Notas iniciais
Oi, oi, oi... olha eu aqui de novo com um novo e inesperado enredo Peetniss kkkkk Graças a querida e digníssima Vitória minha amiga Vi que veio correndo me mostrar esse evento e logo eu que amo um Romance Clichê kkkk e Graças a ela que vem me ajudando em tudo estou postando esse projeto especificamente para o evento, bora embarcar comigo nesse universo de possibilidades. Ah, Vitorinha minha linda te devo o mundo e dedico esse capítulo a vc e claro a todas as lindonas que sempre me apoiam.


Pov. Peeta Mellark


Eu ganho causas que ninguém quer assumir.

Contratos malditos, heranças podres, empresas à beira do colapso. Onde outros advogados veem risco, eu vejo lógica. No tribunal, minha voz é firme, meus argumentos são objetivos. Eu não tremo. Não hesito.

Fora dele…

Eu travo.

O e-mail chega às 7h12. Reconheço o nome antes mesmo de abrir.

Cashmere Snow.

Meu estômago se contrai — não como dor, mas como memória. Um reflexo antigo, íntimo demais para ser ignorado.

Confirmada presença no Gala Whitmore. Acompanhada.

A palavra acompanhada parece tremer na tela como um erro de digitação que não deveria existir.

Abro o anexo. Fotos impecáveis. Um sorriso bem ensaiado. Um anel discreto demais para ser casual. Logo abaixo, a mensagem de Gale, sem delicadeza alguma:

Dizem que é casamento arranjado.

Famílias grandes.

Ela fez a escolha certa.

Escolha certa.

Apoio os cotovelos na mesa, pressionando os dedos contra a testa. O escritório ainda está silencioso, mas dentro de mim algo vibra, insistente, como vidro prestes a trincar.

Cashmere não apenas foi embora.

Ela me olhou, naquele último dia, com uma piedade elegante e isso foi pior do que qualquer desprezo.

— Você é brilhante, Peeta — disse ela, ajeitando o casaco, a voz suave demais para ser gentil. — Mas tudo com você parece uma negociação. Até sentimento.

Depois disso, saiu da minha vida como quem encerra uma reunião improdutiva.

Insuficiente.

Foi a primeira vez que a palavra colou em mim.

— Você tá com essa cara de novo.

Ergo o olhar. Gale está encostado no batente da porta, braços cruzados, gravata frouxa, o sorriso torto de quem já me conhece melhor do que eu gostaria.

— Que cara? — pergunto, seco.

Ele me avalia por um segundo a mais do que o necessário.

— A de quem vai cometer uma burrada emocional e chamar isso de estratégia jurídica.

Solto uma expiração curta, quase um riso sem humor.

— Cashmere vai ao Gala Whitmore.

— Claro que vai. — Ele entra, puxa a cadeira e se senta sem pedir permissão. — E você também.

— Não.

— Mentira.

O silêncio confirma.

Gale estala a língua, satisfeito.

— Você não pode aparecer sozinho.

— Gale…

— Escuta — interrompe, inclinando-se para frente. — Você precisa parecer bem. Feliz. Resolvido. Nada machuca mais o ego de gente como ela do que ver que você seguiu em frente.

— Isso não é um caso — retruco, cruzando os braços.

— Não. É marketing pessoal. — Ele sorri. — Arruma uma namorada de mentira.

Minha sobrancelha se arqueia.

— Você está sugerindo que eu… contrate alguém?

— Tô sugerindo que você pare de sofrer em silêncio como um viúvo emocional e use o que sabe fazer melhor, negociar.

Antes que eu responda, duas batidas leves soam na porta.

— Com licença.

A voz é firme. Controlada.

Ela entra com passos seguros, postura impecável. Roupas simples, cores neutras. Nada nela parece pensado — e talvez seja isso que chame atenção. Há uma elegância silenciosa em como ocupa o espaço, como se não pedisse permissão para existir.

Morena. Beleza limpa. Real.

Ela segura uma pasta contra o peito.

— Sr. Mellark, os relatórios que o senhor pediu. Analisei jurisprudências recentes e separei precedentes compatíveis com o caso Whitford.

Minha atenção fixa nela antes mesmo do conteúdo das palavras.

— Obrigado… — Começo, então noto o nome no canto da pasta. — Katniss Everdeen.

— Sim, senhor — responde ela, aproximando-se da mesa.

Deposita os documentos com cuidado, como se a qualquer instante um furacão pudesse passar e espalhar tudo.

— Fez isso sozinha? — pergunto, folheando.

— Sim — ela hesita por um segundo, depois acrescenta, cautelosa: — Se algo precisar ser revisto, posso ajustar rapidamente.

Não há erro ali. Nem no trabalho, nem no tom.

O que há é antecipação. Como se estivesse sempre pronta para ser corrigida, dispensada, substituída.

— Está ótimo — digo, sincero.

Ela me encara por cima dos óculos, a surpresa atravessando o olhar.

— Mais alguma coisa, senhor?

Por um instante, penso em dizer sim.

Mas algo já se move dentro de mim, silencioso e decidido.

— Não. Pode ir.

Ela assente e sai, fechando a porta com cuidado.

O silêncio se instala.

Gale demora dois segundos antes de falar.

— Agora sim — murmura ele. — Ela é perfeita.

— Não começa.

— Não tô falando só da aparência. — Ele cruza os braços. — Ela é elegante. Discreta. Segura. Sóbria. E linda, mas não daquele jeito óbvio.

Ignoro o comentário.

Pego o telefone e aperto o ramal da secretária.

— Preciso da ficha funcional de Katniss Everdeen — digo, objetivo. — Agora.

Minutos depois, o arquivo digital está aberto diante de mim.

Katniss Everdeen March

Solteira.

Órfã.

Criada pela tia, Alma Coin.

Falecimento há dois anos.

Dívidas herdadas.

Sem graduação completa.

Assistente jurídica por mérito interno.

Avaliações impecáveis.

Horas extras frequentes.

Minha garganta aperta.

Não é pena.

É respeito.

Ela não está ali por favor. Está ali porque é boa. Porque entrega mais do que pedem. Porque aprendeu cedo que eficiência é sobrevivência.

Fecho o arquivo devagar.

— Não é brincadeira — digo, por fim.

Gale ergue a sobrancelha.

— O quê?

— A proposta.

Horas depois, peço que Katniss volte ao meu escritório.

Ela entra cautelosa, mãos entrelaçadas à frente do corpo. Atenta. Defensiva. Como quem já espera o pior, mas não foge.

— O senhor me chamou?

— Sim. — Indico a cadeira. — Por favor.

Ela se senta, mantendo a coluna ereta. Os olhos analisam tudo. Sempre analisando.

— Vou ser direto. — Começo, sentindo o desconforto familiar se instalar. Emoções não são meu território seguro. — Preciso de alguém para um trabalho específico.

Ela franze o cenho.

— Temporário?

— Sim. E bem remunerado.

O interesse surge, apesar do esforço visível em contê-lo.

— Em que consiste?

Engulo em seco.

— Preciso que você finja ser minha namorada. Apenas em eventos sociais.

O silêncio cai pesado.

Ela pisca. Uma vez. Duas.

— O senhor está falando sério?

— Sim. — Minha voz sai controlada demais. — É um acordo. Com limites claros. Sem envolvimento emocional.

Ela se levanta de imediato.

— Isso é inapropriado.

— Eu sei. — Levanto-me também. — E você pode dizer não.

Ela me encara, os olhos cinzentos faiscando.

— O senhor acha que minhas dificuldades me tornam negociáveis?

A pergunta me atinge em cheio.

— Não. — Minha voz baixa. — Eu acho que tornam sua escolha… mais difícil do que deveria ser.

O silêncio muda.

— Pense — acrescento. — Sem pressão.

Katniss ajusta os óculos, respira fundo.

— Eu vou pensar.

Ela sai.

Eu fico.

E, sinceramente, não faço ideia se acabei de fechar o melhor acordo da minha vida ou o erro mais pessoal de todos.

O dia termina como começou, exaustivo.

Audiências longas. Reuniões arrastadas. Pessoas falando demais para serem conclusivas em meia dúzia de palavras. Quando finalmente encerro o último compromisso, minha gravata parece um nó em volta do pescoço — não físico, mas simbólico. Um lembrete de tudo que sou quando estou em público.

Aperto o botão do elevador.

As portas se fecham e, pela primeira vez em horas, fico sozinho.

Afrouxo o nó da gravata com um puxão firme, os dedos já impacientes. O tecido desliza pelo colarinho, liberando minha garganta. Inspiro fundo. O ar dentro da cabine é frio. Limpo demais. Meu reflexo no espelho me encara de volta. Terno perfeitamente alinhado, expressão controlada, olhos cansados.

O homem que ganha causas impossíveis.

Não o homem que nem sabe o que fazer com o próprio coração.

No térreo, atravesso o lobby sob olhares discretos — alguns curiosos, outros ansiosos. Eu sinto. Sempre sinto. Não é vaidade, é leitura de ambiente. Presença chama atenção mesmo quando não pede.

O manobrista já está com a chave em mãos.

— Boa noite, senhor Mellark.

— Boa noite — respondo, automático.

A Lamborghini ronrona quando dou partida. O som é grave, quase agressivo. Puro excesso. Puro controle. Piso no acelerador e deixo a cidade ficar para trás, os prédios virando linhas borradas enquanto minha mente tenta — sem sucesso — acompanhar.

Cashmere surge sem convite.

O sorriso perfeito. O toque leve no meu braço quando queria algo. O jeito como sempre parecia dois passos à frente emocionalmente — ou talvez eu apenas estivesse menos disposto a ficar.

Você não sabe querer, ela havia dito.

Aperto o volante e logo a academia surge à frente. Estaciono, pego a bolsa no banco de trás e entro. É aqui que descarrego o estresse do dia e as frustrações. Pelo menos é um lugar que ninguém finge nada.

No vestiário, deixo a bolsa cair no banco de madeira. Abro o armário metálico e o terno vai para o cabide com um cuidado automático. A camisa social logo depois. Arregaço as mangas antes de tirá-las por completo, como se ainda estivesse em público. Só depois percebo o hábito — e quase rio de mim mesmo, vício de quem passa tempo demais sendo observado. Desafivelo o cinto da calça e a tiro substituindo por um short de treino. Visto a camiseta escura, passo a mão pelo abdômen num gesto distraído antes de puxar o tecido para baixo.

Afrouxo o relógio do pulso, giro a chave e a coloco no compartimento interno.

Calço o tênis, ajusto o cadarço com força. Por último, pego as luvas de boxe.

O couro é firme sob os dedos. Conhecido. Reconfortante.

Enfio a mão direita primeiro, depois a esquerda. Aperto o velcro ao redor do pulso, sentindo a pressão justa — segura, controlada. Flexiono os dedos algumas vezes, testando o encaixe. Ali, com as luvas postas, não há espaço para hesitação. Só impacto.

No ringue, cada golpe encontra resistência. Cada soco no saco de pancadas é uma descarga.

Cashmere.

Um golpe seco.

Casamento arranjado.

Outro.

Escolha certa.

O couro vibra, devolvendo a força. Meus punhos ardem. O suor escorre pela têmpora, nuca e coluna. Respiro pesado. Os músculos protestam, mas não paro.

É assim que eu funciono.

Quando penso demais, uso o corpo.

Quando sinto demais, uso força.

O som surdo ecoa pelo espaço, ritmado com minha respiração. O mundo se resume a força, ritmo e foco.

Quando o cansaço finalmente vence, encosto a testa no saco, respirando fundo, o peito subindo e descendo rápido demais. Alongo meu pescoço esticando-o de um lado para o outro e apoio os antebraços na borda do ringue, o peito subindo e descendo rápido demais. Com um puxão curto, solto o velcro. As luvas caem no chão com um baque seco.

Minhas mãos estão vermelhas, quentes, tremendo de cansaço e estranhamente… mais leves.

É então que Katniss invade o espaço.

Não como imagem sensual, mas como presença.

O jeito como ela entrou no escritório sem pedir licença ao espaço. A postura reta demais para alguém que carrega tantas perdas. A forma como segurava a pasta, como se fosse um escudo.

Assistente jurídica por mérito interno.

Ela não pediu nada. Não implorou. Não se vendeu.

E ainda assim, eu fui lá… e propus.

O pensamento aperta algo no meu peito.

Não era só estratégia.

Eu sei disso agora.

Tomo uma ducha rápida na academia, mas é em casa que o cansaço realmente me alcança.

O portão da propriedade se abre silencioso. A mansão Mellark fica mais distante, grandiosa e iluminada demais. Eu sigo direto para a casa menor — a minha. Onde ninguém entra sem convite. Onde não há retratos de família me observando.

Privacidade comprada com sucesso.

Mas paga com solidão.

Tiro os sapatos logo na entrada. O chão frio contra a sola dos pés me sustenta. Ligo algumas luzes, mais por costume do que por necessidade, e o corredor longo devolve minha imagem fragmentada nos vidros. Subo para o quarto, banho de verdade agora. A água quente bate nos ombros, escorre pelo peito, leva consigo o suor, a tensão, mas não os pensamentos.

Enrolo a toalha na cintura e no closet vasculhou na gaveta algo leve. Visto uma regata simples e um short de dormir.

A casa está silenciosa demais. Não é o tipo de silêncio confortável. É o tipo que se instala quando as pessoas aprendem a não perguntar.

Penso nos meus pais.

Minha mãe, Effie, vive ali — tecnicamente. Ela não sai. Não de verdade. Planeja eventos da alta sociedade, jantares impecáveis, arrecadações milionárias… tudo da sala de estar, com o laptop apoiado no colo e uma xícara de chá sempre fria ao lado.

Para o mundo, Effie Mellark é impecável. Sorridente. Presente. Forte.

Para mim, ela é ausência disfarçada de zelo.

Desde a morte de Cyril, meu irmão mais velho, nada nela voltou a ocupar o lugar certo. O acidente de moto foi rápido, disseram. Trágico. Definitivo. Ela fingiu seguir em frente com a mesma elegância com que sempre fingiu estar bem.

Nunca chorou na minha frente.

Nunca falou o nome dele depois do enterro.

Amor demais… e presença de menos.

Meu pai, Haymitch, fez o oposto. Ele não ficou. Viajou. Fez da Mellark Legal Consulting um império móvel, sempre em trânsito, sempre ocupado demais para sentir. Montreal aqui. Zurique ali. Um homem que ama trabalhando — e foge ficando indispensável.

E eu fiquei no meio.

Herdei a empresa. A responsabilidade. O silêncio não dito.

Talvez seja por isso que eu negocie tão bem.

Talvez seja por isso que sentimentos me pareçam sempre um terreno instável — algo que, se não for controlado, vira perda.

Passo a mão pelo rosto, respiro fundo.

Algumas histórias a gente não resolve. A gente aprende a conviver.

Ligo um jazz suave e sigo para a cozinha.

É ali que tudo muda.

Ascendo o fogão. Separo os ingredientes. O som da faca cortando cebola. O cheiro que começa a se espalhar pelo ambiente. Aqui não há contratos. Não há plateia. Só processo.

Cozinhar é… silencioso.

É onde eu não preciso vencer.

Enquanto mexo o molho, lembro do olhar de Katniss quando disse que pensaria. Não esperança. Não rejeição. Apenas dignidade.

Sirvo o prato, sento à mesa sozinho.

Dou a primeira garfada.

Está bom. Sempre está.

Mas, estranhamente, penso em como ela comeria. Se seria apressada. Se analisaria o tempero. Se reclamaria da pimenta.

Engulo em seco.

Talvez eu não queira reconquistar Cashmere.

Talvez eu só queira provar — para mim mesmo — que ainda sei escolher algo que não seja seguro.

E essa ideia… essa é a mais perigosa de todas.

✥✥✥

A manhã começa antes do sol terminar de decidir se vai aparecer.

Estou de terno cinza, impecável. Não porque preciso, mas porque funciona. O tecido veste meu corpo como uma segunda pele treinada para impor respeito. O reflexo no espelho devolve um homem alinhado, barba feita, expressão firme. Nenhum vestígio da noite anterior além do leve cansaço nos olhos.

Já na empresa, entro no elevador privativo. Subo em silêncio. Quando as portas se abrem no 25° andar, quase todos parecem reagir à minha presença — não com alarde, mas com atenção.

Caminho com cumprimentos discretos. Olhares que me seguem. Passos que se ajustam ao meu ritmo. Eu não acelero. Nunca acelero. Poder não anda com pressa.

A recepção se aproxima quando Lavinia surge no meu campo de visão, impecável como sempre, tablet em uma mão, copo térmico na outra.

— Bom dia, senhor Mellark — diz ela, acompanhando meu passo.

— Bom dia.

Ela me entrega o café antes mesmo que eu peça. Do jeito certo. Forte. Sem açúcar.

— Recados — continua, profissional. — Seu pai ligou três vezes ontem depois que saiu e duas hoje de manhã. Pediu que o senhor pare de ignorar as chamadas no celular e ligue de verdade.

Levo o copo aos lábios, sem interromper o passo.

— Onde ele está?

— Bruxelas. — Ela ergue o olhar. — Disse que não vai aceitar mais mensagens evasivas.

Um canto da minha boca quase se move.

— Diga que retorno ainda hoje.

Ela assente, satisfeita por eu não ter discutido.

Damos mais alguns passos.

— Ah... — Lavinia acrescenta, como quem guarda o melhor para o final. — Katniss Everdeen chegou cedo. Está te esperando… na sua sala.

O café para a meio caminho da minha boca.

Não olho para ela. Não diminuo o passo. Mas algo em mim se ajusta por dentro, como uma engrenagem encontrando resistência.

— Obrigado, Lavinia.

— Disponha — responde ela, com aquele tom de quem já entendeu mais do que deveria.

Empurro a porta da minha sala.

E dou de cara com ela.

Katniss está de pé, próxima à janela. Luz da manhã recortando o perfil dela, os cabelos soltos caindo sobre os ombros. Roupas simples, mas não deixam de torná-la elegante, postura firme. Não parece nervosa, mas há tensão nos ombros, contida com disciplina.

Ela se vira quando me percebe.

Nossos olhares se encontram.

Por um instante, o mundo jurídico, meu pai em Bruxelas, Cashmere, o gala… tudo fica paralisado.

— Bom dia — diz ela, a voz calma demais para alguém que veio tomar uma decisão difícil.

— Bom dia — respondo, fechando a porta atrás de mim.

O silêncio se instala. Não constrangedor. Avaliativo.

Ela ajusta os óculos, inspira fundo. Vejo o gesto mínimo — o mesmo que fez ontem antes de sair.

— Eu pensei bastante. — Começa.

Assinto, lento.

— E?

Katniss sustenta meu olhar. Não há desafio ali. Nem submissão. Apenas escolha.

— Eu aceito.

As palavras caem entre nós como um contrato assinado em voz alta.

E, dessa vez, eu sei...

Não fui eu quem ganhou a negociação.


Pov. Katniss Everdeen


Há momentos na vida em que você não tem escolha de verdade.

Ou você aceita e tenta reorganizar os destroços. Ou recusa e assiste tudo afundar de vez.

É assim que me sinto enquanto a proposta do filho do dono da empresa ecoa na minha cabeça como um erro na Matrix do universo, impossível de ignorar.

Indecente?

Sem dúvida.

Inédita?

Nem tanto. Já ouvi coisa pior — só não dita com tanta educação e tanto dinheiro envolvido.

Mal dormi.

Minha cama, que nunca foi exatamente confortável, parecia ainda menor. A imagem da notificação do proprietário do prédio também não saía da minha cabeça. Último aviso. O apartamento minúsculo que dividi com a tia Alma — que Deus a tenha — agora oficialmente não era mais meu.

Coin nunca foi exatamente… gentil.

Ela me acolheu depois da morte dos meus pais, é verdade. Mas amor de menos e cobrança demais sempre caminharam juntos naquele apartamento. Às vezes parecia que ela me culpava por coisas que nem tive idade para entender.

Dos meus pais, só restou uma fotografia.

Meu pai à esquerda. Minha mãe à direita, grávida. Um irmão ou irmã que nunca conheci. E eu, à frente, com cinco anos e o sorriso mais largo do mundo.

Acordo com o corpo doendo como se tivesse corrido uma maratona emocional.

Tomo um banho rápido. Visto uma roupa simples, mas bonita — doação de uma amiga que engravidou e decidiu que eu “ficaria melhor com elas do que o fundo do armário”. Penteio o cabelo como posso. Sei que preciso ir ao salão. Mas isso compete diretamente com aluguel, conta de água e… comida.

Vaidade quase sempre perde.

A notificação sob a porta ainda está lá quando saio.

Leio de novo, como se isso pudesse mudar alguma coisa.

— Droga — murmuro.

No celular, digito rápido.

"Rue, posso dormir na sua casa hoje?"

Ela responde quase imediatamente.

"Claro que pode, querida."

Rue. Minha salvação silenciosa. Foi graças a ela que consegui meu emprego na Mellark Legal Consulting. Devo mais a ela do que consigo pagar.

Saio correndo. Consigo pegar o ônibus que me leva até a estação do metrô. Graças aos céus, não está chovendo, caso contrário seria bem pior meu trajeto.

Quando chego à empresa, entro no modo automático.

Sou boa nisso.

Passo pela minha mesa que é uma zona de guerra organizada: pilhas de processos, post-its coloridos, canetas espalhadas. Caótica para quem olha. Perfeita para mim. Sei exatamente onde está cada coisa e em qual ordem entregar para cada advogado, em cada área.

Penal. Empresarial. Família. Ambiental.

Se alguém do RH perguntasse, eu diria que só “auxilio”.

Se algum estagiário perguntasse, eu corrigiria metade das teses dele.

Eles às vezes brincam comigo. Me chamam para sair. Tentam se aproveitar da minha eficiência.

Eu corto rápido.

Não sou durona por opção. Sou por necessidade.

Subo até o 25° andar.

A sala dele está vazia.

Ótimo.

Respiro fundo. Ajusto os óculos. Passo a mão no cabelo, tentando domar o que não quer ser domado. Dou uma olhada rápida no reflexo do vidro.

Estou apresentável.

Cansada.

Decidida.

A porta se abre atrás de mim.

O som dos passos é firme, confiante. Reconhecível.

Não me viro imediatamente.

— Bom dia. — A voz dele soa controlada, como sempre.

Viro devagar.

— Bom dia.

Ele fecha a porta. O silêncio se instala. Avaliativo.

Ajusto meus óculos, um gesto mais de mania do que para apenas reposicioná-lo. Inspiro.

— Eu pensei bastante.

— E?

— Eu aceito.

Não espero que ele fale.

— Antes que o senhor diga qualquer coisa... — Começo, cruzando os braços. — Eu pensei bastante.

Ele assente, atento.

— E cheguei a algumas conclusões.

Dou dois passos pelo escritório, observando a vista.

— Primeiro: não sou desesperada. — Olho para ele. — Estou em dificuldade, são coisas diferentes.

Ele não me interrompe.

— Segundo: não faço nada que me humilhe. — Inclino a cabeça. — Se isso virar espetáculo, eu saio. Sem aviso prévio.

Mais um passo.

— Terceiro: isso tem prazo, regras e remuneração compatível com o constrangimento social envolvido.

O canto da boca dele ameaça um sorriso.

Eu respiro fundo.

— Dito isso…

Caminho até a mesa. Apoio as mãos na madeira polida.

— Eu aceito — repito.

Silêncio.

Sustento o olhar.

Não é submissão.

É escolha.

O silêncio que se instala depois do “eu aceito” não é constrangedor.

É… estranho.

Como se o ar tivesse mudado de densidade e ninguém tivesse recebido o memorando. Peeta Mellark me observa por alguns segundos longos demais para alguém acostumado a decidir tudo em minutos.

Ele pigarreia, ajeitando a gravata.

— Certo — diz, finalmente. — Precisamos alinhar alguns detalhes logísticos.

Detalhes logísticos.

Claro que chamaria assim.

— Como, por exemplo? — indago, recostando-me na cadeira sem pedir permissão.

— Onde você mora?

A pergunta é simples.

Minha resposta, nem tanto.

Inclino a cabeça, avaliando se devo rir, chorar, mentir ou dizer a verdade nua e crua. Opto pela última opção. Cansei de florear desastre.

— No momento? — digo. — Em lugar nenhum.

Ele franze levemente o cenho.

— Como assim?

— Assim como em despejo. — Dou de ombros. — Hoje é meu último dia no apartamento.

Ele se endireita na cadeira.

— Despejo?

— Aluguéis atrasados. — Cruzo as pernas. — Dívidas que eu nem sabia que existiam. A tia que me criou tinha talento especial para péssimos contratos e cartões de crédito criativos.

Vejo algo passar pelo rosto dele. Não pena. Cálculo rápido.

— Banco também? — pergunta, baixo.

— Banco também — confirmo. — Parcelas atrasadas, juros acumulados… o pacote completo.

Peeta passa a mão pelo queixo, pensativo demais para o meu gosto.

— Você já tem para onde ir?

— Hoje, sim. — Ergo um dedo. — Uma amiga. Amanhã… improviso.

Ele fica em silêncio outra vez.

Não gosto desse tipo de silêncio.

— Katniss.

— Hum?

— Você poderia… morar comigo.

Eu engasgo com o ar.

— O quê?

— Temporariamente. — Ele se apressa. — Até resolvermos isso. Facilita a logística, a credibilidade do acordo…

— Não. — Corto de imediato. — Isso é completamente inapropriado.

— Não é — rebate ele, sério demais. — Você ficaria no quarto de hóspedes.

— Ainda é inapropriado.

— A propriedade é grande.

— Continua sendo inapropriado.

— Há duas casas no terreno.

Pisco.

— Duas?

— Sim, a casa da família… e a casa onde eu moro. Separadas.

Cruzo os braços, desconfiada.

— O senhor costuma convidar funcionárias sem-teto para morar com você?

O canto da boca dele se ergue.

— Só as que fingem ser minhas namoradas.

Fecho os olhos por um segundo.

— Isso não ajuda sua defesa.

Ele se levanta, caminha até a janela.

— Katniss, você não ficaria me devendo nada além do que já combinamos. Teria privacidade. Segurança. Um teto. — Vira-se para mim. — E um quarto que não tenha uma cama desconfortável.

Respiro fundo.

— Eu não durmo no mesmo teto que meu chefe.

— Então considere que sou apenas… seu parceiro contratual inconveniente.

Solto um riso curto.

— O senhor é péssimo em convencer pessoas emocionalmente fragilizadas.

— Eu sou ótimo em resolver problemas — retruca ele. — E esse é um problema.

Olho para o chão. Depois para ele.

— Quarto de hóspedes — digo, apontando. — Porta com chave.

— Evidente.

— Nada de aparecer de madrugada oferecendo chá, sopa ou… conversas profundas.

— Eu não faço isso.

— Mentira. — Ergo a sobrancelha. — O senhor tem cara de quem faz.

Ele suspira, rendido.

— Porta com chave. Prometo.

Silêncio.

— Eu vou pensar — digo, de novo.

Ele assente.

Mas, dessa vez, eu sei.

Pensar não é recusar.

É só admitir que minha vida acabou de sair completamente do controle.

Saio da sala dele como se tivesse alugado um triplex na minha cabeça.

Tudo ecoa. A proposta. A casa. O quarto de hóspedes. Porta com chave.

Minha vida nunca foi exatamente estável, mas aquilo era outro nível de improviso.

Ainda assim, trabalho chama — e trabalho eu sei fazer.

Minha mesa continua sendo um espetáculo visual digno de julgamento sumário: pilhas tortas de processos, post-its em cores que só fazem sentido para mim, anotações à mão espremidas entre prazos e artigos de lei. Um verdadeiro arco-íris jurídico.

Mergulho.

Corro de uma sala para outra, entrego documentos antes que peçam, corrijo um número aqui, um nome ali. Um estagiário tenta me empurrar um relatório incompleto.

— Volta com isso revisado — digo, sem levantar os olhos. — Ou você quer que o juiz faça piada com a gente?

Ele recua. Missão cumprida.

Quando percebo, minha barriga ronca.

Não é um ronco discreto. É um protesto.

Olho o relógio. Almoço. Só então lembro: não tomei café da manhã. Nem um mísero gole d’água. Meu corpo está funcionando à base de adrenalina e teimosia.

O celular vibra.

Mensagem nova.

“Mesa reservada com almoço pago. P.”

Paro.

Leio de novo.

Sorrio.

P.

Guardo o celular, pego a bolsa e sigo em direção ao elevador como se estivesse indo ao encontro de um prêmio de consolação do universo. Não corro — mas quase flutuo.

O restaurante fica a poucos quarteirões da empresa. Caro. Discreto. O tipo de lugar onde garçons lembram seu nome depois da segunda visita.

— Katniss Everdeen — digo na recepção.

— Claro, senhorita. Sua mesa já está pronta.

O cheiro me atinge em cheio.

Carne assada. Ervas. Manteiga. Coisas que não fazem parte do meu cotidiano há meses. Preciso respirar fundo para não parecer uma pessoa que poderia morder o cardápio.

Sento. Mantenho a postura. Finjo costume.

— O que a senhorita deseja?

— Algo… generoso — respondo, sincera.

Carne assada, batatas grelhadas, salada. Nada extravagante. Só comida de verdade.

Quando o prato chega, abandono qualquer tentativa de fingimento social. Como com foco, prazer e zero culpa. Mastigo devagar no começo, depois com menos cerimônia. A fome era antiga. O alívio, imediato.

No fim, preciso discretamente afrouxar um pouco o cinto do cós da saia lápis.

Volto para a empresa satisfeita, mais lenta, perigosamente feliz.

Faço uma nota mental “agradecer o namorado de mentira.”

À tarde, separo os arquivos que Peeta pediu para protocolar no caso em andamento. Organizo tudo, confiro assinaturas, números, anexos. Bato à porta da sala dele.

— Entra. — A voz responde.

Entrego a pasta.

— Já protocolei tudo — explico. — E… obrigada pelo almoço.

Ele ergue o olhar, atento.

— Fico feliz que tenha ido.

— Fui. E comi como alguém que claramente não tomou café da manhã — admito, sem cerimônia.

O canto da boca dele se move.

— Bom saber que cumpri meu papel de provedor fictício.

— Cumpriu — confirmo. — Ah… hoje eu durmo na casa de uma amiga. Amanhã… — Respiro fundo. — Amanhã eu me mudo para o quarto de hóspedes.

Ele assente, sem pressionar. Sem comemorar.

— Quando estiver pronta.

Viro-me para sair.

Antes de fechar a porta, penso que talvez — só talvez — fingir não seja tão ruim quanto deveria ser.


Notas finais
E aí o que acharam? Odiaram? Calma que vem mais e mais por aí... só deixem eu saber o que estão achando beijinhos e excelente semana a todos. 😘