O Amor que não Era pra Ser
10 O Amor que Não Era pra Ser
Notas iniciais

Pov. Peeta Mellark
O vento frio de Cambridge atravessa o campus de Harvard naquela manhã, mas, pela primeira vez em muito tempo, eu mal percebo a temperatura.
Porque ela está ali.
Katniss.
Do outro lado do gramado lotado, usando a beca preta e o capelo vermelho escuro de Harvard, conversando com Rue enquanto tenta prender o cabelo do jeito mais desastrado possível.
E Deus…
Eu nunca vou me acostumar com o efeito que ela tem sobre mim.
Sorrio sozinho.
O homem que passou anos transformando emoções em contratos agora está parado no meio de uma cerimônia acadêmica com o coração batendo ridiculamente rápido porque sua noiva oficialmente está tentando encaixar grampos no cabelo e claramente perdendo a batalha.
— Você tá sorrindo igual um idiota — comenta Gale ao meu lado.
Nem desvio os olhos dela.
— Talvez porque eu seja um.
Ele ri baixo.
— Nunca achei que veria isso acontecer contigo.
Honestamente?
Nem eu.
Katniss levanta o olhar nesse instante. Me encontra no meio da multidão.
E sorri.
Não aquele sorriso controlado que ela usava quando nos conhecemos. Não aquele sorriso defensivo. Nem o sorriso irônico que ela usava para sobreviver.
Esse aqui é diferente.
Livre.
Meu peito aperta imediatamente.
Porque eu sei exatamente o quanto custou chegar até aqui.
As madrugadas estudando. Os estágios. Os casos. As viagens constantes entre Cambridge e Nova York. Os finais de semana roubados. As provas. O cansaço. As inseguranças.
Não foi fácil.
Para nenhum de nós.
Houve noites em que ela adormeceu sobre livros enormes espalhados pela cama enquanto eu respondia e-mails no notebook ao lado dela. Houve semanas em que ficamos presos em cidades diferentes, vivendo de ligações de madrugada e cafés rápidos em estações de trem. Houve momentos em que a saudade parecia fisicamente insuportável.
Mas nós sobrevivemos.
Porque, em algum momento entre aquela proposta absurda de namoro fake e as madrugadas dormindo abraçados…
Katniss virou lar.
E você não desiste da única coisa que finalmente parece casa.
A cerimônia começa.
Discursos. Aplausos. Formalidades.
Mas honestamente? Mal consigo prestar atenção.
Porque toda vez que olho para ela, sinto a mesma coisa absurda:
Orgulho.
Um orgulho quase violento.
Katniss Everdeen não teve nada fácil na vida. Nada veio pronto. Nada foi gentil.
E ainda assim… ela chegou aqui.
Sozinha. Brilhante. Inteira.
Quando o nome dela ecoa pelos alto-falantes...
— Katniss Everdeen March!
Meu corpo reage antes da mente.
Sou o primeiro a ficar de pé.
Aplaudo imediatamente. Forte. Sem a menor dignidade.
Gale ri do meu lado. Rue começa a gritar como uma torcedora enlouquecida. Johanna assovia absurdamente alto. Minha mãe leva a mão ao peito emocionada.
E então Katniss me olha enquanto atravessa o palco.
Os olhos cinzentos encontram os meus. E aquele pequeno sorriso aparece outra vez. O mesmo que destruiu minha vida organizada inteira.
Mais tarde, já do lado de fora do campus, ela praticamente corre na minha direção assim que consegue escapar da multidão. Mal tenho tempo de abrir os braços.
Katniss se joga contra mim imediatamente. O impacto quase me faz perder equilíbrio.
Rio baixo enquanto seguro sua cintura.
— Doutora Everdeen — murmuro contra os cabelos dela. — Isso soa perigosamente sexy.
Ela ri abafado no meu peito.
— Eu sobrevivi.
Seguro o rosto dela entre as mãos.
— Não. — Aproximo minha testa da dela. — Você venceu.
Os olhos dela brilham imediatamente.
E Deus… eu amo essa mulher de um jeito que ainda me assusta um pouco.
Beijo ela devagar ali mesmo. No meio da multidão. Sem me importar com absolutamente ninguém olhando.
Porque anos atrás eu hesitava demais.
Agora não mais.
Mais tarde, enquanto a comemoração acontece num restaurante pequeno em Cambridge, observo minha família do outro lado da mesa.
E ainda acho estranho perceber o quanto tudo mudou.
Minha mãe está rindo.
Rindo de verdade.
Não aquele sorriso elegante que ela usava para sobreviver socialmente. Uma risada real. Leve. Quase jovem.
Katniss conseguiu isso.
Primeiro vieram as caminhadas no Central Park. Depois os cafés. As tardes fora de casa. As conversas longas.
Então, lentamente… minha mãe voltou.
E junto com ela, meu pai também.
Ele ainda viaja. Ainda trabalha demais. Ainda é incapaz de passar mais de quarenta minutos sem sarcasmo. A diferença é que agora ele volta. Fica. Aprendeu a permanecer.
Até levou minha mãe para Paris outra vez. O lugar da lua de mel deles.
Ela chorou vendo a Torre Eiffel iluminada. Meu pai fingiu não perceber.
Porém, eu percebi algo com tudo isso.
Katniss mudou todos nós.
Não entrando de maneira grandiosa. Não tentando salvar ninguém. Ela simplesmente ficou.
E, às vezes, amor é exatamente isso.
Alguém que permanece.
Observo Katniss conversando animadamente com Rue enquanto gesticula absurdamente com as mãos, completamente envolvida numa discussão sobre jurisprudência e muffins.
E sorrio sozinho outra vez.
Ela entrou na minha vida como um acordo temporário. Uma mentira conveniente. Uma estratégia emocional ridícula.
Mas a verdade?
A verdade é que Katniss destruiu todas as versões antigas de mim.
O homem que calculava demais. Que hesitava demais. Que confundia controle com estabilidade. Que achava que amor precisava parecer seguro para funcionar.
Ela me ensinou que amor de verdade não parece seguro.
Parece vivo.
Parece assustador. Intenso. Imprevisível.
Parece alguém invadindo sua cozinha descalça às sete da manhã. Parece discussões sobre clipes organizados por tamanho. Parece beijos no elevador. Parece atravessar quilômetros só para dormir ao lado dela algumas horas antes de voltar pro trabalho.
Parece paz.
Katniss percebe meu olhar sobre ela.
— O quê? — pergunta desconfiada.
Inclino o corpo na cadeira.
— Nada.
Ela estreita os olhos.
— Você está com cara de quem está pensando demais.
Dou um meio sorriso.
— Dessa vez não.
Ela arqueia a sobrancelha.
— Milagre.
Estendo a mão sobre a mesa.
Ela segura automaticamente.
Natural. Instintivo.
Como respirar.
E então percebo uma coisa absurdamente simples:
Durante anos achei que amor fosse algo planejado. Construído. Controlado. No entanto, não foi assim que aconteceu. O amor chegou bagunçando tudo. Invadindo espaços. Mudando rotas. Destruindo certezas.
Exatamente como ela.
E talvez seja por isso que funciona.
Porque, no fim…
O amor que não era pra ser acabou sendo exatamente o único que realmente fazia sentido.
Pov. Katniss Everdeen Mellark
O escritório está silencioso naquela tarde.
Silencioso do jeito que só fica quando a maioria dos advogados já saiu para audiências ou reuniões externas, deixando apenas o som distante de teclados e telefones ocasionais atravessando o corredor.
Estou sentada atrás da mesa da minha sala revisando um processo criminal que apresentarei no tribunal na manhã seguinte.
Meu terceiro caso grande sozinha.
Ainda acho estranho pensar nisso às vezes.
Katniss Everdeen. Advogada formada em Harvard. Sócia associada da Mellark Legal Consulting.
A menina despejada com uma mala antiga teria rido na minha cara.
Passo mais uma página do processo. Marco uma observação. Anoto jurisprudência.
Mas então meus olhos descem involuntariamente para minha mão esquerda.
E param.
A aliança dourada reflete discretamente a luz do escritório.
Logo acima dela… o anel.
A flor.
As pétalas delicadas formadas pelos diamantes rosados brilham suavemente enquanto movo os dedos.
O anel que Cyril Mellark nunca conseguiu entregar.
Ainda me lembro da primeira vez que Peeta me contou que queria usá-lo.
Foi numa madrugada silenciosa no apartamento em Cambridge durante meu segundo ano em Harvard.
Eu estava estudando para uma prova impossível de Processo Penal enquanto ele fingia trabalhar no notebook ao meu lado — fingia porque passou mais tempo me observando do que respondendo e-mails.
Quando percebi, ele já tinha fechado o computador.
— Você está me encarando há quinze minutos — reclamei sem tirar os olhos dos livros.
— Dezessete — corrigiu ele calmamente.
Revirei os olhos.
— Isso é perturbador.
— Talvez eu esteja apaixonado.
Aquilo me fez finalmente olhar pra ele.
E então percebi.
Peeta estava nervoso.
Peeta Mellark. O homem que enfrentava CEOs, juízes e investidores bilionários sem alterar a frequência cardíaca.
Nervoso.
Meu coração começou a bater mais rápido imediatamente.
— O que foi? — perguntei devagar.
Ele ficou em silêncio alguns segundos. Pensando. Como sempre fazia quando queria dizer algo importante da forma certa.
Então veio até mim.
Sentou na ponta da cama.
E segurou minha mão.
— Eu perdi tempo demais na vida esperando momentos perfeitos existirem — disse baixo. — E o problema é que momentos perfeitos não existem. Pessoas vão embora antes.
Meu peito apertou imediatamente porque eu sabia exatamente de quem ele estava falando.
Cyril.
Sempre Cyril.
Peeta respirou fundo antes de continuar.
— Desde o dia em que rasgamos aquele contrato idiota… eu soube que não queria mais perder tempo.
Minha garganta secou completamente.
Então ele abriu a pequena caixa preta.
E eu parei de respirar.
A flor inteira brilhava sob a luz fraca do apartamento.
Delicada. Única. Cheia de significado.
— Esse anel era do Cyril — explicou ele cuidadosamente. — E durante muito tempo achei errado usar algo tão importante pra outra história.
Os olhos azuis encontraram os meus.
— Até perceber que talvez o amor não tenha sido interrompido. Talvez ele só tenha seguido outro caminho.
Senti os olhos queimarem imediatamente.
— Peeta…
— Katniss, eu quero começar do zero com você. Não como contrato. Não como acordo. Não como acaso.
A mão dele apertou a minha devagar.
— Quero casar com você porque você é a primeira coisa real que já aconteceu comigo.
Eu estava chorando antes mesmo de perceber.
E honestamente? Nem lembro se ele chegou a terminar oficialmente o pedido.
Porque beijei ele no meio da frase.
A batida leve na porta me puxa de volta ao presente.
— Entra — digo automaticamente.
Peeta aparece segundos depois carregando um copo de café e um saco pequeno da cafeteria da esquina.
Meu coração ainda reage igual. Ridiculamente igual.
Três anos depois e ainda reage.
Ele afrouxa a gravata enquanto entra na sala e para diante da minha mesa.
— Sua expressão está começando a assustar os estagiários no corredor — comenta.
Aceito o café imediatamente.
— Isso se chama concentração jurídica.
— Isso se chama ameaça velada.
Coloco o processo de lado enquanto ele deixa o muffin ao lado do notebook.
Meu favorito.
Blueberry.
Claro que é.
Olho pra ele incrédula.
— Você realmente não está ajudando em nada na minha dieta.
Peeta apoia as mãos na mesa e inclina o corpo na minha direção.
Os olhos azuis passeiam lentamente pelo meu rosto antes dele responder:
— Dieta? Pra quê? Você está perfeita exatamente do jeito que está.
Meu rosto aquece na mesma hora.
O pior? Depois desses anos, ele sabe exatamente o efeito que ainda causa em mim.
— Convencido — murmuro.
— Casado com você. Existe diferença.
Rio baixo enquanto ele beija minha testa distraidamente.
Natural. Fácil.
Casa.
E talvez essa seja a palavra mais importante de todas.
Porque durante muito tempo achei que minha vida seria apenas sobrevivência. Contas atrasadas. Silêncio. Solidão. Luta constante.
Mas então Peeta apareceu com sua proposta absurda e emocionalmente irresponsável… e, sem perceber, me deu muito mais do que amor.
Ele me deu pertencimento.
Effie começou a me ligar apenas para perguntar se eu estava comendo direito. Haymitch passou a me chamar de “filha problemática favorita” em jantares de domingo. As caminhadas no Central Park viraram tradição. Os almoços em família deixaram de parecer eventos formais e começaram a parecer exatamente o que eram:
Família.
Minha família.
Olho outra vez para minha aliança. Para a flor delicada no meu dedo. Para tudo que aquele símbolo carrega agora.
E então percebo algo simples. Profundo. Quase assustador.
Pela primeira vez na vida…
Eu nunca mais me senti sozinha no mundo.
FIM
Fale com o autor