O Amor que não Era pra Ser

8 Aquilo Que Mudou Entre Nós


Notas iniciais
Boa tarde amoras! Tudo bem com vcs? Me perdoem era pra eu ter voltado bem antes, mas não consegui. Agradeço o carinho de todas vcs ❤️ e principalmente a Vitória que deu uma ideia bem romântica pra esse capítulo. 💕Vi grata pelo seu apoio de sempre💕


Pov. Peeta Mellark


Três anos atrás...


O som do couro batendo contra o saco ecoa pelo ginásio vazio.

Cyril sempre batia primeiro.

Eu analisava.

Ele atacava.

— Você pensa demais — ele diz, desviando do meu gancho de direita com uma facilidade irritante.

Ele ri. Sempre ria.

Cyril Mellark, dois anos a mais que eu e uma leveza que nunca coube em mim. Cabelos um pouco maiores que o padrão aceitável para o sobrenome. Sorriso aberto demais para o mundo corporativo. Olhos que não sabiam ficar quietos.

Ele avança.

O golpe dele acerta meu ombro.

— No tribunal é estratégia — continua ele. — No ringue é instinto. Você hesita, perde espaço.

Eu giro o corpo, tento contra-atacar. Ele bloqueia.

— Para de estudar o oponente como se fosse cláusula contratual, Peet. Sente o movimento.

Ele me empurra contra as cordas.

— Ataque no segundo erro, não no primeiro. No primeiro o cara ainda tá esperto.

Eu avanço de novo. Dessa vez mais rápido.

Ele sorri.

— Isso. — Bate na minha luva com a dele. — Viu? Você é bom quando para de tentar ser perfeito.

Paramos.

Suor escorre pela testa dele. Ele tira o protetor bucal e senta na beirada do ringue.

— Eu não vou assumir a empresa.

Eu paro de tirar as luvas.

— O quê?

Ele dá de ombros.

— O pai já sabe.

— E?

— E quase teve um aneurisma.

Ele ri. Eu não.

— Cyril, você é o primogênito.

— Eu sou advogado porque ele queria um sucessor. — Ele me encara. — Mas eu nunca quis isso.

Ficamos em silêncio.

Ele pega a garrafa d’água, toma um gole.

— Eu quero desacelerar, Peet. Quero viajar. Quero me casar com a June. — O sorriso dele muda quando fala o nome dela. — Quero ter tempo.

— Tempo pra quê?

— Pra viver, idiota.

Ele enfia a mão na mochila e tira uma pequena caixa preta.

Eu arqueio a sobrancelha.

Ele abre.

O anel brilha sob a luz branca do ginásio.

Diamantes lapidados em formato de pétalas. Formando uma flor perfeita. Delicado. Artístico. Forte.

— Mandei fazer sob encomenda. Cada pétala é um diamante separado. — Ele sorri como uma criança. — Ela ama flores.

Eu observo o anel.

— Você já pediu?

— Hoje à noite.

Ele fecha a caixa.

— Eu não quero morrer atrás de uma mesa discutindo contratos bilionários.

A frase fica no ar.

Eu reviro os olhos.

— Drama exagerado.

Ele joga a toalha em mim.

— Relaxa, Peeta. Você nasceu pra isso. Você gosta disso.

Eu não respondo.

Ele dá um tapinha no meu ombro.

— Você é melhor que eu nisso. Sempre foi.

Uma hora depois, estou em casa.

Ainda sentindo minhas mãos formigarem pelo treino.

O telefone toca. Número desconhecido.

Atendo.

— Senhor Mellark? Precisamos que um familiar compareça ao necrotério para reconhecimento.

Eu não entendo.

Peço para repetirem.

A palavra “acidente” soa distante.

Moto.

Impacto frontal.

Morte no local.

Eu desligo sem lembrar de ter desligado.

Nunca ouvi minha mãe gritar daquele jeito.

Quando entro na sala, ela está de joelhos no tapete, esmurrando o peito do meu pai.

— VOCÊ FEZ ISSO! — grita. — VOCÊ! VOCÊ!

Meu pai não reage.

Ele só segura os ombros dela, tentando conter.

— Ele não queria isso! Ele nunca quis! Você jogou tudo nas costas dele!

Eu fico parado na porta.

Paralisado.

Minha mãe nunca foi descontrolada. Nunca foi vulgar. Nunca foi nada além de impecável. Mas ali ela não está elegante.

É mãe.

E está destruída.

— Ele ia pedir a June em casamento hoje… — Soluça, as lágrimas escorrendo continuamente.

No necrotério, eles puxam a gaveta.

Eu vejo o rosto do meu irmão. Silencioso demais. Imóvel demais.

Cyril, que nunca ficava parado.

A pele fria.

O corte na testa. Lado direito do rosto inchado. Os dedos ainda levemente curvados.

Então, me entregam os pertences dele. A mochila achada no banco traseiro da moto retorcida. Eu abro e a caixa do anel ainda está ali. Não tenho coragem de abrir um anel que nunca foi entregue.

Dias depois, meu pai me chama para o escritório.

— Precisamos falar sobre a sucessão.

Eu ainda estou enterrando meu irmão, mas ele já está reorganizando a estrutura.

Foi naquele dia que eu aprendi. Não existe tempo garantido. Não existe depois. Não existe “quando tudo se estabilizar”.

Existe agora.

Ou não existe.

Volto ao presente no corredor do salão de mais um evento beneficente.

Encaro Cashmere com Sirius.

Ele falando de estabilidade. Sobre o futuro.

E logo a voz do meu irmão ecoa...

“Você hesita demais.”

Talvez eu sempre tenha hesitado.

Talvez eu sempre tenha esperado o momento perfeito.

E o momento perfeito nunca volta.

Por isso eu odeio perder tempo. Odeio indecisão. Eu odeio quando alguém vai embora antes de eu estar pronto.

Porque eu já perdi alguém assim. Sem aviso. Sem negociação. Sem segunda chance. E talvez seja por isso…

Que eu nunca fiz o pedido a Cashmere.

Porque pedir é prometer futuro. E eu aprendi cedo demais que o futuro pode morrer em três horas.

✦✦✦

Eu deveria ter lembrado antes.

Mas não precisei.

A casa inteira lembrou por mim.

O silêncio estava diferente naquela manhã. Pesado demais. Como se até os móveis soubessem que era 17 de abril.

Cyril faria trinta e dois anos hoje.

Estou me aproximando da cozinha quando escuto o primeiro som.

Não é um grito.

É uma respiração irregular.

Depois um copo quebrando.

Atravesso o corredor quase correndo. A porta está aberta. Entro imediatamente e vejo minha mãe.

Ela está de pé no meio da cozinha, mãos trêmulas, olhos fixos em algo que não está mais ali. O peito sobe rápido demais.

— Mãe.

Ela não responde.

— Ele odiava bolo de chocolate — murmura ela, para ninguém. — Eu fazia mesmo assim… porque era tradição…

O ar parece não entrar direito nos pulmões dela. Eu conheço esse olhar. Ela está voltando para aquele dia. E eu não sei como tirá-la de lá.

Mas Katniss parece saber.

Ela aparece atrás de mim, descalça, cabelo preso de qualquer jeito. Não pergunta o que está acontecendo. Apenas entende.

Ela se aproxima devagar.

— Dona Effie… — A voz dela é firme, mas suave. — Olha pra mim.

Minha mãe não reage.

Katniss segura as mãos dela.

— Respira comigo. Só comigo. Não com o passado. Aqui. Agora.

Ela guia. Inspira. Segura. Solta.

De novo. E de novo.

Eu fico parado, observando.

Katniss não está intimidada pela casa, nem pelo sobrenome, nem pelo peso do luto.

Ela está presente.

Minha mãe começa a acompanhar o ritmo.

O tremor diminui. O ar entra. As lágrimas vêm depois. Silenciosas.

Katniss a conduz até a cadeira, senta ao lado dela.

— Ele amava a senhora — diz ela baixinho.

Minha mãe fecha os olhos.

— Ele ia pedir a June em casamento naquele dia…

A frase quebra no meio.

Eu viro o rosto.

Katniss aperta a mão dela.

— Eu vou fazer um chá — diz, depois de alguns minutos.

Logo ela volta com a xícara quente, segura até os dedos da minha mãe pararem de tremer. Fica ali. Não força conversa. Só presença.

Uma hora depois, Katniss a conduz até a sala e ela adormece. Pela primeira vez em anos, dorme no sofá. Não no quarto escuro.

Eu observo Katniss puxar a manta com cuidado sobre os ombros dela.

Ela não percebe que eu estou olhando, mas eu estou.

E estou diferente.

Saímos em silêncio.

Voltamos para a minha casa. A porta se fecha atrás de nós. Eu apoio as mãos no balcão da cozinha. Não sei por onde começar.

Katniss espera.

— Ele faria trinta e dois hoje — digo.

Ela não interrompe.

— Cyril.

O nome sai estranho na minha boca. Como se eu raramente permitisse que ele escapasse.

— Ele não queria assumir a empresa — continuo, olhando para o nada. — Queria viajar. Casar com a June. Relaxar.

Minha voz fica mais baixa.

— Ele tinha comprado o anel. Diamantes em forma de pétalas. Uma flor inteira feita de luz.

Eu sinto algo apertar no peito.

— Três horas antes do IML ligar, ele estava comigo no ringue. Me dizendo pra parar de hesitar. Me ensinando a atacar no segundo erro.

Eu solto um riso sem humor.

— Ele sempre foi melhor em viver.

O silêncio cresce entre nós.

— Eu nunca vi minha mãe gritar daquele jeito — continuo. — Ela estava esmurrando o peito do meu pai. Dizendo que ele forçou o Cyril a ser algo que ele nunca quis ser.

Eu engulo.

— Eu fiquei parado na porta. Sem fazer nada.

Minha respiração falha por um segundo.

— Depois disso, eu só… assumi. A empresa. As responsabilidades. O silêncio.

As palavras saem antes que eu consiga contê-las.

— Eu nunca pedi a Cashmere em casamento porque prometer futuro sempre pareceu arrogância demais.

A cozinha fica quieta.

Eu sinto algo quente escorrer.

Só percebo quando cai no dorso da minha mão.

Uma lágrima.

Eu não me lembro da última vez que chorei na frente de alguém.

Katniss se aproxima devagar.

Não diz nada primeiro.

Ela apenas me abraça.

Os braços ao redor do meu torso.

A testa encostando no meu peito.

Simples.

Inteiro.

— Eu sinto muito — murmura ela.

Não é um “vai ficar tudo bem”.

Não é conselho.

É reconhecimento.

Eu fecho os olhos.

E desde aquele dia no IML… eu não estou sozinho com a memória.

Minhas mãos sobem devagar, quase hesitantes, e envolvem o corpo dela.

Não é desejo. Não é performance. É apoio.

Eu apoio o queixo no topo da cabeça dela.

A respiração dela é estável. Firme e real. E eu percebo algo que me desarma completamente.

Eu nunca tinha me aberto assim para ninguém. Nem para Gale. Nem para mim mesmo, mas contei para ela.

E isso me assusta mais do que qualquer tribunal.

Ficamos assim por alguns minutos.

Sem pressa. Sem estratégia. Sem contrato.

Só dois corpos tentando sustentar o peso de algo que já aconteceu.

Eu não estou tentando ser forte. Estou apenas sendo. Com ela.

O abraço termina devagar.

Não porque algum de nós queira interromper, mas porque há um tipo de silêncio que muda de forma quando duas pessoas permanecem tempo demais dentro dele.

Katniss afasta o rosto primeiro, ainda com as mãos apoiadas em mim, como se estivesse decidindo se recua por completo ou se permanece ali mais alguns segundos.

Os olhos dela procuram os meus.

Cinza calmo. Quente. Sem pena.

Isso é o que mais me desmonta.

Não existe compaixão teatral em Katniss. Não existe delicadeza ensaiada. Quando ela oferece algo, oferece inteiro.

E eu, que passei anos cercado por gente que sabia exatamente como parecer presente sem realmente estar, reconheço imediatamente a diferença.

— Obrigado — digo, a voz mais baixa do que pretendia.

Ela dá um pequeno aceno, quase tímido.

— Você não precisa agradecer por me contar.

Mas eu preciso.

Porque contar já foi difícil demais. Porque deixar alguém entrar nesse espaço sempre pareceu perigoso. Porque, estranhamente, depois de falar, o peso não desaparece… só deixa de esmagar.

Fico observando o rosto dela por alguns segundos a mais.

Então tomo uma decisão antes que meu lado racional tenha tempo de transformar tudo em cautela.

— Se arruma pra sair comigo hoje à noite.

Ela pisca.

— Isso foi um convite ou uma ordem disfarçada?

— Convite.

— Muito súbito.

— Talvez eu esteja tentando ouvir meu irmão antes de voltar a hesitar.

Um pequeno sorriso surge nos lábios dela.

— Isso foi quase romântico, senhor Mellark.

— Não espalha.

— Pra onde vamos?

— Surpresa.

Ela cruza os braços, desconfiada.

— Você sempre faz esse ar de mistério quando pretende me levar para algum lugar caro demais?

— Só quando pretendo impressionar alguém.

— E está tentando me impressionar?

— Ainda não decidi.

Ela ri baixo.

Aquele som me atinge de um jeito absurdamente simples.

E perigoso.

✦✦✦

Duas horas depois, estou esperando por ela ao lado do carro.

A noite caiu limpa sobre Manhattan. O ar está frio o suficiente para obrigar casacos, mas não agressivo.

Quando Katniss aparece, por um segundo eu esqueço completamente o que pretendia dizer.

Ela escolheu um vestido simples, escuro, que marca o corpo sem exagero. O cabelo preso parcialmente, algumas mechas soltas junto ao rosto. Nada nela parece esforço. E talvez justamente por isso tudo com ela pareça tão devastador.

Ela percebe meu silêncio.

— Vai continuar me olhando como se tivesse perdido um argumento importante?

— Estou tentando lembrar se já respirei.

Ela revira os olhos, mas sorri.

Entramos no carro.

Durante o trajeto, ela observa a cidade pela janela.

— Isso parece suspeito.

— O quê?

— Você quieto assim.

— Estou dirigindo.

— Você também costuma pensar em silêncio quando está tramando alguma coisa.

— Talvez eu esteja.

Ela vira o rosto na minha direção.

— Isso deveria me preocupar?

— Talvez um pouco.

Quando paramos, o elevador privativo sobe em silêncio.

Katniss me acompanha sem perguntas até as portas se abrirem no terraço superior do edifício.

O espaço está vazio.

Privado.

Luzes discretas espalhadas entre vasos altos com oliveiras ornamentais, uma mesa posta para dois, velas baixas protegidas do vento, música suave quase imperceptível ao fundo.

A vista da cidade se abre inteira diante de nós.

Nova York iluminada como se alguém tivesse derramado constelações sobre concreto.

Ela para.

Olha ao redor.

E por alguns segundos simplesmente não fala.

— Peeta...

— Antes que reclame, não fui eu quem escolheu as velas. Foi Portia. Ela disse que sem velas homens parecem emocionalmente analfabetos.

Katniss solta uma risada curta.

— Você alugou isso tudo?

— Não aluguei. O prédio é de um cliente antigo. Ele me devia um favor.

Ela caminha devagar até a borda, observando a vista.

— Isso é absurdamente bonito.

— Eu sei.

Ela se vira.

— Você já trouxe outras mulheres aqui?

A pergunta vem direta. Sem rodeios. Sem malícia aparente. Só curiosidade real.

E, estranhamente, a resposta sai sem qualquer necessidade de cálculo.

— Não.

Ela estreita levemente os olhos.

— Nenhuma?

— Nenhuma.

— Nem Cashmere?

— Nem Cashmere.

Ela parece genuinamente surpresa.

— Então por quê?

Demoro meio segundo antes de responder.

Porque a resposta verdadeira soa perigosa demais.

Porque ela é a primeira pessoa em muito tempo que eu quis trazer aqui sem que isso servisse a algum propósito social.

Porque hoje não é performance. Porque hoje eu só queria que a noite tivesse alguma memória boa.

Mas digo apenas:

— Porque nunca pareceu certo antes.

Ela me encara por um instante longo demais.

Depois desvia o olhar.

E isso basta para eu perceber que algo nela também muda.

Jantamos devagar. Sem pressa. Sem o peso dos sobrenomes. Sem contratos.

Ela fala de Rue, de como a amiga sempre acha que qualquer gesto meu já significa pedido de casamento.

Eu conto histórias pequenas de Cyril que nunca contei antes — as menos dolorosas, as que ainda conseguem carregar riso.

Katniss ri quando descrevo Cyril tentando ensinar nosso pai a usar um aplicativo de banco e quase destruindo o celular dele de raiva.

— Eu teria pago pra ver isso.

— Eu pagaria de novo.

O jantar termina, mas nenhum de nós parece com vontade de encerrar a noite.

A música muda.

Mais lenta.

Katniss percebe antes de mim.

— Isso também foi ideia da Portia?

— Não. Essa foi minha.

Ela arqueia a sobrancelha.

— Você dança? — brinca.

— Melhor no tribunal.

Estendo a mão.

— Mesmo assim.

Ela olha minha mão por um segundo.

Depois aceita.

Os dedos dela encaixam nos meus como se já soubessem. Uma mão minha vai para a cintura dela. A outra segura a dela. E começamos devagar. Sem técnica perfeita. Sem coreografia. Só proximidade.

A cidade inteira abaixo de nós.

O vento leve. O perfume dela perto demais.

Katniss ergue o rosto.

— Você continua tenso.

— Você continua percebendo tudo.

— Faz parte do meu charme.

Aproximo um pouco mais.

Ela não recua.

— E você continua fingindo que não percebe o efeito que tem.

Ela prende a respiração por um segundo.

Os olhos dela descem até minha boca e voltam.

Esse pequeno movimento quase me desmonta mais do que qualquer beijo.

Porque não há urgência. Só consciência. Só aquele instante em que os dois sabem, mas ninguém nomeia.

Quando voltamos para casa, já é quase meia-noite.

A casa está silenciosa.

Katniss tira os sapatos na entrada.

Eu ajeito o paletó mais por distração.

Nenhum dos dois parece disposto a quebrar imediatamente o que ficou entre nós desde o terraço.

Ela para perto da escada.

Me olha.

— Hoje foi… inesperadamente... perfeito.

A palavra perfeito faz algo estranho no meu peito.

Aproximo. Sem pressa. Sem esconder que estou escolhendo isso. Minha mão toca o rosto dela. Polegar junto à linha da mandíbula. Ela fecha os olhos por meio segundo. Quando os abre, não há dúvida.

O beijo acontece devagar.

Como se ambos já soubéssemos exatamente onde isso nos levaria e ainda assim escolhêssemos continuar.

Sem pressa. Sem violência. Sem medo.

Apenas calor.

Quando subimos, é natural demais para parecer planejado.

Como se a distância entre os quartos tivesse deixado de fazer sentido.

A noite se torna murmúrio, pele aquecida, mãos que aprendem sem urgência, respiração entrecortada, carinho mais forte do que qualquer palavra. Só intimidade verdadeira. Dois corpos que já não querem voltar ao lugar anterior.

Mais tarde, deitados no escuro, Katniss está encostada em mim, a cabeça apoiada no meu peito. A respiração dela desacelera aos poucos. Minha mão permanece nos cabelos dela. E penso, com uma clareza quase irritante. Aspen abriu alguma coisa, mas foi hoje que eu entendi. Não é só desejo, conforto ou costume.

É pior.

Muito pior.

Porque tem silêncio demais onde deveria haver medo. Tem paz demais onde eu sempre esperei defesa.

E amor... esse tipo de amor que ninguém planeja e costuma chegar exatamente assim.

Sem anúncio. Sem contrato. Sem pedir licença.

Como se sempre soubesse o caminho.


Pov. Katniss Everdeen


Acordo devagar.

Primeiro, pelo calor.

Depois, pelo peso confortável de um braço sobre minha cintura.

E só então pela consciência tardia de onde estou.

Não no quarto de hóspedes. Não na cama enorme onde passei as últimas noites tentando convencer a mim mesma de que ainda existiam fronteiras muito claras entre nós.

Estou no quarto dele.

Na cama dele.

Com a luz suave da manhã atravessando parcialmente as cortinas e desenhando faixas claras sobre os lençóis.

Minha respiração falha por meio segundo.

Não por arrependimento.

Pelo contrário.

Talvez exatamente porque arrependimento não aparece.

Viro o rosto devagar.

Peeta ainda dorme.

O cabelo um pouco bagunçado, o rosto relaxado de um jeito raro demais para alguém que parece nascer já controlando o próprio semblante. Sem a rigidez habitual, ele parece mais jovem. Menos inacessível.

Mais humano.

E perigosamente bonito.

O braço dele aperta levemente minha cintura quando tento me mover. Como se até dormindo ele percebesse.

— Se estiver pensando em fugir antes do café, saiba que vou considerar uma ofensa pessoal.

A voz sai rouca, ainda de olhos fechados.

Eu quase sorrio.

— Você está acordado.

— Desde o momento em que você começou a pensar demais.

— Eu não penso demais.

Agora ele abre os olhos.

Azuis.

Diretos.

E absurdamente atentos para alguém que acabou de acordar.

— Katniss, você pensa até quando está respirando.

Tento afastar o braço dele e sentar.

— Preciso ir... ir... ao banheiro.

Mas ele segura minha mão antes.

Não com força.

Só o suficiente para me fazer olhar de novo.

— Não fica constrangida.

A frase vem simples.

Sem ironia e sem aquele humor defensivo dele. Só verdade.

— Eu não estou constrangida.

— Está um pouco.

— Talvez minimamente.

Ele se apoia parcialmente no travesseiro, ainda segurando minha mão.

— Não precisa.

Há um breve silêncio antes dele acrescentar, baixo:

— Eu não me arrependo.

Meu coração faz algo ridiculamente rápido.

Ridiculamente inconveniente.

Porque ele diz isso sem hesitar.

Sem cálculo.

Como se estivesse apenas declarando um fato jurídico incontestável.

Engulo seco.

— Você fala isso cedo demais para alguém que ainda nem tomou café.

— Eu continuo pensando igual depois do café.

Isso me faz desviar o olhar.

Talvez porque sustentar o dele agora pareça perigoso demais.

Levanto finalmente e puxo a camisa dele da poltrona próxima.

A primeira peça que encontro.

Vista em mim, ela quase chega ao meio das coxas. Quando me viro, ele está me observando.

Sem disfarçar.

— O quê?

— Minha camisa ficou ofensivamente melhor em você.

— Isso foi uma cantada muito ruim.

— Foi observação técnica.

Reviro os olhos e saio antes que ele diga mais alguma coisa.

✦✦✦

Na cozinha, o cheiro de café já está no ar.

Poucos minutos depois, Peeta aparece também — agora vestido, cabelo ainda úmido, camiseta casual. Natural demais. Como se acordar juntos não tivesse alterado a gravidade da casa.

Como se eu não estivesse absurdamente consciente de cada movimento dele.

Ele pega uma xícara e me observa por cima dela.

— Ainda está evitando me olhar.

— Estou concentrada na torrada.

— Fascinante como uma torrada pode exigir tanta dedicação.

— Você está irritantemente satisfeito hoje.

— Dormi bem.

— Convencido.

Ele apoia a xícara no balcão.

— Você também dormiu bem.

A frase me faz encarar imediatamente.

Ele sorri de canto.

— Não precisa me responder. Seu rosto já respondeu.

— Você realmente acordou insuportável.

— E você continua linda irritada.

Isso deveria ser proibido antes das oito da manhã.

Na hora do almoço, vamos ao encontro de seus pais. A mansão Mellark está silenciosamente impecável como sempre.

Effie já está sentada quando chegamos.

Haymitch aparece alguns minutos depois, de volta de Londres, com o tipo de presença que entra num ambiente como se já soubesse exatamente tudo que perdeu e tudo que ainda pretende comentar.

Effie me recebe com um sorriso diferente do habitual.

Mais humano e menos social.

— Katniss, antes de qualquer coisa… — Ela segura minha mão por um instante. — Obrigada pelo que fez ontem.

Eu paro.

— Não foi nada.

— Foi, sim.

A voz dela suaviza.

— Há anos ninguém consegue me trazer de volta tão rápido quando aquilo acontece.

Peeta fica em silêncio ao meu lado.

Effie continua:

— Você teve delicadeza sem me tratar como frágil. Isso é raro.

Não sei exatamente o que responder.

Então apenas sorrio leve.

— Às vezes só precisamos de alguém respirando junto.

Effie me observa por um instante e algo nela parece compreender mais do que diz.

Durante o almoço, percebo Haymitch olhando demais para mim e Peeta.

Não de forma óbvia, mas suficiente para notar.

Quando Effie se afasta para atender uma ligação no salão lateral, ele recosta na cadeira e cruza os braços.

— Certo.

Peeta nem ergue os olhos do copo.

— Certo o quê?

— Alguma coisa mudou.

Peeta continua neutro.

— Você diz isso com base em quê?

Haymitch sorri.

— No fato de que antes vocês pareciam dois robôs sofisticados decorando um manual de relacionamento.

Eu quase engasgo com a água.

Ele continua:

— Agora vocês estão… irritantemente naturais.

Peeta apoia os talheres.

— Pai...

— Não, sério — Haymitch insiste. — Até o silêncio entre vocês mudou.

Meu rosto aquece.

Peeta tenta parecer impassível, o que só piora porque Haymitch percebe imediatamente.

— Ah, ótimo. O advogado está sem resposta. Isso confirma minha teoria.

— Você voltou de Londres só pra infernizar?

— Parcialmente.

Ele se inclina um pouco mais, divertido.

— Só digo uma coisa; finalmente parece que vocês pararam de ensaiar.

Effie retorna antes que eu precise inventar alguma resposta.

Mas o comentário permanece ecoando.

Porque talvez ele esteja certo.

Mais tarde, de volta à casa menor, estou na cozinha quando o celular de Peeta vibra sobre o balcão.

Ele está no escritório atendendo uma ligação rápida.

Não pretendo olhar. Realmente não pretendo, no entanto, a tela acende.

E o nome aparece antes que eu consiga evitar.

Cashmere.

A mensagem surge parcialmente:

“Talvez a gente precise conversar. Hoje lembrei de você...”

Meu estômago reage antes do pensamento.

Algo pequeno. Um incômodo idiota e inesperado.

Desvio o olhar imediatamente, mas tarde demais. Peeta entra justamente nesse momento.

Percebe meu rosto. Depois percebe a tela. Pega o celular. Lê.

A expressão dele não muda muito, mas muda o suficiente para eu notar.

— Não é nada demais.

A frase vem rápida.

Rápida demais.

Cruzo os braços.

— Eu não perguntei nada.

— Mas pensou.

— Você também pensa demais, lembra?

Ele solta um pequeno suspiro.

— Cashmere faz isso às vezes. Mensagens vagas. Nada concreto.

— “Hoje lembrei de você” parece relativamente concreto.

— Katniss...

Ele se aproxima.

Calmo.

— Não significa nada.

Quero responder de forma neutra. Algo minimamente elegante ou maduro, mas o que sai é:

— Ótimo. Porque também não deveria significar.

Ele me observa como se estivesse tentando ler exatamente o que eu mesma ainda não nomeei.

E isso me irrita mais. Porque agora eu sei. Esse incômodo tem nome. E eu não gosto nada dele.

Porque pela primeira vez…

Eu sinto ciúme de verdade.

✦✦✦

Dormir com Peeta acontece sem anúncio oficial. Sem conversa e sem aquela necessidade irritante de nomear tudo.

Na primeira noite, parecia apenas consequência natural demais do que tinha acontecido entre nós. Tarde demais, cansaço demais, proximidade demais para que qualquer um dos dois fingisse que atravessar o corredor fazia sentido.

Na segunda, eu ainda disse a mim mesma que era circunstancial.

Na terceira… simplesmente parei de inventar justificativas.

A verdade é que o quarto dele já não me parecia território proibido.

E, pior: o meu próprio quarto começou a parecer silencioso demais.

Então, de algum modo, virou rotina.

Eu terminava meu banho, prendia o cabelo, às vezes passava pelo quarto de hóspedes só para pegar alguma roupa, e acabava no quarto dele como se fosse o movimento mais lógico do mundo.

Peeta sempre estava fazendo alguma coisa absurdamente típica dele — lendo e-mails, revisando contratos, respondendo mensagens curtas demais para alguém com tanto dinheiro e responsabilidade. Porém, bastava eu entrar e ele fechava o notebook alguns minutos depois, como se aquilo passasse automaticamente a importar menos.

O que me irritava um pouco. Porque parecia fácil demais.

E nada entre nós deveria parecer fácil assim.

Ainda assim, durante a madrugada, quando eu acordava, invariavelmente estava encostada nele.

Às vezes com a mão presa na camiseta dele. Às vezes com a cabeça no peito dele. Às vezes com o braço dele ao redor da minha cintura como se já existisse ali há anos.

Natural demais.

Perigoso demais.

Talvez por isso, no trabalho, meu corpo inteiro pareça incapaz de lembrar como agir normalmente.

Eu tento. Juro por Deus que tento.

Organizo a mesa. Depois reorganizo.

Troco os post-its de lugar.

Abro uma pasta, fecho, torno a abrir.

Corrijo duas vezes uma jurisprudência que já estava certa desde cedo.

O problema é que agora qualquer vez que escuto os passos dele no corredor, meu cérebro imediatamente lembra do quarto, da cama, da mão dele na minha cintura durante a madrugada.

E isso é profundamente inconveniente dentro de um escritório.

— Interessante.

A voz do Gale surge ao lado da minha mesa como uma praga anunciada.

Nem levanto os olhos.

— O quê?

— Você organizando clipes por tamanho.

Paro.

Droga.

— Estou trabalhando.

— Não. — Ele cruza os braços. — Você está fingindo que trabalha enquanto evita olhar pro corredor toda vez que o Mellark passa.

Levanto os olhos finalmente.

— Você devia cuidar da própria vida.

Ele sorri daquele jeito insuportavelmente perceptivo.

— Dormiram pouco?

Meu coração faz um movimento absurdo de revolta.

Não respondo.

O que claramente é pior.

Porque Gale inclina a cabeça e o sorriso cresce.

— Ah...

Fecho uma pasta com força um pouco maior do que precisava.

— Hawthorne, suma daqui.

— Só estou dizendo, finalmente vocês parecem humanos.

— Vai embora.

— Com prazer.

Ele sai satisfeito demais.

E eu odeio o fato de que provavelmente ele está certo.

No fim do expediente, estou terminando um parecer quando uma sombra para ao lado da minha mesa.

Nem preciso olhar para saber.

A chave preta da Lamborghini cai sobre meus papéis.

Peeta diz apenas:

— Vem comigo.

Ergo os olhos.

— Isso foi um convite ou você continua gostando de parecer autoritário?

— Anda, Everdeen.

Cinco minutos depois, estou no carro com ele acelerando como se a cidade inteira estivesse lenta demais.

Cruzo os braços.

— Você sempre precisa dirigir assim?

— Só quando você está quieta demais.

— Talvez eu esteja cansada.

— Talvez você esteja estranha desde manhã.

Viro o rosto para a janela. Porque responder seria confirmar demais.

Quando ele estaciona em frente à academia, eu o encaro.

— Ah, não.

— Ah, sim.

— Boxe?

— Boxe.

Minutos depois, já estou de luvas, cabelo preso, no ringue.

O cheiro conhecido da academia me ajuda a organizar a cabeça.

Ali, pelo menos, tudo costuma ser simples — movimento, força, reação.

Peeta sobe no ringue comigo como se tivesse planejado isso desde cedo.

— Se eu quebrar seu nariz, a culpa é sua — aviso.

— Duvido muito.

Odeio esse tom seguro dele.

Ataco primeiro.

Rápido.

Ele bloqueia.

Tento outro golpe.

Desvia.

— Você continua pensando demais antes do segundo movimento — diz ele.

— E você continua falando demais.

— Tenta me vencer.

A frase me irrita na medida certa.

Então aumento a força. Mais velocidade. Mais impulso.

Agora acerto o ombro dele. Depois quase pego o lado esquerdo.

Ele sorri.

O que me irrita mais.

— Melhor — comenta.

— Você pediu.

Mais dois movimentos.

Giro.

Ele relaxa por um segundo.

Só um.

E aproveito.

Uso o peso certo.

O movimento certo.

E derrubo.

Peeta cai no tatame.

Eu vou junto pelo impulso.

Quando percebo, estou por cima dele.

As mãos apoiadas perto dos ombros dele. Respiração acelerada. Muito perto. Perto demais.

Os olhos azuis dele sobem direto para os meus.

E por um segundo nenhum dos dois faz absolutamente nada.

Até ele sorrir daquele jeito irritante.

— Finalmente.

— Não se acostuma.

Mas antes que eu me afaste, ele segura minha cintura e me puxa.

O beijo vem sem aviso.

Quente.

Direto.

Como se ele já estivesse esperando exatamente esse instante.

Quando nos afastamos, ainda perto demais, ele diz:

— Você precisa relaxar mais.

Franzo o cenho.

— O quê?

— Pra todos somos noivos e agora você está agindo estranha na frente de todo mundo.

— Deixa de se achar, Mellark! Não estou agindo estranho.

— Está, sim.

— Não estou.

— Katniss, você organizou clipes por tamanho hoje.

Congelo.

— Gale comentou?

— Gale quase fez um relatório.

Reviro os olhos e tento levantar, mas ele ainda segura minha cintura.

— Quer realizar aquela fantasia que contamos pra Johanna em Aspen e dar uns amassos na Lamborghini?

Eu o encaro incrédula.

— Você enlouqueceu!

— É apertada pra isso, mas podemos dar um jeito.

Ele ergue as sobrancelhas.

— Afinal, estamos em um árduo treinamento no boxe.

Sacudo a cabeça imediatamente.

— Você é impossível.

Levanto antes que ele diga mais alguma coisa.

Tiro uma luva com os dentes e aponto para ele.

— Continua falando sozinho desse jeito que um dia eu realmente quebro seu nariz.

Ele sorri.

Aquele sorriso perigosamente satisfeito.

E isso me irrita porque meu rosto quer sorrir também.

Viro e sigo direto para o vestiário.

Mas enquanto caminho, percebo uma coisa absurdamente inconveniente...

Meu coração está acelerado demais para ser apenas por causa do treino.


Notas finais
É isso povo, é agora o que acham que vai acontecer? O próximo capítulo é o penúltimo, então... digam o que estão achando rsrs Beijos e excelente semana a todos!!!!