonserino mapearam a tensão residual no ar, o rubor nas bochechas de Hermione e a rigidez possessiva com que as mãos de Draco demoraram a soltar a cintura da Grifinória. Theo captou o vislumbre homicida no olhar do amigo e sentiu um divertimento cínico borbulhar em seu peito, sabendo exatamente o que havia interrompido. Quem diria que o herdeiro dos Malfoy, outrora tão obcecado por linhagens e orgulho, estaria servindo de escudo protetor e travesseiro para a heroína nascida-trouxa?
Era uma ironia deliciosa.
— Desculpe a interrupção — Harry disse, forçando um sorriso que não chegou aos olhos enquanto olhava para a capa de Draco sobre os ombros de Hermione.
Hermione sentiu as bochechas esquentarem, levantou-se do colo de Draco e assumiu a postura profissional.
— Qual é a situação atual?
— Complicada — Theo respondeu, adiantando-se enquanto Draco se levantava em silêncio e inspecionava os frascos. — Um grupo de refugiados de Upper Flagley chegou há uma hora. Dois deles estavam infectados, mas esconderam as mordidas até entrarem no átrio. Houve pânico. Kingsley está tentando manter a ordem, mas os Aurores estão exaustos. Malfoy, você precisa subir com a unidade de contenção agora; eles estão perdendo o controle do perímetro.
Draco assentiu com gravidade, o rosto transformando-se na máscara de gelo que ele usava.
Harry, sem desviar os olhos dos frascos brilhantes sobre a mesa, deu um passo à frente. O cansaço em sua voz cedeu espaço a um interesse urgente. — Você conseguiu, Hermione? É isso o que estou vendo?
— Sim — ela respondeu, atraindo a atenção de Harry para os pergaminhos repletos de cálculos aritméticos. — Nós descobrimos que a mutação necromântica do vírus deixa uma assinatura mágica residual idêntica à da Marca Negra. A chave para a neutralização celular estava no sangue de Draco. A quebra mágica residual do núcleo dele gerou os anticorpos necessários para estancar a necrose antes que ela atinja o fluxo neuro-mágico principal.
Enquanto Harry ouvia atentamente, absorto na explicação científica de Hermione que detalhava a mecânica da cura, Theo se aproximou de Draco sob o pretexto de analisar as runas de contenção dos frascos de sangue na mesa. Inclinando-se ligeiramente, murmurou em um tom tão baixo e sutil que apenas os ouvidos de Draco puderam captar:
— Uma Grifinória no colo logo pela manhã, Malfoy? E eu pensando que o apocalipse seria tedioso. Cuidado para não machucar a preciosa amiga do Harry, ou ele te extermina antes do vírus.
Draco nem sequer olhou para Theo, respondeu em um tom baixo, cortante e carregado de brutalidade:
— Cala a porra da boca, Nott. Se você abrir essa boca de novo, eu garanto que você não vai precisar do vírus para ter o seu núcleo mágico extraído. Vá ajudar com os caldeirões antes que eu decida arrebentar sua cara.
Theo apenas deu um sorriso, erguendo as mãos em sinal de rendição e dando um passo para trás. Sabia que, quando Draco perdia o sarcasmo e apelava para a violência direta, era porque o assunto tinha tocado o ponto sensível.
E Hermione Granger era, claramente, esse ponto.
Draco caminhou até a porta, mas antes de sair, ele parou. A cena de sua partida pareceu congelar o tempo no laboratório. Ele se virou e olhou para Hermione, tinha um peso colossal em seus ombros, a fadiga de quem precisava controlar uma multidão histérica nos andares de cima, mas o olhar que ele direcionou a ela era longo, denso e repleto de sentimentos não verbalizados.
Ele cruzou a distância entre eles mais uma vez, ignorando as presenças de Harry e Theo, parou a centímetros dela, a silhueta alta bloqueando a luz amarelada da sala.
— Não saia daqui, Granger — ele ordenou baixinho, o tom imperioso misturando-se a urgência quase desesperada de mantê-la protegida. Ele estendeu a mão, os dedos roçando de leve o ombro dela por cima da capa, um toque rápido que valia por mil palavras. — Foque no caralho da poção. Eu vou segurar a horda lá em cima. Mas eu preciso saber que você vai estar exatamente aqui quando eu voltar. Entendeu?
— Eu vou estar aqui — Hermione respondeu, com a voz firme, sustentando o olhar dele com uma determinação que se equiparava à dele. — Volte inteiro, Draco.
Ele assentiu uma única vez, um movimento rígido de cabeça, antes de girar sobre os calcanhares. Suas botas pesadas ecoaram contra o chão enquanto ele sumia pelo corredor escuro junto com Harry, deixando para trás o eco de sua presença marcante.
O estômago de Hermione se contraiu em um nó doloroso, a infecção estava chegando ao coração do governo bruxo. O Ministério não era mais um porto seguro; era uma armadilha de pedra.
— Eu tenho o antígeno — ela disse para Theo, forçando-se a focar no trabalho para afastar o medo terrível de ver Draco subir para o perigo. — O sangue do Draco continha a assinatura mágica que neutraliza a necrose da Putrefação da Alma. Mas eu preciso sintetizá-lo em uma poção volátil, algo que possa ser dispersado em grande escala ou injetado diretamente nas vítimas antes que o núcleo mágico entre em colapso total.
Theo adiantou-se, com seus olhos brilhando diante dos frascos que continuavam no suporte de metal, protegidos pelo feitiço de preservação, ele limpou a expressão zombeteira, assumindo a seriedade de um alquimista brilhante.
— Eu posso te ajudar com a estabilização da poção, conheço as propriedades do sangue puro modificado melhor do que a maioria dos curandeiros. Vamos trabalhar.
🦁🐍
AS PRÓXIMAS HORAS FORAM uma dança frenética de precisão e conhecimento. Theo provou ser um assistente formidável; sua mente Sonserina operava com uma lógica que complementava perfeitamente a abordagem científica de Hermione.
De tempos em tempos, o teto de pedra do subsolo vibrava sutilmente, desprendendo uma poeira fina que flutuava sob as luzes mágicas, o som abafado de feitiços de barreira colidindo no átrio, andares acima, funcionava como um metrônomo sinistro. Cada tremor fazia o estômago de Hermione revirar, a mente dividida entre a estabilização das fórmulas e o medo paralisante de saber que Draco estava no epicentro daquele caos.
Eles usaram uma base de ditamno purificado, misturada com lágrimas de fênix sintéticas e uma infusão de acônito para conter a queimação do núcleo mágico. O sangue de Draco foi introduzido gota a gota, com cada reação química sendo monitorada por feitiços de diagnóstico que Hermione trouxe de suas pesquisas na Austrália.
A poção passou por várias fases: de um roxo denso e ameaçador a um azul-turquesa brilhante, que emitia uma fumaça prateada e fria.
— Está estabilizando — Theo comentou, ajustando a temperatura do fogo do caldeirão com um movimento sutil de sua varinha. — A estrutura molecular mágica está aceitando os anticorpos do sangue do Draco. Se isso funcionar, você acabou de reescrever a história da necromancia.
— Só vai funcionar se conseguirmos testar — ela respondeu, limpando o suor da testa com as costas da mão. — E precisamos de um paciente na fase inicial da infecção. Alguém que ainda tenha um núcleo mágico funcional.
O caldeirão emitiu um último chiado brando, estabilizando-se em um brilho cerúleo hipnótico que iluminava os rostos exaustos dos dois bruxos. Eles tinham a cura em mãos, mas o preço para dar o próximo passo estava desenhado na incerteza que os cercava.
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