O Amor que não Era pra Ser
2 Contrato, regras e guerra fria
Notas iniciais


Pov. Peeta Mellark
Eu quase não durmo.
Não é insônia comum, é aquele estado em que o corpo descansa, mas a mente se recusa a desligar. Katniss disse mais cedo que dormiria na casa de uma amiga, e eu disse “quando estiver pronta” com a naturalidade de quem sempre diz isso. Ainda assim, algo ficou errado no meu peito desde então.
Dívidas.
Hospitais.
Urgência.
Como pode alguém ter sido responsável por ela… e deixado tudo ruir desse jeito?
Levanto da cama antes do sol nascer, ainda atordoado. Caminho pela casa silenciosa. Penso em mandar uma mensagem.
Abro o celular.
Fecho.
Não.
Não vou ser esse cara.
“Ei, Mellark está desesperado e preocupado demais pra alguém que não sabe lidar com sentimentos.”
Em vez disso, envio uma mensagem de voz curta e objetiva para a governanta da família.
— Greasy, preciso que organize o quarto de hóspedes ainda pra hoje. Quero tudo impecável e confortável. Coloque um arranjo em cima da mesa. Tulipas. Naquele vaso que fica sobre o aparador da sala.
Desligo e caminho até o quarto de hóspedes, acendendo a luz. Nunca usei esse espaço. Ele sempre foi… eventual. Assim como ela deveria ser.
Analiso o ambiente como analiso um contrato: espaço, limites, condições. Tento memorizar mentalmente tudo o que Katniss impôs mais cedo. Cada regra. Cada linha invisível que ela desenhou entre nós.
Chave na porta.
Ela não confia em mim.
E, honestamente, está certa.
Vou para a Mellark Legal Consulting. Katniss chega pontualmente às oito.
Isso, por si só, já me diz muito.
Ela está de jeans escuro, camiseta simples e jaqueta jogada no braço. Nada nela parece tentar impressionar — e ainda assim, impressiona. O olhar atento percorre meu escritório como se estivesse avaliando alguma falha.
— Então… — diz ela, cruzando os braços. — Esse é o tribunal onde minha sanidade vai ser julgada?
Sorrio de canto. Não porque achei engraçado. Mas porque reconheço inteligência afiada quando vejo.
— Aqui é onde conflitos são resolvidos — respondo. — Com lógica. Não com drama.
— Pena. Eu sou ótima no drama — rebate, seca. — Primeiro vamos esclarecer algo. — Katniss começa, antes mesmo que eu abra a boca. — Eu aceitei isso por necessidade. Não confunda com gratidão, nem com interesse pessoal.
— Ótimo — respondo, abrindo uma pasta vazia apenas pelo gesto. — Então estamos alinhados.
Ela arqueia uma sobrancelha.
— Está mesmo?
Inclino-me levemente para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— Um acordo precisa funcionar para ambos. E, do jeito que está, o seu conjunto de regras parece mais um pedido de habeas corpus emocional.
Ela solta um riso curto, irônico.
* Não dormir juntos.
* Não intimidade física desnecessária.
* Nada de perguntas pessoais.
* Nada de me repreender na frente dos outros.
Levanto um dedo.
— Essa última, eu nunca a repreendi na frente de ninguém. Você sempre foi uma excelente funcionária.
— Sim, eu sei, mas já te vi repreendendo outros funcionários e não foi nada legal.
— Ok. Nunca te repreender na frente dos outros.
Ela me encara por alguns segundos. Avaliando. Calculando.
— Treinamento.
— …treinamento?
— Namoro fake exige prática — explica, séria demais para a situação. — Linguagem corporal. Respostas automáticas. Proximidade convincente. — Arqueio as sobrancelhas. — Não — diz ela, de repente.
— Não o quê? — pergunto.
— Isso — aponta para mim. — Você sentado atrás da mesa, postura de CEO em audiência. Parece que está prestes a me demitir, não a fingir que gosta de mim.
Cruzo os braços.
— Eu sou assim.
— Pois vai ter que aprender a ser outra coisa em público.
Ela se aproxima. Sem pedir permissão.
— Primeiro erro... distância. Casais não mantêm três metros de segurança emocional.
Dou um meio sorriso cético.
— Está sugerindo proximidade estratégica?
— Estou sugerindo que você pare de parecer um robô bem-vestido.
Ela ajusta minha gravata sem aviso.
Meu corpo reage antes do cérebro.
— Katniss...
— Relaxa os ombros — interrompe. — Você fica rígido quando alguém entra no seu espaço.
— Isso é… instintivo.
— Eu sei — diz. — Por isso estou te treinando.
Dou uma risada curta, sem humor.
— Desde quando você virou especialista nisso?
Ela ergue o olhar, séria.
— Desde que precisei parecer bem enquanto tudo estava desmoronando.
Silêncio.
Ela dá um passo atrás, profissional de novo.
— Olhe pra mim — ordena. — Não como advogado. Como alguém que escolheu estar aqui.
Sustento o olhar. É desconfortável. Exige mais esforço do que qualquer negociação.
— Muito intenso — comento.
— Não. Realista.
Ela estende a mão.
— Segura.
— Isso não estava...
— Casais se tocam sem pedir permissão formal — diz. — Confia.
Encosto os dedos nos dela.
O choque é imediato.
Elétrico. Real.
Nós dois congelamos.
— Ok — murmura ela, puxando a mão de volta. — Isso foi…
— Estática — digo rápido demais.
Ela me encara, um meio sorriso surgindo.
— Mentiroso ruim.
— Você sentiu também.
— Senti. E é exatamente por isso que precisamos treinar mais.
Cruzo os braços, tentando recuperar o controle.
— Está se divertindo com isso?
— Um pouco — admite. — Porque você é péssimo nisso.
— Em fingir?
— Em esconder quando algo te afeta.
Ela se afasta, pega a jaqueta.
— Mais tarde, repetimos. Em público.
Café. Pessoas olhando. Teste real.
Para na porta.
— E Peeta?
— Sim?
— Se você travar… eu puxo.
A porta se fecha.
E penso que, não é a negociação que me tira o sono.
É a ideia de confiar nela.
Depois que Katniss vai embora, o escritório parece grande demais.
Contudo, retorno aos afazeres porque é isso que eu faço quando algo sai do controle: organizo, reviso, contenho. Assino dois contratos sem realmente lembrar do conteúdo. Respondo e-mails no piloto automático. Participo de uma reunião curta com dois sócios que discutem prazos e compliance, enquanto minha mente insiste em voltar para um detalhe absolutamente irrelevante.
O jeito como Katniss ajustou minha gravata sem pedir permissão.
Ela não pediu.
Ela assumiu.
Isso me incomoda mais do que deveria.
Quando a reunião termina, caminho até o elevador com a pasta debaixo do braço, já calculando o resto do dia. As portas metálicas se fecham… e se abrem novamente antes de descer.
Gale entra.
Claro que entra.
Ele me encara por meio segundo a mais do que o necessário. Avaliando. Como sempre.
— Nossa — digo, tentando não soar sarcástico demais. — Demorou pra aparecer e ver como estou me saindo como um namorado de mentira.
Ele inclina a cabeça, um sorriso curto surgindo no canto da boca.
— Estava esperando uma intimação formal. — O elevador começa a descer. — E então? — Gale pergunta. — Como está se saindo?
Não penso muito antes de responder.
— Péssimo.
Ele solta uma risada baixa.
— Pelo menos é honesto.
— Honestidade não costuma ser meu problema — respondo. — Falta de preparo emocional, talvez.
Gale me observa, curioso agora.
— Isso soa perigosamente próximo de envolvimento.
— Não seja dramático — corto. — É logística social mal executada.
O elevador para. As portas se abrem.
— Boa sorte, Mellark — diz ele ao sair. — Algumas mentiras são mais difíceis de sustentar do que parecem.
Fico sozinho outra vez.
Droga.
O primeiro teste público
O café fica a duas quadras do prédio. Pequeno, movimentado, exatamente o tipo de lugar onde erros não passam despercebidos.
Katniss já está lá quando chego.
Ela está sentada perto da janela, celular na mão, expressão concentrada. Quando me vê, ergue o olhar e… sorri.
Não um sorriso educado.
Um sorriso íntimo.
Meu corpo reage antes da mente. Passo reto pela mesa, erro o timing, volto.
Ela arqueia uma sobrancelha.
— Primeira falha — sussurra. — Você hesitou.
— Não hesitei.
— Você calculou demais.
Ela se levanta e, sem aviso, entrelaça o braço no meu.
Meu cérebro entra em curto.
— O que você...
— Anda — sussurra. — Casais não discutem estratégia na porta.
Caminhamos até o balcão. Consigo sentir o calor do corpo dela através do tecido do meu paletó. Cada passo parece… errado. Não porque é falso. Mas porque não é.
— Café pra viagem? — O atendente pergunta.
Katniss responde antes de mim.
— Dois. Vamos tomar aqui mesmo. Ele gosta forte, sem açúcar. Eu… — Ela inclina a cabeça, pensativa. — Hoje eu quero doce.
Ela olha pra mim.
— Certo?
Assinto, um segundo atrasado demais.
Ela se vira para o atendente.
— Viu? Convicção.
Sentamos. Pessoas passam. Observam. Naturalmente.
— Regra número um — diz ela, baixinho. — Contato contínuo. Não rígido. Não forçado.
Coloca a mão sobre a minha, casualmente.
O choque não acontece dessa vez.
O que acontece é pior.
É confortável.
— Relaxe os dedos — orienta ela. — Você segura como se estivesse assinando um acordo internacional.
— Isso é mais difícil do que parece.
— Fingir sentimentos costuma ser — responde.
Uma mulher na mesa ao lado sorri para nós.
— Casal bonito — comenta.
Katniss reage instantaneamente.
— Obrigada — diz, apertando levemente minha mão. — Ele fica nervoso em público.
A mulher ri. Vai embora.
Eu encaro Katniss.
— Eu não fico nervoso.
— Você piscou três vezes seguidas — rebate. — Sinal clássico.
— Isso é ciência agora?
— É sobrevivência social.
Ela se inclina, aproxima o rosto do meu.
— Última regra do treino: se alguém olhar… você olha pra mim. Não pro chão. Não pro relógio. Pra mim.
Engulo em seco.
— E se eu errar?
Ela sorri de canto.
— Eu conserto.
Nesse instante, o celular dela vibra sobre a mesa. O sorriso some por um segundo, rápido demais para qualquer outra pessoa notar. Não rápido o suficiente pra mim.
— Katniss?
— Nada — fala, pegando o copo de café. — Só… seguimos.
Mas algo mudou.
E quando ela volta a entrelaçar os dedos nos meus, percebo que o quase desastre não foi o café.
Foi perceber que, quando tudo ameaça sair do controle…
Eu deixo.
✥✥✥
Vou até a sala dela no fim da tarde.
A porta está entreaberta. Katniss está sentada à mesa, digitando algo no computador como se ainda tivesse tempo de sobra. Como se nada estivesse prestes a desmoronar.
— Cadê a mudança? — pergunto, apoiando o ombro no batente.
Ela não se vira de imediato.
— Mudança?
— Você disse que precisaria sair hoje — respondo. — Presumi caixas. Sacolas. Alguma logística.
Katniss finalmente levanta o olhar para mim.
— Ah. Isso.
Ela desliga o computador com calma, se levanta e caminha até um canto da sala. Puxa uma mala pequena, já gasta. Não está cheia. Não chega nem perto disso.
— É só isso.
Franzo a testa.
— Katniss...
Ela passa por mim sem pedir licença, arrastando a mala.
— Eu vou com você — digo, automático. — Pra ajudar a pegar a mudança.
Ela dá de ombros.
— Não tem muito o que ajudar.
Seguimos em silêncio até o carro. No caminho, ela segura nas mãos um porta-retrato. Madeira simples. Vidro levemente riscado.
Olho de soslaio os rostos da fotografia. Presumo ser pais. O tipo de imagem que não se substitui. Que não se empacota junto com o resto.
— Só isso? — pergunto, mais baixo agora.
— É só disso que preciso — assegura ela.
E não olha para trás.
Durante o trajeto, não pergunta para onde estamos indo. Não comenta. Não agradece. Apenas observa a cidade pela janela, como se estivesse se despedindo de algo que já tinha perdido antes mesmo de ser despejada.
Quando chegamos à propriedade Mellark, ela sai do carro, encara a casa destinada a mim — não a mansão — e solta uma risada curta.
— Claro que você mora aqui.
— Não gostou?
— Não. — Ela ajeita a alça da mala no ombro. — Só confirma algumas teorias.
— Sobre mim?
— Sobre controle — responde, caminhando em direção à porta. — Você gosta de ter tudo perto o suficiente pra intervir. Mas longe o bastante pra não se envolver demais.
Não respondo.
Porque ela não está errada.
Mais tarde, depois que ela se instala no quarto de hóspedes — em silêncio, sem curiosidade, sem perguntas — eu fico no meu escritório, luz baixa, celular na mão.
Ligo para Gale.
— Fala comigo. — Ele atende.
— Preciso de um favor.
— Isso soa perigoso vindo de você.
— O apartamento da Katniss — digo direto. — Aluguel. Contas. Tudo. Quero que você verifique a situação inteira.
Há uma breve pausa do outro lado.
— E depois?
— Me passa o valor — continuo. — Eu faço a transferência.
— Peeta...
— Não é caridade. — Corto. — É contenção de danos.
Ele suspira.
— Você está envolvido demais.
— Estou sendo eficiente.
— Claro que está — responde ele, irônico. — Vou resolver.
— Obrigado.
Desligo antes que ele possa dizer mais alguma coisa.
Fico alguns segundos olhando para a tela apagada do celular.
Katniss está a poucos metros de mim agora. Sob meu teto. Com uma mala pequena demais para uma vida inteira… e uma fotografia que carrega tudo o que ela não pode perder.
Percebo que isso não é só um acordo mal calculado. É uma linha que eu cruzei sem negociar os termos.
— Fique à vontade — digo, à porta do quarto que está fechada. — Come o que quiser. A geladeira e o armário estão bem abastecidos. Vou dar uma corrida por aí.
Ela abre a porta de banho tomado com um vestido leve e me encara com as sobrancelhas arqueadas.
— Corrida… agora?
— Agora — respondo, pegando as chaves. — Volto rápido.
Não explico mais nada. Não saberia como.
Na verdade, atravesso o jardim e sigo direto para a mansão. Digito a senha no painel com movimentos automáticos, quase mecânicos. A porta se abre sem resistência. Sempre foi assim aqui.
Caminho com cuidado, passos silenciosos demais para alguém que cresceu nesses corredores. O lugar está calmo e silencioso.
— Mãe… — chamo, a voz baixa.
Sigo até a sala de estar. Ela está sentada no sofá, vestindo um pijama de seda clara e um robe por cima. O cabelo com bob perfeitamente alinhado, como se nunca tivesse conhecido o caos. Uma xícara de chá repousa entre os dedos.
Ela ergue o olhar, surpresa contida — e depois, um sutil sorriso.
— Olha quem tirou um tempinho pra ver a mãe — diz, levantando a xícara em minha direção. — Chá?
— Não, obrigado.
Ela me observa por cima da borda da xícara.
— A que devo a visita inesperada?
Coço a nuca. O gesto me denuncia antes mesmo das palavras.
— Na verdade… vim dizer que trouxe minha namorada pra morar comigo. — Começo. A frase soa estranha até para mim. — E queria saber se você gostaria de marcar um almoço amanhã.
O silêncio que se segue é tenso.
Os olhos dela se iluminam.
— Você e a Cashmere reataram? — pergunta, esperança surgindo disfarçada.
— Não, mãe. — Balanço a cabeça. — Não é ela. É… alguém com quem eu estava saindo há um tempo.
Ela leva mais um gole de chá, processando.
— Entendo. — Pausa breve. — Almoço amanhã está bom.
— Ótimo.
— O papai te ligou? — pergunto, a ansiedade escapando no tom.
— Ligou, mas eu estava com a Enobaria — responde, com naturalidade. — A profissional de pilates.
— Certo… retorna pra ele. Ele ainda está em Bruxelas, mas amanhã viaja para Londres. A Grammar Farmacêutica deve anunciar expansão. Ele vai gostar de ouvir seu discurso motivacional.
Ela inclina levemente a cabeça.
— Certo. Vou ligar. — Depois, aponta para mim com a xícara. — Não se atrase para o almoço.
— Não vou.
Saio antes que ela faça mais perguntas.
Quando retorno para casa, a primeira coisa que noto é o cheiro.
Algo quente. Caseiro. Real.
Katniss está na cozinha, apoiada no balcão, com um prato à frente. Quando me vê, ergue o garfo.
— Seu estômago roncou desde o jardim — diz, sem cerimônia. — Omelete à moda Everdeen. Quer?
Olho para o prato. Tomate-cereja, queijo derretido, espinafre. Simples. Funcional.
— Claro.
Me sento à mesa, de frente para ela. Dou a primeira garfada.
Os temperos são equilibrados. Nada exagerado. Nada supérfluo.
— Até que é bom — admito.
Ela sorri de canto.
— Altíssimo elogio vindo de você.
Engulo mais um pedaço antes de falar, casual demais para o peso da frase:
— Almoço com minha mãe, amanhã.
Katniss engasga com o suco.
— Como assim?
— Almoço. Amanhã — repito.
— Peeta, eu não tenho nada razoável pra vestir... — Ela dispara, já se levantando. — Eu literalmente cheguei aqui com uma mala e dignidade ferida.
— Amanhã cedo vamos ao shopping — digo, tranquilo demais. — Tenho certeza de que você encontrará algo do seu agrado.
Ela me encara, incrédula.
— Você fala como se isso fosse simples.
— Não é? — Inclino a cabeça. — É só um almoço.
Ela solta uma risada nervosa.
— Com a sua mãe.
— Exato.
Katniss passa a mão pelo rosto, respirando fundo.
— Isso não estava no contrato.
— Considere um aditivo — respondo.
Ela me olha por alguns segundos… e suspira.
— Você realmente não sabe o que está fazendo comigo, sabe?
Seguro o olhar dela.
— Sei que estamos sendo convincentes.
Ela pega o prato, leva até a pia e murmura:
— É.
Pov. Katniss Everdeen
Durmo na casa da Rue. Conversamos um pouco, já que o marido dela está em uma curta viagem a trabalho. O apartamento é pequeno, acolhedor, cheira a chá e segurança — coisas que andam em falta na minha vida.
Conto a ela sobre a proposta do Peeta. Sobre o acordo. Sobre o absurdo todo.
Ela me olha daquele jeito. O olhar que antecede uma sentença.
— Katniss Everdeen… — diz, devagar. — Isso está me cheirando a comédia romântica daquelas bem clichê.
— Nem sonhe com isso — respondo, firme.
— Aham… — Ela cruza os braços. — O chefe bonitão contrata a funcionária pra se passar de namorada de mentira? Ah, faça-me o favor.
Reviro os olhos.
— Rue, até alguns dias atrás eu era invisível. Só estou fazendo isso pra sanar as dívidas. Depois eu dou restart e volto a ser a Katniss que luta pra sobreviver.
Dou de ombros.
Ela, por outro lado, sorri. Aquele sorriso sapeca de quando tínhamos treze anos e fingíamos pra mãe dela que não escondíamos uma ninhada de gatos no porão, depois de um resgate improvisado no beco.
— Prevejo ele se ajoelhando — diz, teatral. — Colocando um lindo anel de noivado no seu dedo. E você, toda emocionada, dizendo “sim”.
Faço uma careta.
— Para.
Ela ri.
Pela manhã, nem sei como consigo ir trabalhar. Mas vou.
Depois de colocarmos nossas pautas e condições para seguir adiante com a farsa, iniciamos oficialmente nosso namoro fake. E é quase cômico observar como ele trava.
Como pode um homem se formar em primeiro lugar em Harvard, enfrentar juízes, causas quase impossíveis de vencer… e, diante de uma mulher, tentando demonstrar sentimentos mínimos, se tornar uma pedra da pré-história?
É fascinante. E irritante.
Sou persistente. Determinada. Se isso vai me deixar mais leve financeiramente, eu vou destravar esse homem. Vou ajudá-lo a reconquistar a ex loira siliconada.
Sem querer, escutei o Hawthorne comentando com ele que a tal Cashmere está até noiva. Só por um milagre ela voltaria com o Peeta… mas milagres acontecem. Ou pelo menos, é isso que estou vendendo aqui.
Na cafeteira, meu celular vibra.
Notificação do banco.
Cartão bloqueado.
E isso é só a pontinha do iceberg.
Peeta percebe o espanto no meu rosto.
— Katniss? — pergunta.
— Nada — minto, rápido demais, pegando o copo de café. — Só… seguimos.
Ele me observa por um segundo a mais do que o necessário, mas não insiste. E sou grata por isso.
No fim do expediente, ele se oferece para pegar minha mudança.
Mudança.
Uma mala antiga.
E o porta-retrato dos meus pais.
O carro dele — uma Lamborghini preta — cheira bem. Na verdade, tudo nesse homem e ao redor dele cheira bem. Elegância, controle, dinheiro.
Quando chegamos à propriedade da família, faço um esforço consciente para não parecer uma jeca do interior. Aquilo parece um cenário de filme. A casa dos pais é praticamente um palácio, cercada por jardins impecáveis que prometo a mim mesma explorar à luz do dia.
Mais afastada fica a casa dele.
Grande demais para um solteiro. Moderna. Envidraçada. Madeira nobre. Cortinas pesadas. Móveis sofisticados, sem nada gritante. Tudo no lugar certo.
Subimos a escada para o andar de cima. Entro em estado de choque, mas disfarço quando ele abre a porta do quarto de hóspedes, ao lado do quarto dele.
O quarto é amplo. Há um vaso transparente com tulipas sobre a mesa. O banheiro é todo em mármore, com ducha e uma banheira elegante. O closet… ecoa. Meus poucos pertences mal ocupam uma prateleira.
Ele diz que vai correr. Que eu fique à vontade. Que coma o que quiser.
Depois de um banho rápido, vou até a cozinha. Enquanto preparo uma omelete, danço Paper Rings, da Taylor Swift, que encontro no celular. Esvazio a mente por alguns minutos, fingindo que nada mudou.
Como em silêncio.
Ele chega. Estranho… não está nem suado.
Ofereço o “jantar”. Ele aceita. Come quieto.
Então solta a bomba.
— Almoço com minha mãe, amanhã.
Engasgo.
Literalmente.
A frase ainda está ecoando quando engasgo de verdade. O suco desce errado, arde, eu tusso como se estivesse sendo atacada por um líquido inofensivo demais pra causar esse tipo de pânico.
— Como assim? — Consigo dizer, os olhos ardendo.
Ele repete, calmo demais, como se estivesse falando sobre previsão do tempo.
— Almoço. Amanhã.
Minha cabeça entra em colapso organizado. Não grito. Não surto ali. Eu recuo. É instinto.
— Eu nem tenho nada razoável pra vestir. — Disparo, já calculando tecidos inexistentes, sapatos que não trouxe, dignidade pendurada por um fio.
— Amanhã cedo vamos ao shopping — diz ele, absolutamente tranquilo. — Tenho certeza de que você encontrará algo do seu agrado.
Essa tranquilidade deveria ser proibida por lei.
Subo as escadas alguns minutos depois, carregando um copo com água. Entro no quarto de hóspedes, fecho a porta… e tranco.
Só então desabo.
Não no sentido dramático. No sentido silencioso. Encosto as costas na porta, deslizo até o chão e fico ali por alguns segundos, respirando fundo.
Mãe dele.
Almoço.
Propriedade que parece cenário de filme.
Levanto, caminho até o closet absurdamente grande, onde minha mala antiga parece uma piada visual. Abro o zíper. Algumas blusas. Dois blazers. Duas calças. Cinco saias de trabalho. Um vestido que já viveu dias melhores. O porta-retrato dos meus pais repousa sobre a cômoda como um lembrete silencioso de quem eu sou… e de onde vim.
— Ótimo, Katniss — murmuro pra mim mesma. — Só falta tropeçar na sobremesa e derrubar vinho caro na matriarca Mellark.
Tiro o vestido e troco por algo leve e surrado. Não quero pensar no amanhã. Ainda não.
Deito na cama enorme, confortável demais, estranha demais. A casa está silenciosa, mas não vazia. Consigo sentir a presença dele do outro lado do corredor. Não ouço passos. Não ouço portas. Mesmo assim, sei que ele está ali.
É um silêncio tenso. Não hostil. Carregado.
Viro de lado. Depois para o outro. Olho para o teto alto demais.
Namoro fake.
Só um acordo.
Só até as dívidas.
Repito isso como um mantra.
Em algum momento, ouço passos leves no corredor. Depois nada. Imagino Peeta no quarto dele, provavelmente revisando algo, provavelmente fingindo que esse dia foi apenas mais um item na agenda.
E isso me irrita um pouco.
Porque pra mim não foi.
Fecho os olhos. A imagem da mãe dele surge na minha cabeça sem sequer conhecê-la — elegante, avaliadora, daquelas que medem pessoas em silêncio. Engulo em seco.
— Amanhã você sobrevive — digo baixinho. — Como sempre.
Demoro a dormir. Quando durmo, sonho com mesas longas demais, talheres alinhados demais… e o olhar de Peeta me observando do outro lado, como se estivesse esperando que eu conduzisse tudo outra vez.
Talvez eu conduza.
Talvez eu sempre conduza.
Mas, naquela noite, sozinha num quarto grande demais, com uma mala pequena demais…
Eu só queria que amanhã não chegasse tão rápido.
Porém, chega. Acordo no susto.
Não no sentido dramático — no sentido “onde diabos eu estou?”. O quarto continua grande demais, a cama confortável demais, o silêncio… educado demais. Meu cabelo está um caos completo. Pego o elástico mais próximo e faço um coque desajeitado no topo da cabeça, daqueles que só funcionam porque desistimos de tentar algo melhor.
Desço as escadas em busca de um copo d’água. Só isso. Água. Nada mais.
Tenho certeza absoluta de que ele não está acordado.
Erro número um do dia.
Paro na entrada da cozinha.
Peeta está ali.
Cabelo ainda úmido, camiseta clara, calça de moletom. Despojado. Perigosamente despojado. Está diante do fogão, concentrado, virando bacon com naturalidade demais para alguém que costuma intimidar salas inteiras de advogados.
O cheiro de café recém-passado invade tudo. Bacon. Ovos. Minha resistência mental desmorona.
A torradeira salta de repente.
Dou um pulo.
— Droga!
Ele se vira, surpreso… e sorri.
— Bom dia — diz, como se eu não tivesse acabado de quase morrer por causa de pão.
Meu estômago ronca.
Sempre ronca.
— Café? — Ele oferece.
Só então percebo.
Estou descalça.
Usando um short de dormir minúsculo.
As pernas totalmente à mostra.
E uma camiseta velha de banda de rock que definitivamente já viveu dias melhores.
Olho para mim. Olho para ele.
— Sim… — respondo, limpando a garganta. — Mas antes vou buscar minha dignidade no quarto. Já desço.
Sorrio sem graça e viro rápido demais, subindo as escadas quase correndo.
Não olho pra trás.
Mas sei.
Sei que ele ficou olhando.
O café acontece sem incidentes maiores. Conversas curtas. Silêncios confortáveis. Ele finge normalidade com excelência. Eu tento acompanhar.
Até que entramos no shopping.
E aí… começa a guerra.
Peeta aponta para um vestido justo demais, caro demais, curto demais.
— Esse?
Olho para o cabide. Depois para ele.
— Não sou mulher de programa, Mellark.
Ele franze o cenho, imediato.
— Jamais diria isso a você. — Pausa. — Só achei que gostasse dessa grife. Minha ex gosta.
Ah.
Agora entendo.
— Eu não sou ela — digo, firme. — Mas deixa eu te mostrar o estilo que eu gosto.
Entro no provador decidida.
Saio com o primeiro vestido — simples, elegante.
Ele ergue as sobrancelhas.
Depois outro. E outro. Calça de alfaiataria. Blusa fluida. Saia. Vestido midi.
Cada vez que saio, o silêncio dele aumenta.
Até que visto o último.
Um vestido verde de alcinha, assimétrico atrás, tecido leve que acompanha meu corpo sem gritar.
Abro a cortina.
Peeta paralisa.
Olhos azuis fixos em mim. Sem pressa. Sem disfarce.
— Ficou sem palavras, senhor Mellark? — provoco.
Ele pigarreia.
— Até que você está apresentável.
Mas os lábios… os lábios denunciam um risinho presunçoso.
— Eu estou linda — corrijo. — Só falta o cabelo.
Ele me observa por um segundo.
— Vem. Vamos preencher aquele closet do seu quarto.
— Peeta.
— Katniss.
E pronto.
Saio das lojas com sacolas demais para alguém que chegou com uma mala antiga. Roupas. Sapatos. Lingerie. Marcas variadas. Estilos diferentes.
— Conheço um ótimo salão aqui perto — ele diz.
— Não precisa se incomodar.
— Eu insisto. Você vai adorar.
E me arrasta.
No salão, Portia — impecável, avaliadora — nos encara.
— Não tenho vaga hoje.
Peeta se inclina levemente sobre o balcão.
— Portia… é questão de vida ou morte. Temos um almoço com minha mãe. — Pausa calculada. — Eu pago o dobro.
Silêncio.
— Flavius! Octavia! — Ela chama imediatamente.
Sou cercada.
Cabelo. Unhas. Risadas. Champanhe. Morangos.
Rio mais do que imaginei. Relaxo mais do que permito normalmente. Pela primeira vez em muito tempo… me sinto cuidada.
Peeta fica sentado numa poltrona, observando.
E é quando percebo — talvez ele me achasse séria. Contida. Impenetrável.
Ele jamais me viu assim.
Leve.
Mas me deixo ser guiada pelo momento.
O almoço acontece poucas horas depois.
A mãe dele está impecável. Olhar em mim. Sorriso elegante. Elegância herdada.
— Katniss — diz ela. — Que prazer finalmente conhecê-la.
— O prazer é meu — respondo, firme.
Ela observa cada detalhe. O vestido. O cabelo. A postura.
— Há quanto tempo vocês estão juntos? — pergunta, casual demais.
— O suficiente — responde Peeta, sorrindo. — Para sabermos quando ficar em silêncio… e quando segurar a mão um do outro.
Ele coloca sua mão sobre a minha.
Eu acompanho.
A mãe sorri. Mas os olhos… calculam.
— Interessante — murmura.
O jogo começou.
E, surpreendentemente, eu não estou com medo.
Estou pronta.
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