O Anjo
10 A Última Solução
Notas iniciais
A garota chegou ao quarto, removeu o cinturão de armas, as luvas que carregavam adagas, os casacos, os sapatos sujos de lama e se sentou, apoiada contra a parede, apertando os joelhos contra o peito. Ela estava somente com uma calça e uma blusa de alças, no frio instituto. As paredes congelavam seus braços pálidos onde encostavam.
Ela bateu várias vezes a cabeça contra os joelhos.
– Stultus, stultus! – Murmurou baixinho.
Algumas lágrimas escorriam de seus olhos, lágrimas que ela não conseguia deter. Não tinha certeza do que estava com raiva: do destino ou de si mesma. Ainda conseguia lembrar-se de John olhando para ela, algumas horas atrás. Não só quando a prendeu contra a parede, irritado, mas também quando ela disse a verdade: todos vão embora.
Mary suspirou com dificuldade, o bolo em sua garganta ardendo.
Ele não lembra, ele não lembra, ela repetia mentalmente. Então começava a chorar novamente. Não importava onde ela estava: na sala de armas, no quarto, na cozinha, andando pela rua, essa maldita frase sempre ressurgia do Tártaro e assombrava-a.
A garota suspirou mais uma vez antes de fechar os olhos e seu corpo ficar mole e ela escorregar para o chão, onde dormiu. Já tinha um plano em mente. Ia acabar com tudo aquilo.
Mary deu alguns passos, até ficar na ponta do edifício.
Tudo estava sendo difícil para ela, mas aquilo era demais. Desde que conheceu os Caçadores de Sombras... Bem, as coisas realmente pioraram. E quando parecia melhorar, tudo voltava a acabar. Nada melhor do que isso.
Era uma manhã fria de Primavera, que logo havia saído do Inverno. O Sol ainda não havia nascido, mas estava a clarear o horizonte leste. Mary tinha uma bela visão do astro nascendo. O vento lhe cortava a pele. Mesmo sendo primavera, o lugar que ela estava era frio. Talvez fosse pelo fato de estar sem casaco depois de semanas. Era realmente muito boa a sensação de o vento correr-lhe pelos braços nus e cheios de marcas negras. Algumas cicatrizes do longo manejo de arcos continuavam, mas eram poucas e claras. Nem apareciam, se você não soubesse onde estavam.
Ela estava descalça, com os pés congelando devido ao concreto frio do prédio. Saiu de manso do Instituto, sem nem mesmo colocar os sapatos. Só se deu ao luxo de colocar dois dracmas nos bolsos. Ainda estava com a calça e a camisa preta sem mangas de ontem. Os cabelos claros estavam balançando loucamente com o vento, em uma forma de protesto. Seu coração também batia forte, com um enorme medo do que iria acontecer. Mas mesmo assim, não iria voltar atrás.
Ela levou a mão ao seu esterno, procurando o pingente que carregava no colar. Mas é claro, tudo o que apalpou foi o tecido de algodão da blusa. Mary havia acordado muito cedo e fora até o quarto de John. Ele estava dormindo feito um anjo, com os cabelos castanhos escuros bagunçados e a mão em cima da barriga. Era estranho vê-lo assim, sem aqueles olhos dourados alertas. Ele ficava tão... Pacífico.
Na ponta dos pés e usando seus poderes para não fazer barulho, Mary tirou o colar e colocou-o em volta do pescoço de John com delicadeza. Não iria acordá-lo de jeito nenhum, e esse era o último presente que poderia lhe dar. Com um beijo na testa, ela se virou e saiu do quarto, deixando a porta do quarto dele entreaberta. Nisso, saiu do Instituto, correndo em direção a um prédio do Brooklin à beira-mar. Lá ela podia ver o Sol nascer e resolver seus problemas. E isso também lhe lembrava a última noite com John, quando ele tinha memória.
Ela voltou a si. Ao horizonte, podia ver os primeiros raios de Sol tingir o céu escuro de rosa e amarelo. A vista era realmente linda, de tirar o fôlego. Mas ela sabia que não poderia demorar. Tinha que ir rápido, sem voltar para trás. Mary tinha muito medo do que poderia lhe aguardar caso resolvesse não fazer aquilo.
Olhando para baixo, a vista lhe deu tontura. Ela simplesmente odiava altura, mas não havia nada para fazer. Somente alguns carros passavam na rua, e outros estavam estacionados. Mas ninguém estava andando por lá. Isso a ajudava bastante.
A garota fechou os olhos e ficou parada, sentindo o vento bagunçar-lhe os cabelos, lembrando o que já havia passado. Mas tudo o que lhe vinha na cabeça era John. John, John e John. Os momentos que passaram juntos, desde quando se viram, o primeiro beijo, o último momento que ela o viu, todo ferido, e hoje, ele dormindo. Mary não sabia se ele a amava como antes. Aliás, nem sabia se ele tinha algum sentimento do tipo por ela. Mas estava torcendo para que não houvesse nenhum.
Pois ele jamais a perdoaria por isso.
Quando Mary sentiu os raios de Sol em sua pele, abriu os olhos. Estava lindo, colorido. Mesmo para ela, que gostava da escuridão. Como um último pedido, ela sussurrou para que Apolo cuidasse dele. Para que John recuperasse a memória e superasse o que ela iria fazer.
Olhando para baixo novamente, sentiu o vento querer jogá-la para baixo. Vários metros de altura, uma queda dura e rápida. Não iria sentir muito, mas era o suficiente. Ela engoliu em seco, com medo. Passou tantas vezes na cara da Morte, e nunca teve medo. Agora, Mary sentiu o desespero em suas veias, tentando fazer com que ela parasse e tomasse outra decisão.
A garota respirou fundo, abrindo e fechando as mãos freneticamente. Não iria desistir de jeito nenhum. Dando mais um pequeno passo, ela sentiu que a ponta do pé não encostava mais no prédio. Era agora ou nunca, realmente. Ela endireitou o corpo, sentindo o calor do Sol em seus braços.
E pulou.
Não muito longe dali, John acordou sem fôlego. Ele se lembrava de tudo.
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