O Anjo
9 Ataques Não Previstos
Notas iniciais
Em segundos, os licantropes começaram a sair das janelas, quebrando os estilhaços de vidro e lançando-os sobre eles. John ergueu uma mão para se proteger enquanto a outra pegava o chicote. Um dos meio-homens meio-lobos veio para ele e pulou em cima do garoto, para então ser jogado para longe por Mary. John olhou a garota, que estava de costas para ele, e mesmo assim viu que estava em perigo.
O Nelphilim voltou os pensamentos para a batalha, matando cada licantropo que o atacava. Eles eram muitos, além de fortes e rápidos. Porém, ele mantinha-os afastados com sua arma.
– John! – Ele escutou Annie gritar. Ela não estava muito longe dele, e fazia sinal para cobertura. O garoto fez o que ela pedia e Annie pulou pela janela para dentro do casarão. Tudo o que John escutou foram as espadas dela cortando e matando, então mais nada. Assustado, ele olhou pelo ombro, e viu que ela estava ajudando os mudanos feridos.
Infelizmente, nesse momento de baixa guarda, um licantropo o atacou.
Tinha o pelo negro com manchas brancas e estava sujo de sangue. Ele o derrubou contra a parede, e o ar foi expelido de seus pulmões com o impacto não previsto. Ele sentiu uma dor aguda no ombro. O bicho havia-o arranhado, estava preparando para mordê-lo, mas o garoto conseguiu puxar uma adaga de seu cinto de ferramentas e acertou o lobo no lado do corpo. A criatura uivou e caiu para o lado.
John se sentou e tentou recuperar o fôlego. Somente Marcus corria atrás de um licantropo, gritando insultos em uma língua estranha, que ele não conseguiu decifrar. Percy logo correu para frente de John e se abaixou.
– Meu Deus — ele sussurrou. Sacou a estela do cinto de armas e começou a traçar uma iratze no braço do amigo. – Acho que você deveria ter ficado no Instituto.
John suspirou enquanto Percy terminava a iratze. Ele viu os outros – exceto Marcus, que ainda estava perseguindo o licantropo – entrarem no casarão e ajudarem os mudanos. Estavam limpando os vestígios do que havia acontecido e fazendo curativos nos mudanos.
– O que vamos fazer com eles? – John ouviu a voz de Annie.
O garoto tentou se virar para ver o que acontecia pela janela atrás de si, mas Percy o segurou firmemente.
– Você quer morrer ou algo assim? – Ele resmungou enquanto se concentrava e recomeçava a iratze.
John suspirou e rolou os olhos. Além dele e Percy, somente Marcus estava do lado de fora, voltando da sua longa caçada ao licantropo fujão. Seus cabelos estavam grudados na testa com o suor, mesmo estando muito frio. Ele sorriu desdenhosamente.
– John, você ta enferrujado! – E riu enquanto se içava pelo parapeito da janela para dentro da casa.
O garoto rolou os olhos mais uma vez antes de encostar a cabeça na parede e desistir de tentar fazer alguma coisa. Ele viu Percy se afastar depois de concluir a iratze e ir ajudar os outros Nelphilins. Ouviu algumas sugestões, como “podemos ligar para a polícia e dar o fora”, que não foi aceita, “que tal levar eles ao Instituto?”, que foi recusada na hora, “dá pra levar eles até um beco violento e então ligar pra polícia”, ouviu. A última lhe pareceu melhor.
– Ok, ok – escutou. Era a voz de Annie. – Como vamos levar eles até o beco violento rapidamente?
Houve um momento de silêncio. John ficou encarando as árvores secas e escuras na sua frente enquanto o momento de silêncio se estendia mais e mais.
– Lembro-me de uma vez John ter feito um portal usando a estela – a voz foi reconhecida imediatamente pelo seu sotaque forte e tom baixo.
O garoto tentou lembrar-se do acontecido, porém sua memória ainda parecia brincar com ele. Estava na ponta da língua, mas não saía. Por fim, ele levantou e pulou pela janela, ao perceber que o braço já estava em uma situação melhor. No momento em que seus pés fizeram barulho ao tocar o chão, todos o olharam.
– Sei como fazer um portal. Não é complicado – John disse pisando em cacos de vidro ao se aproximar do grupo, reunido não muito longe de onde ele estava.
A mansão abandonada estava em um bom estado, apesar de os licantropes usarem-na às vezes. Janelas quebradas, pedaços de mobília e poeira ocupavam o lugar, além deles e os mudanos. Alguns pingos de sangue estavam distribuídos, mas nada que pudesse chamar a atenção de outras pessoas.
– Então tá – Percy deu de ombros e se afastou dos mudanos. Marcus, Annie, Sara e Gabriel imitaram a ação.
John chegou perto deles. Estavam amordaçados, os rostos sujos de fuligem e sangue. Eram três mudanos amarrados juntos, mãos e pés atados. O garoto sentiu dó deles. Não seria fácil para eles superarem tudo aquilo.
Com uma rapidez surpreendente, ele começou a traçar as linhas da Marçal de portal com a estela. Onde o instrumento havia passado, havia linhas negras, traçando um desenho que lembrava uma flor – uma abstrata, pelo menos.
O Nelphilim se levantou e afastou-se quando terminou. A Marca começou a brilhar e se quebrar, revelando no lugar uma espécie de vórtice.
– Desamarrem-nos – John disse, observando o chão cada vez partir-se mais, ficando um pouco maior que a tampa de um bueiro.
Sara e Marcus rapidamente fizeram isso, e então John juntou-se aos dois para arrastar os mudanos até o portal. Não havia um jeito gentil de fazê-lo, mas eles tentaram fazer com que aqueles estranhos passassem em segurança – até onde viajar desacordado e machucado por um portal para um beco um pouco violento poderia ser.
Logo que o último dos três mudanos sumiu pelo portal, tal fechou-se e John soltou um suspiro.
– Pronto. Podemos ir pra casa?
Passos ecoavam no local. Somente se via algumas frestas, onde a luz iluminava as partículas de poeira que estavam no ar. Tudo estava de um ângulo estranho, algo pressionava suas costas. Ele mexeu a cabeça para só então perceber que estava deitado.
Apoiando-se nas mãos, se levantou. Elas estavam sujas de poeira. John bateu uma contra a outra, e o barulho ecoou alto no local que estava. Era uma espécie de galpão abandonado, vazio, com pilares sustentando o teto.
Ele percebeu que os passos cessaram. Olhou para os lados, mas não havia ninguém. Andou um pouco. Ele não fazia barulho ao pisar no chão, não levantava poeira, muito menos deixava pegadas. Franziu a testa e bateu o pé no chão uma, duas vezes. Na terceira este se rachou e sugou-o para dentro. Seus cabelos e suas roupas esvoaçaram, mas logo o vento havia cessado mais uma vez.
Agora, estava em um salão iluminado e muito, muito grande. Era feito de mármore branco e tons de prata, com enormes cadeiras decoradas com coisas estranhas em um semicírculo. Na sua frente, estava uma fonte, onde uma espécie de peixe-boi nadava. John inclinou a cabeça e fechou os olhos dourados numa fenda para ter certeza de que era aquilo que ele estava enxergando. O peixe-boi tinha o dorso superior e a cabeça de uma vaca.
A criatura mugiu, mas o barulho não foi ecoado pelo ambiente.
O garoto deu alguns passos até notar a figura que estava apoiada numa cadeira dourada, parecendo ter um brilho próprio. Ele estancou no lugar.
– Onde estou? – Disse.
Era um homem jovem, vestindo uma blusa branca, jeans azuis e com óculo de sol estilo aviador. Seus cabelos eram loiros e tinha um corpo musculoso.
Ele não respondeu, somente ficou observando John por trás do óculo.
– Onde eu estou? – Ele perguntou com mais voracidade.
O homem respirou fundo, com os braços cruzados.
– Profecias são traiçoeiras – ele disse, para então desaparecer junto com tudo o resto e John caiu pelo vácuo.
O garoto puxou violentamente o ar para dentro dos pulmões, se levantando rápido e deu alguns passos apressados de costas antes de bater no armário e cair. Pontos escuros dançavam na frente de seus olhos, tudo girava loucamente. Então, tudo estava em um ângulo estranho e ele percebeu que estava com metade do rosto grudado no chão. Suava frio. O Nelphilim fechou os olhos âmbares e contou até se perder para então abrir os olhos novamente. Respirando calmamente agora, viu o seu quarto bagunçado.
Roupas, armas, livros e fast food estavam espalhados pelo chão. John se deitou de costas e encarou o teto branco, respirando fundo. Estava com os braços e pernas abertos, e o chão gelado queimava onde a pele nua nele encostava. Sem agüentar muito por causa da dor, ele se levantou. Ao olhar para frente, viu seu reflexo no espelho. Sua pele estava pálida por conta do inverno, e as Marcas que sempre carregou se destacavam até mesmo as finas cicatrizes que as que já foram gastas estavam visíveis. Sem agüentar, por conta da tensão do sonho, passou a mão pelos cabelos, pegou uma toalha que estava pendurada na cadeira e seguiu para o banheiro, com a ideia de que a água poderia levar para longe todos os problemas que o cercavam.
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