Notas iniciais
Sextooooou bora ler mais um capítulo dessa comédia romântica clichê? Era pra eu ter postado antes, mas não consegui, perdoem-me o próximo vou tentar agilizar mais rápido. Agradeço o carinho de cada uma, vocês não fazem ideia de como cada comentário me ajuda e incentiva... Bora ao capítulo!!!!

Pov. Katniss Everdeen


Não sei quanto tempo estou golpeando o saco de areia, mas segundo Peeta, estou melhorando a cada dia.

Amanhã será a grande noite da festa de noivado organizada por Effie.

Eu não tenho dormido direito e muito menos comido. E olha que o que mais faço nessa vida é comer.

O saco balança violentamente a cada soco. Meu punho arde. O impacto sobe pelo braço, atravessa o ombro e explode nas costas. É quase terapêutico.

Quase.

Olho para ele parado, encostado na estrutura metálica do ringue da academia e minha vontade é de acertar um soco de direita naquela cara presunçosa.

Ele está tranquilo demais. Calculista demais. E isso tem me irritado de uma maneira surreal.

O suor escorre pelo meu rosto, desce pelo pescoço, infiltra pelo decote da regata colada ao corpo. Alguns fios soltos do meu cabelo grudam na pele.

— Chega! — digo, ofegante. — Se eu der mais alguns golpes nesse troço, juro que vou acertar seu rostinho bonito.

Ele ergue o queixo, quase divertido.

— Ah… quer dizer que eu tenho um rostinho bonito?

Reviro os olhos, irritada.

— Não, você não tem um rostinho bonito. Nem faz o meu tipo.

Cruzo os braços, indignada.

Ele ergue as sobrancelhas e se aproxima devagar demais para alguém que deveria temer a própria integridade física.

— Então diga… — Sua voz é baixa, segura. — Que tipo de homem lhe agrada?

Penso por um segundo. Não deveria responder. Mas respondo.

— Eu não ligo muito para o aspecto físico. Posso resumir em três itens essenciais o que mais admiro.

Ele inclina a cabeça.

— Estou ouvindo.

— O sorriso. A voz. E as mãos.

O olhar dele muda quase imperceptivelmente.

— Sério?

— Claro.

Aproximo-me um passo. Só para provocar.

— Ele tem que ter um sorriso bonito. Uma voz gentil. E mãos fortes.

O silêncio entre nós muda de textura.

Peeta ergue a mão lentamente como se pedisse autorização invisível e segura meu punho.

A pressão é firme. Controlada.

Forte.

Droga.

Solto a mão primeiro.

— Eu vou tomar uma ducha — anuncio, seca demais.

— Katniss.

— O quê?

— Você está nervosa.

— Eu não estou nervosa.

— Está treinando como se fosse travar uma guerra.

Eu sorrio. Mas não é um sorriso leve.

— Talvez eu esteja.

Quando chegamos em casa vou direto para o quarto e não sei quanto tempo fico encarando meu reflexo no espelho quando ouço passos apressados pelo corredor.

E então a porta se abre sem cerimônia.

— Ele chegou! — anuncia Effie, batendo palmas com uma ansiedade controlada demais para ser natural.

Um homem elegante e silencioso, vestido de preto, entra carregando nos braços uma capa longa de tecido acetinado grafite. Estruturada. Impecável.

Há algo bordado no canto inferior, em fio dourado:

Noir Élysée

Effie praticamente flutua ao redor do homem.

— Katniss, esse é Cinna Hawke, um excepcional Personal Stylist. Ele trouxe aqui o terceiro modelo no mundo todo! — sussurra ela, como se estivesse me contando um segredo. — O terceiro!

Cinna para diante de mim.

Os olhos dele me analisam sem julgamento.

— Katniss Everdeen — diz, com aquela voz calma que parece enxergar além da superfície. — Trouxe algo que não pede permissão para ser usado. Ele ocupa.

Ele desliza o zíper da capa com cuidado. O som ecoa no quarto. E então eu vejo.

O vestido é indecente de tão bonito.

— Noir Élysée — informa ele. — Modelo Nuit Souveraine.

Soberana da Noite.

Faz sentido.

A base é um azul profundo, quase negro sob certas luzes. Não é apenas azul. É como o céu antes da tempestade.

O busto é estruturado, tomara que caia, com recorte coração sutil. A cintura é bem marcada. Na frente, a barra sobe delicadamente acima dos joelhos revelando as pernas com confiança. Atrás uma cauda longa, assimétrica, que se espalha sobre o chão. Folhas abstratas em brocado metálico preto se espalham pelo tecido como sombras vivas.

Passo a mão sobre ele. O tecido é firme. Pesado o suficiente para impor presença. Leve o suficiente para permitir andar.

— Corset interno italiano — explica Cinna. — Sustentação invisível. Você não vai precisar se preocupar com nada além de caminhar.

Effie está ofegante.

— Fabuloso! — exclama quando eu experimento. — Você será o destaque!

E, é quando o vestido se ajusta ao meu corpo que entendo. Ele não me veste. Me transforma. Eu me viro diante do espelho. A frente curta me dá mobilidade. A cauda atrás me dá um ar de poder. O azul intensifica meu cabelo escuro. Minha pele parece mais luminosa e mais definida.

Não é romântico. É totalmente estratégico.

Cinna se aproxima e ajusta milimetricamente o busto.

— Este modelo foi criado para mulheres que não pedem permissão — diz baixo. — Apenas assumem.

Eu engulo em seco.

É uma festa de noivado.

Minha festa de noivado.

Sinto meu estômago se contorcer. Estou entrando em um território totalmente diferente. Um em que talvez eu não possa controlar.

Effie suspira dramaticamente.

— Quando você entrar naquele salão… — Ela sorri — Ninguém mais terá olhos para outro lugar.

Eu ergo o queixo.

Talvez essa seja a parte perigosa. Eu chamar demais a atenção.

✦✦✦

Eu sempre achei que descer escadas fosse algo simples. Você coloca um pé na frente do outro. Mantém o equilíbrio. Respira.

Entretanto, ninguém te prepara para descer a escada principal da mansão Mellark usando um vestido que parece feito para incendiar — enquanto o homem que deveria ser apenas seu “namorado de mentira” espera no meio dela.

Effie me posiciona no topo da escadaria como se estivesse organizando uma estreia em Cannes.

— Ombros para trás. Queixo levemente elevado. Você não está descendo… você está surgindo.

Cinna faz um último ajuste invisível na cauda do Nuit Souveraine.

— Lembre-se — murmura ele. — Você não pede espaço. Você ocupa.

Respiro fundo.

O dourado do lustre explode sobre o azul profundo do vestido. O tecido absorve a luz e devolve poder. A frente curta revela minhas pernas com firmeza; a cauda atrás desliza pelos degraus como um segredo elegante.

E então eu vejo Peeta.

Terno preto impecável. Corte perfeito. Gravata alinhada. Ombros firmes. Postura dominante.

Até me ver.

É quase imperceptível. Mas eu vejo. O maxilar tensiona. Sua respiração muda. Os olhos, aqueles olhos estrategicamente calculados, ficam um segundo atrasados.

Só um segundo.

Mas eu pego.

Eu desço o primeiro degrau.

Ele não pisca.

Segundo.

A mão dele ajusta a própria gravata. Gesto automático. Recuperação de controle.

Terceiro.

O olhar dele percorre o vestido devagar demais para ser casual. Não vulgar. Não apressado.

Avaliação.

Quando chego à metade da escada, ele sobe alguns degraus ao meu encontro.

— Katniss… — A voz sai mais baixa, mas firme.

Inclino levemente a cabeça.

— Senhor Mellark. Está apresentável.

O canto da boca dele ameaça um sorriso.

— Você ensaiou isso?

— O suficiente.

Ele sobe mais um degrau. Agora estamos quase na mesma altura. Próximos o suficiente para eu sentir o perfume dele — madeira, âmbar… controle.

O olhar dele desce outra vez, deliberado.

Eu sorrio de canto.

— Segura a baba, Mellark.

Por um micro segundo ficamos em silêncio e então ele responde, calmo demais:

— Fique tranquila, Everdeen. Eu não babo. Eu observo.

Toco de leve o braço dele ao passar.

— Observando assim, parece que está tentando resolver um caso complexo.

— Estou — retruca ele. — Tentando entender como você pretende sobreviver a essa noite vestida como uma arma.

Meu coração dá um salto ridículo.

Eu arqueio a sobrancelha.

— Está com medo?

— De você? — Ele solta uma expiração breve. — Não.

Pausa.

— Do estrago que você vai causar? Talvez.

Effie surge ao fundo, vibrando.

— Parem aí! Perfeito! Não desçam mais!

Um fotógrafo aparece como se tivesse sido conjurado.

— Senhor Mellark, um pouco mais perto. Senhorita Everdeen, incline levemente o rosto.

Peeta oferece o braço.

Eu aceito.

Mas quando nossos corpos se alinham, algo muda.

A mão dele desliza para minha cintura. Firme. Natural. Como se sempre tivesse sido ali.

Eu sinto.

Ele também.

— Olhem um para o outro — pede o fotógrafo.

Eu ergo os olhos.

Peeta já está me olhando.

Mas não perdido.

Não derretido.

Ele está… atento.

Como se estivesse analisando uma variável inesperada.

Eu sorrio.

— Está nervoso? — sussurro.

— Não.

— Mentiroso ruim.

— Você está confundindo concentração com nervosismo.

O flash dispara.

— Isso… perfeito! — diz o fotógrafo.

Peeta se inclina um milímetro mais perto.

— Você faz ideia o que está fazendo?

— Descendo a escada?

— Provocando um incidente diplomático em escala social.

Eu rio baixo.

— Dramático.

— Realista.

Effie bate palmas.

— Agora descendo juntos!

Ele oferece a mão.

Eu seguro.

Descemos sincronizados.

O vestido desliza atrás de mim como se tivesse sido feito para aquele momento exato. O lustre reflete no azul escuro e cria pequenas constelações móveis.

— Você sabia? — murmura ele, quase imperceptível.

— O quê?

— Que ia fazer isso comigo.

Eu inclino a cabeça.

— Eu só coloquei um vestido.

— Não. — Ele aperta levemente minha cintura. — Você entrou na guerra.

Eu paro no último degrau.

— Guerra exige estratégia, Mellark.

— E você acha que está vencendo?

Eu me aproximo um pouco mais, só para provocá-lo.

— Eu ainda nem comecei.

O olhar dele escurece. Não descontrole.

Desafio.

— Cuidado, Everdeen.

— Com o quê?

Ele se inclina o suficiente para que só eu ouça.

— Eu aprendo rápido.

O fotógrafo captura mais um clique.

Flash.

Eu sorrio, não treinado.

Ele mantém a compostura.

Mas a mão na minha cintura não solta.

O último flash dispara antes de seguirmos nosso caminho até o salão. Quando chegamos a música sobe e as portas principais começam a se abrir para que entremos.

O salão começa a se encher com o burburinho típico da elite que finge não observar enquanto observa absolutamente tudo.

Peeta ainda mantém a mão na minha cintura.

Firme. Estratégico.

— Está pronta? — pergunta ele, baixo.

— Para sorrir ou para sobreviver?

— Para as duas coisas.

Eu respiro fundo.

O som muda.

Não é mais conversa casual.

Sirius Plinth, entra. Terno preto sob medida. Lapela de cetim. Relógio que custa mais do que meu antigo apartamento inteiro. O queixo firme e o sorriso quase educado demais.

Mas não é ele que prende o ar do salão. É quem entra ao lado dele.

Cashmere Snow.

Vestido champanhe líquido. Decote estruturado. Costas nuas. O tecido abraça o corpo como se tivesse sido moldado diretamente sobre ela.

Cabelo loiro impecavelmente penteado. Maquiagem suave demais para parecer esforço. Ela não sorri ao entrar, porém, observa.

O salão se divide em dois segundos invisíveis o antes e o depois.

Eu sinto a mudança na postura de Peeta.

Não é tensão. É alinhamento.

A mão dele na minha cintura não aperta mais forte.

Ela estabiliza.

— A tempestade chegou — murmuro.

— Não olhe para eles como se estivesse avaliando uma ameaça — responde ele. — Olhe como se estivesse avaliando concorrência.

— Confiante demais.

— Estratégico demais.

Cashmere nos vê.

Eu sei exatamente o momento em que acontece.

O olhar dela encontra o de Peeta primeiro.

Pausa.

Depois desliza para mim.

Lento.

Analítico.

Ela não reage. Não demonstra surpresa.

Mas os olhos dela registram o vestido.

O azul profundo. A assimetria. A cauda dramática.

Ela entende.

Eu não vim para ser discreta.

Sirius inclina levemente o rosto em nossa direção.

— Mellark — diz ele ao se aproximar. Voz controlada, quase cordial. — Sempre impressionando.

Peeta sorri do jeito que ele usa em tribunais quando sabe que está dois passos à frente.

— Plinth. Fico feliz que tenha vindo.

O aperto de mãos é firme. Masculino demais para ser casual.

Cashmere para diante de nós.

O perfume dela é caro. Floral frio.

— Peeta — diz, suave como seda. — Que surpresa agradável.

— Cashmere.

Ele não usa apelido. Não usa intimidade.

Ela me olha.

Um sorriso elegante, perfeitamente treinado.

— Olá Katniss.

Inclino levemente a cabeça.

— Olá.

O silêncio que se segue é microscópico e elétrico.

Peeta solta uma respiração quase inaudível pelo nariz.

Sirius observa interessado.

Cashmere não perde o sorriso.

— Espero que ele esteja sendo menos… negociador com você.

Eu sorrio de volta.

— Ele está aprendendo a improvisar.

Peeta inclina levemente o corpo para mim, gesto quase protetor.

— Katniss tem sido uma excelente professora.

Ah.

Então é assim.

Cashmere avalia a mão dele na minha cintura.

Depois o vestido.

Depois minha postura.

Ela percebe que não estou me segurando nele.

Estou ao lado dele.

— Fico feliz que tenha seguido em frente — diz ela, doce demais.

— Eu também — responde ele.

Sem hesitação, pausa ou sem olhar para trás.

Sirius finalmente quebra o campo magnético.

— A festa está magnífica. Effie sempre supera expectativas.

— Ela faz questão — responde Peeta.

Cashmere dá um último olhar demorado para ele.

Não de saudade. Nem de amor. Apenas avaliação. Ela quer saber se ainda exerce efeito.

Eu decido ajudá-la a descobrir.

Inclino-me levemente para Peeta, aproximando meu rosto do dele como se fosse compartilhar um segredo.

— Está respirando, Mellark? — sussurro.

— Sempre — assegura ele, sem tirar os olhos de Cashmere. — A pergunta é… eles estão?

Sirius sorri de canto.

Cashmere desliza os dedos pelo braço de Sirius.

— Aproveitem a noite — diz ela.

E então se afastam.

O salão volta ao normal ou quase isso.

Eu olho para Peeta.

— Então…?

Ele finalmente volta os olhos para mim.

Calmo e perigosamente composto.

— Então... — Começa ele. — Agora a festa começou.

E a mão dele na minha cintura…

Não solta.

A festa segue surpreendentemente… tranquila.

Champanhe. Risadas. Conversas elegantes que dizem pouco e significam muito. Effie flutua de um grupo a outro como uma comandante satisfeita com a própria obra.

Peeta é impecável.

Sorriso moderado. Respostas afiadas. Presença dominante sem parecer arrogante.

Eu acompanho.

Sorrio. Converso. Finjo naturalidade enquanto meu anel brilha e é admirado por todos.

E, irritantemente, funciona.

Gale nos cumprimenta parabenizando. Ele cochicha algo como “bela performance” para Peeta.

De repente, a música mudar.

Os primeiros acordes de The Night We Met preenchem o salão.

Lento e nostálgico.

Casais começam a se mover para a pista improvisada no centro do salão.

Peeta me oferece a mão.

— Dança comigo?

— Claro noivo.

A mão dele segura a minha com firmeza enquanto caminhamos para o centro da pista. A outra repousa na minha cintura.

No começo mantemos uma distância educada e controlada.

Eu percebo quando Haymitch Mellark passa perto de nós. Ele murmura algo rápido no ouvido de Peeta.

Baixo demais para eu entender.

Peeta responde apenas com um leve aceno de cabeça.

Algo muda.

A mão dele na minha cintura se fecha um pouco mais. E então me puxa para mais perto. Eu ergo o olhar imediatamente.

— O que ele disse?

— Depois eu explico.

— Mellark...

— Vou pedir desculpas depois.

Antes que eu consiga perguntar qualquer outra coisa…

Ele me beija. Não é um beijo educado. Não é o tipo de beijo social que casais dão em festas para fotógrafos. É intenso. Surpreendente intenso.

Os lábios dele cobrem os meus como se tivessem decidido algo por conta própria. Por um segundo inteiro o mundo ao redor desaparece. A música, os convidados e as luzes.

Meu cérebro grita que isso é errado. Que é atuação.

Eu deveria me afastar, mas algo dentro de mim simplesmente… responde.

Eu odeio isso.

Odeio mais ainda a forma como minhas mãos acabam segurando o tecido do paletó dele.

Quando ele finalmente se afasta, nossas testas encostam.

Minha respiração está completamente desregulada.

A dele também.

— Que merda foi essa, Mellark? — murmuro entre os dentes.

Ele solta um pequeno suspiro.

— Meu pai.

— O quê?

— Ele disse que se estamos atuando… precisamos fazer isso direito.

Eu pisco.

Uma vez.

Duas.

Três.

— E que não é para eu decepcionar minha mãe — continua ele. — Porque ela está gostando de você.

Meu cérebro demora um segundo inteiro para processar.

— Oi?

Peeta parece quase… resignado.

— Meu pai sabe.

— Desde quando?!

— Desde o Gala Whitmore.

Eu o encaro.

— Você está me dizendo que o seu pai sabe que nosso namoro é falso?

— Sim.

— E ele simplesmente… aceitou?

— Ele é assim mesmo. Difícil esconder qualquer coisa dele.

A música continua tocando ao nosso redor enquanto eu tento reorganizar meu sistema nervoso.

— E segundo ele... — Peeta faz uma pausa antes de continuar. — Precisamos melhorar a performance diante do público.

— Tá legal isso foi estranho — murmuro, ainda atordoada.

A música termina.

As pessoas ao redor aplaudem discretamente.

Peeta ainda me segura pela cintura.

Eu me afasto primeiro.

— Próxima vez você me avisa antes de… melhorar a performance.

Ele inclina a cabeça.

— Vou tentar.

Mas o olhar dele diz que nem ele acredita nisso.

A festa termina depois de mais algumas horas de conversas, despedidas e flashes.

Quando finalmente voltamos para casa, o silêncio entre nós é quase insuportável.

Ninguém comenta o beijo.

Quando chegamos, entro primeiro sem ao menos encará-lo.

— Boa noite, Mellark.

— Katniss...

Mas eu já estou subindo as escadas.

Entro no quarto fecho a porta trancando-a.

Encosto as costas nela e fico ali parada alguns segundos, tentando controlar a respiração.

Levo os dedos até meus lábios.

Ainda consigo sentir.

Droga. Mil vezes droga!

Eu devia ser uma atriz melhor.

Porque aquele beijo…

Mexeu comigo muito mais do que deveria. E isso é um problema. Definitivamente não consigo encarar Peeta Mellark da mesma forma.

Tento agir como se nada tivesse acontecido. Como se aquele beijo na pista de dança tivesse sido apenas… atuação.

Mas é impossível esquecer.

Cada vez que lembro da forma como ele me segurou, do calor da mão dele na minha cintura, do jeito como minha própria respiração traiu meu autocontrole… Eu fico irritada.

Com ele.

Comigo.

Principalmente comigo.

Então faço o que sei fazer melhor, trabalhar.

Na empresa me atolo de processos, relatórios e reuniões. Procuro me manter o mais ocupada na segurança da minha sala.

Evitar Peeta Mellark vira um projeto pessoal.

O problema é que…

Moramos debaixo do mesmo teto e temos que vir e ir juntos.

Numa tarde particularmente silenciosa no escritório, ele vira a cadeira lentamente e diz com a calma de quem está pedindo sal na mesa do jantar.

— A Cashmere quer que a gente jante com eles.

Quase engasgo com o café.

Mas, por algum motivo que nem eu mesma entendo completamente…

Eu concordo.

O dia combinado chega rápido demais.

E com ele, algo que eu não esperava.

Estou no jardim da casa, perto da piscina, tentando fingir que a brisa quente resolve qualquer confusão emocional que esteja acontecendo dentro de mim.

Então de onde estou, o vejo descendo a escada interna.

Uma mala em uma mão. O celular na outra.

Ele fala baixo com alguém do outro lado da linha. A expressão concentrada demais.

Talvez conferindo o horário de algum voo. Uma viagem decisiva. Reuniões com clientes importantes. Decisões que não podem ser adiadas. Foi isso que ele me disse ontem à noite.

— O carro está pronto, senhor Mellark — avisa o motorista do lado de fora.

Estou parada à beira da piscina.

Meu vestido curto e solto gruda levemente no corpo por causa do calor.

Minhas mãos estão fechadas em punhos.

Passei a manhã inteira repetindo para mim mesma que não era da minha conta. Cheguei a dizer que sabia que era só um contrato. Mas que não queria que ele fosse. Que não queria ficar sozinha nessa casa enorme e ter que lidar com a Cashmere e o Sirius sozinha.

Ele respondeu que voltaria logo.

Três dias.

Só três dias.

Mas quando o vejo atravessar o jardim sem sequer olhar em minha direção…

Algo estala dentro de mim.

— Peeta! — chamo.

Ele se vira, surpreso.

— Eu volto em três dias — diz, tentando soar tranquilo.

Balanço a cabeça, assentindo.

Mas não me movo.

O coração bate alto demais.

Se ele entrar naquele carro agora…

Eu simplesmente sei.

Algo vai mudar.

Ele pode voltar diferente.

Ou pior…

Decidido a voltar para Cashmere.

Cruzo os braços.

Minha voz sai tremendo, não de medo e nem de raiva.

— Você é muito insensível, Peeta Mellark! Um coração de pedra que não tem sentimentos.

Ele arregala os olhos.

Surpreso de verdade.

Ao invés de entrar no carro, ele começa a caminhar em minha direção.

— Katniss…

— Não. Deixa eu terminar.

Respiro fundo.

— Além do mais, o problema nunca é o trabalho. Nunca foi.

Ele para a poucos passos de mim.

— É sempre você.

As palavras caem como golpes.

— Você se esconde atrás da rotina, reuniões e viagens… — continuo. — É egoísta demais. Tem medo de sentir de verdade.

Peeta fica imóvel e silencioso.

— Às vezes eu acho que você é mesmo um robô — digo, sentindo a garganta apertar. — Programado pra fazer tudo certo… menos amar.

O silêncio entre nós fica pesado.

Então eu digo a última coisa.

A pior.

— E ainda por cima vai me deixar sozinha nessa.

Ele desvia o olhar.

Como se aquilo tivesse ido longe demais.

Talvez eu tenha ido.

Talvez eu tenha ultrapassado uma linha que não devia.

Quando ele dá meia volta para sair…

Meu cérebro decide agir antes da razão.

Dou um passo para trás.

E pulo na piscina.

— Katniss!

A água engole o som.

Meu corpo afunda por um segundo.

Peeta mergulha sem pensar.

Mãos fortes me agarram.

Sinto o braço dele envolver minha cintura enquanto me puxa para cima com força.

Segundos depois estou sentada na borda da piscina.

Ele ainda me segura.

Seu olhar é assustado demais para esconder.

— Que ideia foi essa? — A voz dele sai alterada. — Você está querendo se afogar?

Solto uma risada nervosa.

— Eu...

— Isso não é engraçado. — Ele corta, firme. — Nem um pouco.

Respiro fundo.

Meu sorriso desaparece.

— Se eu não soubesse nadar… você acha mesmo que eu me jogaria só pra você me salvar?

Peeta pisca.

Processando.

— Então você sabe nadar?

— Claro que sei.

Ele ainda me segura.

O braço dele está molhado.

O terno arruinado.

O cabelo completamente encharcado.

Ele me solta de repente e passa a mão pelo rosto, frustrado.

Água pingando por toda parte.

— E você sabe que eu estou atrasado.

Ergo os olhos devagar.

Sustento o olhar dele.

— Sei também.

O silêncio entre nós é pesado.

Algo muda no olhar dele. Algo que não estava ali antes.

— Katniss… — Ele começa.

Mas eu falo primeiro.

— Se você entrar naquele carro agora… — Minha voz sai baixa. — Não finja depois que não entendeu nada.

Ele me encara.

Como se estivesse tentando decifrar um idioma novo.

O motorista continua esperando. O carro ligado. A mala ao lado da porta.

E Peeta Mellark…

Ainda está parado diante de mim. Molhado. Indeciso pela primeira vez desde que o conheci.


Pov. Peeta Mellark


Katniss ainda está sentada na borda da piscina quando eu percebo que estou tremendo.

Não de frio.

De algo que não sei nomear.

A água escorre do meu cabelo, pela camisa colada no corpo, até o chão de pedra clara do jardim. Meu terno está ensopado. O relógio em meu pulso também.

E, mesmo assim, nada disso parece importar.

O carro ainda está pronto. O motorista me aguarda. Três dias fora. Reuniões importantes. Clientes que esperam decisões rápidas. Tudo perfeitamente planejado. Tudo absolutamente lógico.

E, ainda assim…

Eu olho para Katniss.

O cabelo escuro grudado no rosto. O vestido leve encharcado. Os olhos cinzentos me encarando com uma mistura perigosa de desafio e algo mais profundo.

Ela acha que eu não entendi.

Mas eu entendi.

Respiro fundo e me viro para o motorista.

— Pode ir embora.

Ele pisca.

— Senhor?

— A viagem foi cancelada.

O motorista hesita apenas um segundo.

— Sim, senhor.

Ele entra no carro, dá partida e desaparece pela entrada da propriedade.

O silêncio volta ao jardim.

Katniss ainda está me olhando.

Como se estivesse esperando que eu dissesse que foi uma brincadeira.

Eu pego o celular que deixei cair no chão e ligo para o único homem que pode me salvar em uma situação dessas.

Gale atende no terceiro toque.

— Mellark.

— Preciso que você me represente em Chicago.

— Você está falando sério?

— Completamente.

— Essas reuniões eram suas.

— Agora são suas.

Ele solta uma risada curta.

— Você cancelou uma viagem internacional por quê?

Olho para Katniss.

Ela finge que não está ouvindo.

— Logística interna — respondo.

— Isso não responde nada.

— Eu sei.

Um breve silêncio se instala.

— Tudo bem — suspira Gale. — Mas você me deve uma explicação depois.

— Provavelmente.

Desligo.

Quando levanto o olhar, Katniss ainda está ali.

Irritada.

— Era uma viagem importante — digo.

Ela cruza os braços.

— Eu sei.

— Eu não costumo cancelar coisas importantes.

— Também sei.

O silêncio se estende entre nós.

— Então por que cancelou?

Inclino levemente a cabeça.

— Porque alguém decidiu se jogar na piscina para provar um ponto.

Ela abre a boca para retrucar.

— E porque... — continuo — Se eu entrasse naquele carro, você ia me odiar.

Katniss pisca.

Uma vez.

Duas.

— Você acha que me conhece tanto assim?

— Acho que conheço o suficiente.

Ela desvia o olhar primeiro.

Vitória pequena.

Mas significativa.

Mais tarde

A casa está silenciosa novamente.

Agora estamos os dois no andar de cima, cada um em seu respectivo quarto, tentando nos transformar em versões apresentáveis de nós mesmos para um jantar que eu definitivamente não queria ter marcado.

Visto um blazer escuro por cima de uma camisa azul-acinzenta sem gravata, calça jeans escura.

Encaro meu reflexo no espelho no meu closet. Estilo esporte fino. Dou de ombros. Pelo menos não estou encharcado.

Quando desço as escadas, Katniss já está na sala.

Vestido creme simples, porém elegante. O cabelo preso de forma descuidada demais para ser calculado — o que provavelmente significa que foi totalmente calculado.

Ela levanta os olhos.

— Você ainda pode desistir.

— Posso.

— E?

Pego as chaves do carro.

— Não vou.

Ela suspira.

— Mellark…

— Eu não quero ir — digo com franqueza.

Ela arqueia uma sobrancelha.

— Então por que vamos?

Encosto o ombro no batente da porta, observando-a.

— Porque eu preciso provar uma coisa.

— Para quem?

— Para Cashmere Snow.

Katniss fica em silêncio.

— E o que exatamente você precisa provar?

Respiro fundo.

— Que eu não sou insensível.

Ela me observa como se estivesse tentando decidir se isso é ridículo ou sincero.

— Então você vai a esse jantar idiota…

— …apenas para provar um ponto.

Ela inclina a cabeça.

— Isso é muito masculino da sua parte.

— Eu sou um homem simples.

— Você é um advogado bilionário.

— Sim — concordo. — Mas continuo simples em alguns aspectos.

Katniss pega a bolsa.

— Ótimo.

— O quê?

— Vamos jantar com sua ex, o noivo dela e toda a tensão emocional não resolvida entre vocês.

— Isso resume bem.

Ela passa por mim em direção à porta.

Quando para ao meu lado, murmura:

— Só espero que você saiba no que está se metendo.

Abro a porta.

— Katniss…

— Hum?

— Eu nunca sei.

Ela solta um pequeno sorriso.

Não o sarcástico. Um diferente. E então entramos no carro. Direto para o jantar mais desconfortável da minha vida.

O restaurante fica no topo de uma torre de vidro em Manhattan. Um daqueles lugares onde o elevador sobe rápido demais.

Katniss está ao meu lado silenciosa.

Observando a cidade se aproximar pelas paredes de vidro do elevador.

Quando as portas se abrem, somos recebidos por um hall elegante. Mármore claro, iluminação baixa e a vista da cidade ocupando praticamente toda a parede.

O maître nos observa como se já soubesse quem somos.

— Boa noite.

Eu passo o braço discretamente pela cintura de Katniss antes de responder.

— Mellark. Temos uma reserva.

Ele consulta o tablet.

— Sim, senhor Mellark. A mesa está pronta.

Katniss me lança um olhar lateral.

— Impressionante.

— Dinheiro resolve muitas coisas — respondo baixo.

— Pretensioso.

— Realista.

O maître faz um gesto elegante.

— Por aqui, por favor.

Caminhamos pelo salão.

Mesas iluminadas por velas. Conversas baixas. Taças de vinho refletindo a cidade lá fora.

Quando viramos o último corredor de mesas…

Eu os vejo.

Cashmere Snow está impecável.

Vestido preto com aquela elegância vulgar que só ela tem. O cabelo loiro perfeitamente alinhado sobre um ombro. Postura de quem está acostumada a ser observada.

Ao lado dela está Sirius, relaxado demais para alguém em um jantar social.

Os dois nos veem no mesmo instante.

E algo muda.

Não no ambiente.

Mas na atenção de Cashmere.

Eu sinto Katniss ajustar a postura ao meu lado.

Então faço algo simples.

Seguro a mão dela.

Os dedos dela se entrelaçam nos meus naturalmente demais para ser apenas atuação.

Interessante.

Quando chegamos à mesa, puxo a cadeira para ela.

— Obrigada — murmura Katniss.

Aquele sorriso pequeno que ela dá quando não quer parecer satisfeita.

— Sempre.

Sirius se levanta primeiro.

— Mellark.

Aperto a mão dele.

Firme.

— Plinth.

Cashmere se levanta logo depois.

Os olhos dela passam rapidamente por Katniss antes de voltarem para mim.

— Peeta.

— Cashmere.

Ela olha para Katniss novamente.

— Katniss.

Katniss inclina a cabeça levemente.

— Cashmere.

Educado, impecável, mas não amigável.

Sentamos. Eu ainda estou segurando a mão de Katniss quando o garçom aparece com as cartas de vinho.

Ela percebe.

E não solta.

— Aceitam algo para beber? — pergunta o garçom.

— Um Bordeaux — respondo.

Ele anota e se afasta.

O silêncio na mesa dura apenas alguns segundos.

Sirius quebra primeiro.

— Fiquei surpreso quando Cashmere disse que vocês aceitaram jantar conosco.

— Eu também. — Katniss assenti.

Eu sorrio.

— Katniss tem um talento especial para aceitar convites perigosos.

Ela vira o rosto para mim.

— Você que insistiu.

— Eu sou insistente.

Ela sorri de canto.

— Percebi.

Cashmere observa.

Silenciosa.

Analisando.

Eu percebo quando ela nota a proximidade entre nós. Meu braço encostado no dela. A forma como Katniss não parece desconfortável. Muito pelo contrário. Ela está relaxada.

Quando o vinho chega, eu sirvo primeiro a taça dela.

— Obrigada.

— De nada.

Pequenos gestos.

Mas visíveis.

Cashmere inclina levemente a cabeça.

— Vejo que vocês estão… confortáveis.

Katniss ergue a taça.

— Sempre.

Sirius solta uma pequena risada.

— Eu gosto dela.

Katniss sorri.

— Isso é preocupante?

— Provavelmente.

Eu observo Cashmere enquanto ela bebe um gole de vinho.

Ela tenta manter a elegância.

Mas eu a conheço bem demais.

O olhar dela volta para nossas mãos.

Ainda entrelaçadas.

Então Katniss faz algo inesperado.

Ela se inclina um pouco na minha direção.

— Peeta.

— Sim?

— Você prometeu que pediria o risoto.

— Prometi?

— Sim.

— Então eu devo cumprir.

Ela sorri.

Espontâneo.

Eu percebo algo naquele momento.

Não é atuação.

Não completamente.

Quando o garçom retorna, Katniss apoia levemente a mão no meu braço enquanto escolhemos o jantar.

Outro gesto simples.

Mas íntimo.

Cashmere percebe.

Claro que percebe.

Os olhos dela estreitam um milímetro.

Sirius observa tudo com interesse quase divertido.

— Então... — diz ele, apoiando o cotovelo na mesa. — Como exatamente vocês dois se conheceram?

Katniss me olha cúmplice.

— Foi uma negociação.

Eu arqueio a sobrancelha.

— Eu chamaria de parceria.

Ela sorri.

— Ele chama de parceria quando ganha a discussão.

Eu rio baixo.

Cashmere não ri.

E eu tenho certeza absoluta de uma coisa. Ela está incomodada.

Existe uma regra não escrita sobre convivência.

Quando duas pessoas fingem estar apaixonadas…

É melhor manter uma distância segura.

Katniss Everdeen não acredita nessa regra.

Ou talvez simplesmente ignore.

Desde o jantar com Cashmere e Sirius, a dinâmica entre nós ficou… diferente.

Nada explícito, mas diferente.

Ela ainda discute comigo por qualquer motivo possível.

Eu ainda respondo com a mesma calma estratégica.

E, de alguma forma, continuamos funcionando.

Chegamos em casa e caminhamos até a sala.

Katniss está andando de um lado para o outro mexendo tanto nos cabelos que o penteado se desfaz.

— Eu ainda acho que Sirius estava se divertindo demais.

Estou sentado no sofá, sem o blazer, dobrando as mangas da camisa até os cotovelos.

— Ele estava.

— E você acha isso normal?

— Para Sirius? Sim.

Ela para na minha frente.

— Você percebeu como Cashmere ficou olhando pra gente?

— Percebi.

— Aquilo foi… estranho.

— Aquilo foi ciúme.

Katniss arregala os olhos.

— Ciúme?

— Sim.

— Não foi.

— Foi.

— Você está imaginando coisas.

Eu levanto uma sobrancelha.

— Eu passei três anos namorando aquela mulher.

Ela cruza os braços.

— E?

— Eu sei reconhecer quando ela está irritada.

Katniss suspira e começa a andar novamente pela sala.

— Eu não gostei daquele jantar.

— Eu também não.

— Então por que aceitou?

— Porque você aceitou primeiro.

Ela aponta para mim.

— Você manipulou aquela situação.

— Eu conduzi.

— Isso é manipulação.

— Diferença semântica.

Ela resmunga algo inaudível e se aproxima da mesa de centro.

No processo de pegar o copo de água…

O pé dela prende no tapete.

Tudo acontece rápido demais.

— Katniss...

Ela escorrega e cai. Direto em cima de mim. O impacto me joga para trás no sofá. Katniss está sobre mim. As mãos dela apoiadas no meu peito. O cabelo escuro caindo em volta do rosto.

E nossos rostos…

Perigosamente próximos.

Muito próximos.

Os olhos cinzentos dela encontram os meus.

E algo ali…

Para o tempo por um segundo inteiro.

Nenhum de nós se move.

A respiração dela bate no meu rosto.

Meu braço ainda está automaticamente segurando a cintura dela para impedir que caia no chão.

— Você… — Ela começa.

Mas não termina.

Porque no segundo seguinte…

Katniss me beija.

Não é um beijo longo.

Não é planejado.

É impulsivo.

Quase acidental.

Mas ainda assim, é um beijo.

E, por um momento completamente irracional…

Eu respondo.

Quando ela percebe o que fez, se afasta imediatamente.

Os olhos arregalados.

— Desculpa!

Eu ainda estou tentando lembrar como respirar.

— E-eu...

Ela se levanta rápido demais.

— Eu não sei por que fiz isso.

Passo a mão pelo rosto.

Recuperando controle, a postura ou qualquer coisa.

Então faço a única coisa que sei fazer quando algo emocional ameaça sair do controle.

Eu racionalizo.

— Katniss.

Ela me encara, mortificada.

— Sim?

Eu me levanto do sofá.

Arrumo a gravata inexistente, afinal eu não tinha colocado nenhuma.

— Estamos performando.

Ela pisca.

— O quê?

— Nosso relacionamento é público. — Cruzo os braços. — Beijos espontâneos fazem parte da narrativa.

Ela continua me olhando.

Claramente tentando decidir se acredita ou se me empurra na piscina.

— Então… — diz ela devagar. — Você está dizendo que isso foi atuação?

Eu inclino levemente a cabeça.

— Naturalidade é fundamental para convencer as pessoas.

Katniss estreita os olhos.

— Você é impossível.

— Profissional.

Ela vira para sair da sala, mas antes de subir as escadas… Para. Olha por cima do ombro.

— Mellark.

— Sim?

— Bela atuação.

E então ela sobe as escadas.

Me deixando sozinho na sala.

Com um único pensamento extremamente inconveniente na cabeça.

Katniss Everdeen definitivamente não sabe o que está fazendo comigo.

✦✦✦

— Pai, talvez devamos tentar uma outra alternativa.

O silêncio que se instala no escritório dura exatamente meio segundo.

Tempo suficiente para eu saber que disse algo que ele não gostou.

Meu pai ergue lentamente os olhos por cima dos óculos. O copo de café ainda na mão. A expressão de quem já venceu cem batalhas jurídicas e não tem paciência para a centésima primeira.

— Enlouqueceu, garoto?

A voz dele não sobe.

Nunca sobe.

Mas pesa.

— Representamos a Kodaline Group há anos. Se não fecharmos o contrato com a McKenna Motors, eles vão nos dispensar.

Eu me inclino na mesa.

— Eu sei.

— Então pare de agir como se estivéssemos negociando um jantar em família.

— Eu não estou.

Ele bate a caneta na mesa.

Uma vez.

— Esse contrato está pronto.

— Não está.

— Está.

— Não está.

O silêncio entre nós se torna pesado.

Eu puxo uma das páginas do contrato.

— A cláusula 17 permite revisão unilateral de fornecimento em caso de instabilidade cambial.

Ele estreita os olhos.

— Isso é padrão.

— Não nesse volume de fornecimento.

— Peeta...

— Se eles ativarem essa cláusula, a Kodaline assume um prejuízo absurdo em seis meses.

Ele me encara por alguns segundos.

A tensão cresce.

— Eu nunca vi você tremer na base — diz ele finalmente. — Vai por mim, esse contrato fecha hoje.

Eu me endireito.

— Não sem revisão.

O olhar dele endurece.

— Peeta Mellark Abernathy…

Ah.

Ele usou o sobrenome completo.

Sinal de guerra.

— Esse teatro de mentiras que você está vivendo com a lindinha te deixou gelatinoso?

A frase atinge em cheio.

Minha mandíbula trava.

— Não misture as coisas.

— Eu misturo o que quiser. — Ele cruza os braços. — Você cancelou uma viagem importante. Está distraído. E agora quer reabrir uma negociação que já está praticamente assinada.

— Eu estou fazendo meu trabalho.

— Está com medo de perder o cliente.

— Estou tentando impedir que o cliente seja explorado.

O silêncio explode entre nós.

E então...

Toc, toc, toc.

Batidas leves na porta.

Nós dois viramos ao mesmo tempo.

A porta se abre lentamente.

Katniss entra. Pastas nas mãos. Cabelo preso de qualquer jeito. Expressão concentrada.

Ela percebe imediatamente o clima.

— Eu… posso voltar depois.

Meu pai faz um gesto curto.

— Já começou, termina.

Katniss caminha até a mesa.

— Eu estava revisando a proposta da McKenna Motors.

Ela coloca as pastas diante de nós.

— Achei algumas discrepâncias.

Meu pai levanta uma sobrancelha.

— Discrepâncias?

Katniss abre uma das páginas.

— Aqui. — Ela aponta para uma tabela. — O volume de fornecimento anual projetado não bate com o cronograma de distribuição.

Meu pai se inclina em silêncio.

Katniss vira outra página.

— E aqui.

Ela desliza um marcador amarelo.

— A cláusula de revisão cambial não está vinculada ao teto de produção.

Meu pai pega os óculos novamente e lê.

Uma vez.

Duas.

Três.

Eu cruzo os braços.

— Foi exatamente isso que eu disse.

Ele não responde.

Katniss continua.

— Se a McKenna ativar essa cláusula no segundo trimestre… — Ela vira outra página. — A Kodaline assume uma perda estimada de quarenta e dois milhões.

O escritório fica completamente silencioso.

Meu pai fecha o contrato devagar.

Olha para mim.

Depois para Katniss.

Depois para mim de novo.

— Interessante.

Katniss não sorri.

Não comemora.

Apenas fica parada.

Meu pai suspira. Longo e pesado.

— Então revise essa porcaria de contrato — diz ele finalmente.

Vitória.

Mas pequena.

Ele pega o casaco.

Caminha até a porta.

Para antes de sair.

Olha para Katniss.

— Você é única, garota.

Pausa.

— Não deixe esse idiota desperdiçar isso.

Então ele sai.

A porta se fecha atrás dele.

O escritório fica em silêncio.

Eu olho para Katniss.

— Única, hein?

Ela pega as pastas novamente.

— Não se acostume.

Eu sorrio.

— Tarde demais.


Notas finais
E aí? O que acharam desse primeiro beijo? Será que o Peeta tá performando? E a dona Katniss ficou tão mexida que rolou um segundo beijo? Hum sei ñ esses dois! Excelente FDS a todas!!!! Até ❤️