O Amor que não Era pra Ser
4 O Que Não Estava no Contrato
Notas iniciais


Pov. Peeta Mellark
O celular continua vibrando na minha mão.
Curtidas.
Comentários.
Notificações.
A tela ilumina meu rosto de um jeito quase irônico. Advogado premiado. Estrategista frio. E agora refém de hashtags.
Eu ainda estou lendo um comentário particularmente criativo quando ouço a voz atrás de nós:
— Hashtags.
Grave. Arrastada. Divertida demais.
Eu não preciso me virar para saber quem é.
Mas me viro.
Meu pai está parado a poucos passos, postura relaxada demais para alguém que construiu um império jurídico atravessando fronteiras como quem troca de gravata.
Ele observa e comenta como se estivesse diante de um espetáculo privado.
E, de certa forma, está.
Pede um single malt ao barman depois de dizer que queria fazer uma surpresa.
— Achei que bilionários resolvessem disputas com advogados e contratos — continua ele. — Não com legendas apaixonadas na internet.
Fecho os olhos por meio segundo.
Controle. Sempre controle.
— Pai.
Ele inclina o copo na direção de Katniss, estudando-a com aquele olhar que já desarmou executivos e desmontou adversários em audiências internacionais.
— Então essa é a responsável pelo colapso do meu feed corporativo?
Katniss cruza os braços, mas sorri. Não recua. Não se encolhe.
— Prazer, senhor Mellark.
E é aí que eu percebo.
Ele não a observa como minha mãe observou — avaliando postura e pedigree.
Não como Cashmere observou — medindo status e utilidade.
Ele observa como algo normal.
— Katniss Everdeen. — Ele ergue o copo, falando devagar, quase saboreando o nome. — A raridade.
Eu pigarreio.
— Pai...
— Relaxa, garoto. Eu gosto quando o mercado se agita. — Ele olha para o meu celular. — #Peetniss? Sério?
Ela ergue o queixo.
— Estratégia de posicionamento público.
Meu pai sorri de lado.
— Ah, então além de rara, é marqueteira.
Eu tento recuperar o controle.
— Ela só estava...
— Fazendo exatamente o que você queria. — Ele me interrompe, tranquilo. — Só que melhor.
O silêncio que se instala não é desconfortável.
Meu pai toma mais um gole do líquido âmbar sem tirar os olhos dela.
— Sabe, garoto… — diz, ainda encarando Katniss. — Quando você me ligou meses atrás dizendo que precisava “resolver uma questão emocional com precisão jurídica”, eu achei que você ia contratar uma atriz.
Eu sinto o maxilar enrijecer.
Ela olha para mim.
Questão emocional.
Precisão jurídica.
Droga.
Ele continua:
— Mas você foi mais longe. Está com alguém que pensa.
— Pai.
— Estou elogiando. — Ele finalmente me encara. — Você sempre foi excelente em estratégia. Sempre soube montar defesas impecáveis. Mas nunca foi bom em… improviso.
E então volta o olhar para ela.
— E essa menina claramente é.
Katniss sorri. Doce demais.
— Eu lido bem com guerra.
Ele solta uma risada baixa.
— Ah, eu imagino.
Dá um passo para trás.
— Continuem. Só queria confirmar se o escândalo era real ou fruto da minha imaginação. — Levanta o copo. — Parabéns pelo noivado… moderno.
Ele começa a se afastar, misturando-se aos convidados. Mas antes lança, por cima do ombro:
— Só cuidado com hashtags, garoto. Às vezes o que começa como marketing termina como manchete.
Eu o observo desaparecer entre ternos caros e vestidos impecáveis.
E, contra todas as minhas expectativas…
Ele gostou dela. Não de maneira óbvia. Não calorosa. Não paternal. Mas reconheceu. Respeitou. Ele nunca foi de desperdiçar respeito.
Quando volto o olhar para Katniss, ela está me analisando.
Lentamente.
— “Questão emocional com precisão jurídica”? — pergunta debochada.
Fecho os olhos por um instante.
— Katniss...
Ela inclina a cabeça.
— Você me contratou como solução estratégica, Mellark?
Eu a encaro.
E acabo me perdendo em seus olhos acinzentados por um segundo.
— Eu te contratei porque você é a única pessoa que...
— Relaxa, Mellark. — O ar muda. — Mas... isso não respondeu minha pergunta.
Ela não recua. Não sorri.
Dou um passo em sua direção.
Baixo a voz.
— Nem todas as respostas cabem numa legenda.
O salão volta a fazer barulho ao nosso redor.
Mas eu já não estou ouvindo mais ninguém.
Só o som da própria ironia.
Passei a vida resolvendo conflitos com cláusulas, contratos e previsibilidade.
E agora estou aqui.
Assistindo meu pai, o homem que raramente aprova alguém, gostar de Katniss Everdeen à primeira vista.
Talvez pelo humor ácido.
Talvez pela inteligência afiada.
Ou talvez porque ele reconheceu algo que eu demorei mais para admitir.
Ela não está aqui pelo espetáculo. Ela está aqui porque escolheu estar.
Um fotógrafo passa por nós e pede uma foto. Abraço Katniss por trás passando meu braço entorno de sua cintura.
Clique.
Caminhamos até o salão, onde inicia o leilão. O ambiente está cheio. Aplausos para cada lance.
Eu sorrio quando preciso sorrir.
Mas meu olhar, traiçoeiro, insiste em voltar para um ponto específico do salão.
Cashmere e Sirius.
Durante anos ele foi meu melhor amigo. O tipo de amigo que conhece seus pontos fracos. E depois aprende a usá-los. Ele estava lá quando Cyril morreu. Estava lá quando eu quase perdi o controle da empresa no período de luto. Estava lá quando alguns contratos misteriosamente começaram a “escapar” da Mellark Legal Consulting.
E estava lá… quando eu comecei a me afastar de Cashmere.
Eu nunca tive provas.
Mas tive silêncio suficiente.
E silêncio, às vezes, diz mais que qualquer confissão.
— Peeta.
Katniss aperta levemente minha mão.
Eu volto ao presente.
— Estou aqui.
— Eu sei — diz ela baixo. — Mas você estava em outro lugar.
Eu forço um sorriso.
— Só observando o mercado.
Ela me olha como quem não compra essa desculpa.
E então o celular vibra novamente.
Eu não preciso olhar para saber.
O post.
#Peetniss.
Causando.
Algumas pessoas já cochicham.
Alguns olhares curiosos.
E então eu vejo.
Cashmere pega o celular.
O sorriso dela desaparece por meio segundo.
Sirius inclina-se para ver.
Ela força um riso.
Mas os olhos não riem.
Ela está vindo.
— Eu preciso ir ao banheiro — digo para Katniss.
Ela arqueia uma sobrancelha.
— Subitamente?
— Estratégia de hidratação.
Ela quase ri.
— Vai lá, advogado.
Eu me afasto.
O corredor que leva aos sanitários é mais silencioso.
Menos teatral.
Eu apoio as mãos na pia por alguns segundos, olhando meu reflexo.
Controle.
Respiração estável. Indiferença calculada.
A porta se abre atrás de mim.
Eu não preciso me virar.
— Então é verdade.
A voz dela é suave.
Sempre foi.
Eu me viro devagar.
Cashmere fecha a porta.
Está linda.
Sempre esteve.
Mas agora vejo outra coisa.
Expectativa ferida.
— O que exatamente é verdade? — pergunto, neutro.
Ela cruza os braços.
— Eu esperei por anos você fazer o pedido a mim. — A frase sai sem sorriso. — E nunca nem passou pela sua cabeça fazer.
Silêncio.
— Agora está todo apaixonadinho nessa aí?
Eu a observo.
Não há histeria.
Só orgulho ferido.
— Realmente você acha que tem algum direito de me questionar? — Minha voz sai baixa. Controlada demais. — Logo você que está noiva do homem que quase me arruinou quando eu estava de luto?
O golpe atinge.
Ela pisca.
— Isso não é justo.
— Não?
Eu dou um passo à frente.
— Cyril tinha acabado de morrer. Eu estava tentando manter a empresa de pé. E contratos começaram a desaparecer.
Ela aperta os lábios.
— Você nunca provou nada.
— Eu nunca precisei.
Silêncio.
Ela respira fundo.
— Sirius nunca...
— Sirius sempre soube exatamente onde eu estava mais vulnerável.
Ela hesita.
Esse meio segundo é suficiente.
— Você nunca me pediu em casamento, Peeta — insiste, como se isso anulasse o resto.
Eu inclino levemente a cabeça.
— Você queria um pedido.
— Eu queria certeza.
— E eu estava tentando sobreviver.
As palavras ficam entre nós.
Ela dá um passo mais perto.
— E agora? Você tem certeza com ela?
Eu penso em Katniss.
No beijo improvisado.
No olhar firme.
No jeito como ela não tenta me convencer de nada.
— Agora eu não estou tentando provar nada para ninguém.
Cashmere observa meu rosto.
Procurando.
— Você ainda me ama?
Pergunta simples.
Resposta complexa.
Eu demoro meio segundo.
— Eu amei a ideia do que a gente poderia ter sido.
Ela fecha os olhos brevemente.
Quando abre, está novamente impecável.
— Você sempre foi bom com palavras.
— E você sempre foi boa em escolher o momento certo para sair.
Ela dá um sorriso pequeno.
— Cuide bem da sua noiva de Instagram.
Eu sustento o olhar.
— Cuide bem do seu futuro senador.
Ela passa por mim.
A porta se abre.
Fecha.
Eu fico ali por alguns segundos.
Respirando.
Controlando o que não posso demonstrar.
Quando volto ao salão, o leiloeiro está no auge do entusiasmo.
Luzes direcionadas ao palco.
Uma pintura enorme projetada no telão.
Eu avisto Katniss imediatamente.
Ela está sentada, postura impecável, pernas cruzadas com naturalidade, mas o olhar atento demais para alguém que está apenas fingindo estar confortável.
Eu me sento ao lado dela.
— E aí — murmuro baixo —, o que foi que eu perdi?
Ela não olha para mim imediatamente.
— Seu pai acabou de comprar um quadro lindo por oitocentos e cinquenta mil dólares.
Eu viro devagar.
— Ele fez o quê?
Ela finalmente sorri de canto.
— Oitocentos e cinquenta mil. — Dá um gole no drink. — Sem pestanejar.
No palco, o leiloeiro anuncia o nome do comprador.
Haymitch Mellark.
Aplausos.
Eu olho para ele algumas fileiras à frente.
Ele levanta a taça discretamente, como se tivesse comprado uma gravata, não uma obra de arte.
— Ele nem me avisou que vinha — digo quase em um sussurro.
Katniss inclina levemente a cabeça.
— Ele parece o tipo de homem que gosta de assistir ao espetáculo mais de perto.
Eu quase rio.
Ela não está errada.
O leilão continua.
Mais lances.
Mais aplausos.
Porém, minha mente já está cansada.
Quando finalmente decidimos sair, encontramos meu pai perto da saída.
— Bela compra — digo, direto.
Ele ajusta o paletó.
— É para sua mãe.
Eu arqueio uma sobrancelha.
— Oitocentos e cinquenta mil dólares… para um gesto romântico?
Ele me olha de lado.
— Sua mãe ama essa artista. Sempre disse que ela sabe passar expressão singela e... fabulosa ao mesmo tempo.
Eu observo o rosto dele.
Não há ironia ali.
— Você poderia ter comprado algo menor.
— Poderia. — Ele dá de ombros. — Mas ela merece o que é grande.
Eu não comento.
Katniss também não.
Ele segura minha atenção por um segundo a mais.
— Boa noite, garoto. — Depois olha para Katniss. — Continue usando bem as hashtags. Elas parecem funcionar.
Ele se afasta.
Eu solto o ar que não percebi estar segurando.
No carro, o cansaço finalmente me alcança.
Katniss encosta a cabeça no banco.
Quando chegamos em casa, ela entra primeiro.
E a primeira coisa que faz é tirar os saltos na entrada.
— Deus, dá próxima vez vou de tênis Nike — resmunga, massageando os pés.
Eu sorrio.
— Você disse isso no almoço com minha mãe.
— E eu menti.
Ela sobe as escadas descalça, o vestido ainda impecável, mas a postura agora relaxada.
Eu fico na sala por um momento.
Pego o celular.
Abro o Instagram.
Notificações ainda explodindo.
Curtidas passando de cem mil.
Comentários se multiplicando.
Empresários.
Revistas.
Perfis de fofoca.
“Peeta Mellark noivo?”
“Quem é a garota misteriosa?”
“#Peetniss é real?”
Eu apoio o celular no sofá.
Isso saiu do controle.
Mas não da maneira que eu imaginava.
Subo as escadas.
O corredor está silencioso, iluminado apenas pelas luzes indiretas embutidas no teto. O som dos meus passos ecoa baixo demais para uma casa daquele tamanho.
O quarto dela fica exatamente em frente ao meu.
A porta está aberta. Eu paro no meio do corredor.
Katniss está sentada na beira da cama, o vestido azul ainda abraçando o corpo dela. Os pés descalços tocam o chão de madeira. O cabelo, que horas antes estava impecavelmente modelado, começa a ceder ao cansaço. O glamour ainda está ali… mas misturado com algo mais real.
Exaustão.
Ela me olha.
— Estamos virais?
Ergo o celular e balanço levemente.
— Extremamente.
Ela fecha os olhos por um segundo, suspira, passa a mão pelo rosto.
— Ótimo. Agora eu tenho que sustentar a mentira até quando mesmo?
Eu a observo por um segundo longo demais.
Não respondo de imediato.
— Não pareceu mentira hoje.
Ela ergue os olhos devagar.
— Não começa.
Não começo.
Mas também não nego.
Fico encostado no batente da porta do meu quarto, braços cruzados, tentando manter a distância segura que ela sempre exige — e que eu finjo respeitar sem dificuldade.
Ela inclina levemente a cabeça, avaliando minha expressão.
— A propósito, “noivo”… cadê meu anel espetaculoso?
Eu pisco.
— Anel?
Ela arqueia uma sobrancelha, teatral.
— Anel, Mellark. Sabe aqueles com diamante corte princesa? Gigantesco. Escandaloso. Digno de manchete.
Passo a mão pela nuca, um gesto automático que me denuncia mais do que gostaria.
— Foi você que deu início a essa catastrófica mentira — continua ela, erguendo as mãos como se estivesse se rendendo a uma causa perdida.
Eu solto um meio riso.
— Podemos ir a uma relojoaria amanhã.
Ela me encara.
— Você fala isso como se fosse comprar café.
— Para mim, é quase isso.
— Claro que é — rebate ela, seca.
O silêncio volta a se instalar.
Ela olha para as próprias mãos por um instante. Depois para mim.
— Você realmente vai comprar um anel?
— Se vamos sustentar isso, precisamos sustentar direito.
Ela levanta da cama.
O vestido desliza pelo corpo dela quando ela dá dois passos na minha direção. Não é provocação. É natural demais para ser calculado.
E isso é o que me desestabiliza.
— Você entende o que um anel significa, não entende? — pergunta, a voz mais baixa agora.
— Significa comprometimento público.
Ela revira os olhos.
— Significa promessa.
Eu sustento o olhar.
— Significa símbolo.
Ela para a menos de um metro de mim.
Perto o suficiente para que eu sinta o perfume leve que restou do salão.
— E você gosta de símbolos, não é? — provoca.
— Eu gosto de controle.
— Exato.
Ela cruza os braços.
— E se isso sair do controle?
A pergunta não é sobre o anel.
Eu sei.
— Então eu resolvo — respondo, automático demais.
Ela solta uma risada curta.
— Você realmente acha que resolve tudo.
— Eu resolvo muita coisa.
— Pessoas não são contratos, Peeta.
Isso me atinge mais do que deveria.
Ela percebe.
— Relaxa — completa, suavizando o tom. — Eu estou brincando. Se vamos fazer isso, fazemos direito. Anel, fotos, sorrisos ensaiados.
Ela dá mais um passo, invade meu espaço dessa vez.
— Só não me venha com algo exagerado demais.
— Você acabou de pedir um diamante corte princesa gigantesco.
— Era sarcasmo.
— Difícil diferenciar quando você está falando sério.
Ela sorri.
E o sorriso dela, sem plateia, é diferente. Menos afiado. Mais… verdadeiro.
— Boa noite, Mellark — diz, finalmente.
Mas não se move.
Eu também não.
Ficamos ali, frente a frente no corredor, portas abertas atrás de nós como linhas invisíveis que ainda não cruzamos.
— Katniss.
— Hum?
— Meu pai gostou de você.
Ela ergue as sobrancelhas.
— Isso é bom ou perigoso?
— Com ele? As duas coisas.
Ela inclina a cabeça.
— E você? — pergunta. — Gostou do que viu hoje?
Eu poderia responder com ironia.
Poderia transformar em provocação.
Mas não faço.
— Eu já sabia o que veria.
Ela sustenta meu olhar por mais um segundo.
Depois dá um passo para trás.
— Não começa — repete, mais suave.
E então entra no quarto.
A porta não se fecha completamente.
Fica entreaberta.
Eu permaneço parado no corredor por alguns segundos, o celular ainda na mão, as notificações continuando a vibrar.
Anel.
Promessa.
Símbolo.
Controle.
Talvez amanhã eu compre um diamante.
Mas esta noite…
O que realmente me assusta não é o fato de termos viralizado. E sim, a possibilidade de que, a pergunta de Cashmere me assustou mais do que deveria.
— Você ainda me ama?
Será que amo?
Ou talvez a resposta que dei seja mais real do que imaginei.
✦✦✦
A manhã seguinte começa como quase todas as outras da minha vida — organizada, pontual e com objetivos claros.
A diferença é que, dessa vez, o objetivo usa vestido verde oliva, anda ao meu lado e observa vitrines como se estivesse entrando num território hostil.
Atravessamos a Quinta Avenida. Katniss está com óculos escuros, cabelo preso num coque alto e expressão neutra — mas eu já sei ler os sinais.
Ela está alerta.
Entramos na relojoaria.
Vidros impecáveis. Mármore claro. Iluminação para fazer qualquer pedra parecer eterna. Um funcionário de terno escuro nos recebe com aquele sorriso treinado para reconhecer patrimônio líquido à distância.
— Senhor Mellark.
Claro que ele me reconhece. Já comprei joias para minha mãe e para Cashmere, nunca algo semelhante com o que estava prestes a pedir.
— Precisamos ver anéis de noivado — digo, direto.
Katniss me lança um olhar lateral.
— Precisamos? — murmura.
O vendedor nos conduz até uma mesa privativa. Bandejas são posicionadas diante de nós com luvas brancas e cerimônia exagerada.
Diamantes corte princesa. Corte oval. Solitário clássico. Halo duplo.
Katniss observa tudo em silêncio.
Até que meus olhos param.
No anel.
O mesmo da foto que eu havia analisado horas antes.
Estrutura robusta em ouro branco. Haste firme. Uma superfície oval inteira pavimentada por diamantes — dezenas deles — criando um brilho contínuo, quase ofensivo.
Não é delicado e nem discreto.
É presença.
— Esse — digo.
O vendedor ergue as sobrancelhas discretamente.
Katniss vira o rosto devagar.
— Você está brincando.
— Não.
O anel é colocado diante dela.
Mesmo sob a luz neutra da loja, ele explode em reflexos.
Ela o encara como se estivesse avaliando uma arma de alto calibre.
— Peeta… isso é exagero. — Ela respira fundo. — É grande demais.
Cruzo os braços.
— Não é exagero.
— Isso cobre metade do meu dedo.
— Exatamente.
Ela me encara.
— Você quer que eu pareça uma árvore de Natal?
Inclino levemente a cabeça.
— Você está noiva de um Mellark. Tenho uma reputação a zelar.
Ela fica em silêncio por dois segundos.
— Reputação a zelar? — repete, incrédula.
E então faz algo que me desmonta completamente.
Se inclina.
Aproxima os lábios do meu ouvido.
A voz dela desce um tom.
— Você ainda parece um robô. — O hálito quente roça minha pele. — Se está escolhendo um anel dessa magnitude, pelo menos tenta parecer apaixonado. Siga o que treinamos.
Meu corpo reage antes da mente.
Eu endireito os ombros.
Olho para ela — não como quem está assinando um contrato.
Como quem escolhe.
Seguro a mão dela.
Devagar.
Levanto o anel.
— Confia em mim — digo, mais baixo.
O vendedor observa, discretamente emocionado demais para alguém que só vende pedras.
Eu deslizo o anel no dedo dela.
Ele encaixa perfeitamente.
Claro que encaixa.
Katniss olha para a própria mão.
O brilho é quase indecente.
— Peeta…
Mas dessa vez o tom não é totalmente crítico.
Eu aproximo a mão dela dos meus lábios.
Beijo os nós dos dedos.
Não é exagerado.
É calculado… mas não totalmente.
— Perfeito — falo teatral.
O vendedor sorri como se estivesse presenciando uma cena de filme.
— Vou providenciar o certificado e o embrulho, senhor.
— Não precisa embrulhar — respondo. — Ela já está usando.
Katniss me olha de lado.
E por um segundo, não há ironia.
Apenas algo que parece… surpresa.
Assino a compra. Sem hesitação.
Quando saímos da loja, o sol atinge o anel e o reflexo quase nos cega.
Ela levanta a mão.
— Isso vai chamar atenção demais.
— Essa é a ideia.
— Eu vou precisar de óculos escuros só para olhar para mim mesma.
— Acostume-se.
Ela para no meio da calçada.
— Você realmente não faz nada pela metade, faz?
— Não.
Meu celular vibra. Uma vez. Depois de novo. Pego no bolso. Nome na tela.
Pai.
Atendo.
— Sim.
A voz dele vem direta, sem introdução.
— Você e sua noiva têm quinze minutos para aparecer aqui.
Olho para Katniss.
Ela percebe imediatamente.
— O quê? — sussurra.
— Quinze minutos — repito.
— Excelente. — Meu pai continua. — Quero ver a pedra pessoalmente.
A ligação termina.
Katniss cruza os braços.
— Ele sabe?
— Ele sempre sabe.
Ela olha para o anel.
Depois para mim.
— Quinze minutos?
— Quinze.
Ela respira fundo.
O modo sobrevivência ativa.
— Certo. — Ela ajeita a postura. — Ombros relaxados. Olhar direto. Toque natural. Ela entrelaça os dedos nos meus. — E, pelo amor de Deus, Mellark… tenta não parecer que está prestes a negociar um tratado internacional.
Eu a puxo levemente para perto.
— Você pediu para eu parecer apaixonado.
Ela ergue o queixo.
— Então começa agora.
O carro chega à esquina.
Nova York continua girando ao nosso redor.
Mas enquanto entramos no veículo, percebo algo desconfortavelmente claro, o anel pode ser exagerado. Porém, a forma como a mão dela se encaixa na minha…
Não parece estratégia nenhuma.
Chegamos à casa dos meus pais.
Katniss caminha ao meu lado serena, mas sei que observa tudo.
Quando entramos na sala principal, a pintura que meu pai comprou no leilão, já está no lugar de destaque.
Acima do aparador central.
Eu paro.
O quadro é maior do que imaginei.
Uma mulher jovem segurando um bebê de cabelos avermelhados, o rosto inclinado em um gesto íntimo, quase sagrado. O traço é suave, mas intenso. A maternidade não é retratada como perfeição idealizada — é retratada como força.
A assinatura no canto inferior diz:
Élodie Marceau
Minha mãe está diante da tela.
Silenciosa.
Os dedos quase tocam a moldura, mas não chegam a encostar.
— Gostou, mãe? — pergunto.
Ela não se vira imediatamente.
A voz sai mais baixa do que o habitual.
— Seu pai ainda se lembra de como é ser romântico.
Ele está encostado na parede, mãos nos bolsos, como se não fosse nada demais.
— Vi essa pintura em exposição alguns anos atrás. — Minha mãe continua. — Naquela galeria em Chicago… lembra, Peeta?
Eu lembro.
Cyril estava conosco.
Ela sorri, mas é um sorriso que carrega memória.
— Cyril disse que eu era a melhor mãe do mundo… e que merecia ser retratada por Élodie Marceau.
O silêncio pesa.
Meu irmão sempre foi direto demais com sentimentos.
Eu engulo em seco.
Meu pai limpa a garganta.
— E você merece.
Ela finalmente se vira.
Os olhos estão firmes, mas brilhando.
— Obrigada.
Katniss está ao meu lado.
Quietamente. Observando. Não como intrusa, mas como alguém que entende o que significa perder e ainda permanecer inteira.
Meu pai se afasta da parede e caminha até nós com aquele jeito displicente que engana qualquer um que não o conheça bem.
Ele para diante de Katniss.
Não olha para mim.
Olha direto para a mão dela.
O anel capta a luz do lustre central e devolve um brilho quase insolente.
Meu pai ergue uma sobrancelha.
— Então é esse o famoso escândalo mineral.
Katniss sustenta o olhar.
— Exagerado demais?
Ele ignora a pergunta. Pega delicadamente a mão dela — com respeito, não invasão — e gira levemente o pulso para analisar melhor a peça.
Advogado analisando cláusula importante.
— Ouro branco sólido. Pavê completo. Estrutura firme. — Ele solta um meio sorriso. — Nada discreto.
Eu cruzo os braços.
— Discrição nunca foi o objetivo.
Ele finalmente olha para mim.
— Eu sei.
E então solta, casual demais:
— O Jules me ligou.
Katniss franze levemente o cenho.
— Jules?
— O gerente da relojoaria — Meu pai responde. — Velho conhecido. Assim que você passou o cartão, ele me ligou parabenizando a escolha do meu filho.
Ela me encara devagar.
— Claro que ele ligou.
Eu suspiro.
— Ele liga sempre que faço uma compra relevante.
— Compra relevante? — repete ela.
— Jules gosta de estatísticas. — Meu pai completa, divertido. — Disse que você não hesitou nem por um segundo, Peeta. Isso, vindo de você, é praticamente um gesto impulsivo.
— Eu sabia o que queria.
— Sabia — concorda ele. — E escolheu algo que não permite dúvidas.
Ele volta a olhar para Katniss.
— Um anel desses não é para esconder. É para anunciar.
Minha mãe se aproxima, curiosa.
Ela segura a mão de Katniss com delicadeza.
— Posso?
Katniss assente.
Minha mãe observa a pedra sob a luz natural que entra pelas janelas altas.
— É ousado — diz, com um leve sorriso. — Mas combina com você.
Katniss pisca, surpresa.
— Combina?
— Você não é uma mulher que passa despercebida — Minha mãe responde. — Mesmo quando tenta.
Meu pai observa a troca em silêncio.
Depois olha para mim novamente.
— Então… — diz, com aquele tom que antecede provocação. — Quando exatamente você pretendia me contar antes que o joalheiro fizesse o trabalho por você?
— A surpresa perdeu o timing — respondo, seco.
— Surpresa? — Ele ri baixo. — Filho, você comprou um farol marítimo para colocar no dedo da menina. Isso não é surpresa. É comunicado oficial.
Katniss aperta levemente minha mão.
Disfarçado.
Mas eu sinto.
— Quinze minutos foi tempo suficiente? — pergunta ela, olhando para ele com firmeza.
Meu pai inclina a cabeça, avaliando-a.
— Para ver a pedra? Sim. — Pausa. — Para avaliar a noiva? Nunca é tempo suficiente.
Ela não recua.
Minha mãe sorri de leve.
— Ótimo. Então vamos almoçar e você, Haymitch querido, pode continuar avaliando.
Meu pai também sorri.
Não é aprovação explícita.
Mas é interesse.
Ele dá um passo para trás.
— Jules disse outra coisa — comenta, casual.
Eu já sei que não vou gostar.
— O quê?
— Que você não perguntou preço.
Katniss vira o rosto para mim lentamente.
— Você não perguntou o preço?
— Não era relevante.
— Não era relevante? — repete ela.
Meu pai cruza os braços.
— É assim que sei que não foi só reputação.
O comentário paira no ar.
Eu sustento o olhar dele.
Ele sabe.
Sempre sabe.
Katniss retira a mão da minha por um segundo apenas para observar o anel novamente. A luz da sala reflete nos diamantes como se estivesse viva.
— É grande — murmura, mais para si do que para nós.
Eu me aproximo um pouco.
— Não é exagero.
Ela me olha de lado.
— Você continua insistindo nisso.
— Porque não é.
Meu pai observa a troca com atenção.
Não a superfície.
O subtexto.
— Vamos à mesa — anuncia ele, por fim. — Antes que essa conversa vire um interrogatório emocional.
Minha mãe dá o braço a ele.
Eu ofereço o meu a Katniss.
Ela aceita.
Enquanto caminhamos em direção à sala de jantar, sinto novamente o encaixe dos dedos dela nos meus. Firme e natural.
O almoço transcorre com naturalidade. Meu pai insiste em falar de negócios como se estivéssemos em uma reunião de diretoria.
Minha mãe comenta sobre um evento beneficente para o próximo mês.
Katniss participa com equilíbrio perfeito — inteligente sem parecer competitiva, elegante sem forçar delicadeza.
Ela aprende rápido.
Ou talvez apenas saiba sobreviver bem.
Até que meu pai apoia o copo na mesa com suavidade.
— Precisamos ir a Boston na quinta-feira.
Ergo o olhar.
— Boston?
— Johanna e Finnick fecharam um contrato bilionário com uma empresa de tecnologia asiática. Temos que assinar alguns documentos pessoalmente. É de suma importância estar presente.
Eu já sei o que isso significa.
Viagens rápidas.
Reuniões intensas.
Presença estratégica.
Minha mente já organiza agenda, logística e deslocamento.
Mas antes que eu responda, minha mãe limpa delicadamente os lábios com o guardanapo.
— Falando em presença de suma importância… — Ela começa, observando Katniss com um sorriso controlado. — Esse noivado foi… surpreendentemente rápido.
Katniss mantém a postura.
— Dona Effie...
Minha mãe inclina a cabeça.
— Ainda assim, uma família tradicional aprecia certos rituais. Um anúncio formal ao invés de hashtags altamente viralizadas. É de suma importância uma recepção íntima.
Eu conheço esse tom.
Ela já está organizando mentalmente flores, lista de convidados, arranjos de mesa.
— Temos o salão na propriedade — continua ela, quase distraída. — Poderíamos fazer algo elegante. Nada exagerado. Apenas cento e cinquenta pessoas.
Eu fecho os olhos por meio segundo.
— Mãe, sem exageros — digo antes que queira convidar toda a alta sociedade.
— Exagero? — rebate, ofendida com delicadeza. — Peeta, é um noivado.
Meu pai observa, divertido.
— Deixe-a organizar, garoto. Sua mãe precisa de projetos emocionais.
Katniss aperta discretamente minha mão sob a mesa.
Eu sinto.
E não sei se é pedido de ajuda ou contenção.
O almoço se encerra com sorrisos e promessas de agenda.
Atravessamos o jardim em silêncio.
O vento leve movimenta as folhas. O som da fonte ao longe preenche o espaço entre nós.
Katniss caminha ao meu lado, mas algo mudou na postura dela.
Mais rígida. Mais alerta. Entramos em casa. Assim que a porta se fecha atrás de nós , ela se vira imediatamente.
Os olhos já não estão serenos.
— Peeta, eu estou assustada. — A franqueza dela me atinge direto. — Esse disfarce está tomando proporções astronômicas. — Ela passa a mão pelo cabelo, inquieta. — Não estamos noivos de verdade. Isso está indo longe demais.
Ela dá dois passos para trás.
Como se precisasse de espaço físico para respirar.
— E quando isso acabar, hein?
O silêncio se instala. Não há plateia agora. Não há pais. Não há vendedores. Só nós dois.
— Katniss...
— Não. — Ela balança a cabeça. — Primeiro foi o gala. Depois o anel. Agora festa de noivado... Isso não parece mais um acordo simples.
Ela cruza os braços, mas não é defensiva.
É vulnerável.
— Você sabe como essas histórias terminam? — pergunta. — Uma parte sai ilesa. A outra… não.
Eu me aproximo um passo.
Ela não recua dessa vez.
— Não vai terminar assim.
— Você não pode prometer isso.
Ela está certa.
Eu prometo resultados.
Não sentimentos.
— O plano sempre teve prazo — digo, controlado. — Quando a exposição pública estabilizar, quando a narrativa cumprir o objetivo… encerramos.
A palavra soa fria até para mim.
Encerramos.
Ela sustenta meu olhar.
— E você consegue simplesmente encerrar?
Pergunta simples.
Resposta complexa.
Eu hesito por meio segundo.
Tempo suficiente para ela perceber.
— É isso que me assusta — ela murmura.
O ar entre nós fica pesado.
O anel brilha sob a luz da sala.
Exagerado.
Visível.
Irreversível demais para algo que deveria ser temporário.
Eu dou mais um passo.
Agora estamos perto.
— Nós estamos no controle — digo, baixo.
Ela me encara.
— Você sempre diz isso.
Pov. Katniss Everdeen
Encaro ele.
E me perco.
É rápido. Mas não rápido o suficiente.
A imensidão azul de seus olhos é perigosa. Não porque intimida. Porque acolhe. Porque parece sincera demais para alguém que vive de estratégia.
Não espero resposta.
Se eu esperar, eu fraquejo.
Giro nos calcanhares e subo a escada na velocidade da luz. O som dos meus passos ecoa alto demais no silêncio da casa. Abro a porta do quarto, entro, fecho com firmeza.
Meu coração está batendo com pressa exagerada.
Ridícula.
Me jogo na cama e afundo o rosto no travesseiro.
— Aaaah! — grito, abafado pelo tecido macio demais para alguém que já dormiu contando moedas.
Respiro.
Uma vez.
Duas.
Levanto o rosto devagar.
O anel captura a luz do sol que entra e explode em brilho.
Grande.
Imponente.
Escandalosamente real.
Eu giro a mão para observar melhor.
Os diamantes refletem como se estivessem vivos.
E se fosse real?
O pensamento surge sem permissão.
E se isso não fosse um teatro?
E se aquele beijo discreto na minha mão na relojoaria não tivesse sido ensaio?
E se o jeito que ele me olhou quando deslizou o anel no meu dedo não fosse atuação?
Sacudo a cabeça.
— Acorda, Everdeen.
É apenas um contrato.
Nada disso é real.
Você vai conseguir um plano de contenção.
Vai encerrar esse teatro com elegância.
Sem que pareçamos um casal de palhaços depois do espetáculo.
Sento na cama e passo a mão pelo rosto.
Mas a memória não colabora.
A selfie improvisada.
O jeito que ele inclinou o rosto quando eu puxei.
O beijo no rosto dele — rápido, estratégico.
O calor da pele dele sob meus dedos.
Peeta Mellark cheirava tão bem.
Colônia amadeirada. Algo limpo, sofisticado. O tipo de perfume que fica na memória e não na roupa.
Eu fecho os olhos.
Droga.
Eu poderia ter dito “não”.
Poderia ter recusado na primeira proposta. Poderia ter mantido minha dignidade intacta, meu orgulho impecável.
E estaria morando na rua.
Não em uma casa de revista.
Não dormindo em uma cama que não range.
Não usando um anel que vale mais do que todas as minhas dívidas juntas.
Abro os olhos novamente e encaro o teto.
Ele sempre diz que está no controle.
Mas o que me apavora não é perder o controle financeiro.
É perder o controle emocional.
Eu não sou ingênua.
Homens como Peeta Mellark não se apaixonam por necessidade. Eles escolhem. E quando deixam de escolher… seguem em frente.
E eu?
Eu sobrevivo.
Sempre sobrevivo.
Olho outra vez para o anel.
Ele não parece temporário.
Parece promessa.
Engulo em seco.
— Não é real — repito para mim mesma.
Mas meu coração continua batendo como se fosse.
Fico tempo demais imersa nos próprios pensamentos.
Tempo suficiente para imaginar finais desastrosos, manchetes constrangedoras e despedidas elegantes que provavelmente não seriam nada elegantes.
Batidas na porta.
Leves.
Cautelosas.
— Katniss… você está bem? — A voz dele vem suave demais.
“Não, não estou bem.”
É isso que eu queria dizer.
Mas em vez disso, levanto, respiro fundo e abro a porta.
Ele está ali. Sem postura de CEO. Só aquela expressão que mistura preocupação e tentativa de não invadir espaço.
— Vem — digo, antes que eu pense demais. — Precisamos te treinar.
Ele pisca.
— Treinar?
— Por aqui tem bicicletas?
— Tem sim, mas por quê...
— Vem.
Seguro o pulso dele e o puxo escada abaixo antes que ele comece a formular objeções jurídicas.
Nos fundos da propriedade há um pequeno galpão elegante demais para guardar algo tão simples quanto bicicletas.
Três modelos.
Uma azul-clara vintage com cestinha de vime.
Uma esportiva preta.
E outra intermediária que claramente ninguém usa.
Pego a azul.
— Você vai nessa? — pergunta ele, incrédulo.
— Claro.
Ele ainda parece confuso.
— Você pode me explicar o que está acontecendo?
— Nós precisamos fazer coisas normais de casal — respondo, enquanto ajusto o banco. — Passeios. Risadas. Fotos espontâneas. Memórias que pareçam reais.
Ele cruza os braços.
— Isso inclui andar de bicicleta?
— Claro! — retruco. — Ou você não sabe andar?
Ele faz uma careta ofendida.
— Katniss, eu fiz intercâmbio na Suíça. Eu sei andar de bicicleta.
— Ótimo. Então prove.
Ele pega a esportiva preta com ar dramático demais.
— Vai usar a com cestinha?
— É estratégica.
— Estratégica?
— Para flores. Ou compras. Ou fingir que somos adoráveis.
Ele suspira como quem já percebeu que perdeu o controle da situação.
Saímos pedalando para fora da propriedade.
O portão se abre automaticamente e eu sinto o vento bater no rosto.
Liberdade tem cheiro de grama recém-cortada e fim de tarde.
— Ombros relaxados! — grito para ele.
— Eu estou relaxado!
— Você parece que está indo para uma reunião!
Ele ajeita a postura exageradamente solta.
— Assim está melhor?
— Parece que você está interpretando alguém relaxado!
Ele resmunga algo inaudível.
Passamos por um casal de idosos caminhando lado a lado.
— Boa tarde, Sr. e Sra. Wilson! — cumprimenta ele, sorrindo.
— Ora, Peeta! — A senhora acena. — Essa é sua noiva?
Peeta quase freia bruscamente.
— Sim — responde, formal demais.
Eu dou uma cotovelada leve nele enquanto seguimos.
— Você não precisa anunciar como se estivesse apresentando um relatório anual.
— Estou sendo educado.
— Está sendo robótico.
Ele respira fundo.
— Eu não sou robô.
— Prove.
Acelero.
Ele acelera também.
— Isso é uma competição agora? — pergunta.
— Não. É treino de espontaneidade.
Pedalamos por alguns minutos em silêncio confortável.
Até que eu decido provocar.
Tiro as mãos do guidão e abro os braços.
O vento levanta levemente a saia do meu vestido.
— Katniss! — Ele quase entra em pânico. — Segura!
— Relaxa!
— Isso é perigoso!
— Estou acostumada com isso!
Ele acelera para ficar ao meu lado.
— Coloca as mãos de volta!
Eu rio.
Rio de verdade.
— Está com medo, Mellark?
— Eu estou tentando evitar que minha noiva viral caia de cara no asfalto!
Eu olho para ele, ainda sem segurar o guidão.
— Viu? Soou apaixonado.
— Eu não estou...
Nesse exato momento, ele passa por uma pequena poça d’água que não viu.
Respingo.
Direto na própria calça.
Eu gargalho.
— Cuidado, executivo internacional!
Ele olha para a mancha na perna.
— Excelente. Agora pareço descuidado.
— Ótimo. Humaniza você.
Ele me encara.
E então, inesperadamente, tira uma das mãos do guidão também.
— O que você está fazendo? — pergunto.
— Humanizando.
Ele abre o braço brevemente.
A bicicleta começa a oscilar.
— Não, não, não! — grito, agora rindo e apavorada ao mesmo tempo.
Ele recupera o equilíbrio por pouco.
Nós dois paramos ofegantes à beira da estrada.
Silêncio.
Depois começamos a rir.
Sem plateia.
Sem cálculo.
Só riso.
Eu olho para ele.
O cabelo levemente bagunçado pelo vento.
A camiseta amassada.
A mancha de água na calça.
— Está melhor — digo, satisfeita.
— Melhor?
— Sim. Parece alguém real.
Ele me observa por alguns segundos.
— E isso ajuda a reconquistar minha ex?
A pergunta paira no ar.
Eu desvio o olhar primeiro.
— Ajuda a convencer o mundo.
Ele inclina levemente a cabeça.
— E você?
— O que tem eu?
— Está convencida?
Meu coração tropeça.
Eu monto de novo na bicicleta.
— Anda, Mellark. Ainda precisamos treinar seu sorriso espontâneo.
E saio pedalando antes que ele veja que, por alguns segundos…
Eu quase respondi outra coisa.
Pedalo mais rápido do que deveria.
Não porque a rua exija, mas porque a pergunta dele ficou para trás… e eu não quero que ele a alcance.
Ouço o som da bicicleta dele logo atrás.
— Isso não foi resposta! — grita ele.
— Não foi pergunta contratual! — retruco.
Ele alcança meu lado com facilidade irritante.
— Você sempre foge quando a conversa fica interessante?
— Eu sou excelente em fuga estratégica.
— Claro que é.
Viro à esquerda numa rua mais tranquila, arborizada. As casas ali parecem saídas de revista — jardins impecáveis, cercas brancas, cães bem treinados.
Um golden retriever enorme resolve atravessar a calçada no exato momento em que passamos.
— Katniss! — Peeta alerta.
Eu desvio.
A cesta da minha bicicleta bate levemente no portão de uma casa.
O portão faz um clang alto.
Uma senhora abre a janela.
— Está tudo bem aí?
— Treinamento romântico! — exclamo de volta.
Peeta quase cai de tanto rir.
— Treinamento romântico? Isso agora é categoria olímpica?
— Deveria ser! Você claramente precisa!
Ele acelera e passa na minha frente.
— Certo. Então me ensina.
— Primeiro exercício — digo, ficando lado a lado novamente. — Olhar apaixonado. Natural. Sem parecer que está avaliando risco de investimento.
Ele suspira dramaticamente.
— Isso é mais difícil do que negociar com asiáticos bilionários.
— Porque aqui você não pode usar cláusulas.
Ele olha para mim.
De verdade. Sem ironia. Sem defesa.
Eu quase erro a pedalada.
— Muito intenso — digo rápido.
— Você pediu real.
— Pedi real, não hipnose!
Ele ri. E dessa vez o riso não é contido. É aberto. Barulhento.
Eu nunca ouvi ele rir assim.
Passamos por uma pequena lanchonete de bairro.
— Sorvete! — anuncio, freando.
— Agora?
— Casais apaixonados param para sorvete.
— Isso está em algum manual?
— Está no meu.
Ele para ao meu lado.
Encostamos as bicicletas do lado de fora e entramos.
— Duas casquinhas. — Peeta pede, antes que eu fale.
— Baunilha com calda de chocolate — acrescento.
Sentamos do lado de fora.
Eu observo o anel enquanto seguro a casquinha.
Brilha sob o sol.
Escandaloso.
— Você está olhando para ele como se estivesse tentando decifrar um enigma — comenta ele.
— Talvez eu esteja.
Ele dá uma lambida no sorvete.
— Ele te incomoda?
Eu penso.
— Ele pesa.
— Fisicamente?
— Não.
Uma gota de chocolate escorre da minha casquinha direto na minha mão.
— Droga!
Ele pega um guardanapo e limpa minha mão automaticamente.
O gesto é simples.
Natural.
Sem plateia.
Sem treinamento.
Eu fico parada.
Ele percebe tarde demais que ainda está segurando minha mão.
— Foi reflexo — diz ele.
— Eu sei.
O silêncio que se instala não é desconfortável. É perigoso.
Terminamos o sorvetes e voltamos às bicicletas.
No caminho de volta, o sol começa a descer no horizonte.
A luz dourada envolve tudo.
Eu pedalo devagar dessa vez.
Sem pressa.
Ele acompanha meu ritmo.
— Katniss.
— Hum?
— Se isso acabar…
Eu sinto o estômago apertar.
— Vai acabar.
— Eu sei. — Ele olha para frente. — Só estou dizendo… que talvez não precise acabar como desastre.
Eu não respondo.
Porque a verdade é que eu não sei.
Chegamos ao portão da propriedade.
Paramos lado a lado.
Ele desce da bicicleta primeiro.
Eu também.
O silêncio volta.
Não é pesado.
É… cheio.
Ele pega minha mão automaticamente para atravessarmos a pequena estrada até a entrada.
Eu não retiro.
E percebo, com um susto silencioso, que desta vez…
Eu não precisei lembrar ele de parecer apaixonado.
Ele simplesmente pareceu.
✦✦✦
Depois de um fim de semana inteiro de “treinamento romântico”, a segunda-feira chega como um tapa de realidade.
Peeta volta ao modo robô executivo em segundos.
E eu volto a ser a assistente jurídica que precisa entregar resultados reais, não encenações convincentes.
Minha mesa está soterrada.
Protocolos.
Contratos.
Prazos.
Tento fazer malabarismos com tudo ao mesmo tempo. Seguro uma pilha de pastas no braço, o celular preso entre o ombro e a orelha.
— Sim, pode encaminhar para o setor empresarial… não, com urgência… sim, hoje — digo, já caminhando pelo corredor.
Dobro a esquina rápido demais.
E trombo em alguém.
— Oh, perdão!
As pastas voam.
Papéis se espalham pelo chão como se eu tivesse decidido fazer chuva de documentos corporativos.
— Não precisa se desculpar, docinho. Eu é que estava distraído.
A voz é grave. Confiante. Irritantemente confortável.
Ergo o olhar.
O homem à minha frente é alto, terno sob medida impecável, relógio caro, cabelo perfeitamente alinhado. Bonito de um jeito estudado.
Ele já está agachado recolhendo meus papéis.
— Marvel Quaid — diz, antes mesmo de eu perguntar. — Prometo que normalmente entro nas salas sem causar destruição.
Eu seguro uma pasta contra o peito.
— Katniss Everdeen. E a destruição foi compartilhada.
Ele sorri.
Não é um sorriso tímido.
É daqueles que já sabem que funcionam.
— Katniss… — repete, como se estivesse experimentando o nome. — Belo nome.
Eu já ouvi esse tipo de tom antes.
Charmoso e um pouco convencido.
— Senhor Quaid, o contrato do empreendimento em Tribeca está aqui — digo, voltando ao profissionalismo.
Ele me observa por um segundo a mais do que o necessário.
— Pode me chamar de Marvel.
— Prefiro manter a formalidade.
— Gosto de desafio.
Claro que gosta.
Antes que eu responda, sinto algo mudar no ar.
Uma presença.
Firme.
Conhecida.
Quando levanto os olhos, Peeta já está ali.
Não sei em que momento ele surgiu.
Mas está parado a poucos passos, mãos nos bolsos, postura relaxada demais para ser casual.
Os olhos azuis não estão frios.
Estão atentos.
— Algum problema? — pergunta, voz neutra.
Marvel se levanta, segurando a última folha.
— De forma alguma. Eu que esbarrei na… sua colaboradora.
Peeta não olha para os papéis.
Olha para mim.
Depois para Marvel.
E então diz, com calma:
— Essa é minha noiva, Katniss Everdeen.
O silêncio no corredor parece se expandir.
Marvel pisca.
Uma fração de segundo apenas.
Depois sorri novamente.
— Noiva? — Ele olha para minha mão.
O anel faz o que foi projetado para fazer.
Brilha.
Marvel olha para a minha mão.
— Impressionante — comenta. — Peeta não faz nada pela metade, pelo visto.
— Não costumo fazer — responde Peeta, agora já ao meu lado.
Perto demais.
A mão dele repousa automaticamente na minha cintura.
Natural.
Mas firme.
Marvel observa o gesto.
Avalia.
— Parabéns — diz, ainda sorrindo. — Bela escolha. Em todos os sentidos.
Peeta sustenta o olhar.
— Obrigado. Nós concordamos.
Nós.
A palavra paira.
Marvel ajeita o paletó.
— Então vamos falar de negócios antes que eu comece a competir com um diamante desse porte.
Ele dá um último olhar para mim.
— Foi um prazer, Katniss.
— Igualmente — respondo, profissional.
Quando ele se afasta pelo corredor, o ar parece voltar a circular.
Peeta não retira a mão da minha cintura imediatamente.
— “Docinho”? — comenta ele, baixo.
Eu viro o rosto devagar.
— Está com ciúmes, Mellark?
Ele inclina levemente a cabeça.
— Eu só não gosto quando empresários imobiliários olham para o que é meu como se fosse investimento.
Meu coração tropeça.
— Eu não sou um ativo.
— Eu sei.
Mas a mão dele aperta levemente minha cintura antes de se afastar.
— Marvel Quaid gosta de conquistar terrenos difíceis — acrescenta.
— Eu não sou terreno.
Ele finalmente me encara.
— Não. Você é território estratégico.
Eu cruzo os braços.
— E você acabou de soar exatamente como o homem que estava tentando evitar parecer um robô.
Ele solta um meio sorriso.
— Talvez eu não goste de dividir palco.
— Não é palco.
— Não?
Eu sustento o olhar.
E percebo.
Não era atuação.
Era ciúme.
Peeta Mellark, estrategista impecável…
Acabou de ficar com ciúmes.
Na hora do almoço, resolvo ir até a sala dele.
Lavinia já saiu — a mesa dela está vazia, perfeitamente organizada, como se até o intervalo fosse protocolado.
Eu paro antes de bater.
A porta está entreaberta.
E então escuto.
— Mãe… porque não conversamos em outro momento, sim?
A voz dele está mais baixa.
Menos firme.
— Ela não é a Cashmere, isso posso garantir.
Meu estômago contrai.
Eu não ouço o que Effie diz do outro lado.
Só ele.
— Eu sei que se preocupa comigo, mas não estou me precipitando.
Precipitando.
A palavra ecoa.
— Nunca falei nada sobre ela pra você não vir com interrogatório pra cima de mim.
Silêncio breve.
Ele suspira.
— Vou enviar o contato dela e daí pergunta, ok?
Meu coração dispara.
Contato dela?
— Sei disso… Também amo você, mãe.
A ligação termina.
Eu fico parada por um segundo a mais do que deveria.
Ele não mencionou contrato.
Não mencionou estratégia.
Não mencionou plano.
Só disse que não estava se precipitando.
Respiro fundo.
Arrumo a postura.
E bato levemente na porta antes de entrar.
— Posso?
Ele levanta o olhar imediatamente.
Nenhum sinal de tensão.
Nenhum vestígio da conversa.
— Claro.
Eu entro como se não tivesse ouvido nada.
— Almoço?
— Vamos.
Descemos juntos até um restaurante discreto perto da empresa.
Peeta volta ao modo habitual — atento, controlado, elegante. Fala sobre a viagem para Boston, sobre o contrato asiático, sobre logística.
Eu concordo, participo, mantenho o ritmo.
Mas minha cabeça ainda está presa à palavra precipitando.
Meu celular vibra sobre a mesa.
Uma notificação.
Desconhecido.
Abro.
Effie Mellark.
Meu coração dá um salto.
Mensagem:
“Querida, a festa de noivado será no sábado. Sei que parece em cima da hora, mas no outro fim de semana preciso organizar um evento beneficente. Estou te enviando algumas fotos para você escolher as flores.”
Logo em seguida, um áudio.
Olho para Peeta.
Ele está cortando a carne no prato com tranquilidade.
— O que foi? — pergunta, percebendo minha expressão.
— Sua mãe.
Ele suspira, como se já previsse.
Coloco o celular no ouvido.
A voz de Effie é doce. Elegante. Determinada.
“Katniss, precisamos agir rápido. O salão da propriedade ficará deslumbrante. Pensei em peônias brancas, talvez rosas champanhe. Quero algo sofisticado, mas não frio. Afinal, estamos celebrando amor.”
Amor.
Peeta ergue os olhos para mim.
— O que ela disse?
Eu coloco o celular sobre a mesa lentamente.
— A festa de noivado é sábado.
Ele para o movimento do garfo.
— Sábado?
— Sábado.
Eu deslizo o celular para ele ver as fotos.
Arranjos enormes. Arcos florais. Lustres. Mesas longas com velas.
Nada discreto.
Nada pequeno.
— Eu disse “sem exageros” — murmura ele.
— Ela claramente interpretou como “faça memorável”.
Ele passa a mão pelo queixo.
— Você não precisava ouvir isso hoje.
— Ouvir o quê?
Ele hesita.
Eu seguro o olhar.
— Sei que estava na porta.
Silêncio.
Não acusatório.
Só honesto.
Ele não pergunta quanto eu ouvi.
— Minha mãe é… intensa.
— Ela perguntou sobre mim.
— Ela sempre pergunta.
Eu inclino a cabeça.
— Você disse que não estava se precipitando.
Ele me encara.
Azul firme.
— E não estou.
A resposta vem rápida demais.
Ou talvez sincera demais.
Meu celular vibra novamente.
Mais fotos de flores.
Peônias.
Lírios.
Orquídeas.
Uma vida inteira sendo organizada em arranjos.
Eu apoio os cotovelos na mesa.
— Peeta… isso está ficando grande demais.
— Eu sei.
— Sua mãe está organizando uma festa de noivado como se fosse real.
Ele não desvia o olhar.
— Para ela, é.
A frase me desarma.
— E para você?
Ele demora meio segundo.
Tempo suficiente.
— É estratégico.
Mas algo na voz dele não soa completamente técnico.
Eu encaro as fotos outra vez.
Peônias brancas.
Champanhe.
Velas douradas.
— Qual você escolheria? — pergunta ele, de repente.
— O quê?
— As flores.
Eu olho para ele.
— Você está me perguntando como se isso fosse…
— Como se fosse o nosso noivado? — completa ele.
Silêncio.
Ficamos em silêncio por um momento.
O restaurante continua funcionando ao redor.
Garçons passam.
Talheres tilintam entre conversas de outras pessoas.
Eu seguro o celular.
Respiro fundo.
— Peônias — respondo por fim. — São menos óbvias.
Ele assente.
— Peônias, então.
E enquanto ele pega o próprio celular para avisar a mãe…
Eu percebo algo inquietante.
Estamos escolhendo flores.
Para uma festa.
Que começou como mentira.
E ninguém mais parece lembrar disso.
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