O Apocalipse
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Ovos fritos...bacon. O cheiro delicioso me acordou. Olhei em volta. Estava no quarto e na cama de alguém. Um confortável cobertor me cobria. O quarto era simples e pequeno, mas aconchegante. Levantei devagar, minha cabeça latejava. Fui até o computador na escrivaninha. Tentei sinal com a internet. Nada. Abri os arquivos. Era o computador do Logan. Olhei em volta. Nenhum sinal dele. Abri as fotos. Selecionei a primeira e comecei a olhar. Várias fotos do Logan com a turma dele apareceram. Fotos dele, fotos dele quando criança, ele e uma mulher sorrindo, parecia com ele. Devia ser a mãe. Ele e uma garotinha. E uma foto...minha. Eu, na escola, sentada na cantina na hora do almoço, sorrindo. Fiquei surpresa por parecer tão feliz e normal. Meus cabelos pretos estavam soltos, caíam até a cintura em cascata. Eu parecia tão...bonita. Mas porque ele tinha uma foto minha? E quem tirou? Normalmente não sou fotogênica, ainda mais em uma foto que eu estou completamente distraída.
Um barulho na maçaneta. Fechei o arquivo e desliguei a tela, corri até a cama e fingi estar acordando. Olhei em volta. Nada. Ninguém entrara. Devia estar ficando louca. Ao lado da cama, estava a minha mala. Peguei ela e corri pro banheiro do quarto. Olhei no espelho. Meu rosto estava com respingos de sangue. Meu cabelo amarrado estava desgrenhado. Minha maquiagem estava borrada. Meu olho todo preto em volta. Estava um caco, como o Logan não levara um susto? Tirei a roupa,e entrei debaixo do chuveiro. Água quente. Fechei meus olhos. Deixei a água levar todo o sangue e a dor. As lembranças me atingiram como um soco no estômago. Sentei no chão e abracei meus joelhos. Chorei. Lembranças passaram pela minha mente. O dia em que eu entrei pra escola. Minha mãe e meu pai na porta acenando pra mim. O dia em que eu caí e quebrei o braço, mamãe preocupada, me levando pro hospital. Depois seu sorriso doce, tentando me acalmar. O dia em que ela foi dar a Luz a Denny. Papai me levou pra tomar sorvete e depois no cinema. Seu abraço forte.
O dia em que saí com um garoto pela primeira vez. Papai na porta ditando as regras.
O fim de semana que passamos no lago. As risadas espontâneas que dávamos ao lado deles.
O primeiro coração partido. Mamãe comeu sorvete e assistiu filmes românticos comigo.
O primeiro baile. Papai tirando fotos de mim antes de sair, e ditando outra vez as regras.
A noite em que a tartaruga do Danny morreu, e todos acampamos com ele no quintal. E quando tentei ensinar ele a andar de bicicleta, quando ele ralou o joelho e eu dei um beijinho e disse que ia sarar. A minha festa de 16 anos, papai chorava e lamentava que sua filhinha estava se tornando uma mulher. O último abraço. Todas as lembranças me atingindo. Se eu soubesse que tudo isso ia acontecer, teria ficado em casa e protegido eles. Teria feito tudo diferente. Agora tudo que tenho é lembranças e arrependimentos. Meu coração doía, e eu soluçava. Terminei o banho e me sequei. Peguei uma calça jeans, uma camiseta cinza e um casaco preto de malha. Coloquei meias e calcei meus all stars velhos. Penteei meus longos cabelos e os deixei soltos. Saí do banheiro. E guardei minha mala no lugar onde estava. Abri a porta e saí do quarto. Entrei na cozinha. Logan estava fritando ovos e bacon, ele usava calça jeans e uma camiseta preta com o emblema da banda Nirvana, o observei de costas, nunca tinha percebido, ele tinha costas largas e musculosas.E tinha uma garotinha, ela correu e me abraçou.Na verdade ela abraçou meia metade de mim, pois era bem pequena. Logan olhou e sorriu.
– A moça bonita acordou! – ela disse.
Deu uma risada. Logan sorriu.
– Molly. Pode soltar a moça bonita agora. – ele disse.
Ela me soltou e sorriu, olhou pra mim. Ela era tão diferente dele. Tinha cabelos loiros, tão lisinhos que iam até metade das costas,. Grandes olhos verdes brilhantes. Seu rostinho era tão delicado e meigo, as bochechinhas rosadas, e todos os dentes de leite ainda na pequena boquinha. Estava usando uma calça rosa, uma camiseta branca com um casaco rosa brilhante.Era tão lindinha. Parecia até uma bonequinha. Não resisti e a peguei no colo. Ela abriu um sorriso de covinhas, exatamente como as covinhas de Logan. Ele sorriu. E colocou os ovos e bacon em um prato.
Sentei em uma das cadeiras e coloquei Molly na cadeira ao lado.
– O que vai querer, bacon e ovos? – perguntou ele.
– Ovos...e tem panquecas? – perguntei.
– Não sei fazer. – ele disse. – Não quer bacon?
– Sou vegetariana. – sorri. – Você gosta de panquecas? Posso fazer bem rápido.
– Claro, adoraríamos. – ele sorriu.Corri até o fogão e comecei a preparar. Não demorou muito para ficar pronto. Coloquei um prato cheio de panquecas em cima da mesa, e corri até o quarto, a outra mala estava ao lado da de roupas, vasculhei nela e peguei calda de chocolate. Levei até a mesa. Todos se serviram. Molly estava radiante.
– Faz muito tempo que nosso café da manhã não passa de ovos com bacon. Obrigado por fazer panquecas e trazer calda de chocolate. – disse Logan.
– Disponha. – sorri. – Agora me diga. Tudo o que aconteceu.
– Bom... – ele estava escolhendo as palavras. – Depois que você apagou, te coloquei no banco de trás, e coloquei as coisas que pegamos no porta-malas. Depois vim pra cá. Encontrei a Molly no nosso esconderijo secreto. Ela estava bem, achei alguns zumbis, mas estavam mortos. Meu pai os matou, mas ele morreu, encontrei o corpo dele no quintal, não foi mordido, foi morto por outra pessoa. Por isso, vamos viajar. Conheço um lugar seguro. Vamos ficar por lá, e esperar as coisas se ajeitarem.
– Ah...eu sinto muito pelo seu pai. –lembrei que também tinha perdido meus pais. – E você conseguiu entrar em contato com os outros?
– Não. Mas ainda estou tentando. Bom, eu consegui alguns sinais de rádio, e parece que, é cada um por si agora. As coisas não são mais como eram antes.
– Entendo.
Terminamos de comer. Molly estava exausta. Devia ter sido uma noite agitada pra ela, não havia dormido segundo o Logan.
– Molly, que tal se eu te der um banho e te por pra dormir um pouco? – ela sorriu.
– Como uma mamãe? – ela perguntou.
– Como uma mamãe. – respondi.
Levei ela até o banheiro, enchi a banheira, e a coloquei nela. A ajudei a lavar o cabelo. Depois a vesti com um pijama. Penteei seus longos cabelos cor de ouro, e a levei até o quarto. Seu quarto era todo rosa. Tinham ursinhos em sua cama. Era lindo e delicado como ela. Tudo bem que eram 7:15h da manhã, mas ela ainda não havia dormido. Percebi que Logan havia pregado todas as janelas.
Contei uma história pra ela, e logo pegou no sono. Mesmo assim não fechei a porta. Fui até a sala. Logan estava sentado assistindo TV. Sentei do lado dele.
– O que está assistindo? – perguntei.
– Um filme. No DVD sabe? A TV parou de ter sinal. Assim como os telefones. – ele disse.
– Merda!
– Obrigado por ter sido tão boa com a Molly. – ele disse.
– Não me agradeça, o prazer é todo meu. Ela é uma garotinha amável. Eu que deveria agradecer, você salvou minha vida.
Ele sorriu e corou.
– Como sabe cuidar tão bem de criança? Parece até que já foi mãe.
– Não, eu só tenho 17 anos. Nunca teria filhos tão cedo, credo! – eu ri. – É que, eu sempre cuidei do meu irmão. Meus pais trabalhavam demais, e eu tomava conta dele. – percebi que lágrimas escorriam pelo meu rosto.
Logan me abraçou.
– Sabe...depois que Molly nasceu, minha mãe morreu. E meu pai não foi um cara muito bom. Ele virou um bêbado. Molly sempre foi durona. Pra uma garotinha de 5 anos, ela sempre foi bem compreensiva. Eu trabalhava depois da escola, e pagava uma babá pra cuidar dela. Meu pai mantinha dívidas de jogos. Uma vez, um cara tentou levar a Molly, como pagamento das dívidas. Ia vender ela pra uma outra família. Eu fui até lá, e acabei com ele. Fui preso, mas meus tios pagaram a fiança. Nenhum deles queria problema na família. Sempre fomos uma parte esquecida dela, mas mesmo assim, eu preso, era má fama. Depois disso, construí um esconderijo no porão, bem camuflado. Falei pra Molly ficar lá, se as coisas ficassem ruins. Meu pai a colocou lá. Matou alguns zumbis e depois mataram ele, ainda não sei o porque.Sabe...você está fazendo muito bem pra ela. Ela sempre quis ter uma família. E agora estamos agindo como uma. Obrigado mesmo. – ele disse.
Nunca tinha ouvido essa história, quer dizer, ele sempre pareceu tão...durão, tão dono de si, nunca imaginei que sofresse assim.
Sorri, olhei bem pra ele. Seus olhos me passavam segurança. O abracei.
– Agora vai ficar tudo bem. – eu disse.
Ele me olhou, seu rosto foi chegando perto, eu sabia o que vinha a seguir. E eu queria muito. Percebi que eu realmente queria estar ali com ele, que naquele momento todos os meus problemas saíram do ar. Percebi o que tinha me mantido firme até agora, e era ele. Percebi que eu era apaixonada por ele. Todos esses anos, nutrindo esse sentimento, mas nunca tive coragem o suficiente. Seus lábios tocaram os meus. O beijo era doce, e quente ao mesmo tempo. Nosso beijo foi se tornando forte e urgente, precisávamos um do outro, descarregando naquele beijo,toda a dor, medo e desespero. Ele me puxou pra ele, beijando meu pescoço. O abracei, e o puxei, deitando no grande sofá. Não queria, mas tive que parar de beijá-lo, antes que fossemos longe demais. Ele me pegou no colo, e me levou até seu quarto outra vez. Deitamos em sua cama, e ficamos olhando um pro outro. Ele me puxou pra perto, e ficamos abraçados por um tempo. Era tão bom ficar perto dele. Seu cheiro me acalmava, e seus braços ao meu redor me fazia sentir segura.
– Eu te amo. Sempre te amei. Desde a primeira série, quando eu falava errado e você me defendia. Era uma garotinha valente. Depois daquela época, nós mudamos. Você foi crescendo, e ficando cada dia mais bonita. Você sempre chamou bastante a atenção dos caras, tentei te chamar pro baile várias vezes. Mas você sempre foi tão popular, tão inalcançável a mim. Sempre tão superior. Mas não era como as outras garotas, sempre boa, e solidária. Aí, quando as coisas ficaram ruins, dois dias atrás, você se mostrou corajosa e sabia muito sobre zumbis. Sabia que era a mais bem preparada de nós, então pedi que você me ajudasse a distrair os zumbis pros outros poderem fugir, e você concordou. Quis colocar sua vida em risco, pra ajudar os outros. – ele sorriu. Não podia acreditar, Logan Jones, o cara mais durão, lindo da escola, que eu tinha uma paixão secreta, me correspondia. Me senti feliz pela primeira vez em dois dias. Ele me entendia. Iria lutar para manter ele e a Molly seguros.
Ele sorriu, e me beijou outra vez. Eu o abracei.
– Logan...por que você não dorme um pouco? Eu arrumo as coisas da Molly, e as suas, e te acordo mais tarde pra gente ir? Você precisa descansar um pouco. – eu disse.
– Tudo bem. Você não quer dormir? – ele perguntou.
– Talvez depois eu venha dormir um pouco, to sem sono agora.
– Tudo bem. – ele disse. – Se ouvir alguma coisa me acorda ta? E se algo der errado, pega a Molly e vai pro esconderijo! – ele disse.
– Pode deixar. – fui até ele e dei um beijo rápido nele, e o deixei dormir.
Vasculhei o armário dele, achei quatro malas de viajem. Peguei duas e fui até o quarto da Molly. Ela dormia como um anjo. Peguei as coisas dela, e enchi as duas malas rapidinho. Depois, voltei ao quarto do Logan. Peguei suas roupas, e coloquei nas malas. Achei duas mochilas. Fui até a cozinha e enchi uma delas com suprimento. E a outra, coloquei alguns DVDs de desenho pra Molly. Peguei o notebook que estava em cima da mesa. Coloquei seu carregador lá. Percebi que Tinha duas outras grandes malas. Peguei facas e tesouras, qualquer coisa que pudesse servir de arma. Fui até minha mala, e peguei meu despertador. Coloquei ele pra tocar quando fosse 17:35h. Olhei no relógio. 12:40h. Tinha muito tempo. Deitei no sofá, e fiquei chorando, por um tempo. Depois fui dar uma olhada na Molly. Ela ainda estava dormindo. Fui até o quarto de Logan, e me deitei junto a ele. Ele me abraçou, e peguei no sono.
Acordei um pouco antes das 17:00 horas. Fui até o banheiro, e escovei meus dentes. Olhei no espelho. Estava bom. Fui até a cozinha e preparei sanduíches. Enchi a garrafinha das princesas da Molly de suco. Depois peguei a bolsa térmica que eu descobri estar no armário da cozinha. Coloquei gelo e algumas garrafas de água.. Fiz café preto. E acordei o Logan.
– Logan. Vamos, temos que ir. – eu disse. Ele sorriu. E me abraçou. – Preparei alguma coisa pra comer. Antes de viajar. Vou vestir a Molly. – ele sorriu, e foi tomar banho.
Fui até a Molly, e a acordei. Separei uma roupa pra ela. E a ajudei a se vestir. Depois dei o sanduíche pra ela comer. Logan, sentou na mesa com a gente.
– Obrigado, está ótimo. – ele agradeceu. Sorri. Terminamos de comer, e o Logan foi colocando as coisas no carro. Ele me ajudou a colocar a cadeirinha especial pra crianças no banco de trás. Cobrimos a Molly e seguimos viajem.O sol estava se pondo. Fiquei feliz por ter lembrado de encher garrafas de água, e café, e fazer sanduíches, pelo jeito, iríamos ter muito caminho pela frente.
– Vamos ir pra casa do lago dos meus tios. Consegui falar com o nosso grupo pelo celular enquanto você vestia a Molly. Eles vão estar lá. – ele apertou gentilmente minha mão. – Vai ficar tudo bem.
Sorrimos um pro outro, e iniciamos nossa viajem. Nunca pensei que, isso aconteceria comigo, perder tudo, e ao mesmo tempo, ganhar uma família. Algo para lutar, pra proteger. Iria achar meus amigos, e iríamos fazer tudo funcionar.
Fale com o autor