O Amor que não Era pra Ser
3 Noivados e Outras Mentiras Elegantes
Notas iniciais


Pov. Peeta Mellark
Eu conheço minha mãe.
Conheço o sorriso que ela usa quando aprova.
Conheço o que usa quando tolera.
E conheço o que usa quando está pronta para desmontar alguém com elegância.
Quando entramos na sala de jantar, ela está impecável. Vestido claro, postura reta, olhar treinado. Nada nela é improviso.
— Katniss — diz ela, com aquele tom que parece acolhedor, mas é calibrado. — Que prazer finalmente conhecê-la.
Katniss não hesita.
— O prazer é meu.
Seguro o ar por meio segundo.
Postura perfeita. Tom firme. Nem submissa, nem desafiadora.
Minha mãe faz um gesto elegante para que nos sentemos. A mesa está posta como se recebesse diplomatas.
O almoço começa leve. Comentários sobre clima, negócios, expansão internacional — assuntos seguros. Minha mãe sempre começa assim. Terreno neutro antes da batalha.
Então ela inclina levemente a cabeça.
— Há quanto tempo vocês estão juntos?
— O suficiente para sabermos quando ficarmos em silêncio... e quando segurar a mão um do outro — respondo sorrindo ao colocar minha mão sobre a da Katniss.
— Compreendo. — Minha mãe ergue as sobrancelhas. — Onde se conheceram?
— Na empresa.
— Então, é advogada?
Katniss olha para mim por um segundo. Um segundo cheio de algo que não sei nomear.
— Mãe — digo, limpando o canto da boca com o guardanapo. — Isso está parecendo mais uma série policial do que um almoço.
— Só estou tentando conhecê-la, querido.
— Está tudo bem, Peeta. — Katniss toma um gole de água e respira fundo. — Na verdade, trabalho no setor de assistência jurídica.
Minha mãe cruza os talheres com cuidado milimétrico.
Teste número um: avaliar submissão.
Katniss não falhou.
O segundo teste vem disfarçado de curiosidade.
— Imagino que tenha sido difícil… adaptar-se à nossa dinâmica.
Tradução: você pertence a esse mundo?
Katniss não recua.
— Toda dinâmica exige adaptação, senhora Mellark. Mas eu aprendo rápido.
— Aprende rápido o suficiente para acompanhar a vida do meu filho?
É direto. A primeira lâmina real.
Minha mão se move instintivamente sobre a mesa, quase em direção à dela. Um gesto automático de intervenção.
Katniss não precisa.
— Não estou tentando acompanhar o Peeta — diz ela, tranquila. — Estou caminhando ao lado dele.
Minha respiração falha.
Minha mãe a observa com atenção real agora. Não como intrusa. Como variável interessante.
— E o que você espera desse relacionamento? — Minha mãe pergunta.
Essa é a pergunta definitiva.
Expectativa revela intenção.
Katniss não olha para mim em busca de ajuda. Não suaviza o tom.
— Honestidade — responde. — Mesmo quando não for confortável.
Eu sinto.
Não é encenação. Não completamente.
Minha mãe inclina levemente o corpo para trás na cadeira.
— Interessante — murmura.
Durante a sobremesa, ela muda a estratégia.
— Katniss, você parece muito… centrada. — Pausa. — Sempre foi assim?
— Não — responde ela. — Só aprendi cedo que o mundo não para, para organizar o caos por você.
Eu vejo.
Vejo o momento exato em que minha mãe deixa de testá-la como ameaça social… e começa a avaliá-la como mulher forte.
Há uma diferença enorme.
— E você acredita que meu filho saiba lidar com o caos?
Essa pergunta é para mim. Disfarçada de diálogo com ela.
Katniss sorri de leve.
— Ele gosta de controle. Mas está aprendendo que controle demais isola.
Meu olhar encontra o dela.
Ela não está me expondo.
Ela está me descrevendo.
Minha mãe volta os olhos para mim.
— Parece que você encontrou alguém observador, Peeta.
— Parece — respondo, sem ironia.
O momento mais inesperado acontece quando o chá é servido.
Minha mãe segura a xícara, pensativa.
— Katniss — diz, com um tom mais baixo agora —, meu filho sempre acreditou que precisava provar algo. Ao pai. Ao mundo. A si mesmo. Você percebe isso?
Katniss não vacila.
— Percebo.
— E pretende salvá-lo disso?
Minha mão se fecha involuntariamente.
Eu odeio essa pergunta.
Odeio a implicação.
Katniss apoia os cotovelos na mesa, elegante, firme.
— Não. — A resposta é clara. — Ele não precisa ser salvo. Só precisa ser respeitado quando não quiser provar nada.
Silêncio absoluto.
Eu olho para ela.
E, desde que essa farsa começou, entendo algo fundamental.
Ela não está aqui apenas para desempenhar um papel e nem para ser protegida. Não está aqui para ser moldada. Muito menos para tentar caber no meu mundo.
Katniss está aqui inteira.
E minha mãe percebe isso. Coloca a xícara no pires com delicadeza.
— Muito bem — diz, finalmente. — Gosto de mulheres que sabem exatamente onde estão pisando.
Katniss sorri.
— Eu nunca piso sem olhar.
Minha mãe quase ri.
Quase.
Quando saímos, já no jardim, o ar parece diferente.
Eu caminho ao lado dela em silêncio.
— Você foi bem — digo, por fim.
Ela arqueia uma sobrancelha.
— “Bem”?
— Extremamente bem.
Ela para e me encara.
— Eu não preciso que você me salve, Peeta.
— Eu sei.
E sei mesmo.
Talvez seja isso que me desestabiliza.
Porque eu sempre fui o homem que resolve.
Mas diante de Katniss Everdeen… eu não preciso resolver nada.
Só aprender a caminhar ao lado.
✦✦✦
A guerra fria nunca é sobre quem ataca primeiro.
É sobre quem suporta ficar imóvel enquanto o outro tenta dominar o espaço.
Alguns homens constroem impérios.
Outros constroem a ilusão de que podem sobrepor-se aos demais.
Eu aprendi cedo: poder real não grita.
Ele espera. E corta quando necessário.
Antes mesmo de Seneca Crane entrar na sala de reuniões, eu já sei qual jogo ele pretende jogar.
Ajusto o punho do meu terno — corte italiano, azul profundo quase preto sob a luz da sala. O relógio no meu pulso marca 9h02. Não um segundo a mais. Não um segundo a menos. A pulseira de aço frio encaixada perfeitamente. Presença não é sobre volume. É sobre precisão.
Quando ele entra, eu não me levanto imediatamente.
Eu o deixo atravessar a sala.
Sentir o espaço. Sentir quem o ocupa.
Só então fico de pé.
Alto. Alinhado. Controlado.
Aperto de mão firme.
Nem dominante demais.
Nem submisso.
Equilíbrio é o que desarma homens inseguros.
Mas agora, sentado na cabeceira da mesa, diante de um homem que construiu fortuna desenhando prédios monumentais e reputações frágeis, percebo que também conheço outro tipo de sorriso.
O de ameaça.
Crane está impecável.
Terno escuro sob medida. Abotoaduras discretas. Relógio caro demais para ser sutil. Ele se inclina na cadeira como se estivesse concedendo audiência — não participando de uma reunião.
— Peeta. — Começa ele, voz polida. — A situação não está evoluindo como eu esperava.
Eu abro a pasta diante de mim com calma. Sem pressa. Sem reação.
— Estamos falando dos quatro processos ambientais ou dos dois trabalhistas que surgiram na última semana?
Ele estreita os olhos.
— Estou falando da condução geral.
Claro.
Não é sobre processo.
É sobre controle.
— Gale está à frente das ações trabalhistas — digo, direto. — E está conduzindo com excelência.
O maxilar dele tensiona.
— Com todo respeito, Hawthorne não tem o perfil adequado para lidar com algo dessa magnitude.
Eu ergo o olhar.
Frio. Firme. Sem piscar.
— Hawthorne é um dos melhores advogados desta empresa.
Silêncio.
Ele inclina o corpo para frente, tentando invadir o espaço.
— Não é o que parece.
Eu apoio as mãos na mesa. Dedos alinhados. Postura reta.
— O que parece, senhor Crane?
Ele respira pelo nariz, contido.
— Parece que estou sendo tratado como mais um cliente. E não como alguém que reconstruiu essa parceria com seu pai.
Ah.
Finalmente.
O nome que ele queria usar.
Meu pai.
Há algo curioso sobre homens que invocam figuras paternas como arma. Eles acreditam que ainda estamos tentando provar algo.
— Meu pai confiava na competência técnica da equipe — respondo, controlado. — E eu mantenho o mesmo critério.
Seneca cruza as mãos sobre a mesa.
— Se esses processos não forem resolvidos rapidamente… talvez eu precise reconsiderar nossa parceria.
A ameaça vem vestida de diplomacia.
Eu não mudo a expressão.
— O senhor é livre para escolher sua representação jurídica.
Ele me encara por alguns segundos. Calcula.
Então vem o golpe ensaiado.
— Não acho que seu pai ficaria satisfeito com isso.
Eu me recosto na cadeira.
Devagar.
Relaxo os ombros de propósito.
Mostro que a provocação não encontrou alvo.
— Meu pai deixa essa empresa nas minhas mãos porque confia no meu julgamento. — Minha voz é baixa. Controlada. — E ele ficaria ainda menos satisfeito se eu sacrificasse um excelente advogado para apaziguar inseguranças externas.
A lâmina é fina.
Mas corta.
Seneca não sorri mais.
— Então essa é sua posição final?
— Minha posição é profissional. — Fecho a pasta com precisão milimétrica. — Vou me reunir com o doutor Hawthorne ainda hoje para analisarmos os próximos passos estratégicos. Se houver ajustes técnicos necessários, serão feitos. Mas não por pressão. Por mérito jurídico.
Ele se levanta primeiro.
Eu também.
Altura igual.
Postura igual.
— Espero resultados.
— Sempre entregamos.
Ele estende a mão.
Eu aperto.
Pressão firme. Equilibrada. Sem disputa.
Quando a porta se fecha atrás dele, o ar parece voltar a circular.
Fico alguns segundos parado.
O reflexo no vidro da janela me devolve o homem que minha mãe sempre disse que eu me tornaria.
Controlado.
Impecável.
Intocável.
Eu pego o celular.
Ligo para Gale.
— Você acabou de ser promovido informalmente a motivo de tensão corporativa.
Ele ri do outro lado.
— Devo me sentir honrado?
— Crane tentou te desqualificar.
— Claro que tentou.
— Eu não permiti.
Há uma pausa.
— Obrigado — diz ele, sincero.
— Não agradeça. — Apoio a mão na mesa. — Apenas ganhe esses processos.
Desligo.
Olho pela janela do 25º andar.
Poder não é gritar mais alto.
É não recuar quando alguém tenta usar seu pai contra você.
E, eu não recuei.
Mas o curioso é que não é essa reunião que está ocupando minha mente.
É outra.
O almoço com minha mãe.
Katniss.
A mulher que enfrentou Effie Mellark com mais estabilidade emocional do que metade dos CEOs que já sentaram nessa sala.
E agora está sob o meu teto.
Inteira. Independente.
Perigosamente difícil de manter apenas como estratégia.
Eu pego o celular outra vez.
Abro a galeria.
A foto que tirei sem que ela percebesse — no salão. Katniss rindo com Octavia enquanto Flavius segurava um secador como se fosse uma arma artística.
Ela parecia… leve.
Não atuando. Não sobrevivendo. Apenas, vivendo.
Eu bloqueio o celular.
Expiro.
Eu sempre fui o homem que resolve. Que protege. Que antecipa danos.
Mas com Katniss…
Não sei se estou administrando um acordo.
Ou criando um problema muito maior do que qualquer processo que Crane possa mover.
E, estranhamente…
Não quero recuar.
Vou para meu escritório e coloco um vinil do meu pai, logo Love and Happiness, de Al Green está tocando baixo.
Eu ainda estou olhando para a porta fechada quando Gale entra sem bater.
— Ele fez isso mesmo? — pergunta, já sabendo a resposta.
Aponto para a cadeira à frente da minha mesa.
— Senta.
Ele se joga ali, gravata frouxa, expressão irritada.
— Deixa eu adivinhar. Usou o nome do seu pai.
— Usou.
Gale solta uma risada sem humor.
— Clássico Seneca Crane.
Cruzo os braços.
— Você já resolveu diversos processos para ele. Por que nunca mencionou que ele tinha esse… talento social?
— Porque ele é assim com todo mundo — responde Gale. — Mas comigo ele tenta menos. Sabe que eu não compro chantagem emocional.
Ele inclina o corpo para frente.
— Ano passado ele estava com aquele processo ambiental em Manhattan West. Lembra? A obra que interditaram por irregularidade estrutural?
Assinto.
— Ele queria que eu “agilizasse” a negociação com a prefeitura. Traduzindo, pressionar testemunhas técnicas, manipular cronogramas, empurrar culpa para a construtora terceirizada.
Meu maxilar tensiona.
— E você?
— Resolvi. Legalmente. — Gale ergue as mãos. — Mas ele reclamou o tempo inteiro. Disse que eu não era “flexível”.
Flexível.
Interessante escolha de palavra para alguém que vive à margem da ética.
— Ele está acostumado a vencer pelo cansaço — continua Gale. — Se sentir que não controla o cenário, ameaça sair.
Eu me levanto, caminhando até a janela.
— Ele não vai me intimidar usando o nome do meu pai.
— Eu sei que não — responde, firme. — E agradeço por você não ter me descartado como bode expiatório.
Viro-me para ele.
— Você é um dos melhores advogados dessa empresa e meu amigo. Eu não negocio competência para agradar ego inflado.
Gale sustenta meu olhar por um segundo.
— Bom saber que você ainda é você, Mellark.
Antes que eu responda, duas batidas leves soam na porta.
Não preciso olhar para saber quem é.
— Entra.
Katniss surge.
E por um segundo, o clima pesado da sala muda.
Ela está impecável. Blazer escuro ajustado, cabelo preso de forma elegante, postura firme. Não é a Katniss do salão rindo com morangos e champanhe.
É a Katniss estrategista.
Ela fecha a porta atrás de si.
— Espero não estar interrompendo.
— Nunca — respondo, antes de perceber que falei rápido demais.
Gale ergue uma sobrancelha sutil.
— O que houve? — pergunto.
Katniss caminha até a mesa e coloca uma pasta diante de mim.
— Eu estava olhando os arquivos antigos da empresa do Crane.
— A Ocean Stratton Constructions — completa Gale, com desdém leve.
Nome elegante. Histórico menos.
— Exato. — Katniss confirma. — E encontrei algumas discrepâncias.
Meu corpo se inclina automaticamente.
— Que tipo de discrepâncias?
Ela abre a pasta.
— Projetos com aditivos contratuais suspeitos. Cláusulas que favorecem empresas terceirizadas que, curiosamente, pertencem a sócios ocultos ligados ao próprio Crane.
Gale solta um assobio baixo.
— Ele mais prejudica, trapaceia e ganha dinheiro em cima de jogos sujos do que constrói prédios. — Katniss continua, fria. — E isso é só o que está formalizado.
— Como não me lembro disso. — Gale encara Katniss.
— Porque o advogado que cuidava dos casos na época, era Brutus Pratt.
Meu sangue esfria.
— Brutus nem trabalha mais aqui. Ele nunca foi confiável. — Minha mente começa a trabalhar. — Isso é o suficiente para pressionar o conselho.
Katniss ergue o olhar.
— Não apenas pressionar.
Caminho de volta à mesa.
— O sócio majoritário dele ainda é Plutarch Heavensbee, certo?
— Sim — confirma Gale. — Plutarch sempre foi mais institucional. Menos… performático.
Eu começo a montar o cenário na cabeça.
— Se conseguirmos fazer o conselho votar contra Crane em uma moção de confiança, Plutarch assume a liderança executiva.
Katniss me observa, atenta.
— E você quer que eu encontre algo incontestável.
Não é pergunta.
É leitura.
— Rachaduras reais — digo, direto. — Algo que torne a permanência dele inviável. Sem margem para chantagem. Sem zona cinzenta.
Ela sustenta meu olhar.
— Entendi.
Há um silêncio denso na sala.
Gale se levanta.
— Vou revisar os contratos ambientais novamente. Se houver manipulação técnica, eu encontro.
Ele para ao lado de Katniss.
— Boa sorte, Everdeen.
— Não preciso de sorte — responde ela, seca. — Preciso de tempo.
Quando Gale sai, a sala fica menor.
— Isso pode ficar feio — diz ela, mais baixo agora.
— Eu sei.
— E você ainda quer ir por esse caminho?
Eu me aproximo o suficiente para que a conversa não precise de formalidade.
— Ele tentou me intimidar usando meu pai. Isso deixou de ser apenas jurídico.
Katniss inclina levemente a cabeça.
— Cuidado para não transformar isso em algo pessoal demais.
Eu quase sorrio.
— Você acabou de me entregar material para derrubar o próprio cliente da empresa.
— Ele não é cliente. É um risco — corrige.
Ela vira-se para sair.
— Katniss.
Ela para.
— Seja cuidadosa.
— Eu sempre sou.
No fim do dia, estou revendo um relatório quando a porta se abre abruptamente.
Katniss entra.
Sem bater.
Respiração levemente acelerada. Olhos mais escuros do que o normal. Ela fecha a porta atrás de si.
— Eu encontrei.
Eu me levanto imediatamente.
— O quê?
Ela caminha até a mesa e apoia as mãos na madeira.
— Uma ex-assistente pessoal dele.
— Continue.
— Ela saiu da empresa há dois anos. Oficialmente por “reestruturação interna”. — Katniss faz aspas no ar. — Extraoficialmente… ele tentou forçar um envolvimento.
Meu estômago se contrai.
— Forçar?
Ela sustenta meu olhar.
— Insinuações claras. Pressão. Promessas de promoção se ela aceitasse. Ameaça velada de demissão se não aceitasse.
Minha mão se fecha.
— E ela não aceitou.
— Não. — Pausa. — E foi demitida semanas depois. Sem justa causa. Com cláusula de confidencialidade agressiva.
— Ela denunciou?
Katniss balança a cabeça.
— Não pôde. Ele usou influência. Disse que destruiria a carreira dela no setor se ela abrisse a boca.
O silêncio que se instala não é apenas pesado.
É perigoso.
— Ela falou com você? — pergunto, mais baixo.
— Consegui contato através de um antigo funcionário financeiro. Ela trabalha em um escritório próximo daqui. Na hora do almoço combinei de me encontrar com ela em uma lanchonete.
— E?
— Ela estava com medo. Ainda está.
Eu caminho até a janela, tentando organizar a fúria que ameaça escapar.
— Isso é mais do que jogo sujo empresarial.
— Eu sei.
Viro-me para ela.
— Temos provas?
— Conversas salvas. Mensagens ambíguas o suficiente para ele negar… mas claras demais para o conselho ignorar. E há mais duas funcionárias que pediram transferência interna na mesma época.
Meu olhar encontra o dela.
Ela não parece frágil.
Parece determinada.
— Katniss… isso pode explodir.
— Eu sei.
— Ele pode reagir.
Ela cruza os braços.
— Eu não tenho medo dele.
Meu coração bate uma fração mais forte do que deveria.
— Eu tenho — respondo, sem perceber que falei em voz alta.
Ela me encara.
— Medo do quê?
Dou um passo em direção a ela.
— De você se colocar na linha de fogo por algo que não é seu.
O silêncio muda de tom.
Ela respira fundo.
— Não é sobre você, Peeta. É sobre alguém que foi silenciada.
E ali, naquele instante, eu entendo algo essencial.
Katniss não luta por estratégia.
Ela luta por justiça.
E isso a torna infinitamente mais perigosa do que Seneca Crane jamais imaginou.
Eu me aproximo da mesa.
— Prepare tudo. Com cuidado. Amanhã cedo quero uma reunião com Plutarch Heavensbee.
Ela assente.
Mas antes de sair, para na porta.
— Você ainda quer derrubá-lo?
Eu sustento o olhar dela.
— Agora mais do que nunca.
A porta se fecha.
E eu sei.
Isso deixou de ser apenas sobre controle corporativo.
Isso é guerra.
A cidade já está escura quando eu desligo o computador.
Mas minha cabeça continua acesa.
Katniss me entregou uma bomba.
E, desde então, tudo dentro de mim está… tenso. Como se eu tivesse uma corda esticada no pescoço, prestes a arrebentar.
Crane acha que pode intimidar pessoas.
Acha que pode esmagar reputações.
Acha que pode usar meu pai como se Haymitch Mellark fosse um fantasma conveniente que ele invoca quando quer.
E se ele soubesse metade do que Seneca Crane faz… pisaria no pescoço dele com um sorriso.
Eu pego as chaves.
Saio do escritório.
No estacionamento, Katniss já está me esperando ao lado do carro, bolsa no ombro, expressão séria, mas com aquele ar de “ok, eu sobrevivi mais um dia”.
Ela entra no passageiro.
— Vamos? — pergunta ela.
Eu dou partida.
— Vamos.
Ela se recosta no banco, relaxando um pouco.
— Então… você vai ligar pro Plutarch amanhã cedo?
— Vou.
— E se ele recuar?
— Ele não vai recuar.
Katniss vira o rosto, me olhando de lado.
— Você parece muito confiante.
Eu mantenho os olhos na estrada.
— Eu sou.
Ela solta uma risada baixa.
— Hum. Isso foi bem… Mellark.
O silêncio se instala.
Mas não é um silêncio confortável.
É um silêncio carregado de tudo o que ela descobriu. E de tudo o que eu quero fazer com isso.
Quando percebo, não estou indo para casa.
Katniss percebe também.
— Peeta… — fala devagar. — Esse não é o caminho.
— Eu sei.
Ela se endireita.
— Você está me sequestrando?
— Não.
— Está me levando para um lugar estranho?
— Sim.
— Isso é exatamente a definição de sequestro.
Eu seguro um sorriso.
— Katniss, você pode sair do carro a qualquer momento.
Ela olha pela janela.
— Em Manhattan? À noite? Sem dinheiro?
— Ok. Você tem um ponto.
Ela cruza os braços.
— Onde estamos indo?
Eu paro o carro diante de uma loja de artigos esportivos.
Katniss pisca.
— Você está brincando...
— Não.
— Peeta, eu acabei de derrubar um empresário bilionário em potencial e você quer… comprar uma bola?
— Eu quero comprar outra coisa.
Ela me segue para dentro, desconfiada.
O ar da loja tem cheiro tecido esportivo caro.
Eu vou direto para a sessão de boxe.
Katniss me acompanha, olhando ao redor como se eu tivesse levado ela para um culto.
— Você… treina boxe? — pergunta.
— Treino.
— Isso explica muita coisa.
Eu pego um par de luvas.
Cor vinho.
Depois um tênis.
E um conjunto de treino simples, bonito, eficiente.
Katniss me observa como se eu tivesse enlouquecido.
— Você tá… comprando isso pra mim?
— Sim.
— Por quê?
Eu coloco as coisas no balcão.
— Porque hoje vou te mostrar como eu alivio a tensão do dia.
Katniss arregala os olhos.
— Cuidado, Mellark. Isso está soando sentimental demais.
Eu pago.
Sem olhar para ela.
— Você vai ver, Everdeen. É mais libertador do que sentimental.
Ela fica em silêncio por três segundos.
— Eu odeio quando você fala meu sobrenome assim.
Eu ergo uma sobrancelha.
— Assim como?
— Como se estivesse me desafiando.
Eu sorrio de canto.
— Talvez eu esteja.
Ela abre a boca.
Fecha.
E segue atrás de mim até o carro.
A academia que frequento é do tipo que não aparece no Google.
Discreta.
Luxuosa.
Assim que entramos, o recepcionista me cumprimenta com um aceno respeitoso.
Katniss olha ao redor.
— Isso aqui é uma academia ou um covil de supervilões?
— Depende do dia.
Ela encara.
— Peeta.
Eu aponto para um corredor.
— Vestiário feminino é ali. Te encontro aqui em dez minutos.
Ela segura a sacola como se fosse um pacote suspeito.
— Dez minutos?
— Dez.
Katniss me olha como se eu tivesse acabado de ordenar uma missão impossível.
— Tá.
Ela desaparece.
Eu vou para o vestiário masculino.
Troco o terno com a mesma rapidez com que troco de máscara.
Regata azul-marinho Nike.
Short cinza.
Tênis.
Pego minhas luvas.
Quando volto para a área dos corredores, alongo os ombros.
Respiro.
O peso do dia ainda está em mim.
Mas agora eu tenho um lugar pra jogar isso.
Quinze minutos depois…
Katniss aparece.
E por um segundo, eu esqueço de respirar.
Ela está usando um top preto e um short preto.
Simples.
Esportivo.
Mas o problema não é o conjunto.
O problema é que ela tem pernas.
Pernas que eu não tinha reparado tão claramente ainda.
Katniss anda até mim com uma expressão que mistura desconforto e desafio.
— Eu me sinto ridícula.
Eu me forço a olhar para o rosto dela.
— Você está vestida como alguém que vai treinar.
Ela cruza os braços.
— Não quer que eu vista um biquíni mais ousado?
Eu reviro os olhos.
— Boxe é mais pesado do que parece. E… sua… — Faço um gesto vago no ar — Teoria do biquíni vai durar três minutos antes do suor te humilhar.
Katniss inclina a cabeça.
— Então você está dizendo que eu vou suar?
— Muito.
— Que horror.
— Vai por mim, você não ia querer treinar de burca.
Katniss solta um riso sem humor.
— Hahaha… estou morrendo de rir.
Eu aponto para o chão.
— Alongamento.
— Você fala como se fosse meu treinador.
— No momento, eu sou.
Ela dá dois passos.
— Isso está no contrato?
— O contrato não prevê sua sobrevivência. Eu sim.
Katniss bufa, mas começa a alongar.
Braços. Pescoço. Pernas.
Eu tento não olhar demais.
Falho.
Ela percebe.
— O quê?
— Nada.
— Peeta.
Eu suspiro.
— Você está alongando errado.
— Claro. Eu não podia ser apenas ruim. Eu tinha que ser ruim com estilo.
— Exatamente.
Ela continua alongando.
Eu faço o mesmo.
E então, sem querer, minha mente puxa uma lembrança.
— E outra… — digo, casual demais. — Se me lembro bem, aquele look que você apareceu na cozinha sábado de manhã era o quê mesmo?
Katniss para no meio do movimento.
— O quê?
Eu finjo pensar.
— Um micro short.
Ela abre a boca.
Fecha.
Abre de novo.
— Você… prestou atenção?
Eu dou de ombros.
— Difícil não prestar.
Katniss endireita a postura como se tivesse sido ofendida… mas o rosto dela denuncia.
Um vermelho discreto.
— Se prestou atenção, é sinal que gostou — diz ela, firme. Ou tentando. — E isso não está listado nos limites que impus no contrato.
Eu sorrio.
— Eu não disse que gostei.
Ela estreita os olhos.
— Mentiroso.
Eu ergo uma sobrancelha.
— Alongamento, Everdeen.
Ela resmunga.
Mas obedece.
Eu a levo para a ala do saco de pancadas.
O saco de areia está pendurado, enorme, pesado.
Katniss olha para ele como se fosse um inimigo pessoal.
— Isso é… maior do que eu.
— Sim.
— Você está tentando me matar?
— Só um pouco.
Ela me dá um olhar mortal.
Eu pego as luvas vinho e entrego.
Katniss veste, mexendo os dedos.
— Eu pareço uma personagem de filme ruim.
— Você parece alguém prestes a descobrir que tem raiva acumulada.
Ela encara.
— Eu não tenho raiva acumulada.
Eu aponto para o saco.
— Então bate nele com amor.
Katniss dá o primeiro soco.
O saco… mal se move.
Ela fica em silêncio.
Eu fico em silêncio também.
Até que...
— Isso foi fofo — digo.
Ela vira o rosto lentamente.
— Você quer morrer, Mellark?
— Um pouco.
Ela tenta de novo.
O soco sai torto, sem base, sem força.
O saco balança dois centímetros.
Katniss olha para mim, indignada.
— Ok. Isso é humilhante.
Eu me aproximo.
— Postura.
— Eu tenho postura.
— Você tem postura de quem vai reclamar com o gerente.
Ela solta um som revoltado.
— Me mostra então, senhor Mike Tyson do Direito.
Eu me posiciono.
Dou dois golpes rápidos.
O saco vibra.
O som ecoa no espaço.
Katniss arregala os olhos.
— Jesus...
— Não é força. É técnica.
— Claro. Você vai dizer isso porque nasceu com braços de aço.
— Eu não nasci. Eu treino.
Ela respira fundo.
— Tá.
Eu seguro o saco.
— Agora. Soca.
Ela soca.
Dessa vez, com mais intenção.
Ainda ruim.
Mas melhor.
— De novo.
Ela soca.
E mais uma.
E mais outra.
O rosto dela muda.
O olhar fica diferente.
Menos controlado.
Mais… vivo.
— Isso — digo. — Você está razoavelmente indo na direção certa.
Katniss bufa.
— “Razoavelmente”. Você é um romântico.
— Eu sou um realista.
Ela dá mais um soco.
Dessa vez, forte.
Só que erra a distância…
E acerta meu braço.
Eu sinto.
Não dói de verdade.
Mas o impacto é o suficiente para me surpreender.
Eu solto o saco.
— Vamos lá… — digo, com um sorriso lento. — Então você quer me acertar?
Katniss pisca.
— Eu não…
— Quer sim.
Ela ergue as luvas.
— Você está provocando.
— Estou.
Ela dá um passo.
— Peeta.
— Katniss.
Ela tenta um soco no ar.
Desajeitado.
Eu desvio.
Ela tenta outro.
Eu desvio de novo.
— Você tá brincando comigo!
— Não. Eu estou te ensinando.
— Isso é bullying!
— Isso é boxe.
Katniss rosna.
Literalmente.
E eu quase rio.
Quase.
Porque, de repente, ela tenta com força.
E dessa vez… quase acerta.
— Ah! — avalio, surpreso. — Então é assim.
— Cala a boca! — Ela rosna.
Eu dou um passo para trás.
— Ringue.
Ela congela.
— O quê?
Eu aponto.
— Vamos treinar de verdade.
Katniss olha para o ringue como se fosse uma sentença.
— Peeta, eu vou cair.
— Eu vou te segurar.
Ela me encara.
— Isso também não está no contrato.
— Então considera um bônus.
Ela respira fundo.
E sobe.
No ringue, eu coloco as luvas em mim também.
Katniss fica de frente.
Pequena. Tensa.
Mas com fogo.
Eu me aproximo.
— Primeiro: guarda alta.
Ela levanta as mãos.
— Assim?
— Não. — Eu ajusto o braço dela. — Assim.
Katniss prende a respiração com meu toque.
Eu também.
Afasto rápido.
— Segundo: base.
— Eu tenho base.
— Você tem base emocional. Não física.
— Você é um idiota.
— Eu sou um instrutor.
— Você é insuportável.
— Eu sou eficiente.
Ela dá um soco.
Eu seguro.
— Fraco.
— Eu te odeio.
— Melhorou.
Katniss tenta de novo.
Eu desvio.
Ela quase tropeça.
— Peeta!
— Pés, Katniss. Seus pés!
— Eu não tenho tempo pra pensar nos pés!
— Por isso você está perdendo.
Ela dá outro soco.
Erra.
— Isso é impossível!
— Não é.
— É sim!
Eu sorrio.
— Você está com raiva.
— Eu não estou com raiva!
Ela tenta um soco mais forte.
Acerta de raspão meu ombro.
Eu sinto o impacto.
E, dessa vez, ela sente também.
Katniss para.
Olha para a própria luva.
Depois para mim.
— Eu… acertei.
— Aconteceu — confirmo.
Ela abre um sorriso involuntário.
Pequeno.
Mas real.
— De novo — diz ela.
E, sem ao menos perceber, Katniss Everdeen não está sobrevivendo.
Ela está descarregando.
Ela avança.
Desajeitada.
Eu recuo.
Ela tenta.
Eu ensino.
Ela erra.
Eu corrijo.
Ela acerta.
E quando ela finalmente encaixa uma sequência torta — dois socos e um gancho que quase pareceu um golpe de verdade — ela para ofegante, suada, o rosto brilhando de esforço e vitória.
— Tá vendo? — digo, respirando forte também. — Libertador.
Katniss limpa a testa com o pulso.
— Você ainda está soando sentimental.
Eu me aproximo um passo.
— E você ainda está fingindo que não gostou.
Ela ergue o queixo.
— Eu gostei de socar coisas.
— Eu sei.
— E eu gostei… — Ela pausa, como se a frase tivesse peso demais. — Gostei de não pensar.
Eu sustento o olhar dela.
O ringue fica pequeno demais.
A distância entre nós fica curta demais.
O mundo inteiro, lá fora, com Crane, Plutarch, conselho, ameaça, processos…
Tudo some.
Katniss respira.
Eu respiro.
E, por um segundo, eu penso que talvez essa seja a coisa mais perigosa de todas.
Não Crane.
Não chantagem.
Não escândalo.
Mas o fato de que eu acabei de ensinar Katniss Everdeen a lutar…
E agora eu não sei mais se ela está treinando para vencer um inimigo.
Ou para sobreviver a mim.
Pov. Katniss Everdeen
Depois do almoço com a mãe dele, eu demorei alguns minutos para entender que ainda estava respirando.
Entretanto, sobrevivi.
E não apenas sobrevivi — eu fui… aceita.
Ou algo perigosamente próximo disso.
Agora estou sentada na cama do quarto de hóspedes vulgo meu quarto, ainda estranho dizer isso, mas observando o closet que, a cada dia, parece ganhar vida própria.
Porque Peeta insiste.
Compras.
Muitas compras.
No começo, eu resisti.
— Eu tenho roupas suficientes — dizia.
— Você tem roupas funcionais — respondia ele.
— Funcional é suficiente.
— Não para os eventos futuros.
E assim começou.
Vestidos com cortes impecáveis.
Blazers que estruturam meus ombros.
Saltos que me obrigam a andar como se eu sempre tivesse pertencido a esse mundo.
Eu troquei os óculos por lentes de contato.
Não para esconder quem sou — ele deixou isso claro desde o início.
— Seus olhos são sua melhor defesa — disse ele uma vez, casualmente. — Não os esconda.
Olhos acinzentados.
Meu pai tinha os mesmos.
Às vezes, quando me olho no espelho, quase me reconheço.
Cabelo com brilho. Pele finalmente tratada. Postura treinada.
Namorada de aluguel versão premium.
E, dia após dia, nós treinamos.
Treinamos olhares.
Treinamos toques sutis em público.
Treinamos risadas sincronizadas.
Treinamos o jeito como ele segura minha cintura — firme o suficiente para parecer íntimo, distante o bastante para não cruzar limites.
Às vezes, eu acho que consigo atravessar uma barreira invisível nele.
Um gesto que demora meio segundo a mais.
Um sorriso que não parece ensaiado.
Ele faz piadas ácidas, claro.
— Cuidado, Everdeen. Você está quase convincente demais.
— Isso é um elogio?
— É um alerta.
Mas eu vejo.
Vejo quando ele relaxa.
Outro dia, durante um almoço dentro do expediente, estamos em um restaurante aconchegante, discreto.
O garçom se aproxima.
Eu abro a boca para pedir.
Peeta fala antes.
— Ela vai querer o risoto de camarão e limão siciliano, sem muito parmesão, e água com gás.
Eu congelo.
O garçom anota.
Eu viro devagar para ele.
— Como você…
Ele dá de ombros.
— Você sempre escolhe algo cítrico quando está tensa.
Eu fico olhando.
O cenho levemente franzido. As orbes de um azul absurdo. A naturalidade com que ele diz aquilo.
Eu fico olhando tempo demais.
E me odeio por isso.
Isso é um acordo.
Nada além disso.
Não posso me permitir esquecer.
Em outra manhã, estou passando pelo corredor quando escuto vozes na sala dele.
Peeta e Gale.
O nome surge como uma lâmina.
Seneca Crane.
Eu paro. Não gosto daquele homem. Nunca gostei. Há algo na maneira como ele sorri que parece… ardiloso demais.
Escuto fragmentos.
— Ele está pressionando o conselho.
— Não vou ceder.
— Ocean Stratton Constructions não é intocável.
Ocean Stratton Constructions.
Eu volto para minha mesa.
Pego a caixa com os arquivos.
Eu leio tudo.
Sempre leio.
Se trabalho ali, vou conhecer cada cliente, cada processo, cada rachadura.
E encontro.
Transferências suspeitas.
Cláusulas abusivas.
Acordos silenciosos.
E algo pior.
Levo para Peeta.
Ele escuta.
E aquela postura muda.
Ele não me trata como assistente.
Ele me trata como estrategista.
Após o expediente Peeta me leva para a academia treinar boxe. Segundo ele, é o que o ajuda a aliviar as tensões do dia.
Eu não sabia que socar alguma coisa podia deixar as pernas tremendo.
Mas ali estou eu, descendo do ringue como se tivesse atravessado uma guerra pessoal — cabelo grudado na testa, braços doloridos, orgulho discretamente inflado.
Peeta segura as cordas para eu passar.
— Cuidado.
— Eu estou perfeitamente… — Meu joelho falha ao tocar o chão — Estável.
Ele segura meu cotovelo antes que eu tropece.
O toque é rápido.
Mas quente.
— Estável, claro — diz ele, neutro demais.
— Cala a boca.
Ele ri.
E o som da risada dele, depois de um dia como aquele, é estranhamente leve.
No carro, eu me jogo no banco da Lamborghini como se tivesse acabado de correr uma maratona sem respirar.
— Eu não sinto meus braços.
— Amanhã você não vai sentir nada acima da cintura — constata, dando partida.
— Você me enganou.
— Eu avisei.
Eu cruzo os braços, tentando parecer indignada, mas estou sorrindo.
— Você gosta disso, não gosta?
— De quê?
— De bater nas coisas.
Ele dá de ombros.
— Eu gosto de descarregar o que não posso resolver imediatamente.
Eu o observo de lado.
A cidade passando pelas janelas.
A luz dos postes refletindo no maxilar dele.
— E resolveu?
Ele pensa.
— Parcialmente.
O silêncio que se instala é diferente do que era mais cedo.
Não é pesado.
É compartilhado.
Meu estômago resolve se manifestar.
Alto.
Eu fecho os olhos.
Peeta não olha para mim.
Mas o canto da boca dele se move.
— Jantar? — pergunta.
— Sim.
— O que você quer?
Eu penso por meio segundo.
— Comida mexicana.
Ele vira o volante.
— Direita ou esquerda?
— Você tem mais de uma opção?
— Eu tenho muitas opções.
— Direita. Eu quero algo caótico.
Ele ri de novo.
Minutos depois, ele para a Lamborghini diante de um daqueles drive-thru iluminados demais, com cardápio colorido e cheiro de tortilla no ar.
Eu olho para o carro.
Depois para o letreiro.
Em seguida para ele.
— Você está realmente parando uma Lamborghini aqui?
— Por quê? Você acha que ela só come trufas? — brinca ele, referindo-se ao carro.
— Eu acho que ela tem medo de guacamole.
Peeta abaixa o vidro.
Faz o pedido com naturalidade absurda.
Dois burritos. Nachos. Molho extra. Refrigerante.
Eu observo.
— Você já fez isso antes.
— Muitas vezes.
— Isso arranha sua reputação de advogado impecável?
— Katniss, eu lido com bilionários o dia inteiro. Um burrito não vai destruir minha imagem.
Eu sorrio.
Talvez eu goste dessa versão dele.
A que não se importa.
Em casa, tomamos banhos decentes.
Decentes no sentido de demorados.
Eu fico sob a água quente até os músculos pararem de reclamar.
Quando desço para a cozinha, usando um short confortável e uma camiseta larga, Peeta já está lá.
Cabelo úmido.
Regata simples.
A mesa está posta.
Os burritos abertos.
E…
Uma tigela de salada.
Eu paro na entrada.
— Você está comendo salada.
Ele olha para mim.
— Sim.
— Depois de boxe e burrito?
— Equilíbrio.
Eu me sento.
— Você é disciplinado com a saúde.
Ele dá de ombros.
— Eu tento.
— Que coisa triste.
Ele ergue uma sobrancelha.
— Disciplina não é triste.
— É quando você escolhe folhas verdes ao invés de nachos com queijo derretido.
Eu puxo os nachos para mim.
Ele observa.
— Você vai me julgar?
— Nunca.
— Mentira. Seus olhos julgam.
— Meus olhos analisam.
— Mesma coisa.
Ele sorri de lado.
Eu mordo o burrito.
Fecho os olhos.
— Isso é felicidade em formato cilíndrico.
— Dramática.
— Verdadeira.
Comemos.
Entre provocações.
Entre risadas.
Até que, em algum momento, eu levanto para pegar mais molho.
Peeta levanta ao mesmo tempo.
Nós quase colidimos.
Paro.
Ele para.
Estamos próximos demais.
O cheiro dele ainda tem resquício de sabonete, antitranspirante caro irresistível e algo mais quente.
Eu sinto o calor da pele dele.
Ele segura o balcão atrás de mim para não encostar.
Mas isso só diminui ainda mais a distância.
— Você deveria se alongar antes de dormir — sugere ele, voz mais baixa.
— Você deveria parar de soar como treinador.
O ar fica denso.
Meu coração bate mais rápido do que deveria.
Os olhos dele descem por um segundo.
Voltam.
Eu sinto.
Ele sente.
A cozinha parece pequena demais.
— Katniss…
Ele começa.
E eu não sei se quero que ele termine.
Meu cérebro grita contrato. Muitas cláusulas impostas por mim.
Limites.
Prazo.
Sem envolvimento emocional.
Eu engulo em seco.
— Isso não está listado — digo, firme demais.
Ele entende.
Sempre entende.
O maxilar dele tensiona levemente.
Mas ele recua meio passo.
O suficiente.
O celular dele vibra na bancada.
O som corta o momento.
Peeta olha para a tela.
E eu vejo.
A mudança.
A postura se ajusta.
Os ombros ficam mais retos.
O olhar endurece.
Ele desbloqueia o celular.
A notificação brilha.
Eu não preciso perguntar.
Ele inspira fundo.
Quando olha para mim de novo, não é o homem do ringue.
Nem o da cozinha.
É o advogado.
O estrategista.
— Vamos descansar — diz, prático. Automático. — Amanhã será um dia exaustivo.
Eu cruzo os braços.
— E?
Ele segura meu olhar.
— E no sábado vamos ao leilão beneficente no Gala Whitmore.
Ah.
Então é isso.
Eu assinto lentamente.
— Namorada de aluguel em modo operacional.
— Exatamente.
Silêncio.
Mas não é o mesmo silêncio de antes.
Há algo diferente agora.
Porque, por um instante na cozinha, não parecia contrato.
Parecia escolha.
Peeta pega o prato.
— Boa noite, Katniss.
— Boa noite, Mellark.
Eu subo as escadas.
Mas não imediatamente.
No meio do caminho, paro.
Olho para baixo.
Ele ainda está na cozinha.
Sozinho.
Impecável.
Controlado.
Como se nada tivesse quase acontecido.
E eu me odeio um pouco por sentir…
Que talvez eu não queira mais que isso seja apenas fingimento.
✦✦✦
Dois dias depois, estou na minha mesa com meu caderno aberto — aquele onde treino meu sonho jurídico — quando Gale surge.
Sem bater.
— Everdeen, você é um gênio!
Eu ergo os olhos, calma demais.
— Eu sei que sou competente, mas gosto quando confirmam.
Ele ri.
— A Ocean Stratton Constructions não resistiu. Plutarch nem titubeou quando colocamos a alternativa diante dele.
Eu pego meu café.
Está frio.
— Então, a reunião foi produtiva.
— Produtiva? Foi bombástica.
Ele se inclina sobre minha mesa.
— Já pensou em ser advogada?
Eu respiro fundo.
— Esse sempre foi meu sonho.
Ele pisca.
— E por que não é?
Eu fecho o caderno devagar.
— Digamos que faltou pouco… mas não consegui a pontuação necessária pra entrar em Harvard.
— Harvard? — Ele arqueia as sobrancelhas. — Tem outras universidades que você pode tentar.
Eu sorrio de canto.
— Eu sei que parece bobo… mas eu quis tentar lá.
Porque se eu ia sonhar…
Eu queria sonhar alto.
Gale me observa por um segundo diferente.
— Você não é bobo, Everdeen.
Ele se afasta.
— E, se depender de mim, você ainda vai usar um terno melhor que o do Mellark e ganhar causas maiores que as dele.
Eu solto um riso baixo.
Mas meu peito aperta.
Porque eu sei.
Eu poderia.
Se tivesse tido as mesmas oportunidades.
Mais tarde, quando entro na sala de Peeta para entregar um relatório, ele está de pé, olhando pela janela.
— A Ocean Stratton Constructions vai mudar de liderança — diz, sem se virar. — Plutarch assume oficialmente na próxima semana.
— Então conseguimos.
Ele se vira.
Os olhos azuis pousam em mim.
— Você conseguiu.
Eu sinto algo estranho com isso.
Orgulho.
Reconhecimento.
Algo quente demais.
— Foi trabalho em equipe.
Ele dá um passo na minha direção.
— Você não é só eficiente, Katniss.
Eu sustento o olhar.
— Eu sei.
Ele quase sorri.
Quase.
E nesse quase mora o perigo.
Porque, às vezes, eu sinto que estou atravessando alguma barreira invisível.
E ele deixa.
Só um pouco.
Contudo, em outro momento volta a ser o robô quase insensível.
E num passo de mágica sábado chega.
— Katniss! Se você não descer em três minutos, vamos nos atrasar!
A voz de Peeta ecoa do andar de baixo.
Eu olho meu reflexo pela décima vez.
Talvez décima quinta.
O vestido azul royal abraça meu corpo como se tivesse sido feito sob medida. Longo, justo, com uma fenda profunda que sobe pela perna esquerda e ameaça revelar mais do que minha dignidade permite.
O tecido é sofisticado. Sedoso. Pesado.
Perigoso.
— Já estou indo! — respondo, mesmo sabendo que ainda estou ajustando o tecido aqui e ali.
Eu puxo a barra.
Ajusto o decote.
Respiro fundo.
Gala Whitmore.
Leilão beneficente.
E uma ex que ele ainda não superou completamente.
Ok.
Se é guerra social que ele quer vencer…
Eu também sei lutar.
Eu aperto o corrimão.
E desço.
Peeta está ao pé da escada, impecável em um terno azul escuro perfeitamente alinhado camisa branca sem gravata. Ele olha para o relógio — e então levanta o olhar.
E congela.
Por um segundo inteiro.
Eu vejo.
Ele tenta disfarçar.
Tarde demais.
— Estamos atrasados — anuncia, seco demais.
— Estou me sentindo um tanto deslocada — confesso, descendo o último degrau. — Esse vestido é um pouco demais. Ainda não sei como você me convenceu a comprar isso.
Eu puxo o tecido na coxa.
Depois no decote.
Ele dá um passo à frente.
— Relaxa.
— Fácil falar. Você está completamente coberto.
Ele solta um humor ácido.
— Acredite, Everdeen, se eu pudesse usar uma fenda estratégica para intimidar adversários jurídicos, eu usaria.
Eu reviro os olhos.
— Idiota.
Ele estende um casaco preto elegante para mim.
— Leve isso. Vai te dar uma falsa sensação de segurança até você perceber que ninguém está olhando o suficiente para justificar esse drama interno.
Eu cruzo os braços.
— Você tem um talento especial para ser irritante.
— É um dom.
O motorista já nos espera.
Entramos no carro.
O silêncio é diferente. Mais tenso. Mais elétrico.
Peeta evita me olhar por tempo demais.
Mas quando olha…
Olha de verdade.
O Gala Whitmore é exatamente o tipo de evento que parece ter sido projetado para deixar pessoas comuns desconfortáveis.
Luzes douradas. Cristais. Champanhe circulando como se fosse água.
Eu seguro o casaco fechado.
Peeta inclina-se levemente, a voz baixa, próxima demais do meu ouvido.
— Dá uma olhada ao redor.
Eu olho.
Vestidos ousados. Decotes profundos. Fendas que fariam a minha parecer comportada.
— Está quase conservadora — completa ele.
Eu solto o ar lentamente.
— Você é insuportavelmente seguro.
— Eu trabalho com fatos.
Eu retiro o casaco.
A sensação do tecido frio contra a pele exposta me faz prender a respiração.
Peeta não diz nada.
Mas o maxilar dele endurece por meio segundo.
Ele oferece o braço. Eu aceito. Entramos. Socializamos. Sorrisos. Aperto de mãos. Comentários estratégicos.
Peeta é impecável nesse ambiente. Controlado. Elegante.
E então…
Ele para.
O corpo inteiro.
Eu sigo o olhar dele.
E vejo.
Cashmere.
Linda.
Um vestido ousado em degradê alaranjado que lembra pôr do sol. O tecido envolve o corpo dela como se fosse parte da pele.
Mas não é ela que prende completamente o olhar de Peeta.
É o homem ao lado.
Alto.
Confiante.
Anel brilhando no dedo dela.
— Mas isso não é possível… — Peeta sussurra.
No minuto seguinte, o casal está diante de nós.
Cashmere sorri.
Polida. Perfeita. Avaliativa.
— Peeta Mellark… você veio. E… acompanhado.
O sorriso dela é doce demais.
Eu mantenho a postura.
Peeta inclina levemente a cabeça.
— Então quer dizer que é mesmo verdade… você está noiva de Sirius Plinth.
O nome sai com uma leve ironia.
O olhar dele desce para a mão dela.
Para o anel e para Sirius Plinth.
Filho do senador Sejanus Plinth.
O tipo de nome que abre portas antes mesmo da pessoa falar.
— Sim — responde ela, suave. — Estamos noivos.
— Espero que isso não o incomode, Mellark. Pelos velhos tempos. — Sirius complementa.
Eu sinto a tensão.
Quase palpável.
E então…
O braço de Peeta envolve minha cintura.
Firme. Possessivo. Quente.
— Tranquilo, Sirius. São águas passadas — fala ele, com naturalidade assustadora. — Estou noivo também. E sinceramente feliz.
Eu quase o acotovelo.
Noivo?
Que merda é essa?
Mas ao invés disso, sorrio.
Porque a expressão de Cashmere…
É absolutamente impagável.
— Noivo? — repete ela, surpresa genuína. — Como assim?
Peeta aperta levemente minha cintura.
— Pois é. Trabalhamos juntos há tanto tempo… mas nunca a enxerguei de verdade até o dia em que ela entrou na minha sala com a solução para um caso complicado.
Ele mente. Com perfeição. Eu quase acredito.
Cashmere me avalia.
— Você é advogada também? Parece a escolha perfeita para o homem que não deixa nada penetrar o campo de força.
Antes que eu abra a boca, Peeta intervém.
— Ela é a melhor. Deixa qualquer oponente sem palavras. Mas pudera… foi a oradora da turma dela em Harvard.
Harvard?
Eu sorrio, fingindo timidez.
Internamente, estou processando o tamanho da mentira deslavada.
— Loirinho… vai com calma — digo, rindo leve. — É muita informação para eles processarem.
Sirius ri educadamente.
Cashmere não.
— Depois dessa, preciso de algo refrescante — completo. — Foi um prazer conhecê-los. E parabéns pelo noivado.
Eu seguro o braço de Peeta.
E o arrasto até o bar.
Assim que estamos fora do alcance deles, eu paro.
Viro para ele.
— Noivo?
Ele pede dois drinks ao barman antes de me encarar.
— Estratégia.
— Harvard?
— Exagero poético.
— Oradora da turma?
— Eu acredito no seu potencial.
Eu cruzo os braços.
— Você quase me deu um ataque cardíaco.
Ele pega o drink. Entrega para mim.
— Você foi impecável.
Eu encaro o líquido no copo.
— Você ainda gosta dela.
Ele fica em silêncio por meio segundo.
— Eu gosto de vencer.
Eu levanto o olhar.
— Isso não respondeu a pergunta.
Ele inclina o corpo levemente, aproximando-se.
— Você está incrível hoje.
Desvia o assunto.
Clássico.
Eu tomo um gole.
— Não muda de assunto, Mellark.
Ele sustenta meu olhar.
Azul contra cinza.
— Não estou tentando reconquistar Cashmere.
— Então por que toda essa encenação?
— Porque ela queria me ver sozinho.
Eu engulo em seco.
— E você queria que ela me visse.
Ele não nega.
Silêncio.
Eu ainda estou analisando o rosto dele.
Ele não negou.
Ele nunca nega quando a verdade o favorece.
E é exatamente isso que me provoca.
Inclino a cabeça.
— Já que quer encenar… vamos lá.
Ele franze levemente o cenho.
— O que você está planejando, Everdeen?
Eu não respondo.
Apenas estendo a mão.
Ele ainda está segurando o celular.
Eu puxo.
— Katniss...
— Shhh...
Seguro o aparelho diante do rosto dele.
A tela acende.
O desbloqueio facial reconhece Peeta imediatamente.
Clique.
A tela se abre.
Ele arregala levemente os olhos.
— Você acabou de usar meu próprio rosto contra mim?
— Advogado brilhante. Segurança digital questionável — murmuro.
Clico na câmera e coloco no modo selfie.
Estico o braço.
Aproximo meu rosto do dele.
E beijo a bochecha dele.
O clique captura o momento exato em que ele está dividido entre controle e surpresa.
— O que você está fazendo? — pergunta, atordoado.
— Calma, Mellark. Relaxa aí.
Abro o Instagram dele.
Ele tenta pegar o celular.
Eu viro o corpo.
— Nem pense.
Escolho a foto.
Digito a legenda.
Ele está impecável.
Eu estou sorrindo como se estivesse completamente apaixonada.
E ele… parece genuinamente desarmado, mas com um sorriso divino.
Perfeito.
Digito:
“Noite memorável no #GalaWhitmore ✨Orgulhoso de ter ao meu lado quem me lembra que vencer é melhor quando se caminha junto.
#Peetniss”
Postar.
O celular vibra quase imediatamente.
Uma notificação.
Depois outra.
E outra.
Curtidas.
Comentários.
“Finalmente!”
“Ela é linda.”
“Peeta Mellark comprometido? O mundo está diferente.”
Eu devolvo o aparelho para ele com um sorriso satisfeito.
— Pronto. Somos oficialmente um casal apaixonado.
Ele olha para a tela.
Depois para mim.
— #Peetniss?
— É marketing. E você adora marketing.
Ele passa a mão pelo rosto, segurando o riso.
— Você é um problema.
Eu inclino a cabeça.
— E você me contratou.
Ele me observa com aquele olhar azul mais intenso do que deveria ser permitido.
— Você beija assim todo parceiro contratual?
Eu sorrio, provocando.
— Só os que parecem que precisam de ajuda performática.
A música sobe no salão.
Leilão anunciado.
Eu apoio o copo no balcão.
— Só mais uma coisinha, Mellark... vê se me avisa antes de anunciar casamento na próxima vez.
Ele quase sorri.
— Você lidou bem com o improviso.
— Eu lido bem com guerra.
Ele me olha de um jeito diferente.
Mais profundo.
Mais real.
— Eu sei.
O celular de Peeta continua vibrando.
Curtidas.
Comentários.
Notificações.
Ele ainda está olhando para a tela quando uma voz surge atrás de nós.
— Hashtags.
A voz é grave. Arrastada. Divertida demais.
Eu me viro.
O homem que se aproxima não precisa se anunciar.
Terno escuro impecável, postura relaxada demais para alguém que claramente domina qualquer ambiente em que pisa. Cabelos claros salpicados de fios prateados. Olhos atentos, avaliadores — mas com aquele brilho quase debochado que antecede um comentário perigoso.
Haymitch Mellark.
Ele observa primeiro o salão.
Depois o filho.
E então… para em mim.
Um sorriso lento curva seus lábios.
— Já que meu filho é sucinto em nossa vaga interação à distância... — diz, com humor ácido perfeitamente polido — Resolvi fazer uma surpresa e ver com meus próprios olhos a raridade que ele encontrou.
Peeta prende o fôlego.
— Pai?
Haymitch ajusta discretamente os punhos da camisa.
— O jatinho pousou há vinte minutos. Vim direto para o leilão. Não podia perder um espetáculo desses. — Um single malt, por favor. — Gentilmente pede ao barman.
O olhar dele volta para mim.
Demora um segundo a mais do que o confortável.
Não é julgamento.
É análise.
E, de repente, eu entendo.
Se sobreviver à mãe dele foi um teste…
O pai é outro jogo completamente diferente.
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