Notas iniciais
Heyyyyy voltei e voltei pra encerrarmos mais um enredo, esse aqui é o penúltimo. De coração espero que gostem 🤩 Obrigada pelo carinho de cada um e logo mais estarei respondendo todos os comentários.


Pov. Katniss Everdeen


O silêncio do quarto chega a ser sufocante. Não pelo barulho e sim pela ausência dele.

Faz quarenta minutos que estou olhando para o teto barato e amarelado desse hotel de terceira categoria no Upper West Side, tentando convencer meu cérebro de que isso aqui foi uma decisão racional.

Não foi.

O ar-condicionado faz um barulho irritante. A cama é dura. O corredor cheira a cigarro velho e produto de limpeza barato.

E ainda assim… parece mais seguro do que ficar na casa dele.

Seguro porque aqui nada me distrai. Nada me faz esquecer que isso começou como um acordo.

Fecho os olhos por um segundo.

Grande erro.

Imediatamente lembro da mão dele segurando minha cintura no ringue. Do jeito como me olhava no terraço. Do cuidado silencioso quando minha respiração acelerou naquela manhã na cozinha da mãe dele. Do “eu não me arrependo” dito cedo demais, sincero demais.

E é exatamente isso que me assusta.

Porque eu me arrependeria muito menos se Peeta fosse apenas um idiota arrogante brincando comigo.

Mas talvez ele não seja.

Ele cozinha. Ele percebe quando fico quieta demais. Ele fecha o notebook quando entro no quarto. Ele lembra como tomo café. Ele olha pra mim como se eu fosse algo importante.

Só que olhar… não significa amar.

Viro de lado na cama estreita e puxo o lençol fino até o peito.

Meu celular vibrou tantas vezes durante a tarde que precisei colocar no silencioso.

Peeta. Peeta. Peeta.

Chamadas não atendidas.

Mensagens que eu não tive coragem de abrir.

A última veio há vinte minutos.

Não li. Mas vi a prévia.

“Katniss, onde você está?”

Meu peito aperta imediatamente.

Aperta porque ele parece preocupado. E preocupação é perigosa. Preocupação cria esperança.

Eu odeio esperança.

Sento na cama abruptamente, esfregando o rosto.

Tudo saiu do controle rápido demais.

Primeiro Aspen. Depois o quarto dele. Depois as madrugadas abraçada nele como se meu corpo já tivesse decidido algo que minha mente ainda tenta impedir.

E então Cashmere.

A maldita mensagem de Cashmere.

“Talvez a gente precise conversar. Hoje lembrei de você.”

Talvez eu esteja sendo covarde. Talvez esteja projetando inseguranças onde não existem.

Mas e se eu não estiver?

Peeta nunca prometeu nada. Nunca disse que estava apaixonado. Nunca disse que isso deixou de ser um acordo.

Talvez ele só esteja vivendo o momento. Talvez eu seja confortável. Conveniente. Disponível. Uma distração bonita até a ex-noiva perfeita resolver voltar.

Meu estômago embrulha.

Levanto da cama e caminho pelo quarto minúsculo. Três passos até a janela. Dois até a porta do banheiro.

Ridículo.

Katniss Everdeen, a mulher que já enfrentou tanto na vida, credores, despejo e entrevistas de emprego sem tremer… fugiu emocionalmente para um hotel horroroso porque um homem loiro demais começou a tratá-la com carinho.

— Patética — murmuro pra mim mesma.

Mas a palavra não ajuda.

Pego o celular outra vez.

23 chamadas perdidas.

Quatro de Gale.

Duas de Johanna.

E todas as outras dele.

Meu dedo paira sobre a conversa. Quase abre. Quase.

Então bloqueio a tela de novo.

Não. Porque se eu ouvir a voz dele agora… eu volto.

E isso é exatamente o que não posso fazer.

Mais cedo naquele mesmo dia…

A Mellark Legal Consulting parecia diferente sem mim. Ou talvez eu só estivesse paranoica.

Passei a manhã inteira ignorando as mensagens da Lavinia perguntando onde eu estava.

Inventei uma gripe. Depois uma enxaqueca. Depois parei de responder.

Não consegui entrar naquele prédio. Não consegui encarar Peeta depois da forma como dormíamos abraçados todas as noites.

Porque alguma coisa mudou.

E o pior? Ele também sentiu.

Eu vi no jeito como me olhou pela manhã após nossa primeira noite juntos. No jeito como me puxou pela cintura no corredor antes de sairmos pro trabalho. No beijo rápido que deu no topo da minha cabeça enquanto lia e-mails.

Coisas pequenas. Domésticas. Intimamente perigosas.

Coisas que pessoas apaixonadas fazem sem perceber.

Meu problema é que talvez só eu esteja apaixonada.

Encosto a testa na janela do hotel.

Nova York continua acesa lá fora. Indiferente. Gigantesca.

E, eu me sinto pequena.

Muito pequena.

Porque fugir dele seria fácil se Peeta Mellark fosse só meu chefe.

Mas não é mais isso.

E talvez seja exatamente esse o problema.

O relógio marca quase uma da manhã quando finalmente desisto de fingir que vou conseguir dormir.

Estou sentada no chão, encostada na lateral da cama barata do hotel, encarando o celular iluminado nas minhas mãos.

Vinte e três chamadas perdidas de Peeta continuam ali. Como uma acusação silenciosa.

Meu peito aperta outra vez.

Antes que eu pense demais, aperto o contato da Rue.

Ela atende no terceiro toque, a voz sonolenta e imediatamente preocupada.

— Katniss?

Só ouvir alguém me chamar daquele jeito já quase desmonta tudo.

Fecho os olhos.

— Eu não sei o que fazer.

Há silêncio do outro lado. Não um silêncio vazio. Um silêncio atento.

— Onde você está? — pergunta ela, agora completamente acordada.

Olho ao redor do quarto horroroso.

— Num hotel.

— O quê?

Dou uma risada fraca, nervosa demais.

— Eu fugi.

— Fugiu de quem? Do serial killer milionário ou dos próprios sentimentos?

Solto o ar pelo nariz e conto sobre as ligações e mensagens dele.

— Rue.

— Katniss.

Minha garganta aperta.

— Eu preciso conversar com você.

Ela não hesita nem meio segundo.

— Me encontra pela amanhã na cafeteria perto do Central Park. A que você gosta dos muffins absurdamente caros.

— Eu não vou conseguir dormir até lá.

— E claramente você também não vai conseguir tomar decisões inteligentes sozinha às uma da manhã num hotel suspeito.

Olho para o teto manchado.

Ela provavelmente tem razão.

— Rue…

— Hum?

Minha voz sai mais baixa dessa vez.

Mais vulnerável.

— Eu acho que estraguei tudo.

Ela suspira do outro lado da linha.

— Você está apaixonada por ele?

Como fico em silêncio, ela responde antes de mim, percebendo o que nem eu quero admitir.

— Ah, querida…

A forma como ela fala quase me faz chorar. Quase.

Engulo em seco.

— Isso não deveria ter acontecido.

— Mas aconteceu.

Passo a mão pelo rosto.

— E se pra ele isso for só… momentâneo? Conveniente? O Peeta é intenso quando quer alguma coisa. E a Cashmere apareceu de novo e…

— Katniss — interrompe Rue firme. — Você não precisa se sentir insegura.

Dou uma risada sem humor.

— Fácil falar quando você não está emocionalmente falida num hotel que provavelmente vende drogas na recepção.

Rue ri baixo.

— Primeiro: dramática. Segundo: você realmente acha que um homem como Peeta Mellark ligaria umas vinte vezes seguidas se não estivesse desesperado?

Meu coração tropeça dentro do peito.

Desvio o olhar imediatamente, como se ela pudesse me ver.

— Você não entende.

— Então me explica.

Fecho os olhos por um segundo longo demais.

E então deixo escapar.

— Nós estamos dormindo juntos.

O silêncio se faz presente.

Depois:

— Dormindo juntos tipo…

— Tipo juntos mesmo — murmuro rapidamente. — Há algumas noites.

Rue solta um som escandalizado do outro lado.

— KATNISS EVERDEEN!

— Fala baixo!

— Eu estou na minha casa!

— Mesmo assim!

Ela começa a rir. Daquela forma incrédula e feliz que me irrita profundamente agora.

— Você fugiu porque está apaixonada pelo homem com quem anda dormindo abraçada há dias?

— Não coloca desse jeito!

— Mas é exatamente isso!

Levanto abruptamente e começo a andar pelo quarto.

— Rue, você não viu como as coisas ficaram! Não é mais só atração. Não é mais só o acordo. Nós acordamos juntos, jantamos juntos, ele me olha como se…

Paro.

Rue espera.

— Como se…? — incentiva ela baixinho.

Minha garganta trava.

— Como se eu importasse.

A resposta sai quase inaudível.

E dói mais do que deveria. Porque essa é a verdade inteira.

Rue fica em silêncio por alguns segundos.

Quando volta a falar, a voz dela é muito mais suave.

— Katniss… você passou tanto tempo sobrevivendo que desaprendeu como é quando alguém cuida de você sem querer algo em troca.

Sinto meus olhos queimarem imediatamente.

Droga.

— E isso te assusta — continua ela. — Porque agora existe algo que você pode perder.

Encosto a testa na parede fria do quarto.

Sim.

É exatamente isso.

Pela primeira vez em muito tempo… Peeta não parece um problema.

Parece lar.

E talvez seja isso que mais me apavora.

A manhã chega cruelmente cedo.

Mal dormi duas horas.

O hotel continua deprimente sob a luz do dia. O papel de parede parece ainda mais amarelado, o café oferecido no corredor cheira a queimado e existe uma discussão acontecendo em algum quarto próximo desde seis da manhã.

Tomo um banho rápido só para tentar acordar meu cérebro. Não funciona.

Prendo o cabelo num rabo de cavalo desajeitado, visto jeans, moletom preto e óculos escuros grandes demais para alguém tentando fingir estabilidade emocional.

Antes de sair, olho o celular outra vez.

Nenhuma nova mensagem.

E, estranhamente, isso machuca mais. Meu peito aperta imediatamente com o pensamento.

Talvez ele tenha desistido. Talvez esteja irritado. Talvez…

— Para de ser maluca — digo pra mim mesma enquanto enfio o celular na bolsa.

Nova York está fria naquela manhã. O vento atravessa meu casaco enquanto caminho até a cafeteria combinada com Rue.

O lugar já está relativamente cheio quando entro.

Cheiro de café fresco. Canela. Manteiga. Conversas baixas. Xícaras batendo.

E então vejo Rue sentada perto da janela.

Ela usa um casaco bege enorme, cabelos presos num coque bagunçado e segura um copo de café como se estivesse pronta para uma intervenção emocional profissional.

Assim que me aproximo, ela arregala os olhos.

— Meu Deus, você está acabada.

Solto uma risada cansada enquanto me sento na frente dela.

— Obrigada pela delicadeza.

— Katniss, sério… — Ela inclina a cabeça. — Você parece alguém que atravessou uma guerra civil sentimental.

— Tecnicamente talvez eu tenha atravessado.

— Cadê aquele anel de noivado escandaloso?

— O anel bem... eu deixei ele para trás.

Rue empurra um café na minha direção.

— Bebe isso antes de começar a chorar em público.

— Eu não vou chorar.

Ela me olha por cima do copo.

— Você está usando óculos escuros dentro de uma cafeteria.

Tiro os óculos imediatamente.

— Tá bom, talvez exista um risco moderado.

Rue sorri pequeno. Depois observa meu rosto com mais cuidado.

— Você fugiu mesmo.

A frase me atinge pior do que deveria.

Olho para a mesa.

— Eu entrei em pânico.

Ela suspira.

— Katniss…

Uma atendente se aproxima nesse instante.

— O que vocês vão querer?

Rue aponta pra mim imediatamente.

— Ela precisa de açúcar, carboidrato e estabilidade emocional. Recomendo um muffin.

Reviro os olhos.

— Eu quero um muffin de blueberry.

— Aquecido? — pergunta a atendente.

Penso por meio segundo.

— Sim.

Rue sorri vitoriosa.

— E outro café pra ela. Extra grande.

A atendente anota e se afasta.

Fico mexendo distraidamente no sachê de açúcar.

Rue espera. Paciente.

Até que finalmente pergunta:

— Então… o que exatamente te fez fugir no meio da noite?

Solto o ar devagar.

— Tudo.

Ela arqueia a sobrancelha.

— Desenvolva.

Fecho os olhos rapidamente antes de responder.

— O jeito como ele estava me olhando ultimamente.

— Katniss…

— Não, escuta. — Apoio os braços na mesa. — Estava ficando real demais. Nós acordávamos juntos. Dormíamos abraçados. Ele me beijava distraidamente enquanto fazia café como se aquilo já fosse automático e…

Minha voz falha levemente.

Rue fica quieta.

— E eu comecei a agir como se aquilo fosse meu. Como se ele fosse meu.

O silêncio pesa entre nós.

A atendente retorna com o muffin aquecido. O cheiro doce imediatamente invade o espaço.

Blueberry. Manteiga. Canela.

Meu estômago ronca alto o suficiente para Rue rir.

— Finalmente uma reação saudável.

Ignoro o comentário e puxo o prato pra perto.

O primeiro pedaço praticamente derrete na boca.

Fecho os olhos por um segundo.

— Isso é absurdamente bom.

Rue observa enquanto tomo outro pedaço maior dessa vez.

— Você sempre pede muffin quando está emocionalmente destruída.

Paro mastigando.

— Isso é mentira.

— Não é. No enterro da sua tia você comeu três.

Faço uma careta.

— Você guarda informações demais sobre mim.

— É literalmente meu trabalho como melhor amiga.

Dou outra mordida no muffin, menor agora.

Rue me observa por alguns segundos antes de perguntar cuidadosamente:

— Você acha mesmo que o Peeta está só brincando com você?

A pergunta me paralisa.

Olho automaticamente para a janela. Pessoas passando na rua. Táxis. Vida acontecendo normalmente.

Enquanto eu estou aqui desmoronando por causa de um advogado absurdamente bonito que começou a me tratar com carinho talvez cedo demais. Ou talvez tarde demais.

Engulo seco.

— Eu não sei.

E talvez essa seja a pior parte de todas.


Pov. Peeta Mellark


No começo, eu realmente achei que Katniss estivesse só evitando conversar.

Depois da academia, ela ficou estranha. Quieta demais. Pensativa demais.

Mas Katniss sempre desaparecia um pouco dentro da própria cabeça quando alguma coisa a afetava. Então, quando saí do banho naquela noite e não a encontrei na cozinha, não me preocupei imediatamente.

Achei que estivesse no quarto de hóspedes.

Às vezes ela lia até tarde. Às vezes tomava banho absurdamente demorado. Às vezes simplesmente precisava de espaço.

Eu conhecia o padrão dela. Ou achei que conhecia. Foi só perto da meia-noite que algo começou a parecer errado.

A casa estava silenciosa demais.

Fecho o notebook no escritório depois de responder o mesmo e-mail três vezes sem realmente prestar atenção no conteúdo. Passo a mão pelo rosto e caminho até o corredor do andar de cima.

A luz do quarto de hóspedes está apagada.

Bato na porta primeiro.

Nada.

— Katniss?

Silêncio.

Franzo levemente o cenho.

Tento de novo, agora girando a maçaneta.

A porta abre.

O quarto está vazio.

Meu peito afunda tão rápido que o movimento quase chega a doer fisicamente.

Olho ao redor automaticamente.

A cama intacta. O banheiro vazio. O closet…

Vazio demais.

A mala antiga sumiu.

O porta-retrato dos pais dela também.

No entanto, o anel oval de diamantes, absurdamente gigante está sobre a mesa de cabeceira. Sem nenhum aviso.

Por um segundo inteiro fico completamente imóvel.

Como se meu cérebro se recusasse a processar o que está vendo.

Então pego o celular imediatamente.

Ligo.

Chama. Chama. Chama.

Caixa postal.

Uma sensação estranha começa a subir pelo meu estômago. Algo entre ansiedade e irritação.

Ligo de novo.

Nada.

Mensagem.

“Onde você está?”

Outra.

“Katniss.”

Mais uma.

“Você saiu sozinha essa hora?”

Continuo andando pelo quarto enquanto o telefone chama outra vez.

Nada.

Meu coração bate cada vez mais forte.

Volto pro corredor. Desço as escadas rápido demais. Olho a cozinha como se ela pudesse simplesmente aparecer ali segurando uma xícara de café e dizendo que estou exagerando.

Mas a cozinha também está vazia. A garagem. Vazia. O jardim. Escuro.

Passo a mão pelos cabelos com força.

— Merda.

Ligo para o Gale.

Ele atende irritado.

— Se isso não envolver cadáveres ou falência empresarial, eu vou…

— A Katniss sumiu.

Silêncio imediato do outro lado.

— O quê?

— Ela não está em casa.

— Você procurou direito?

— Gale.

Meu tom basta.

Ele suspira.

— Vocês brigaram?

A pergunta me atinge desprevenido.

Porque… não.

Não brigamos.

Na verdade, as últimas semanas foram as melhores semanas que tive em anos.

E isso piora tudo.

Encosto no balcão da cozinha, olhando fixamente para o nada.

— Ela estava estranha hoje.

— Estranha como?

Penso.

Na academia. No jeito como desviava o olhar. No silêncio no carro. Na tensão absurda escondida atrás do sarcasmo habitual.

Então lembro.

Cashmere.

A mensagem.

Meu estômago afunda violentamente.

Fecho os olhos.

— Ah, droga.

— O quê? — Gale pergunta imediatamente.

Apoio a mão na nuca.

— Eu acho que sei o motivo.

Não durmo.

Nem perto disso.

Passo a madrugada inteira alternando entre o sofá da sala e o celular nas mãos.

Ligo. Mando mensagens. Ligo outra vez.

Nada.

A ausência dela dentro da casa é insuportavelmente perceptível.

A xícara favorita dela ainda está perto da cafeteira. O moletom cinza que roubou do meu closet continua dobrado no braço do sofá. Até o cheiro do shampoo dela ainda está no banheiro.

Tudo parece gritar que ela esteve ali.

E agora não está.

E de um jeito estranho em muito tempo… eu não consigo controlar absolutamente nada.

Às seis da manhã, tomo café sem sentir gosto nenhum.

Às sete e meia estou na empresa.

Lavinia me acompanha pelo corredor enquanto atualiza minha agenda do dia, mas honestamente não absorvo metade das palavras.

— …e a reunião com os investidores foi remarcada para…

— Ela apareceu?

Lavinia para no meio da frase.

— Quem?

Olho pra ela imediatamente.

— Katniss.

Ela hesita.

Droga. Até Lavinia percebe meu estado.

— Não, senhor Mellark.

Meu maxilar trava automaticamente.

— Ela ligou?

— Não.

Assinto uma vez.

Curto. Seco.

E sigo andando.

O problema é que o escritório inteiro parece errado sem ela.

A mesa dela está vazia. Organizada demais. Sem os post-its espalhados. Sem o copo de café esquecido. Sem ela andando apressada pelos corredores enquanto corrige erros de estagiários no caminho.

É ridículo o quanto percebo sua ausência.

Entro na minha sala e tento trabalhar.

De verdade.

Abro um contrato. Leio a primeira cláusula quatro vezes.

Não faço ideia do que acabei de ler.

Jogo a caneta na mesa frustrado.

Minha mente continua voltando pra mesma pergunta.

O que eu fiz?

Levanto abruptamente e começo a andar pela sala.

Talvez eu tenha avançado rápido demais. Talvez ela tenha se assustado. Talvez eu tenha deixado tudo parecer casual quando não era casual pra ela.

Ou talvez…

Talvez ela tenha percebido antes de mim.

Paro imediatamente com o pensamento.

Porque a verdade me atinge inteira dessa vez.

Não é só preocupação, apego ou culpa.

A casa ficou vazia porque Katniss foi embora.

E eu me senti desesperado.

Desesperado de verdade.

Como fiquei quando me ligaram do necrotério e disseram sobre meu irmão. Como fiquei vendo minha mãe desmoronar anos atrás. Como fico sempre que alguém importante vai embora sem aviso.

Meu peito aperta violentamente.

Sento devagar na cadeira.

Então encaro o celular outra vez.

Nenhuma resposta.

Passo o polegar pela tela por alguns segundos antes de abrir a conversa novamente.

E dessa vez não penso muito antes de digitar:

“Volta pra casa. Por favor.”

Porque essa é a primeira vez em anos…

Que alguma coisa realmente parece casa pra mim também.

Estou no meio da terceira tentativa fracassada de revisar um contrato quando a porta da minha sala se abre sem aviso.

Nem preciso levantar os olhos imediatamente para saber quem é.

O perfume vem primeiro.

Cashmere.

Fecho os olhos por um segundo curto. Exausto.

Quando ergo o olhar, ela já está entrando como se ainda tivesse livre acesso à minha vida.

Elegante. Impecável. Cabelos loiros perfeitamente alinhados sobre os ombros. Casaco claro caro demais até para Manhattan.

Ela fecha a porta atrás de si.

— Então era verdade — diz, observando meu rosto com atenção. — Você realmente anda ignorando minhas mensagens.

Largo a caneta lentamente sobre a mesa.

— Eu estava ocupado.

Ela sorri de leve.

— Você nunca esteve ocupado demais pra mim antes.

A frase teria funcionado meses atrás. Talvez anos.

Hoje só me deixa cansado.

Cashmere caminha devagar pela sala. Como se estudasse o ambiente. Como se procurasse vestígios do homem que deixou pra trás.

Só que ele não está mais aqui.

Ela para diante da minha mesa.

— Você está diferente.

Não respondo.

Ela inclina levemente a cabeça, analisando meu rosto com atenção irritantemente íntima.

— O cabelo maior. Menos rígido. Menos… controlado.

Quase rio sem humor.

Se ela soubesse.

Cashmere apoia as mãos na mesa e se aproxima um pouco mais.

— Sinceramente? — murmura. — Você não está parecendo em nada com o homem com quem terminei.

Meu maxilar tensiona automaticamente.

Porque eu lembro perfeitamente daquele homem.

Controlado demais. Frio demais. Seguro demais. Alguém que transformava emoções em cronogramas.

E talvez ela tenha razão.

Talvez eu tenha mudado mesmo.

Talvez Katniss tenha feito isso comigo sem perceber.

Cashmere dá a volta na mesa antes que eu consiga interrompê-la.

E então faz uma coisa que costumava ser natural entre nós.

Toca em mim.

Os dedos dela deslizam pelo meu paletó até pousarem sobre meu peito.

— Peeta…

Meu corpo inteiro reage instantaneamente.

Mas não da forma antiga.

Não existe calor. Não existe desejo. Não existe saudade.

Só desconforto.

Ela sorri levemente, interpretando meu silêncio errado.

— Eu sinto sua falta.

Meu olhar cai automaticamente para a mão dela no meu peito.

Depois sobe para o rosto dela.

— Cashmere…

— Me escuta primeiro — interrompe ela rapidamente. — Eu sei que as coisas terminaram mal. Sei que fui covarde em alguns momentos. Mas você mudou e…

Ela se aproxima mais.

Perto demais.

— Talvez nós precisássemos disso. Tempo. Distância.

Meu peito aperta.

Não por ela.

Porque Katniss desapareceu justamente acreditando nisso.

Que eu ainda queria Cashmere.

Merda.

— Sirius e eu… — continua ela, baixando a voz. — Podemos terminar.

Meu olhar sobe imediatamente.

Ela sustenta.

— Eu estou disposta a terminar o noivado.

Fico em silêncio desacreditando no que acabo de escutar.

A cidade continua se movendo do outro lado das janelas enormes da minha sala. Carros. Buzinas. Vida.

Mas dentro daqui tudo parece absurdamente imóvel.

Cashmere sorri pequeno, esperançosa.

— Talvez ainda exista alguma coisa entre nós.

E então finalmente me afasto.

Seguro o pulso dela com cuidado e retiro sua mão do meu peito.

O movimento é gentil. Mas definitivo.

Ela percebe imediatamente. O sorriso vacila.

Dou alguns passos para trás.

Distância.

Necessária.

— Nunca esteve nos meus planos reatar com você.

A frase sai calma. Sem raiva. Sem crueldade.

Só verdade.

Cashmere pisca lentamente.

Como se não tivesse entendido.

— Peeta…

Passo a mão pela nuca, cansado demais emocionalmente para qualquer jogo.

— Quando você foi embora… eu realmente achei que aquilo fosse o fim da minha vida emocional.

Ela permanece imóvel.

Continuo:

— Achei que nunca mais fosse conseguir sentir alguma coisa daquele jeito por ninguém.

A mandíbula dela tensiona levemente.

— Mas eu segui em frente.

As palavras ecoam pela sala inteira.

Fortes. Irreversíveis.

Cashmere me encara como se eu tivesse acabado de alterar alguma lógica importante do universo.

Porque talvez tenha.

— Claro, tem outra pessoa — conclui ela baixinho.

Não respondo imediatamente.

Mas acho que meu rosto responde por mim.

Porque os olhos dela mudam.

Finalmente entendendo.

— É ela, não é?

Katniss surge inteira na minha cabeça imediatamente.

Dormindo abraçada em mim. Rindo no salão. Comendo torradas de madrugada na cozinha. Organizando clipes por tamanho quando estava nervosa.

Meu peito aperta violentamente outra vez.

Porque ela foi embora acreditando exatamente no oposto disso.

Cashmere solta uma risada curta. Sem humor nenhum.

— Impressionante.

— Cashmere…

— Não. — Ela ergue a mão. — Eu só… nunca achei que você realmente fosse deixar alguém entrar.

Nem eu achei.

Ela me observa mais alguns segundos.

Depois ajeita o casaco elegantemente. Como sempre faz quando está tentando recuperar controle emocional.

— Sirius é um homem bom — murmura ela, mais para si mesma do que para mim. — Talvez eu só tenha confundido conforto com ausência de amor.

Engulo em seco. Porque conheço exatamente essa sensação.

Ela caminha até a porta. Para antes de sair.

E então me olha uma última vez.

— Ela deve ser muito especial.

Meu olhar baixa involuntariamente para o celular sobre a mesa.

Ainda sem resposta da Katniss.

Quando volto a encarar Cashmere, minha voz sai mais baixa do que pretendia.

— Ela é.

E, finalmente percebo desde que Katniss desapareceu…

Eu tenho certeza absoluta disso.

Depois que Cashmere vai embora, minha sala parece menor.

Pesada.

Fico parado alguns segundos olhando para a porta fechada, ainda processando a sensação estranha de finalmente encerrar um capítulo que passei anos acreditando que continuava aberto.

Mas, no instante seguinte, Katniss invade meus pensamentos outra vez.

O silêncio. As chamadas ignoradas.

Merda.

Pego o celular imediatamente.

Nenhuma resposta.

A ansiedade volta inteira.

Abro a conversa com Gale.

“Você tem o contato da amiga dela Rue?”

A resposta vem menos de um minuto depois.

“Por quê?”

Digito rápido.

“Porque a Katniss sumiu e eu estou começando a considerar sequestrar um satélite pra encontrar ela.”

Três pontos aparecem.

Depois um número.

Ligo imediatamente.

Rue atende no quarto toque.

— Alô?

— Rue? Aqui é Peeta Mellark.

Existe uma hesitação antes da voz dela.

— Ah. Então você é o motivo da minha melhor amiga estar emocionalmente destruída num hotel horrível.

Fecho os olhos rapidamente.

— Ela está bem?

Rue não responde a pergunta.

Claro que não responde.

— Quais são suas intenções com a minha amiga?

A pergunta me desmonta mais do que deveria.

Porque, espantosamente, pela primeira vez em muito tempo, eu tenho a resposta exata.

Passo a mão pela nuca e caminho até a janela da minha sala.

Nova York inteira abaixo de mim. E ainda assim tudo parece distante sem ela.

Então suspiro antes de responder.

— Eu preciso dela comigo.

Minha voz sai mais baixa do que costumo permitir.

Mais honesta também.

— E não apenas por um momento… — continuo. — Mas pelo tempo que me resta de vida.

Rue não brinca dessa vez. Não provoca. Não ironiza. Quando ela volta a falar, a voz está muito mais suave.

— Então não estraga isso, Mellark.

Meu peito aperta.

— Onde ela está?

Lavinia quase derruba o tablet quando apareço novamente na recepção poucos minutos depois.

— Senhor Mellark? A reunião com os investidores começa em vinte minutos.

— Cancela.

Ela pisca.

— …desculpa?

Continuo pegando as chaves do carro.

— Cancela tudo pelo resto do dia.

Silêncio absoluto.

A pobre mulher parece genuinamente preocupada agora.

— O senhor está passando mal?

— Não.

Pela primeira vez em anos… talvez eu esteja exatamente o contrário disso.

Ela ainda me encara incrédula.

Porque eu nunca cancelo agenda.

Nem no enterro do Cyril eu cancelei completamente.

Trabalho sempre veio antes. Controle sempre veio antes.

Até Katniss.

— Remarca tudo — digo já andando em direção ao elevador.

— Sr. Mellark…

Paro.

Lavinia me olha como se estivesse vendo outra pessoa.

E talvez esteja mesmo.

— Boa sorte — murmura ela.

Assinto uma vez.

E vou embora.

✦✦✦

O hotel é pior do que imaginei.

Pitoresco é uma palavra educada demais.

O prédio parece preso em 1997, o carpete do corredor tem um padrão horroroso e existe uma máquina de refrigerante piscando perto da recepção como se estivesse prestes a morrer.

Katniss vai me matar.

Subo rápido demais até o andar indicado por Rue.

Meu coração bate tão forte que chega a irritar.

Paro diante da porta. Respiro fundo uma vez.

E bato.

Silêncio.

Depois passos.

A fechadura gira.

E então ela aparece.

Cabelo preso de qualquer jeito. Moletom largo. Olhos cansados. Linda.

O choque atravessa o rosto dela imediatamente.

— Peeta?!

Por um segundo ela parece genuinamente assustada.

Depois fecha os olhos rapidamente e revira os olhos.

— Rue — diz baixo pra si mesma.

Quase sorrio sem humor.

Quase.

Porque a tensão dentro do meu peito é forte demais pra isso.

Ela continua parada na porta, me encarando.

— Como você me encontrou?

— Você realmente achou que eu ia simplesmente aceitar desaparecer assim?

Ela cruza os braços instantaneamente. Defensiva.

— Eu não desapareci.

Olho ao redor do corredor decadente.

— Katniss, você fugiu pra um hotel que parece cenário de investigação criminal.

— Dramático.

Dou um passo mais perto.

— Você saiu sem dizer nada.

A frase sai mais dura do que pretendi.

Ela ergue o queixo imediatamente.

— Dizer o quê?

Meu peito aperta violentamente.

Qualquer coisa.

Aproximo mais um passo.

— Nem que dissesse que me odeia.

O olhar dela muda imediatamente.

Mais suave. Mais triste.

— Eu não te odeio…

A voz falha levemente.

— Muito pelo contrário…

Ela não termina.

Porque eu avanço antes.

Não agressivamente. Não impulsivamente.

Só incapaz de continuar longe dela.

— Katniss, presta atenção.

Ela sustenta meu olhar. Respiração irregular.

— Eu sei que toda essa loucura começou como uma mentira. Sei disso.

Dou outro passo.

Agora perto o suficiente para sentir o perfume dela outra vez.

— Mas nas últimas semanas… o que vivemos foi a coisa mais verdadeira que já aconteceu comigo.

Os olhos dela brilham imediatamente.

— Peeta…

— Não. — Balanço a cabeça devagar. — Deixa eu terminar.

Minha voz sai firme agora. Clara. Como nunca consegui ser emocionalmente antes.

— Eu quero você comigo de verdade daqui pra frente.

Ela prende a respiração. Vejo claramente a hesitação surgir no rosto dela.

Cashmere.

Claro.

Passo a mão pelo rosto rapidamente.

— Eu achei durante muito tempo que amava a Cashmere.

Katniss desvia o olhar imediatamente.

Seguro o rosto dela com cuidado antes que ela consiga fugir outra vez.

— Mas eu descobri uma coisa horrível nesses últimos dias.

Os olhos cinzentos voltam pros meus.

— Eu não amava ela da forma que achei que amava. Eu amava a ideia. A estabilidade. O conforto de alguém que encaixava perfeitamente na vida que esperavam de mim.

Minha garganta aperta.

— Mas com você…

Solto uma risada fraca. Desarmada.

— Com você eu finalmente vivi alguma coisa de verdade.

Katniss fica completamente imóvel. Como se estivesse tentando decidir se acredita ou não.

Então digo a única coisa que realmente importa:

— Você foi embora e eu cancelei minha agenda inteira pra te encontrar.

Ela arregala os olhos levemente.

— Peeta Mellark não cancela agenda nem em catástrofe natural.

— Exatamente.

O silêncio entre nós muda.

Amolece.

E então ela finalmente quebra.

As mãos agarram meu casaco antes mesmo que ela perceba o que está fazendo.

Eu beijo ela imediatamente.

Quente. Intenso. Aliviado.

Katniss corresponde na mesma hora, me puxando mais perto como se também estivesse cansada demais de fugir.

Minhas mãos descem pra cintura dela. As dela sobem pro meu pescoço.

E finalmente consigo respirar direito em quase dois dias…

Quando nos afastamos, ainda muito perto, encosto a testa na dela.

— Agora vamos pra casa.

Ela tenta recuperar o ar.

— Peeta…

Aproximo a boca do ouvido dela e murmuro baixo:

— Antes que eu tire sua roupa aqui mesmo.

Katniss fica vermelha imediatamente.

Depois me empurra de leve.

— Você é impossível.

Finalmente sorrio de verdade.

— E você fugiu pra um hotel horrível achando que eu deixaria isso acontecer.

Ela revira os olhos, mas continua segurando meu casaco.

E isso já parece exatamente onde deveríamos estar.


Notas finais
Conforme dê tudo certo volto amanhã com o último e mais novidades 😍