O Amor que não Era pra Ser
6 Quarto Compartilhado, Distâncias Impossíveis
Notas iniciais


Pov. Katniss Everdeen
Talvez a parte mais difícil não seja admitir o que se sente. Talvez seja tentar esconder e perceber, com certo horror, que estou falhando de um jeito quase humilhantemente visível.
Passo a manhã inteira enterrada em jurisprudências, decisões antigas e uma sequência interminável de precedentes que começam todos iguais e terminam me deixando com a sensação de que minha visão está derretendo diante da tela do computador.
O escritório permanece silencioso naquele tipo de silêncio sofisticado que só lugares caros conseguem produzir. Até mesmo o ar-condicionado frio o suficiente para lembrar constantemente que ali ninguém tem permissão para parecer humano.
Quando finalmente fecho o último arquivo, esfrego os olhos e pego o celular.
Uma mensagem de Rue pisca na tela.
“Se você disser que ainda está viva, eu pago seu café.”
Sorrio sem querer.
“Cinco minutos. Se tiver açúcar suficiente envolvido, talvez eu sobreviva.”
A cafeteria escolhida por ela fica a duas quadras dali — pequena, elegante, com janelas amplas, mesinhas redondas de mármore branco e vasos de flores frescas espalhados.
Rue já está sentada perto da janela quando entro.
Como sempre, parece impossível alguém conseguir parecer ao mesmo tempo delicada e perigosamente observadora.
Ela me vê antes mesmo de eu tirar o casaco.
E então os olhos dela descem direto para minha mão esquerda.
Instantaneamente.
Rue larga a própria xícara sobre a mesa, estende a mão por cima dela e segura meus dedos como se estivesse analisando uma prova criminal.
— Eu não te disse que você ia acabar com um anel de noivado no dedo?
Reviro os olhos e me sento.
— É tudo uma farsa, Rue.
Ela inclina o rosto, ainda segurando minha mão, estudando o anel como se ele fosse confessar sozinho.
— Mas você gostaria que fosse verdade?
Fico em silêncio.
Puxo minha mão devagar e levo o café à boca só para ganhar tempo. O problema do café é que ele nunca responde por mim.
Rue espera.
Pacientemente.
O que piora tudo.
Engulo devagar.
— Você devia trabalhar em interrogatório policial.
Rue sorri daquele jeito satisfeito de quem já sabe que acertou.
— Responde.
Olho para ela por cima da borda da xícara.
— Eu gostaria de dormir oito horas seguidas sem precisar fingir sentimentos em horário comercial.
— Tradução: sim.
— Tradução: estou cansada.
— Tradução emocional: completamente sim.
— Existe alguma faculdade onde ensinam você a ser insuportável ou isso é dom natural?
— Bolsa integral. Fui destaque da turma.
Apesar de mim, rio.
Rue aponta discretamente para meu rosto.
— Você está diferente.
— Cansada de novo?
— Não. Irritantemente luminosa.
— Isso é uma ofensa sofisticada?
— Isso é cara de mulher que está emocionalmente comprometida e ainda acha que está no controle.
Cruzo os braços.
— Eu continuo no controle.
Rue arqueia uma sobrancelha.
— Katniss, você está usando o anel para mexer no guardanapo.
Olho para minha mão.
Estou mesmo girando o anel distraidamente.
Paro imediatamente.
Rue sorri ainda mais.
— Meu Deus. Você nem percebeu.
— Não significa nada.
— Claro. Pessoas totalmente indiferentes não ficam tocando alianças como protagonistas de filme europeu.
— Você está dramática hoje.
— E você está evitando o nome dele há quatro minutos.
Cruzo os braços com mais força.
— Peeta é parte do problema.
— Ah. Agora chegamos em algum lugar.
— Não chegamos a lugar nenhum.
— Katniss... sabe qual é a pior parte?
— Tenho medo da resposta.
— Você fala “é tudo falso”, mas toda vez que o nome dele é mencionado, seu rosto faz uma pequena traição.
— Meu rosto não trai ninguém.
— Seu rosto acabou de me provar o contrário.
Solto o ar devagar.
Lá fora, a cidade continua correndo atrás de si mesma através do vidro — táxis, gente apressada, sirenes distantes.
Aqui dentro, Rue me observa como se tivesse tempo infinito e nenhuma misericórdia.
— Ele beijou você? — pergunta ela, casual demais.
Engasgo com o café.
Rue abre um sorriso triunfante.
— Então beijou.
— Rue.
— Foi beijo de mentira ou beijo de verdade?
Apoio a xícara na mesa.
— Existe diferença.
— Pela sua reação? Existe muita.
Inclino o corpo para frente.
— Você acordou decidida a me torturar.
— Não. Só profundamente entretida.
Apoio os cotovelos na mesa.
— Você sabe que isso pode acabar muito mal.
Pela primeira vez, Rue suaviza o olhar.
— Eu sei.
— A mãe dele me analisa como se eu fosse um investimento de risco.
— E ele?
Essa pergunta demora mais dentro de mim do que deveria.
Olho para o café. Para a espuma quase intacta. Para qualquer coisa que não seja ela.
— Ele... complica as coisas.
Rue inclina a cabeça.
— Complica como?
Respiro fundo.
E odeio o fato da minha voz sair mais baixa:
— Como alguém que parece lembrar o tempo inteiro que isso deveria ser simples... mas não é.
Rue não fala nada por alguns segundos.
Depois sorri daquele jeito irritantemente doce.
— Tradução definitiva: você está perdida.
— Ainda dá tempo de eu ir embora.
— Não antes de me contar por que você parece alguém que passou a noite discutindo com o próprio travesseiro.
Antes que eu responda, meu celular vibra sobre a mesa.
Rue vê o nome na tela antes de mim.
E, naturalmente, sorri como se o universo trabalhasse exclusivamente para o entretenimento dela.
Peeta.
Rue leva a mão ao peito teatralmente.
— Ah, isso está ficando melhor do que cinema.
Olho para a tela.
E, por algum motivo completamente irritante, meu coração responde antes da razão.
Continuo olhando para a tela como se a resposta certa fosse surgir sozinha, pronta, elegante e sem consequências.
Não surge.
Rue, do outro lado da mesa, já está inclinada para frente com aquele brilho perigoso no olhar de quem acabou de encontrar entretenimento gratuito para o resto da manhã.
— Antes de você responder... — diz ela, levantando um dedo. — Precisamos organizar os fatos.
— Não precisamos organizar nada.
— Precisamos, sim. Porque você está claramente em negação avançada.
Ela apoia os cotovelos na mesa e começa a contar nos dedos, como se estivesse apresentando provas num tribunal.
— Primeiro: ele diz para a ex que está noivo de você.
— Rue...
— Segundo: cancelou uma viagem importante.
Pisco.
— Você não sabe se era importante.
— Homens como Peeta Mellark não cancelam agenda por resfriado emocional, Katniss.
— Ele tinha motivos.
— Terceiro: a mãe dele gosta de você.
— Não tenho certeza disso.
Rue inclina a cabeça.
— Você me contou que a mulher te convidou para sobremesa extra e perguntou qual vinho você preferia. Isso, em linguagem de família rica, é praticamente um abraço.
— Ou um teste social.
— Quarto — continua, ignorando completamente minha tentativa de defesa. — O pai dele já te adotou juridicamente.
Solto um som curto, indignado.
— O pai dele me assustou ontem.
A lembrança volta inteira demais. Haymitch Mellark surgindo com aquele olhar afiado de quem parece enxergar três camadas abaixo da pele de qualquer pessoa, me estudando como se eu fosse um contrato que ainda não decidiu se aprova.
Rue dá de ombros, tranquila.
— Isso é praticamente um pedido de bênção na família rica.
— Se isso for bênção, eu prefiro continuar órfã socialmente.
Ela ri.
Depois toma um gole de café e pergunta casualmente demais:
— E o beijo?
Quase engasgo de novo.
— Qual beijo?
Rue nem tenta esconder o sorriso.
— O beijo que claramente você ainda lembra em câmera lenta.
O calor sobe pelo meu rosto antes que eu consiga impedir.
Porque infelizmente ela está certa.
Eu lembro.
Lembro do instante exato em que ele segurou meu rosto como se tivesse medo de fazer qualquer movimento brusco. Lembro do silêncio antes. Do jeito como os olhos dele não desviaram. Do segundo em que tudo em mim decidiu esquecer que aquilo era uma encenação.
Fecho a mão em volta da xícara.
— Você é insuportável. Não sei porque ainda te conto as coisas.
Rue aponta discretamente para mim.
— Você fechou os olhos só de lembrar.
Abro imediatamente.
— Não fechei.
— Fechou.
— Você inventa fatos.
— Eu observo microexpressões.
Olho para a janela porque olhar para ela agora é impossível sem parecer culpada.
Meu celular vibra de novo.
Mensagem nova.
Peeta Mellark.
Rue praticamente se inclina sobre a mesa antes que eu consiga impedir.
“Onde você está?”
Leio em silêncio.
Rue ergue as sobrancelhas.
— Ah.
Digito sem pensar demais.
“Vivendo minha vida.”
A resposta chega quase instantaneamente.
“Sem supervisão?”
Rue vê antes de mim e leva a mão ao peito como se estivesse emocionalmente ferida pela audácia masculina.
— Ele está com saudade.
— Ele está controlando agenda.
— Isso é quase pior — diz ela, satisfeita.
Eu deveria ignorar e guardar o celular. Deveria manter qualquer resquício de dignidade. Mas já estou digitando.
“Talvez eu sobreviva algumas horas sem auditoria jurídica.”
Três pontinhos aparecem imediatamente.
Somem.
Voltam.
Meu coração, irritantemente, acompanha.
Rue me observa como se estivesse assistindo a uma série com episódios inéditos.
A resposta chega:
“Duvido. Você já tomou café ou está funcionando só na ironia?”
Paro. Porque isso significa que ele sabe exatamente como minhas manhãs funcionam. E odeio o pequeno efeito que isso causa.
Rue percebe meu silêncio.
— O que ele disse?
— Nada.
— Katniss.
Mostro a tela.
Ela lê e sorri como se tivesse acabado de ganhar uma aposta invisível.
— Ele presta atenção.
— Ele administra pessoas. É praticamente profissão dele reparar em detalhes.
— Não. — Rue balança a cabeça. — Administrar pessoas é lembrar prazos. Isso aí é lembrar você.
Não respondo.
Porque dessa vez até eu sei que qualquer resposta sairia errada.
Olho de novo para o celular.
E digito antes de reconsiderar.
“Estou tomando café. Em local civilizado. Com testemunhas.”
A resposta vem rápido demais.
“Ótimo. Preciso de você em quarenta minutos. Lavinia já está me julgando por te procurar antes do horário.”
Rue lê por cima do meu ombro.
— Hmm... Lavinia já percebeu.
— Lavinia percebe até quando alguém muda de perfume no elevador.
— Então imagina vocês dois.
Guardo o celular na bolsa antes que ela continue.
Mas obviamente ela continua.
— Você vai me agradecer quando esse homem estiver completamente destruído por você.
Levanto.
— Eu vou te culpar quando isso virar desastre.
Rue também se levanta.
— Katniss?
— O quê?
Ela sorri daquele jeito calmo, quase doce.
— Você já está esperando mensagem dele antes mesmo do celular vibrar.
Isso me atinge num lugar irritantemente preciso.
Pego a bolsa.
— Você realmente merece ser proibida de falar antes das dez da manhã.
Rue ri.
— Vai lá, noiva falsa.
Saio da cafeteria tentando parecer normal.
Mas enquanto caminho de volta para a empresa, meu celular pesa mais na bolsa do que deveria. Porque, contra toda lógica possível, uma parte de mim já está imaginando o rosto dele quando eu entrar naquela sala.
E isso é exatamente o tipo de pensamento que eu deveria evitar, mas claramente estou falhando nisso também.
Volto para o prédio da Mellark Legal Consulting tentando manter a expressão neutra de quem apenas tomou café e retornou ao trabalho como qualquer pessoa funcional faria.
Por dentro, porém, ainda carrego Rue inteira ecoando na cabeça.
Ele presta atenção.
Ele lembra você.
Ele está com saudade.
Empurro a porta giratória já decidida a não pensar nisso.
Decisão inútil.
Porque no instante em que o elevador privativo se abre no vigésimo quinto andar, Lavinia ergue os olhos do tablet, me vê e lança aquele olhar milimetricamente calculado de quem sabe exatamente quanto tempo eu demorei.
— Senhorita Everdeen — diz ela, impecável como sempre. — Ele perguntou por você duas vezes.
— Isso foi um relatório ou uma acusação?
— Depende de como pretende se defender.
Nem respondo.
Só sigo até a sala dele, já preparada para encontrar o habitual: terno impecável, gravata alinhada, expressão de quem nasceu discutindo cláusulas contratuais.
Mas quando abro a porta…
Meu cérebro falha por um segundo.
Peeta está sem gravata.
A camisa branca está com os dois primeiros botões abertos, as mangas dobradas até os antebraços, e ele está inclinado sobre a mesa analisando algum documento como se não tivesse qualquer consciência do efeito visual absurdamente inconveniente que isso provoca.
O problema é justamente esse, ele parece consciente.
Muito consciente.
Porque ergue os olhos no instante em que entro.
E me observa por um segundo inteiro antes de falar.
— Você demorou.
A voz sai calma demais.
Como se fosse apenas constatação.
Mas não é.
Fecho a porta atrás de mim.
— Eu estava tomando café.
— Isso eu deduzi.
Aproximo-me da mesa.
— Então por que perguntou onde eu estava?
Ele fecha a pasta devagar.
— Porque você respondeu como se estivesse fugindo de supervisão federal.
Cruzo os braços.
— Talvez eu estivesse.
Um canto mínimo da boca dele se move.
— Com quem?
A pergunta vem casual.
Casual demais.
Reconheço imediatamente quando alguém tenta fingir desinteresse.
E, curiosamente, ele é péssimo nisso.
— Rue.
Algo quase imperceptível muda no rosto dele.
Não chega a endurecer, mas ajusta.
— Muito tempo de café para duas pessoas.
Inclino a cabeça.
— Está medindo meu consumo de cafeína ou minha agenda social?
— Estou medindo o tempo em que Lavinia me lançou olhares passivo-agressivos como se eu fosse responsável pelo atraso geral da produtividade jurídica.
— Claro.
Dou dois passos pelo escritório.
— Rue estava fazendo o que Rue faz melhor.
— Que seria?
Olho diretamente para ele.
— Tirar conclusões absurdas.
Agora ele presta atenção de verdade.
— Sobre?
— Sobre você.
Peeta encosta lentamente na borda da mesa.
— Isso parece perigoso.
— Foi.
— E o veredito?
A pergunta vem rápida demais.
Quase automática.
E isso me diverte mais do que deveria.
— Você quer mesmo saber?
— Já perguntei.
Apoio a bolsa na cadeira.
— Rue acha que você está emocionalmente comprometido.
Ele arqueia uma sobrancelha.
— Ela também acha que filmes românticos deveriam ser disciplina obrigatória.
— Ela tem argumentos.
— Imagino.
Dou de ombros.
— Ela também disse que sua família praticamente já me adotou juridicamente.
Dessa vez ele ri. Baixo e curto, mas ri.
E é sempre estranho perceber como isso muda completamente o rosto dele.
— Meu pai realmente te assustou ontem? — pergunta.
— Seu pai parece alguém que poderia me interrogar por três horas e ainda me fazer agradecer.
— Isso significa que ele gostou de você.
— Na sua família tudo parece ameaça e aprovação ao mesmo tempo.
— Em geral, sim.
O silêncio que segue não pesa. Ele apenas fica ali. Leve demais para ser confortável.
Perigoso demais para ser ignorado.
Então ele muda de assunto de repente.
— Precisamos sair hoje à noite.
Reviro os olhos imediatamente.
— Claro que precisamos.
— Evento beneficente.
— Sua mãe?
— Não. Johanna.
Isso me faz parar.
— Johanna Mason organiza eventos beneficentes?
— Quando quer causar impacto social e escândalo moderado, sim.
— Isso parece ameaçador.
— Ela está na cidade. É um jantar pequeno. Alguns investidores. Parceiros. Pessoas que inevitavelmente vão perguntar sobre nós.
— E eu suponho que isso exige mais um treinamento intensivo de sobrevivência social.
Ele se afasta da mesa e pega uma pasta.
— Exige que você não desapareça por uma hora inteira com sua amiga antes do horário combinado.
A frase sai leve.
Mas tem algo ali.
Quase provocação. Quase ciúme. O suficiente para eu notar.
— Isso foi ciúme corporativo?
Ele ergue os olhos.
— Isso foi cálculo logístico.
— Claro.
— Você sempre chama de ciúme quando alguém espera pontualidade?
Dou um passo mais perto sem perceber.
— Só quando a pessoa manda “sem supervisão?” por mensagem.
Agora somos próximos o suficiente para que eu veja claramente o instante em que ele percebe isso também.
Os olhos dele descem por um segundo — rápido demais, mas eu noto.
Voltam aos meus.
— E você respondeu.
— Porque ainda estou tentando descobrir até onde vai seu instinto de controle.
— E descobriu?
Minha voz sai mais baixa sem autorização.
— Ainda estou investigando.
Silêncio outra vez.
O tipo errado de silêncio.
Ou exatamente o tipo certo, o que talvez seja pior.
A batida discreta na porta salva os dois.
Lavinia entra com um tablet nas mãos e para no instante em que nos vê próximos demais.
Os olhos dela brilham minimamente.
— Interrompo?
Eu me afasto primeiro.
— Sim.
Peeta nem disfarça a irritação breve.
— O que houve?
— Johanna Mason ligou. Disse, e cito: “Se vocês chegarem atrasados, eu pessoalmente destruo a reputação emocional dos dois”.
Fecho os olhos por um segundo.
— Ela fala assim normalmente?
— Em dias bons — responde Peeta .
Lavinia entrega a pasta para ele.
— E mandou avisar que o traje é elegante, mas que a senhorita Everdeen não deve deixar o senhor Mellark escolher nada sozinho.
Olho imediatamente para Peeta.
— Excelente conselho.
Lavinia sai.
Peeta suspira.
— Isso foi desnecessário.
— Não. Isso foi justiça histórica depois do vestido da festa de noivado.
Ele passa a mão pelos cabelos, quase rendido.
E, irritantemente, isso o deixa ainda mais bonito.
— Você tem duas horas.
— Para quê?
— Para me impedir de cometer outro erro fashion irreparável.
Pego a bolsa de volta.
— Isso talvez seja a primeira decisão sensata do seu dia.
Quando já estou na porta, ele fala:
— Katniss.
Olho para trás.
A voz dele sai baixa.
— O que exatamente Rue disse sobre o beijo?
Congelo.
Literalmente.
Porque ele pergunta isso sem mover um músculo.
Como se não tivesse importância.
Como se tivesse toda importância.
Sorrio devagar.
— Agora quem está demorando demais em perguntas pessoais é você, Mellark.
E saio antes que ele veja o quanto meu coração resolve complicar tudo de novo.
✦✦✦
Duas horas depois, eu estou oficialmente pronta para mais uma noite em que metade das pessoas presentes vai fingir interesse em causas sociais enquanto a outra metade mede alianças, sobrenomes e patrimônios com o mesmo entusiasmo com que escolhe sobremesas.
O vestido que escolho é simples o suficiente para não parecer esforço exagerado e elegante o bastante para impedir qualquer comentário imediato de alguém com a língua afiada demais.
Ainda assim, quando desço a escada da casa e encontro Peeta esperando junto à porta, ele claramente esquece por um segundo que deveria manter a compostura habitual.
O olhar dele sobe devagar.
Sem pressa e sem disfarce.
E fica ali tempo demais.
Cruzo os braços.
— Vai continuar me olhando como se estivesse revisando um contrato complicado ou pretende dizer alguma coisa?
Ele pisca, como se voltasse.
— Está adequado.
Rio baixo.
— Adequado? Esse é o melhor elogio jurídico que você tem?
— Você está bonita.
A correção vem rápida.
Quase seca demais, como se precisasse neutralizar o próprio tom.
Mas já ouvi.
E isso basta para me irritar numa medida curiosamente agradável.
No carro, o caminho até o evento segue num silêncio estranho — não desconfortável, mas carregado daquela sensação de que qualquer frase errada pode empurrar alguma coisa para um lugar menos seguro.
Quando chegamos, entendo imediatamente por que Johanna chamou aquilo de “jantar pequeno”.
Na linguagem dela, pequeno significa um salão sofisticado, iluminação baixa, música discreta e gente absurdamente bem vestida circulando com taças de cristal como se já tivessem nascido sabendo exatamente onde apoiar os dedos.
Assim que entramos, Johanna nos vê.
E sorri daquele jeito perigosamente satisfeito que sempre significa problema.
Ela vem na nossa direção antes mesmo de cumprimentar qualquer outra pessoa.
Vestido escuro, postura impecável, olhar afiado.
— Finalmente — diz, olhando de um para o outro como quem avalia uma cena particularmente divertida. — Eu já estava prestes a apostar dinheiro em qual dos dois desistiria primeiro.
— Você convidou pessoas ou abriu uma casa de apostas? — pergunto.
— As duas coisas. A segunda está muito mais interessante... Finalmente conheço a fatal Katniss Everdeen que algemou o loiro aqui.
Ela então estreita os olhos para mim, depois para Peeta.
E imediatamente percebe.
Claro que percebe.
Ela parece o tipo que sempre percebe.
— Meu Deus — diz, inclinando a cabeça. — Isso aqui está pior do que eu imaginei.
Peeta suspira.
— Johanna...
— Não, espera. — Ela levanta a mão, teatral. — Vocês estão naquele estágio maravilhoso em que fingem normalidade enquanto claramente existe eletricidade suficiente para derrubar Manhattan.
Meu rosto esquenta antes que eu consiga impedir.
— Você exagera por esporte?
— Não. Eu observo por hobby.
Ela aponta discretamente para Peeta.
— Ele está olhando para você desde que entrou.
Depois aponta para mim.
— E você está fingindo que não percebeu desde a porta.
Peeta cruza os braços.
— Você chamou a gente para arrecadar fundos ou para humilhar publicamente?
— As duas coisas continuam válidas.
Ela se inclina para mim, cúmplice demais.
— Só me avisa quando esse homem parar de agir como se sentimentos fossem cláusulas contratuais.
— Você fala como se eu não estivesse aqui. — Peeta diz seco.
— Está. E está irritado porque acertei.
Antes que ele responda, uma nova voz surge ao lado.
— Eu sabia que encontraria material interessante por aqui.
Viro o rosto.
Sirius e Cashmere.
Impecavelmente vestidos, sorriso fáceis, aquele tipo de presença que parece confortável em qualquer ambiente.
Eles cumprimentam Johanna primeiro, depois olham para nós.
— Então finalmente nos encontramos novamente.
— Isso parece ameaçador — murmuro.
— Não é ameaça. É apenas... curioso — observa Cashmere.
Peeta ao meu lado já parece levemente menos paciente.
Sirius percebe.
E sorri ainda mais.
— Perfeito. Era exatamente essa reação que eu esperava.
— O que você quer, Sirius? — pergunta Peeta.
— Na verdade, Johanna entrou em contato comigo para um convite.
Johanna imediatamente cruza os braços.
— Ah, isso vai ser bom demais. Que tal, sexta-feira. Chalé em Aspen. Dois dias. Pouca gente. Neve, vinho, civilização limitada e nenhum investidor fazendo perguntas sobre fusões empresariais.
Sirius olha diretamente para nós dois.
Peeta responde imediatamente:
— Não.
— Nem terminei.
— Justamente por isso.
Sirius ignora.
— Eu, Johanna, mais alguns amigos. Nada formal. Só um fim de semana decente.
Olho para Peeta.
Ele claramente já decidiu negar antes mesmo de processar.
— Temos agenda — diz ele.
— Sexta à noite? — Sirius pergunta. — Você sempre tem agenda ou usa isso como mecanismo de defesa?
Johanna entra no ataque sem hesitar.
— Aceita, Mellark. Você está precisando urgentemente lembrar como pessoas normais respiram fora de Manhattan.
— Pessoas normais não definem Aspen como retiro casual.
Johanna ri.
Sirius volta a olhar para mim.
— Katniss, você aceita?
Abro a boca, mas Peeta responde antes:
— Ela também tem agenda.
Olho imediatamente para ele.
— Eu tenho?
Ele me encara por um segundo.
Percebe tarde demais.
Johanna praticamente vibra de satisfação.
— Ah, excelente. Já estamos nesse estágio.
Sirius sorri como quem acaba de ganhar alguma aposta invisível.
— Então está resolvido.
— Não está — rebate Peeta.
— Está sim. — Johanna corta. — Porque agora eu quero ver vocês dois presos num chalé com lareira e zero fuga corporativa.
Peeta passa a mão pelo rosto, claramente reconsiderando a própria existência.
Eu deveria ajudá-lo.
Talvez.
Mas, curiosamente, quero ver até onde isso vai.
Sirius inclina levemente a cabeça.
— Sexta. Saída às quatro.
Peeta me olha.
E naquele olhar existe relutância real, mas também outra coisa. Algo que reconheço rápido demais, ele já sabe que vai ceder.
Suspira. Longo, controlado e derrotado.
— Dois dias.
Johanna bate palmas discretamente.
— Isso vai render histórias excelentes.
Sirius sorri satisfeito.
— Excelente. E Mellark?
— O quê?
— Leve roupas casuais. Pela última vez você parecia pronto para fechar aquisição bancária na neve.
Até eu rio.
Peeta olha para mim como se a culpa disso também fosse minha.
E talvez já seja.
Porque, enquanto Sirius, Cashmere e Johanna se afastam, percebo que uma parte absurdamente inconveniente de mim já está imaginando um chalé, neve… e dois dias inteiros sem distância suficiente para fingir normalidade.
O que é uma péssima ideia.
Justamente por isso parece perigosa.
Pov. Peeta Mellark
O trajeto de volta começa em silêncio. Não um silêncio ruim, mas aquele tipo específico de silêncio que existe quando duas pessoas ainda estão processando coisas demais ao mesmo tempo e qualquer frase simples corre o risco de abrir assuntos maiores do que deveria.
Estou dirigindo.
Katniss está ao meu lado, olhando a cidade passar pela janela como se ela pudesse oferecer alguma resposta lógica para o fato de que, em menos de cinco minutos, Sirius Plinth conseguiu nos empurrar para um fim de semana inteiro num chalé.
Dois dias.
Dois dias fora da cidade.
Dois dias sem escritório, sem contratos, sem distância estratégica.
Excelente.
Ou perigosamente idiota.
Ainda não decidi.
Ela cruza os braços.
— Você podia ter dito não com mais convicção.
Mantenho os olhos na avenida.
— Eu disse não.
— Disse, mas com a energia de alguém que já sabia que ia perder.
— Sirius não entende negativas sociais.
— Johanna também não.
— Isso explica metade dos problemas do meu círculo social.
Ela finalmente vira o rosto para mim.
— Então por que aceitou?
Boa pergunta.
O problema é que eu sei a resposta.
Aceitei porque dizer não, enquanto ela estava ali ouvindo, de algum modo pareceu exageradamente defensivo.
Aceitei porque Johanna jamais deixaria o assunto morrer.
Aceitei porque, quando Sirius perguntou diretamente para Katniss, eu respondi por ela antes que ela pudesse falar e isso já tinha sido revelador o suficiente. E logicamente ver a expressão ciumenta de Cashmere é impagável.
Mas nada disso é resposta que eu pretenda oferecer em voz alta.
— Dois dias passam rápido — digo.
Katniss solta um som curto.
— Isso parece a frase de alguém que claramente nunca ficou preso num lugar com Johanna Mason perto de bebida alcoólica.
— Você está subestimando meu histórico de sobrevivência.
— Estou subestimando sua noção de lazer.
Dessa vez olho rapidamente para ela.
— Isso foi pessoal.
— Foi preciso.
Há um pequeno sorriso no canto da boca dela.
Discreto.
Mas real.
E isso torna o silêncio seguinte mais leve do que deveria.
O celular vibra no console central.
Olho rapidamente a tela.
Johanna.
Claro.
Ativo a mensagem por voz sem pensar muito.
Erro tático.
A voz dela invade o carro imediatamente:
— Mellark, só uma observação logística, não engravidem no meu chalé. Eu realmente não quero carregar esse tipo de energia nos quartos de hóspedes.
Katniss fica absolutamente imóvel por dois segundos.
Depois vira lentamente o rosto para mim.
Eu desligo a mensagem.
Tarde demais.
— Eu odeio profundamente seus amigos — diz ela, séria demais para esconder o riso.
— Isso foi especificamente Johanna. Não transfira culpa coletiva.
— “Não engravidem no meu chalé”? Isso é o tipo de frase que ela manda com frequência?
— Com variações piores.
Meu celular vibra de novo.
Nova mensagem.
Dessa vez texto.
Abro no semáforo.
“E se acontecer, não gemem alto demais.”
Fecho imediatamente.
Katniss já percebeu.
— Ela escreveu mais?
— Nada relevante.
— Isso significa que ficou pior.
— Significa que você não precisa saber.
— Agora eu preciso.
O sinal abre.
Volto a dirigir.
— Não.
Ela inclina a cabeça.
— Você sabe que negar só aumenta minha curiosidade.
— E você sabe que isso não altera minha resposta.
— Então vou perguntar até você cansar.
— Você subestima meu preparo.
— Você subestima minha persistência.
O problema é que ela diz isso olhando para mim daquele jeito calmo demais, e meu cérebro decide registrar isso como informação excessivamente perigosa.
Quando chegamos em casa, percebo imediatamente que a noite não terminou de complicar.
Porque agora existe uma viagem.
E uma viagem exige bagagem.
Katniss sobe primeiro.
Ainda ouço a voz dela no corredor:
— Se você levar terno para um chalé, eu cancelo tudo.
— Eu não levaria terno.
— Você levaria blazer.
— Talvez.
— Isso confirma meu ponto.
Vou para o closet decidido a encerrar isso rapidamente.
Erro número dois.
Porque roupas casuais, aparentemente, exigem escolhas demais quando alguém observa.
Pego uma camiseta escura.
Depois outra.
Uma calça de moletom mais adequada.
Uma jaqueta.
Katniss aparece na porta sem bater, já trocada, os braços cruzados.
— Eu vim fiscalizar.
— Isso está virando hábito.
— Porque você claramente precisa.
Ela entra dois passos.
Olha para a cama onde deixei as roupas.
Depois para mim.
E fica em silêncio.
Demora meio segundo a mais do que o normal.
Estou sem paletó.
Sem gravata.
Só camisa preta ajustada ao corpo e mangas dobradas.
Nada extraordinário.
Mas o olhar dela diz outra coisa.
— O quê? — pergunto.
Ela pisca, como se voltasse.
— Você realmente vai assim?
Olho para mim mesmo.
— Assim como?
— Casual demais.
— Isso é uma crítica?
— Isso é... observação técnica.
— Técnica.
— Técnica.
Pego outra camiseta.
— Você desaprova?
— Ainda estou decidindo se isso é adequado para convivência humana em ambiente com neve.
Quase sorrio.
— Você está estranhamente preocupada com minhas roupas.
— Porque agora sei que existe uma versão sua sem armadura jurídica e isso parece injustamente eficiente.
Paro.
Olho para ela.
— Armadura jurídica?
— Terno. Gravata. Cara de quem processaria uma montanha se ela te contrariasse.
— E agora?
Ela demora.
Esse pequeno atraso é mais revelador do que qualquer resposta pronta.
— Agora parece alguém que sabe exatamente que efeito causa e finge não saber.
Isso me faz rir. Baixo, curto, mas real.
Ela claramente se arrepende de ter dito no instante seguinte.
Porque cruza os braços com mais força.
— Não sorri como se isso ajudasse.
— Você acabou de me acusar de premeditação estética.
— Eu acusei de excesso de confiança silenciosa.
— Piorou bastante.
Ela olha para as roupas.
Depois pega uma das camisetas.
— Essa não.
— Por quê?
— Porque sim.
— Excelente critério jurídico.
— Confie em mim.
Essa frase.
Outra vez essa frase.
E curiosamente continuo obedecendo.
Troco pela que ela escolhe.
Quando volto a olhar, ela ainda está ali.
Muito perto da cama.
Muito perto de mim.
Muito perto para parecer completamente casual.
— Katniss.
— Hum?
— Você percebe que vamos passar dois dias presos num chalé com Johanna e Sirius decididos a nos provocar o tempo inteiro?
— Percebo.
— E isso não te preocupa?
Ela ergue os olhos.
Há um brilho divertido ali.
Mas também algo mais difícil de ler.
— Honestamente?
— Honestamente.
— O que me preocupa é você levar blazer escondido.
Dessa vez eu rio de verdade.
E ela também.
Mas o problema continua sendo outro.
O quarto fica pequeno demais quando ela ri assim.
E o fim de semana ainda nem começou.
✦✦✦
A sexta-feira chega rápido demais.
Rápido no tipo de velocidade irritante que normalmente só existe quando a agenda está cheia e alguém decidiu inserir, entre reuniões e relatórios internacionais, um fim de semana inteiro cercado por neve, amigos inconvenientes e ausência quase total de rotas de fuga.
No meio da manhã ainda estou encerrando uma chamada com Bruxelas quando Lavinia entra sem bater.
— Seu voo social sai em três horas — informa ela, deixando uma pasta sobre a mesa.
— “Voo social” parece ofensivo.
— É a única definição compatível com viajar voluntariamente com Johanna Mason.
Assino o último documento.
— Meu pai ligou?
— Duas vezes.
— E?
— Eu disse que o senhor está ocupado salvando reputações estratégicas.
Ergo os olhos.
— Lavinia...
Ela finalmente sorri, mínima.
— Ela está aqui fora.
Não preciso perguntar quem.
Porque no instante em que saio da sala, vejo Katniss no corredor.
E por um segundo esqueço completamente o que pretendia dizer.
Ela está usando um casaco claro ajustado à cintura, botas de cano alto e o cabelo solto de um jeito simples demais para justificar o efeito absurdo que isso produz.
Não é exatamente elegância social.
É pior.
É aquela versão dela que parece natural demais para qualquer defesa racional funcionar.
Ela percebe meu olhar.
— Você está atrasado.
A voz dela sai neutra, como se não notasse que eu também precisei de um segundo inteiro a mais para responder.
— Estou dentro do horário.
— Dentro do seu horário ou do horário real?
— Essa pergunta já nasceu ofensiva.
Ela observa meu sobretudo.
E aí acontece.
A pausa.
Curta, mas clara.
Porque vejo exatamente o instante em que ela me olha de cima a baixo.
Casaco de inverno escuro, gola alta, jeans escuro, botas.
Nada sofisticado.
Nada calculado.
Mas o olhar dela fica ali tempo suficiente para que eu perceba.
— Algum problema? — pergunto.
Ela desvia rápido demais.
— Nenhum.
— Você acabou de me avaliar visualmente.
— Eu avalio riscos.
— Meu sobretudo é um risco?
— Ainda estou decidindo.
O elevador se abre antes que ela precise elaborar.
Melhor assim.
Porque, curiosamente, não tenho certeza se quero que ela explique.
O aeroporto particular de Manhattan já está exatamente como imaginei.
Sirius confortável demais.
Johanna falando alto demais.
E Cashmere.
Paro no instante em que a vejo ao lado de Sirius.
Vestida com perfeição previsível, óculos escuros, casaco escuro, postura impecável — como se até o frio obedecesse à estética dela.
Johanna percebe minha reação imediatamente.
Claro que percebe.
— Antes que você me olhe assim — diz rla, sem culpa alguma. — Estou blindada contra os raios infravermelhos dos seus olhos.
Sirius ergue a mão.
— Diplomacia social.
Cashmere tira os óculos lentamente.
O olhar dela vai direto para mim.
Depois para Katniss.
E permanece ali tempo demais.
— Peeta.
A voz dela continua igual.
Suave demais.
Educada demais.
Katniss, ao meu lado, não recua um centímetro.
Ao contrário.
Ela se aproxima.
Discretamente.
Braço encostando no meu.
Calor imediato através do tecido do casaco.
Encenação.
Claro.
Mas uma encenação perigosamente convincente.
— Cashmere — respondo.
Ela então olha para Katniss.
Avalia.
Inteira.
Detalhadamente.
Katniss sustenta sem desviar.
— Ei Katniss, você está elegante — diz Cashmere.
— E você está exatamente como imaginei.
Johanna engasga discretamente de riso.
Sirius já parece arrependido e entretido ao mesmo tempo.
Cashmere arqueia uma sobrancelha.
— Isso foi elogio?
— Ainda estou decidindo.
Johanna praticamente vibra.
— Eu sabia que esse voo ia valer o aluguel.
No jatinho particular, o espaço interno é luxuoso demais até para Sirius.
Poltronas largas, madeira clara, iluminação suave. E disposição cruel de assentos.
Porque Sirius senta de frente para Johanna.
Cashmere pega imediatamente o lado oposto.
O único lugar natural restante deixa Katniss ao meu lado.
Ela senta sem hesitar.
E, num gesto que claramente nasce de puro cálculo social, apoia-se um pouco mais perto de mim do que seria necessário.
A perna dela encosta na minha.
O braço toca meu casaco.
O perfume dela chega de novo.
Cashmere vê.
Claro que vê.
E não para de olhar.
Katniss percebe isso também.
E em vez de recuar…
Piora.
Inclina-se levemente para mim.
— Sua amiga sempre cria ambientes tão saudáveis assim?
A voz baixa demais.
Próxima demais.
— Normalmente piores.
— Ótimo.
Cashmere continua observando.
Johanna, do outro lado, quase sorri dentro da taça de vinho.
— Vocês estão ridiculamente convincentes hoje — comenta.
— Você não disse que queria naturalidade? — Katniss devolve.
— Isso já passou de naturalidade. Isso está quase ofensivo para quem está solteira ou quase isso.
Sirius ri.
Cashmere continua em silêncio.
Mas o olhar analítico dela permanece em Katniss.
Não hostil.
Não exatamente.
Mais como alguém tentando resolver uma equação que claramente não esperava encontrar.
E isso me irrita mais do que deveria.
Katniss cruza as pernas, ainda encostada em mim.
E murmura sem olhar:
— Ela vai continuar me analisando até Aspen?
— Provavelmente.
— Ótimo. Então vou piorar o quadro.
Antes que eu pergunte como, ela apoia a mão no meu braço.
Natural.
Leve.
Mas firme.
A temperatura interna do jatinho muda imediatamente para mim.
Encenação.
Claro.
Só encenação.
Johanna vê.
Sirius vê.
Cashmere vê.
E eu odeio o fato de meu corpo reagir como se não houvesse nenhuma plateia.
Aspen surge branca pela janela.
Montanhas, pinheiros cobertos de neve, luz fria demais.
Quando desembarcamos, o vento corta imediatamente.
Katniss puxa o casaco para mais perto do corpo.
E me olha no instante em que fecho o sobretudo e ajusto as luvas.
Outra vez aquela pausa.
Outra vez aquele olhar rápido demais para ser comentado.
Mas noto.
— Ainda avaliando riscos? — pergunto.
Ela ajeita a gola.
— Seu problema é parecer confortável demais em qualquer ambiente.
— Isso foi quase elogio.
— Foi observação meteorológica.
Johanna passa entre nós.
— Meu Deus, vocês dois conseguem transformar qualquer frase em tensão sexual involuntária.
— Johanna — digo.
— Não fui eu que aluguei esse clima.
O chalé é grande demais para chamar de chalé.
Madeira escura, janelas amplas, lareira central, luz quente espalhada por todo o salão principal.
No instante em que entramos, o calor interno muda tudo.
Casacos saem.
Luvas desaparecem.
E o ambiente fica imediatamente mais íntimo do que deveria.
Os quartos ficam no andar superior.
Johanna sobe primeiro, girando um molho de chaves no dedo como quem claramente está prestes a causar algum tipo de dano social deliberado.
— Certo — anuncia, teatral demais. — Organização noturna.
Sirius já começa a rir antes mesmo de ouvir.
Mau sinal.
Johanna para diante de nós.
Entrega uma chave diretamente na minha mão.
— Suíte principal para o casal.
Antes que eu diga qualquer coisa, ela aponta para o corredor.
— Quarto de frente para Cashmere e Sirius.
Claro.
Naturalmente.
Sirius nem tenta esconder o sorriso.
— Isso parece cuidadosamente arquitetado.
— Porque foi — responde Johanna sem pudor.
Cashmere, alguns passos atrás, ergue apenas uma sobrancelha, mas não comenta.
Katniss ao meu lado não reage imediatamente.
Só vira o rosto para mim.
Aquele olhar rápido, silencioso, absolutamente claro:
Encenação em ação.
Não reclama.
Não discute.
Não recua.
Eu também não.
Porque protestar agora só tornaria tudo pior.
Então apenas seguro a chave.
Como se aquilo fosse completamente normal.
Como se dividir um quarto com Katniss diante de Cashmere fosse uma simples formalidade social e não um cenário absurdamente mal calculado.
Johanna parece satisfeita demais.
— Excelente. Adoro maturidade emocional disfarçada.
— Você chama isso de maturidade? — pergunto.
— Chamo isso de entretenimento de inverno.
Subimos.
O corredor é silencioso demais.
Katniss caminha ao meu lado sem dizer nada até eu abrir a porta.
Então entramos.
E o problema imediatamente aumenta.
Porque o quarto principal é grande demais.
Uma cama king size ocupa o centro do espaço com uma naturalidade ofensiva.
Há uma lareira privativa acesa perto da janela. Tapete espesso. Poltronas.
Varanda coberta de neve logo além do vidro.
Tudo cuidadosamente pensado para casais em retiro romântico.
Perfeito.
Katniss fecha a porta atrás de nós.
Encosta as costas nela por um segundo.
Olha o quarto inteiro.
Depois para mim.
E finalmente diz:
— Estamos ferrados.
Não discordo.
Ela solta o ar devagar e aponta para a cama.
— Ainda bem que a cama é gigante.
Caminha até ela, mede visualmente a distância absurda entre um lado e outro.
— Você dorme desse lado.
Aponta para a esquerda.
— Eu desse.
A direita.
Como se estivesse estabelecendo fronteiras internacionais.
— Linha imaginária no meio?
— Linha diplomática inviolável — corrige.
Tiro o casaco devagar, ainda observando a seriedade quase técnica com que ela trata aquilo.
— E se alguém entrar?
Ela já está avaliando a lareira.
— A gente finge naturalidade e torce para Johanna não aparecer com vinho e perguntas impróprias.
— Isso é improvável.
— Concordo.
Ela finalmente me olha outra vez.
E há humor ali.
Mas também consciência plena do absurdo.
— Você percebe que sua ex está exatamente do outro lado do corredor.
— Percebo.
— E que Johanna vai passar o fim de semana inteiro esperando alguma reação nossa.
— Também percebo.
Katniss cruza os braços.
— Então oficialmente...
Inclina levemente a cabeça.
— Encenação em tempo integral.
O fogo da lareira estala atrás dela.
A luz quente corta o rosto dela de um jeito perigosamente tranquilo.
— Katniss.
— Hum?
— Você está calma demais para alguém que acabou de aceitar dividir uma cama comigo.
Ela sorri mínimo.
Daqueles sorrisos perigosos porque surgem sem esforço.
— Não estou calma.
Pausa.
— Só estou escolhendo parecer funcional.
E, curiosamente, entendo perfeitamente.
Porque essa também é exatamente minha estratégia.
A casa inteira silencia mais rápido do que eu esperava.
E então sobra apenas o crepitar constante da lareira no quarto e a estranha consciência de que Katniss está do outro lado da mesma cama.
A cama é grande.
Ridiculamente grande.
Ainda assim, a simples existência dela ali altera completamente a noção de espaço.
Estou deitado de costas, olhando o teto escuro.
A luz da lareira dança nas paredes.
Nenhum de nós fala por alguns minutos.
Mas também nenhum de nós dorme.
Consigo perceber isso pelo ritmo da respiração dela.
Pelo pequeno movimento quando ela vira de lado.
Depois outro.
O colchão afunda minimamente.
Mais alguns segundos.
Até que a voz dela surge no escuro:
— Você está acordado.
— Sim.
— Ótimo. Porque eu também.
Olho para o teto ainda.
— Conclusão previsível.
Ela puxa mais o cobertor.
— Está frio demais.
A frase sai quase irritada, como se o clima fosse uma afronta pessoal.
A lareira continua acesa, mas Aspen claramente ignora qualquer tentativa de conforto moderado.
Viro o rosto.
No reflexo quente do fogo, consigo ver apenas parte do rosto dela, cabelo espalhado no travesseiro, expressão alerta demais para alguém que deveria estar tentando dormir.
— Quer mais um cobertor?
Ela afunda um pouco mais sob o cobertor.
— Quero processar a temperatura desse lugar.
Quase sorrio.
Depois me sento.
— Já volto.
Ela ergue a cabeça imediatamente.
— Onde você vai?
— Cozinha.
— À uma da manhã?
— Sim.
— Isso parece suspeito.
— Talvez seja.
Saio antes que ela continue.
O chalé inteiro está silencioso.
Desço as escadas apenas com a luz baixa da cozinha acesa.
A vantagem de cozinhar quando o resto da casa dorme é que o som organiza pensamentos.
Panela. Leite. Chocolate. Canela.
Movimentos simples e familiares.
Quando volto ao quarto, ela já está sentada, abraçada aos joelhos, olhando a lareira.
Para um segundo ao me ver entrar com duas canecas.
— Você realmente foi cozinhar.
Entrego uma a ela.
— Chocolate quente.
Katniss segura a caneca com as duas mãos imediatamente.
Como se já soubesse exatamente o quanto precisava daquilo.
Toma um gole pequeno.
Fecha os olhos por um instante.
Depois abre.
E me olha.
— Isso foi bem romântico da sua parte.
A frase sai leve.
Mas ainda assim me faz rir.
Ela ri também.
Baixo.
Sem esforço.
E talvez seja isso que torna o momento perigosamente simples.
Porque não há plateia.
Não há Cashmere.
Não há Johanna.
Só neve do lado de fora, lareira e duas pessoas dividindo silêncio sem precisar fingir tanto.
Sento na poltrona perto da cama.
Ela continua segurando a caneca.
— Certo — diz depois de mais um gole. — Agora você vai me contar algo profundo.
Ergo uma sobrancelha.
— Profundo? Se me lembro bem, alguém impôs limites de nada de conversas profundas.
Ela aponta a caneca para mim.
— Ah, isso foi antes, Mellark.
— Antes de Aspen?
— Antes de chocolate quente à uma da manhã.
O fogo estala. Olho para a chama por alguns segundos. Porque curiosamente sei exatamente qual memória surge primeiro.
E não costumo falar dela.
Mas talvez o horário, o frio ou a ausência de defesas tornem isso mais fácil do que deveria.
— Meu irmão Cyril morreu num acidente de moto.
A frase sai simples. Direta.
Mas o peso dela nunca muda.
Katniss não interrompe.
Não oferece reação imediata.
Só espera.
O que, curiosamente, ajuda.
— Ele era mais velho — continuo. — Sempre pareceu o tipo de pessoa que sabia ocupar espaço sem esforço. Entrava num lugar e tudo girava ao redor dele sem parecer arrogância.
Olho para a caneca na minha mão.
— Minha mãe nunca voltou totalmente depois disso. É por isso que ela não sai de casa.
A lareira estala outra vez.
— E meu pai resolveu trabalhar ainda mais. Sempre viajando como se pudesse compensar ausência criando movimento.
Katniss continua em silêncio.
Mas agora há algo no olhar dela que muda.
Mais suave e atento.
— Às vezes acho que a casa inteira ficou presa no dia em que ele morreu.
Minha voz sai mais baixa do que planejei.
— E o pior é que, com o tempo, você aprende a funcionar tão bem dentro disso que quase esquece que alguma coisa ali nunca foi realmente resolvida.
Katniss baixa os olhos para a caneca.
Quando fala, a voz dela sai diferente também.
Menos provocação.
Mais verdade.
— Sinto muito.
Dou de ombros mínimos.
— Mas olha eu aqui lamentando... enquanto você perdeu os pais tão cedo.
Apoio a caneca na mesa lateral.
— Agora você me conta algo.
Ela sorri de leve, quase sem perceber.
— Eu devia saber que você devolveria isso como interrogatório.
— Apenas justiça narrativa.
Katniss se ajeita na cama, as mãos ainda abraçada à caneca.
— Tem um caderno.
— Um caderno...
— Um caderno enorme, chato, sublinhado em três cores diferentes e com mais anotações do que páginas intactas.
— Isso parece muito você.
Ela quase ri.
— Direito Constitucional comparado.
— Romântico.
— Muito mais do que parece.
Agora ela olha para o fogo também.
— Quando tudo ficou ruim... quando dinheiro virou problema, aluguel virou ameaça, comida virou cálculo... eu continuei estudando e escrevendo naquele caderno como se fosse uma espécie de promessa pessoal.
Pausa curta.
— Porque eu queria ser advogada.
A frase fica entre nós.
Sem ironia.
Sem proteção.
Só verdade.
— Não assistente jurídica. Não alguém que organiza processos dos outros. Advogada. — Os dedos dela apertam a caneca. — Ainda quero.
A forma como diz isso torna impossível não acreditar.
— Você vai ser.
Ela me olha imediatamente.
Como se a resposta tivesse vindo rápido demais.
— Você diz isso com muita certeza.
— Porque eu já vi metade daquela empresa funcionar graças a você sem admitir.
Katniss sorri.
Mas dessa vez há algo mais delicado ali.
Quase vulnerável.
— Isso foi quase inspirador.
— Não espalhe.
— Vai arruinar sua reputação, eu sei.
Lá fora a neve continua caindo.
Dentro do quarto, a lareira mantém a luz baixa.
E desde que chegamos, o silêncio deixa de parecer tenso. Agora só parece... confortável.
O tipo de conforto que talvez seja exatamente o que deveria me preocupar.
Porque quando Katniss termina o chocolate e se ajeita novamente na cama, puxando o cobertor até o queixo, percebo uma coisa absurdamente simples:
Nenhum dos dois está com pressa de encerrar a conversa.
E isso talvez seja mais perigoso do que qualquer quarto compartilhado.
A conversa continua por mais tempo do que qualquer um de nós planejou.
Ou talvez nenhum dos dois tenha realmente planejado parar.
A lareira segue acesa, lançando luz quente sobre o quarto enquanto a neve engrossa do lado de fora e o mundo inteiro parece distante demais para exigir qualquer postura.
Katniss continua falando do tal caderno.
Dos artigos marcados. Das anotações na margem. De como, às vezes, ela relê a mesma página inteira só para lembrar a si mesma que ainda existe um caminho que não dependa apenas de sobreviver ao mês seguinte.
A voz dela vai perdendo força devagar.
Não de tristeza.
De cansaço.
Primeiro as pausas ficam maiores.
Depois ela demora mais entre uma frase e outra.
— Tem uma parte... — murmura, já mais baixa, mexendo distraidamente no cobertor. — Sobre interpretação constitucional que...
A frase não termina.
Espero.
Nada.
Olho melhor.
Katniss ainda está com a cabeça voltada para mim, mas os olhos já se fecharam sem que ela percebesse o próprio sono chegando.
A caneca vazia permanece esquecida ao lado.
Uma mecha do cabelo cai sobre o rosto.
E por um instante fico apenas observando.
Porque há algo quase injustamente diferente nela dormindo assim — sem ironia, sem defesa, sem aquela vigilância constante que normalmente parece nunca desligar.
A lareira estala.
Levanto devagar para não acordá-la.
O cobertor deslizou um pouco.
Puxo com cuidado até os ombros dela.
Ela se move minimamente, num reflexo leve e afunda mais no travesseiro.
Então acontece o pequeno problema que eu claramente deveria prever...
Fico perto demais. Muito perto. Próximo o suficiente para sentir o calor da respiração dela.
Para perceber o perfume ainda leve no tecido do travesseiro. Para notar que, mesmo dormindo, a expressão dela finalmente parece em paz.
E isso me prende ali mais um segundo do que deveria.
Dois.
Talvez três.
Até eu me obrigar a recuar.
Volto para meu lado da cama, apago apenas a luminária lateral e deixo a lareira reduzir lentamente.
Mas dormir, curiosamente, continua impossível.
Porque agora o quarto parece ainda menor.
E porque a última imagem que fica comigo antes de fechar os olhos é Katniss adormecida dizendo que queria ser advogada como se ainda estivesse defendendo um sonho de alguém tentar arrancar dela.
A manhã chega clara demais.
O reflexo da neve invade o quarto antes mesmo de qualquer despertador.
Acordo cedo.
Katniss ainda dorme.
Dessa vez profundamente.
O cabelo espalhado, o cobertor embolado de novo, uma das mãos perdida perto do rosto.
Saio primeiro para evitar qualquer cena desnecessária no corredor.
Erro de cálculo.
Porque no instante em que fecho a porta do quarto, dou de cara com Cashmere saindo exatamente do quarto em frente.
Claro.
Ela para.
Os olhos dela descem para a maçaneta atrás de mim.
Depois voltam para mim.
Silêncio absoluto por dois segundos.
Então a porta atrás de mim abre novamente.
Katniss surge ainda sonolenta, usando o casaco por cima do pijama, claramente sem perceber a composição exata do corredor até erguer os olhos.
E vê Cashmere.
A pausa é mínima.
Mas existe.
Katniss entende imediatamente.
E sem hesitar, fecha melhor o casaco e se aproxima um passo de mim.
Natural.
Calma.
Como se sair do mesmo quarto fosse a coisa mais previsível do mundo.
Encenação impecável.
Cashmere observa isso inteiro.
— Dormiram bem? — pergunta, educada demais.
Katniss responde antes de mim.
— Surpreendentemente, sim.
Cashmere sustenta o olhar dela por um instante.
Depois apenas sorri daquele jeito elegante demais para ser simples.
— Que bom.
Ela segue corredor abaixo.
Katniss só espera ela desaparecer para murmurar:
— Isso definitivamente contou pontos para Johanna.
— Muitos.
— Ótimo. Odeio contribuir para o entretenimento dela.
Descemos juntos.
E a cozinha já está barulhenta.
Porque aparentemente o chalé decidiu multiplicar habitantes durante a madrugada.
Johanna está perto da bancada.
Mas não sozinha.
Gale Hawthorne acaba de chegar.
E antes mesmo que eu formule qualquer comentário, Johanna segura o rosto dele e o beija sem qualquer cerimônia.
Direto.
Claro.
Sem disfarce algum.
Paro no último degrau.
Katniss também.
— Então era isso — digo.
Johanna olha imediatamente.
Nenhuma culpa.
Nenhuma vergonha.
— Ah, ótimo, vocês acordaram a tempo da revelação oficial.
Gale passa a mão na nuca, sem exatamente parecer constrangido.
— Você já sabia.
— Suspeitava.
— Seu problema é achar que ninguém percebe nada — responde Johanna.
— Seu problema é transformar tudo em anúncio público.
— Porque anúncios públicos são eficientes.
Katniss ao meu lado parece genuinamente satisfeita.
— Isso explica várias mensagens estranhas dela.
— E várias ausências minhas em Boston — completa Gale.
Antes que qualquer outro comentário aconteça, a porta principal abre novamente.
Finnick entra primeiro.
Como sempre, parecendo confortável demais em qualquer ambiente.
Atrás dele, Annie.
Mais delicada, sorriso tranquilo, cachecol enorme cobrindo metade do rosto.
Finnick me cumprimenta com naturalidade, depois vê Katniss.
E abre um sorriso imediato.
— Finalmente.
Katniss arqueia uma sobrancelha.
— Isso soa ameaçador.
— Isso soa honesto — responde ele. — Todos em Boston estão com saudades do seu sarcasmo e do seu humor ácido.
Ela cruza os braços.
— Eu quase nem trabalho em Boston.
— Exatamente por isso sentimos falta. O escritório de lá ficou excessivamente civilizado.
Johanna aponta para ele.
— Eu disse isso semana passada.
Finnick larga a bolsa no chão.
— Sem ela, ninguém desmonta estagiário arrogante com eficiência suficiente.
Katniss olha para mim de lado.
— Então agora minha reputação atravessou estados.
— Já atravessou andares há meses — respondo.
Annie sorri discretamente.
— Finnick exagera um pouco.
— Nunca em temas importantes — rebate ele.
A cozinha enche rápido.
Café sendo servido.
Cheiro de pão quente.
Neve ainda cobrindo tudo do lado de fora.
Johanna já reorganizando cadeiras como se comandasse um pequeno caos doméstico.
Katniss senta perto da janela.
E por um instante, no meio do barulho, das novas presenças e da manhã absurdamente viva, percebo uma coisa simples.
Ela parece pertencer ali com uma naturalidade que ninguém planejou. E talvez isso seja exatamente o que torna tudo mais perigoso.
Porque Aspen ainda mal começou.
E a sensação de que esse fim de semana vai complicar muito mais do que deveria já não parece exagero.
Só parece inevitável.
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