O Amor que não Era pra Ser
7 Coração de Neve
Notas iniciais


Pov. Katniss Everdeen
A neve está alta, após o café da manhã agitado e de certa forma animado, saímos para fora para, segundo Johanna, tentarmos fazer algo para não congelarmos dentro do chalé.
O grupo disperso à frente parece alheio ao frio. Finnick e Annie rindo mais à frente. Johanna e Gale discutindo absurdamente sobre quem sabe acender churrasqueira na neve. Sirius tentando convencer Cashmere a esquiar.
Peeta e eu naturalmente caminhamos um pouco afastados. Ele parece absurdamente confortável no frio. E noto isso.
— Você nasceu geneticamente adaptado ao inverno ou isso também faz parte do pacote Mellark? — provoco.
— Dinheiro antigo inclui resistência térmica.
Eu rio. Em seguida paro. Pego neve.
No início parece uma bola prestes a atacar nele. Mas não. Eu junto neve entre os dedos sem pensar muito. Aperto. Ajusto as laterais. Quando percebo, não é uma bola. É um coração pequeno, quase irregular, frio demais para durar.
Peeta percebe. Há um silêncio breve.
E aí ele pergunta:
— Isso foi simbólico ou acidental?
— Foi falta de atividade motora. — Supervisiono meu trabalho.
Peeta pega o coração da minha mão enluvada, observa e diz:
— Advogada promissora. Escultora questionável.
— Ainda assim melhor que seus comentários.
— Discordo. Meus comentários têm estrutura.
— E meu coração de neve não?
Ele ergue uma sobrancelha.
— Está torto.
— Corações reais também costumam estar.
A frase sai antes que eu pense.
E imediatamente eu quero recolhê-la de volta.
Porque Peeta não responde de imediato.
Ele apenas me olha daquele jeito perigosamente silencioso que ele tem — como se de repente tudo ao redor diminuísse e só sobrasse aquele espaço entre nós dois, a neve caindo leve, o vapor da respiração no ar e o som distante de Johanna gritando alguma ameaça contra Gale.
Peeta pega um pouco de neve da cerca lateral do caminho.
Molde rápido. Entrega para mim. Uma tentativa desastrosa de coração. Mais torto que o meu.
— Isso é ofensivo à arte — digo.
— Isso é parceria artística.
— Isso parece um rim congelado.
Ele ri.
E então, antes que eu perceba, aproxima os dois corações. O meu e o dele. Encostando um no outro. Dois formatos imperfeitos. Ridículos e estranhamente bonitos.
— Agora parece menos trágico — diz ele.
Eu desvio os olhos porque meu corpo reage como se ele tivesse dito algo muito maior do que realmente disse.
À frente, Finnick grita:
— Annie, não joga neve na minha nuca, isso é crime conjugal!
Annie gargalha.
Johanna continua:
— Gale, isso definitivamente não é carvão! Isso parece pedra vulcânica!
— Você quer fazer então?
— Quero porque você claramente vai incendiar Aspen!
Sirius, já alguns metros adiante, grita:
— Cashmere! Você prometeu tentar esquiar sem ameaçar ninguém!
— Eu prometi tentar. Não prometi gostar!
— Eles parecem perfeitamente ajustados ao caos — murmuro.
— Nós também estamos no mesmo grupo, então talvez isso diga algo.
— Diz que ninguém aqui faz escolhas plenamente racionais.
Ele me olha de lado.
— Incluindo você?
— Especialmente eu.
Continuamos andando. A neve afunda sob as botas. O frio morde o rosto, mas não tanto quanto antes.
Talvez porque eu esteja prestando atenção demais em outra coisa. Na forma como ele mantém o passo igual ao meu. Na maneira como não força a conversa e também na naturalidade desconcertante disso.
Até que, numa descida pequena coberta por gelo, meu pé escapa. Rápido demais. Entretanto, ele segura meu braço antes que eu caia. Firme e natural. Meu corpo bate contra o dele. Por um segundo inteiro. Talvez dois.
O mundo fica absurdamente estranho.
A mão dele continua no meu braço. Minha respiração falha de forma irritante.
— Está tudo bem? — pergunta, baixo.
— Sim.
Mas continuo sem me afastar imediatamente.
Erro grave. Porque agora noto detalhes demais. O casaco dele. O cheiro leve da colônia amadeirada. O vapor quente da respiração muito perto. Os olhos descendo para minha boca por uma fração mínima de segundo.
E então...
— Katniss! — Johanna grita ao longe. — Se vocês dois congelarem se olhando eu não vou preencher relatório nenhum!
Eu me afasto imediatamente.
— Ela tem timing criminoso.
— Ou excelente timing — responde Peeta, mas há algo diferente na voz dele.
Voltamos para o chalé junto do grupo.
A descida parece simples até deixar de ser. Uma camada fina de gelo escondida sob a neve trai meu pé novamente antes que eu consiga reagir. O corpo inclina. Instinto puro, mas desta vez não chego a cair. Porque Peeta me segura e não apenas pelo braço. A mão dele encontra minha cintura com firmeza, me puxando de volta antes que eu perca totalmente o equilíbrio.
O impacto é pequeno, mas suficiente para me fazer colidir contra ele. Muito perto. Perto demais. Minha luva encosta no casaco dele. Minha respiração falha de um jeito irritantemente perceptível.
E o problema real é que, nenhum de nós se afasta. A mão dele continua firme na minha cintura. Quente mesmo através das camadas de roupa. Meu corpo demora um segundo inteiro para lembrar que deveria reagir. Talvez mais de um segundo. Porque os olhos dele descem novamente até minha boca por um instante tão curto que seria fácil fingir que imaginei.
Mas não imaginei.
O ar ao redor parece quente apesar da neve que cai devagar.
Lá na frente alguém ri, alguém discute, alguém chama por Sirius, mas tudo parece distante demais. Só existe esse silêncio estranho entre nós. Esse tempo que já passou do necessário.
— Katniss... — diz ele, baixo.
Como se fosse pergunta, aviso ou os dois.
Antes que eu descubra escuto ela, claro, sempre ela.
— Eu devia cobrar ingresso! — Johanna grita do alto da pequena subida, com a voz atravessando o frio como um tiro certeiro.
O efeito é imediato. Eu me afasto primeiro. Rápido demais.
— Ela realmente não perde nada — murmuro.
— Infelizmente não — completa Peeta, mas há algo diferente no tom dele. Mais baixo. Mais rouco.
Johanna sorri como quem venceu uma aposta inexistente.
Finnick, ao lado dela, levanta as sobrancelhas como se também estivesse mentalmente anotando alguma coisa para usar depois.
E então noto Cashmere alguns metros adiante.
Ela não está sorrindo. Nem irônica e tão pouco na defensiva.
Apenas observando. Como se finalmente estivesse vendo algo sem filtro. Quando o grupo volta a caminhar, ela desacelera o passo até ficar ao meu lado. Por um segundo acho que virá alguma frase elegante e venenosa. Mas não. Ela mantém os olhos na trilha branca à frente e fala num tom baixo, quase casual.
— Agora entendo por que ele cancelou Londres.
Viro o rosto para encará-la. Não há provocação. Só constatação. Madura e quase serena.
— Achei que você ainda me odiasse um pouco — digo antes de pensar.
Cashmere solta um meio sorriso pequeno, sem olhar diretamente para mim.
— Não odeio mulheres que não estão fingindo.
A frase paira entre nós, simples, mas maior do que parece.
Depois ela volta a andar, alcançando Sirius, que imediatamente começa a falar algo sobre vinho quente e ela responde com uma paciência inesperada.
Fico olhando por um segundo.
E estranho perceber que aquilo parece... encerramento. Sem guerra e sem teatro. Só um capítulo finalmente aceitando que terminou.
Ao meu lado, Peeta retoma o passo em silêncio. Porém, agora existe uma distância mínima demais entre nós. Como se nenhum dos dois soubesse exatamente qual espaço ocupar depois de segundos longos demais na neve.
— Você quase caiu — comenta ele, após alguns segundos.
— Mas não caí.
— Porque eu segurei.
Olho para frente.
— Você está estranhamente satisfeito com esse detalhe.
— Estou considerando adicionar ao meu currículo.
— Advogado. Arrogante. Salvamento em superfícies congeladas.
— Parece sólido.
— Pretensioso.
Ele sorri.
Seguimos de volta ao chalé com o barulho do grupo crescendo à frente, enquanto alguma coisa dentro de mim ainda tenta entender por que aquele toque demorou tanto para desaparecer.
Finalmente de volta ao chalé e, é estranho como o barulho interno parece muito maior depois do silêncio lá fora.
Ambiente aquecido. O cheiro de chocolate quente pairando no ar mesmo antes do almoço. Botas espalhadas. Annie tentando secar luvas na lareira. Finnick roubando marshmallows. Johanna decretando que todos precisam de banho quente antes do almoço porque ninguém suportaria "cheiro coletivo de neve molhada".
A rotina parece simples, mas algo mudou. Percebo isso quando subo para o quarto. Porque agora existe o detalhe inevitável entre Peeta e eu...
Sabemos muito um sobre o outro.
Mais do que deveríamos para um acordo temporário e mais do que seria confortável admitir.
Tomo um rápido banho e troco de roupa no quarto, como se cada peça escolhida precisasse também reorganizar alguma coisa dentro de mim. Um suéter claro, calça escura confortável, cabelo solto de qualquer jeito. Nada elaborado. Mas ainda assim demoro olhando meu reflexo por alguns segundos.
Como se o espelho pudesse responder por que meu corpo ainda lembra exatamente o lugar onde a mão dele esteve.
Desço as escadas. O chalé está vivo de novo.
Johanna discute do corredor que alguém deixou toalha molhada sobre uma poltrona. Annie ri de alguma coisa dita por Cashmere. Sirius abre uma janela por dois segundos e imediatamente alguém reclama do frio.
O cheiro da cozinha me puxa antes mesmo que eu decida ajudar.
Quando entro, encontro Finnick de costas para mim diante da bancada, concentrado de um jeito teatral demais para alguém cozinhando.
— Finalmente alguém sensato — anuncia ele, sem nem se virar. — Porque aqui claramente sou o único artista culinário respeitado.
Peeta está no fogão. Mangas dobradas até os antebraços. Panela no fogo. Movimento bem natural. Como se cozinhar também fosse uma linguagem só dele. Isso continua sendo irritantemente atraente.
Finnick aponta com orgulho exagerado para a travessa.
— Salmão com ervas frescas. Minha especialidade. Annie diz que se eu fosse menos bonito ainda assim me suportaria por isso.
— Annie claramente tem critérios generosos — respondo.
Ele leva a mão ao peito.
— Cruel. Muito cruel.
Peeta ergue os olhos para mim por apenas um segundo, mas esse segundo basta. Porque há ainda um resto silencioso da neve entre nós. Da cintura. Do tempo longo demais.
— Se quiser ajudar... — diz ele, voltando ao fogão. — As batatas.
Olho para a bancada. Batatas. Descascador. Tábua.
— Isso foi um convite ou distribuição autoritária de tarefas?
— Considerando que você está no meu território temporário, vou chamar de cooperação supervisionada.
Pego o descascador.
— Advogados realmente têm dificuldade em soar normais.
Finnick já posiciona o salmão no forno.
— Eu já contribuí com a parte sofisticada — anuncia. — Então, como homem maduro e generoso, vou me retirar antes que me transformem em mão de obra gratuita.
— Você literalmente colocou peixe numa assadeira — digo.
— Com técnica.
Ele passa entre nós, pega uma taça vazia da bancada e aponta teatralmente para Peeta.
— Não queime nada.
Depois para mim:
— Se ele começar a agir como se estivesse num tribunal, jogue uma batata nele.
— Anotado.
Finnick sorri satisfeito.
— Excelente. Vou verificar se Johanna já iniciou alguma guerra civil no andar de cima.
E sai.
A cozinha fica estranhamente maior depois que ele desaparece. Ou talvez apenas silenciosa demais.
O forno emite um som leve. A panela ferve. A faca de Peeta toca a tábua num ritmo preciso enquanto ele corta algo que não identifico de imediato.
Eu começo a descascar as batatas.
Por alguns segundos, só existe isso.
A normalidade fabricada de duas pessoas dividindo uma cozinha. Contudo, nada parece totalmente normal. Porque agora percebo detalhes demais. O antebraço dele. O vapor subindo do fogão. A proximidade. As sobrancelhas concentradas demais no que faz e os cílios quase transparentes de tão loiros quando o sol entra pela janela.
O silêncio que não pesa... mas também não relaxa.
— Você quase caiu de verdade lá fora — diz ele, sem me olhar.
— Você já comentou isso.
— Só estou avaliando se devo cobrar pela função de resgate.
— Cobrar?
— Dependendo da frequência.
— Sua confiança continua excessiva.
Um canto da boca dele se move. Quase sorriso.
Continuo descascando, mas uma batata escapa da minha mão, desliza na bancada e quase cai. Peeta segura antes. Ao mesmo tempo que minha mão também alcança. Nossos dedos encostam. Ridiculamente rápido. Ridiculamente pequeno. Porém, suficiente. Retiro a mão primeiro. Claro.
— Parece que hoje objetos têm dificuldade em permanecer estáveis perto de você — comenta ele.
— Talvez a cozinha tenha energia hostil.
— Ou talvez você esteja distraída.
Olho para ele, finalmente.
— E você?
Agora ele ergue os olhos.
Direto.
— Também.
A resposta vem simples demais. Sem ironia e sem defesa. Isso deveria ser ilegal.
Volto imediatamente às batatas porque meu cérebro precisa urgentemente fingir que continua funcional.
— Finnick exagera nas ervas — digo só para preencher o ar.
— Finnick exagera em tudo.
— Você também exagera em algumas coisas.
— Por exemplo?
— Controle.
Ele mexe algo na panela.
Pausa.
— Controle evita desastres.
— Nem sempre.
— Você fala por experiência?
Descasco mais uma batata.
— Falo por observação.
Há um silêncio breve. Depois ele desliga uma das bocas do fogão. Se aproxima da bancada. Mais perto do que precisava. Pega outra faca. Começa a cortar as batatas que já descasquei. Trabalhando ao meu lado agora. Lado a lado. O espaço parece menor. A cozinha mais quente.
— Katniss... — Começa ele baixo.
— Hum?
— Cashmere falou com você lá fora?
A pergunta me surpreende.
Olho de lado.
— Falou.
— E?
— Disse que agora entende por que você cancelou Londres.
A faca dele pausa por um segundo. Só um segundo. Depois continua.
— Ela tem observado demais.
— Talvez todos aqui tenham.
Ele solta um pequeno ar pelo nariz.
Quase riso.
— Johanna certamente tem.
— Johanna vai transformar qualquer silêncio em espetáculo.
— Ela já transformou.
Agora sim ele sorri de verdade. Curto, mas real. E é exatamente isso que me desorganiza mais do que deveria. Porque até alguns dias atrás Peeta Mellark era apenas meu chefe impossível. Agora ele está ao meu lado cortando batatas enquanto o forno aquece um salmão, a neve cobre Aspen do lado de fora e meu corpo ainda lembra demais do toque dele.
E isso...
Isso começa a parecer perigosamente difícil de fingir.
— Eu sabia.
A voz surge tão de repente que quase deixo a batata escapar de novo.
Johanna entra na cozinha sem qualquer cerimônia, apoiada no batente da porta, cabelo ainda úmido do banho, suéter largo, expressão de quem claramente encontrou exatamente o que esperava encontrar.
Os olhos dela vão de mim para Peeta. Depois para a bancada e a distância curta demais entre nós.
— Impressionante — diz, cruzando os braços. — Saio por sete minutos e volto para encontrar tensão sexual temperada com alecrim.
— Você realmente não bate em portas? — pergunto.
— Bater em portas é um desperdício quando o ambiente já está entregando tudo sozinho.
Peeta continua cortando as batatas como se estivesse num tribunal.
— Você veio ajudar ou apenas narrar cenários imaginários?
— Vim pegar vinho. Mas sinceramente? Agora estou emocionalmente alimentada.
Ela se aproxima da bancada, pega uma taça vazia e observa o salmão no forno.
— Finnick já anunciou três vezes que esse peixe merece respeito diplomático.
— Finnick tem relação emocional com ingredientes — digo.
— Finnick tem relação emocional com qualquer coisa que o faça parecer talentoso.
Johanna abre a geladeira, pega a garrafa de vinho e antes de sair aponta para nós dois com o gargalo.
— Só uma observação técnica, se vocês continuarem se olhando desse jeito, Annie vai começar a acreditar em alma gêmea.
— Ninguém está se olhando de jeito nenhum — respondo rápido demais.
Johanna sorri.
O pior tipo de sorriso.
— Claro.
Sai da cozinha deixando atrás dela o rastro habitual de caos verbal.
O silêncio volta.
Mas agora contaminado pelo constrangimento inevitável.
Peeta deposita a faca na bancada.
— Ela vai transformar qualquer detalhe em teoria conspiratória.
— Porque você dá material.
— Você também.
Olho para ele.
— Eu estou descascando batatas.
— Exatamente.
Não respondo.
Porque ele parece perigosamente satisfeito com essa resposta.
O almoço acontece com o barulho típico de gente demais tentando ocupar o mesmo espaço aquecido.
Finnick exige reconhecimento público pelo salmão. Annie realmente o elogia como se ele tivesse preparado um banquete real. Cashmere comenta que as ervas estão excessivas. Finnick se ofende por sete segundos antes de decidir que ela “claramente não compreende arte”.
Johanna bebe vinho como quem já planeja algum desastre. Gale continua discutindo com ela sobre carvão, mesmo horas depois da churrasqueira frustrada. Sirius tenta convencer todo mundo a esquiar novamente no dia seguinte.
E Peeta...
Peeta parece absurdamente natural sentado ali. Conversando pouco. Observando muito. Às vezes me olhando sem aviso. Às vezes desviando rápido demais quando percebe que notei.
Depois do almoço, a sala principal vira refúgio coletivo.
A lareira acesa estala baixo.
As mantas aparecem.
Annie se acomoda no tapete perto do fogo. Finnick ocupa metade do sofá como se fosse dono do chalé.
Cashmere senta numa poltrona com uma taça nas mãos.
Eu escolho o braço lateral do sofá.
Peeta ao meu lado, perto demais para parecer casual, longe demais para parecer deliberado.
Johanna gira a taça de vinho e anuncia:
— Certo. Já que ninguém aqui tem maturidade suficiente para apenas conversar normalmente... proponho verdade ou consequência.
Finnick imediatamente levanta a mão.
— Apoiado. Finalmente uma atividade à altura do meu talento.
— Você considera talento sobreviver sem filtro? — pergunta Gale.
— Considero dom natural.
Annie ri.
— Eu topo.
— Péssima ideia — murmuro.
Johanna me aponta.
— Exatamente por isso será excelente.
Peeta encosta no sofá, olhando para o fogo.
— Isso termina mal em qualquer cenário.
— Melhor ainda — responde Johanna.
Cashmere observa por cima da taça.
— Quem começa?
Johanna não hesita.
— Finnick. Porque ele mente com facilidade demais e isso torna tudo mais divertido.
— Verdade — diz ele imediatamente.
Johanna sorri como predadora.
— Quantas vezes você já fingiu gostar de vinho ruim só porque queria impressionar alguém?
— Inúmeras. Próximo.
— Sem vergonha nenhuma?
— Nenhuma. Annie me ama apesar disso.
Annie confirma com a cabeça.
— Infelizmente é verdade.
Risos leves atravessam a sala.
O jogo segue rápido.
Annie recebe uma pergunta leve.
Gale recusa uma verdade e acaba obrigado a buscar lenha do lado de fora sob protestos gerais.
Cashmere responde com elegância irritante sobre seu pior encontro em Londres.
Até que Johanna gira o olhar.
Direto para mim.
Claro.
— Katniss Everdeen.
Já sinto o problema antes da pergunta chegar.
— Verdade ou consequência?
— Verdade.
Erro meu, pois Johanna se inclina para frente com os olhos brilhando e a cara mais deslavada possível, solta a pergunta mais constrangedora e inconveniente da minha vida.
— Qual o lugar mais inusitado que você e o Peeta já transaram?
A sala inteira silencia.
Até a lenha estalando parece diminuir.
Finnick claramente tenta não sorrir.
Annie arregala discretamente os olhos.
Cashmere observa sem interferir.
Peeta não move um músculo sequer ao meu lado.
O calor da lareira subitamente parece excessivo.
Olho direto para Johanna.
— Você confundiu verdade com interrogatório criminal.
— Responda.
— Bem... — digo, controlando a voz e tentando não pegar fogo de tanta vergonha. — Creio que foi na Lamborghini dele após um treino de boxe intenso que tivemos.
Johanna inclina a cabeça.
— Resposta tecnicamente perigosa. Muito excitante por sinal.
— Minha vez acabou. — Tento não transparecer meu constrangimento e o olhar de soslaio que Peeta me lança não me ajuda.
— Ainda não. — Finnick interfere, satisfeito demais. — Agora é a vez do advogado.
Todos olham para Peeta.
Claro.
Johanna sorri lentamente.
— Peeta Mellark. Verdade ou consequência?
Ele sequer pensa.
— Verdade.
Erro dele.
Johanna apoia os cotovelos nos joelhos.
— Quando transou com a Katniss na sua Lamborghini... você demorou para soltar porque precisava estabiliza-la... ou porque não queria soltar?
O silêncio agora é pior. Muito pior. Sinto o corpo inteiro alerta sem motivo lógico.
Peeta encara Johanna por dois segundos.
Depois de pigarrear ele responde:
— Eu estava avaliando o risco de quere-la novamente.
Finnick gargalha.
— É um Conquistador nato como quando nos conhecemos em Harvard.
Annie cobre o sorriso com a manta.
Cashmere abaixa a taça devagar.
Johanna ergue o dedo.
— Resposta aceita.
Mas Peeta apenas recosta de novo no sofá. Calmo demais. Como se não tivesse acabado de incendiar discretamente o ar da sala.
Ao meu lado, sem olhar diretamente para mim, ele pega o copo de água.
E eu odeio perceber que continuo lembrando perfeitamente da mão dele na minha cintura lá fora. Mesmo com todo mundo aqui e com a lareira acesa.
Porque algumas coisas, aparentemente, não desaparecem quando deveriam.
Pov. Peeta Mellark
Algumas ideias parecem ruins antes de começarem. Outras começam ruins e conseguem piorar progressivamente.
Johanna Mason tem talento raro para conduzir ambas.
Depois da minha resposta cuidadosamente inútil, Finnick ainda ri como se tivesse presenciado algo memorável demais para deixar passar.
— “Avaliando o risco de quere-la novamente” — repete ele. — Isso foi tão romântico quanto uma cláusula contratual.
Gale, encostado na poltrona lateral, cobre o sorriso com o copo.
Claro que cobre. Porque ele sabe. Único ali, além de mim e Katniss, que entende exatamente o tamanho do teatro.
Johanna gira a taça entre os dedos, claramente insatisfeita por ainda não ter provocado dano suficiente.
— Certo — diz ela. — Como ninguém aqui escolhe consequência, a próxima rodada será consequência obrigatória.
— Isso soa ilegal — comento.
— Excelente. Então estamos no caminho certo.
Annie ri baixo.
Finnick já parece animado demais.
— Quem decide? — pergunta Cashmere.
Johanna aponta para mim e para Katniss ao mesmo tempo.
Naturalmente.
— Vocês dois.
Katniss fecha os olhos por meio segundo, como quem já prevê desastre.
— Eu sabia que sentar perto daqui era erro estratégico — murmura ela.
— Confirmado — responde Johanna. — Consequência simples: trinta segundos olhando nos olhos um do outro.
Finnick bate palmas uma única vez.
— Clássico.
— Infantil — digo.
— Recusar significa consequência pior — rebate Johanna.
— O que seria pior? — Katniss pergunta, desconfiada.
Johanna sorri.
— Eu inventaria na hora. E todos sabemos que isso seria muito mais traumático.
Silêncio curto.
Katniss solta o ar pelo nariz.
— Ótimo. Trinta segundos.
Ela diz isso como quem aceita assinar um termo de responsabilidade.
Finnick imediatamente pega o celular.
— Eu cronometro.
Claro.
— Isso é ridículo — digo, mas já sei que não há saída elegante.
— Você já aceitou coisa pior nos últimos dias — comenta Gale, casual demais.
Olho para ele.
Ele sustenta o olhar com inocência falsa.
Traidor.
Katniss se vira ligeiramente no sofá para me encarar. Eu faço o mesmo. Pela primeira vez percebo que a lareira realmente aquece demais este ambiente. Ou talvez seja apenas a proximidade.
Finnick ergue o celular.
— Preparados?
— Não — respondo.
— Excelente. Valendo.
Trinta segundos parecem uma unidade absurda de tempo quando alguém está realmente olhando para você.
Katniss sustenta meu olhar no primeiro segundo com firmeza impressionante.
No terceiro, noto que ela tenta não piscar mais do que pisaria normalmente.
No quinto, percebo a luz da lareira refletindo nos olhos cinzentos dela de um jeito que eu definitivamente não precisava notar.
No sétimo, Finnick faz algum ruído divertido ao fundo e isso só piora tudo porque ninguém desvia.
No décimo, a expressão dela muda levemente.
Não fraqueza. Não fuga. Algo menor. Quase curiosidade. Como se também estivesse percebendo que trinta segundos são longos demais quando o silêncio entre duas pessoas já começou a carregar perguntas.
No décimo segundo, meu cérebro comete o erro de lembrar a neve. A mão na cintura. A pausa longa demais.
No décimo quinto, noto que ela respira um pouco mais devagar.
No décimo oitavo, alguém, provavelmente Johanna, murmura um “isso está melhor do que cinema”.
No vigésimo, Katniss finalmente sorri de leve.
Quase nada.
Mas o suficiente para desmontar qualquer linha de raciocínio coerente. Porque até agora ela vinha sustentando o olhar como desafio.
Esse pequeno sorriso muda tudo.
Torna pessoal.
No vigésimo terceiro segundo, penso com clareza excessiva que ninguém ali deveria estar assistindo isso.
No vigésimo quinto, ela baixa os olhos por menos de um segundo até minha boca.
Muito rápido, mas vejo. E isso me obriga a respirar de forma controlada demais.
No vigésimo oitavo, Johanna praticamente vibra de satisfação.
— Dois segundos! — anuncia Finnick, satisfeito demais.
No trigésimo, Katniss finalmente desvia.
Eu também.
Só então percebo que o ambiente inteiro ficou silencioso.
Até Annie parece ter esquecido a manta nas mãos.
Finnick abaixa o celular como quem encerra experimento social bem-sucedido.
— Isso definitivamente não parece namoro recente — diz ele.
Cashmere toma um gole do vinho sem comentar nada, mas há um brilho discreto de observação no rosto dela.
Johanna se recosta no sofá como uma mulher plenamente realizada.
— Muito obrigada. Valeu completamente a garrafa aberta.
Katniss passa a mão no cabelo, tentando parecer normal.
— Posso oficialmente declarar sua diversão como preocupante?
— Não, porque ainda nem chegamos na melhor parte — responde Johanna.
— Existe melhor parte? — pergunta Annie.
— Sempre existe.
Gale finalmente interfere:
— Talvez vocês devam diminuir antes que alguém aqui precise de terapia depois.
— Advogado falando em terapia é quase poético — comenta Finnick.
— Eu sou advogado também — digo.
— Sim, mas você está claramente perdendo no próprio tribunal.
Risos atravessam a sala.
Katniss cruza os braços, mas ainda percebo um resto daquele sorriso contido. Pequeno. Disfarçado. E perigosamente memorável.
A lareira continua estalando.
O jogo continua.
Mas alguma coisa mudou de novo.
Porque trinta segundos podem parecer pouco. Até você descobrir que são suficientes para perceber detalhes demais de alguém que deveria continuar sendo apenas um acordo temporário.
E esse é exatamente o tipo de detalhe que eu não deveria começar a colecionar.
O problema de Johanna é que ela nunca considera suficiente quando percebe fragilidade alheia. Ela trata qualquer fissura emocional como convite formal.
Finnick ainda segura o celular como se pudesse precisar dele novamente. Annie está encolhida perto da lareira, claramente entretida demais.
Cashmere mantém a taça entre os dedos com aquela calma irritantemente elegante de quem observa tudo e comenta apenas quando vale a pena.
E Katniss...
Katniss ainda parece levemente tensa depois dos trinta segundos.
Disfarça bem.
Mas eu vi o momento exato em que ela desviou o olhar.
Johanna gira a taça e sorri.
Sinal evidente de problema.
— Próxima rodada — anuncia. — E agora eu quero honestidade real.
— Isso vindo de você parece ameaça formal — digo.
— Porque é.
Ela aponta diretamente para mim.
Claro.
— Peeta Mellark. Verdade.
— Você está eliminando a parte da escolha deliberadamente?
— Sim. Minha rodada, minhas regras.
Finnick aprova com a cabeça.
— Justiça criativa.
Johanna cruza as pernas.
— Você sente ciúme fácil?
Silêncio sepulcral e imediato.
Finnick já sorri antes mesmo de qualquer resposta.
Gale leva o copo à boca tentando parecer neutro demais.
Katniss permanece imóvel ao meu lado.
Olho para Johanna.
— Pergunta ampla demais.
— Ótimo. Então vamos especificar. — Ela inclina a cabeça. — Hoje, lá fora... se Katniss tivesse escorregado e Gale segurado primeiro, você teria gostado menos da cena?
Finnick faz um ruído de puro interesse.
Annie arregala os olhos.
Cashmere abaixa lentamente a taça.
Johanna claramente sabe exatamente o que está fazendo.
— Isso é um interrogatório enviesado — digo.
— Resposta evasiva novamente — rebate ela. — Muito suspeito.
— Eu apenas teria presumido que Gale finalmente serviu para algo além de comentar a vida alheia.
Gale ri.
— Elegante. Mas não respondeu.
Johanna ergue o dedo.
— Exato. Não respondeu.
Olho para o fogo por um segundo. Curto demais para parecer fuga. Longo demais para não ser notado.
— Ciúme depende de contexto — digo.
— Tradução jurídica detectada — interrompe Finnick.
— Contexto importa — continuo. — Pessoas não pertencem a ninguém.
— Isso continua sem responder — insiste Johanna.
— Então respondo melhor: não gosto quando alguém ultrapassa espaços que considero... importantes.
A frase sai antes que eu ajuste melhor.
Erro.
Porque o silêncio seguinte é imediato e perceptível.
Katniss vira ligeiramente o rosto na minha direção.
Johanna sorri devagar demais.
— Espaços importantes.
Finnick quase aplaude.
— Excelente escolha de palavras para alguém tentando parecer emocionalmente saudável.
— Minha vez acabou — digo.
— Não acabou não — rebate Johanna, satisfeita demais. — Porque agora vem consequência.
Katniss fecha os olhos por um instante.
Como se já soubesse que isso vai piorar.
— Você inventou isso agora — diz ela.
— Naturalmente.
Johanna aponta para ela.
— Katniss. Consequência simples, senta no colo dele por uma rodada inteira.
O ambiente explode em reações simultâneas.
Finnick gargalha sem pudor.
Annie cobre a boca.
Gale solta um “Johanna...”
Cashmere ergue apenas uma sobrancelha.
— Absolutamente não — responde Katniss imediatamente.
— Recusar significa cantar algo romântico olhando para ele.
— Isso é chantagem emocional barata.
— Exatamente.
Katniss me olha.
Pela primeira vez claramente procurando se eu vou intervir.
Eu deveria.
Provavelmente.
Mas Johanna já está satisfeita demais para aceitar qualquer fuga.
— É uma rodada — insiste ela. — Nem cinco minutos.
— Você mede humilhação em tempo agora? — pergunta Katniss.
— Com precisão.
Finnick levanta a mão.
— Como cronometrista oficial, aprovo.
Katniss solta um ar lento pelo nariz.
Depois murmura algo que não entendo. E se move. Devagar. Mais devagar do que qualquer gesto simples deveria exigir. O sofá afunda quando ela se aproxima. Depois o peso leve real se instala. No meu colo. Não completamente relaxado. Não confortável.
Claramente tentando manter distância impossível dentro da própria proximidade.
Mas ainda assim...
Presença demais. Calor demais. O perfume dela misturado ao calor da lareira. As mãos dela imediatamente buscando apoio no próprio joelho para evitar contato extra.
Erro inútil.
Porque qualquer distância já deixou de existir no instante em que ela sentou.
Finnick faz um som teatral.
— Ah, agora sim Aspen está entregando entretenimento.
Johanna ergue a taça em vitória silenciosa.
— Respirem normalmente, vocês dois. Está parecendo cena final de filme interrompida.
Katniss fala sem olhar para ninguém:
— Eu odeio todos vocês.
— Mentira. — Annie ri. — Você só odeia esta parte.
— Essa parte especificamente.
Eu continuo imóvel porque qualquer movimento mínimo agora seria percebido.
A consciência do peso dela é absurdamente precisa. Cada detalhe. Cada centímetro. O braço do sofá sob minha mão. O calor da lareira. A respiração dela ligeiramente mais curta do que antes.
— Próxima pergunta — diz Johanna, satisfeita demais. — Katniss, verdade ou consequência?
— Verdade — responde ela rápido, talvez apenas para acabar logo.
Johanna sorri.
— Fácil então: você está desconfortável porque está sentada no colo do seu noivo... ou porque gostou menos do que deveria?
Katniss vira lentamente o rosto para Johanna. Perigosa. Muito perigosa.
— Estou desconfortável porque você continua viva.
Finnick gargalha.
Até Cashmere sorri dessa vez.
Mas eu percebo outra coisa, Katniss tenta manter o tom seco.
Só que a ponta dos dedos dela aperta discretamente o tecido do próprio suéter.
Sinal pequeno, mas claro.
Ela também percebe demais o que isso significa.
E isso, honestamente, não ajuda em nada meu próprio controle.
Porque agora há duas certezas simultâneas:
Johanna vai continuar até alguém perder completamente a compostura.
E eu estou perigosamente perto de não gostar da ideia de Katniss levantar tão cedo.
Johanna finalmente encerra o jogo quando Annie ameaça dormir sentada no tapete e Finnick declara que ninguém ali tem estrutura emocional para mais uma rodada.
O que, vindo dele, soa quase ofensivo.
Katniss sai do meu colo segundos antes do necessário. Talvez um pouco antes demais. Sem pressa suficiente para parecer fuga, mas também sem naturalidade suficiente para fingir que aquilo foi simples.
E o pior detalhe é que meu corpo continua absurdamente consciente do espaço vazio que ela deixa.
Johanna ainda sorri como quem coleciona pequenas vitórias pessoais.
— Excelente noite — decreta ela. — Amanhã quero repetir com perguntas piores.
— Você claramente não entende o conceito de descanso coletivo — responde Gale.
Cashmere apenas termina o vinho.
Finnick cobre Annie com uma manta como se a cena anterior jamais tivesse existido.
E Katniss...
Katniss evita me olhar por alguns minutos.
Só isso já seria suficiente para tornar o resto da noite estranhamente memorável.
No dia seguinte, domingo, Aspen amanhece silenciosa.
A neve cobre tudo de novo com aquela aparência limpa demais que quase convence alguém de que o mundo sabe se organizar sozinho.
Quase.
O chalé desperta lentamente.
Finnick é o primeiro a surgir, alegando fome como se fosse emergência médica.
Johanna aparece logo depois, cabelo preso de qualquer jeito, afirmando que ninguém deveria falar antes do café.
Annie ainda parece metade dormindo.
Sirius abre as cortinas e imediatamente se arrepende do frio que entra.
Cashmere mantém a mesma elegância irritante até cedo demais para um domingo.
E Katniss desce alguns minutos depois.
Suéter escuro. Cabelo preso. Expressão tranquila demais para alguém que, no dia anterior, sustentou trinta segundos olhando para mim como se aquilo também tivesse custado alguma coisa.
Ela me deseja bom dia com naturalidade suficiente para parecer ensaiado. Talvez eu faça o mesmo.
O café da manhã acontece em ondas.
Torradas. Ovos mexidos. Frutas. Café forte.
Finnick insistindo em preparar waffle e sendo impedido por unanimidade.
Johanna declarando que salmão no almoço anterior não autoriza ninguém a assumir nova função culinária.
Há conversa e risos.
Há aquela falsa leveza típica de grupos que passaram tempo demais juntos e agora já sabem exatamente onde provocar.
Mas existe também outra coisa. Uma atenção silenciosa. Especialmente quando Katniss fala comigo. Ou quando eu respondo.
Nada explícito. Nada suficiente para comentário aberto. Ainda assim, perceptível.
Johanna nota. Claro que nota, mas surpreendentemente, não comenta.
Talvez porque já tenha dito o suficiente no dia anterior. Ou talvez porque esteja guardando munição.
Antes do meio-dia, começamos a organizar a volta.
Casacos. Bolsas. Taças esquecidas sendo recolhidas.
Finnick procurando as próprias luvas como se jamais tivesse tido responsabilidade sobre objetos pessoais. Annie encontrando as luvas no bolso dele com a naturalidade de quem já desistiu de esperar coerência.
Gale ajudando Sirius com duas malas grandes demais para um fim de semana. Cashmere agradecendo a anfitriã com aquele jeito elegante que transforma até um simples discurso em algo milimetricamente controlado.
Quando ela para diante de mim, há apenas um breve olhar.
Sem peso antigo.
Sem qualquer necessidade de revisitar qualquer lembrança passada.
E isso basta.
Johanna, naturalmente, resolve a logística inteira como se administrar deslocamentos de oito pessoas fosse uma extensão natural da personalidade dela.
— O jatinho está pronto em vinte minutos — anuncia, colocando os óculos escuros mesmo sem necessidade real. — Se alguém esquecer alguma coisa no chalé, fica aqui até o próximo inverno.
— Isso foi claramente direcionado ao Finnick — comenta Annie.
— Porque funciona.
A pista pequena cercada pela neve parece saída de um catálogo de luxo exagerado.
O jato já nos espera. Branco, discreto, silenciosamente caro.
Finnick entra primeiro, afirmando que precisa escolher estrategicamente o melhor assento.
Johanna diz que isso significa apenas fugir de turbulência imaginária.
Annie senta ao lado dele.
Sirius ocupa a poltrona oposta. Cashmere ao seu lado.
Gale senta perto da janela com fones no ouvido quase imediatamente.
Katniss hesita um segundo antes de escolher o assento ao meu lado. Curto. Quase imperceptível, mas eu noto.
Claro que noto.
A cabine está aquecida.
O silêncio confortável interrompido apenas pelo fechamento da porta e pelo som técnico dos preparativos.
Quando decolamos, Aspen desaparece aos poucos sob o branco uniforme.
Lá embaixo, tudo parece organizado demais.
Como se o fim de semana inteiro pudesse ser reduzido a linhas limpas e neve intacta. O que claramente não corresponde ao que realmente aconteceu.
Johanna ainda fala alguma coisa do outro lado sobre repetir a viagem em julho, agora em algum lugar onde possa obrigar Gale a cozinhar.
Finnick rebate dizendo que ninguém sobreviveria. Annie ri baixo.
Depois, aos poucos, o voo mergulha naquela calma inevitável de trajetos curtos em altitude estável.
Katniss observa pela janela durante vários minutos. Braços cruzados. Expressão quieta. Há algo diferente nela quando não precisa responder rápido a ninguém. Algo mais leve. Ou talvez apenas menos protegido.
— Johanna vai usar ontem contra nós por meses — diz ela, sem tirar os olhos do vidro.
— Anos, provavelmente.
— Finnick também.
— Finnick já deve estar elaborando versões exageradas.
Agora ela sorri. Pequeno, mas real.
— Você pareceu calmo demais para alguém sob ataque coletivo.
— Aparência ajuda.
Ela finalmente vira o rosto para mim.
— Então era aparência?
A pergunta vem leve.
Mas não inteiramente leve.
Sustento o olhar por um segundo.
— Nem tudo.
Ela não responde.
Mas também não desvia imediatamente. Depois volta para a janela.
Minutos mais tarde, a cabine fica ainda mais silenciosa.
Johanna adormece primeiro, o que parece estatisticamente improvável considerando a quantidade de energia verbal que ela produz acordada.
Finnick fala baixo com Annie.
Cashmere lê algo no celular.
Gale permanece isolado nos próprios fones.
Katniss recosta a cabeça no encosto. Fecha os olhos. No início ainda parece apenas descanso. Depois a respiração desacelera. Mais regular. Ela dorme. Sem perceber, alguns minutos depois, a cabeça inclina discretamente para o lado. Na minha direção. Não chega a tocar meu ombro, mas permanece perto o suficiente para tornar impossível ignorar. O quase. Outra vez o quase.
Permaneço imóvel. Não por desconforto. Pelo contrário. Porque qualquer ajuste mínimo provavelmente a despertaria.
E porque, pela primeira vez em muito tempo, o silêncio ao lado de alguém não parece obrigação social.
Parece apenas... natural.
Lá fora, acima das nuvens, o céu está absurdamente limpo. Aqui dentro, a cabine segue quieta.
E Aspen vai ficando para trás. Porém, não inteiramente. Porque certas coisas aparentemente viajam junto.
Pequenos detalhes. Pequenos silêncios. Pequenos segundos longos demais.
E começo a perceber que talvez o problema nunca tenha sido o acordo.
Talvez seja tudo o que está surgindo fora dele.
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