Tudo correu bem, no final. Depois do treino do clube, Alfred passou na casa de Kiku para devolver a pasta que ele esquecera e prometeu no final de semana ajudá-lo com o esporte. Sinceramente? Não estava animado, mas concordou em se encontrarem no domingo em um parque. Como Kiku não tinha o necessário para jogar, o americano levou o taco, as luvas e a bola, chegando alguns minutos depois no nipônico na praça escolhida.

- Kiiiiku! Desculpe o atraso!

Rindo, parou embaixo da árvore em que o japonês estava, piscando os olhos duas vezes. Jeans e blusa com mangas curtas, era só uma vestimenta mais casual que uniforme escolar, só que não deixava de ser estranho ver o amigo assim. Mesmo casualmente, ele ainda parecia formal... Kiku era realmente estranho, na opinião de Alfred, que no dia-a-dia usava jeans e camisetas – e até na escola dispensava toda aquela arrumação.

- Não demorou muito. Acabei de chegar, na verdade.

Sempre chegava cinco minutos atrasado, afinal.

- Yahoo! Vamos treinar! – Retirou a luva de dentro do taco, mostrando a ambos. – O que quer começar a treinar? Arremesso ou rebatimento?

O moreno pensou um pouco, não precisando de muito para decidir. Depois de ser acertado no primeiro dia por uma bola, era óbvio o que queria aprender primeiro – a se defender.

- Rebatimento.

- Ok! Vamos lá! – Alfred pegou a luva e a bola após empurrar ao outro o taco, indo para uma área mais aberta. – Prepare-se! Vou arremessar!

Avisou, esperando que Kiku tomasse a posição sobre a grama. Ao longe, muitas crianças corriam e brincavam. Tinham escolhido uma área mais afastada para não atrapalharem ninguém.

- V-vá com calma, por favor! – Lembrou-se de pedir, já que sabia da empolgação do americano após ir mais alguns dias no clube.

- Ok!

O americano se preparou, mas tomou cuidado para jogar devagar. Não adiantou, pois, mesmo com a (ligeira) moderação, não acertou a bola. Ao menos não foi atingido.

- De novo!

E após pegar a bola, Alfred a atirou repetidas vezes, até que Kiku – que não tinha tanta resistência – largasse o taco no chão e se sentasse, ofegante.

- C-chega...! Não sirvo para isso, Alfred-san.

O loiro se aproximou, rindo.

- Você cansa rápido! E está fazendo errado. Vamos, levante-se, vou ensinar a rebater!

Os olhos castanhos fitaram-no longamente. Se ele já tinha visto aquilo, por que não avisara antes? Suspirou, e aceitou a mão que lhe era estendida, segurando-a e ficando de pé com a ajuda do puxão do estadunidense.

- Segure o taco.

O moreno obedeceu, pegando de volta o instrumento e ficando na posição. Alfred se colocou atrás dele, pousando as mãos suavemente sobre as do menor.

- Tem de aproximá-las mais e separar um pouco mais os pés. E você está movendo só os braços, o corpo tem de acompanhar também a investida.

A voz dele soava perigosamente próxima, fazendo o menor ficar nervoso.

- E relaxe! Levante um pouco mais... – Fez o movimento, ajudando-o. — Isso.

Alfred usava um tom mais baixo para falar, puro reflexo; além de sorrir ao ver o garoto tão tenso só por estar um pouquinho mais perto do que de costume. Era fofo! E, de quebra, sentia o perfume dele. Balançou a cabeça para os lados, afastando os pensamentos e voltando o olhar para o mais baixo.

- Acho que agora consegue. Treine um pouco parado.

O japonês concordou, esperando Alfred se afastar para fazê-lo. Sentia-se meio idiota de ficar repetindo os mesmos movimentos, mas ao menos não era ele quem gritava instruções ou palavras de incentivo. O estadunidense bem que podia falar mais baixo... Bem, era o jeito dele. Ao menos, com a ajuda do loiro, no final do dia já conseguia acertar os rebatimentos.

- Wah, que fome!

- Treinamos bastante, não é? – Olhou para o maior, sorrindo de leve. – Vamos fazer um lanche.

- Concordo plenamente!

Mostrou o polegar erguido para o japonês, tomando a frente para guiá-lo até uma daquelas lanchonetes que serviam fast-food porque não estava nem um pouco a fim de ver aonde Kiku o levaria se dependesse dele. O moreno soltou um muxoxo – que Alfred não ouviu – porém decidiu não reclamar. Depois de toda a ajuda dele, não ia impor sua preferência.

Adentraram o estabelecimento e pegaram os lanches, tomando uma das mesas do local para comerem. Não importava o quanto convivesse com o americano, a rapidez dele para comer era incômoda! A causa disso era que o nipônico comia devagar e definitivamente não gostava de quando ficavam observando-o comer. Apenas de que Alfred nem ligava para isso: ficava falando sobre qualquer coisa enquanto Kiku dignava-se a sorrir vez ou outra, já que não era dado espaço para responder. Não se importava muito.

- Devíamos sair mais vezes, Kiku! Foi divertido!

- Verdade. Depois combinamos algo.

O americano assentiu diversas vezes.

- Sim! Agora vou para casa zerar aquele jogo novo, hahaha! Até amanhã!

Acenando, saiu correndo para casa. Alfred era tão animado que cansava! Todavia, ficava feliz por ter arrumado um amigo como ele; além de sempre ter Arthur falando consigo... Apesar de tudo, agora não se sentia mais tão só.

x

Mesmo com a ajuda do estadunidense – e ele falando que estava melhorando – Kiku não sentia isso. Não conseguia acompanhar os outros, por mais que se esforçasse. Pensava que só estava atrapalhando e quando voltava para o banco de espera, ouviu dois garotos comentando. Era em um tom baixo e disfarçado, todavia, não adiantava. Eles falavam de si.

-... Está nos atrasando.

- Sim, só continua aqui porque é amigo do Alfred. Ele joga bem.

- É horrível depender desse tipo de gente. Já é chato, aguentar amigo ruim é dose.

Kiku ficou desconfortável, deixando o taco junto com os dos outros integrantes. Aproveitando que ninguém prestava atenção em si, saiu andando silenciosamente do gramado um pouco rápido demais. Sua corrida acabou chamando a atenção de Alfred, mas este apenas anotou mentalmente que iria atrás dele, pois era sua vez de arremessar a bola.

x

Alfred estava estranhando, pois já se passara quinze minutos e Kiku não voltara do banheiro – e tinha concluído que o japonês fora ao banheiro por conta própria. Disse aos amigos que já voltava e rumou na direção em que o vira ir. Foi ao banheiro do primeiro andar e nada, biblioteca e nada... Coçou a cabeça. Onde ele estaria?

Arthur estava preocupado. Não poderia simplesmente ir até seu protegido e consolá-lo, especialmente se ele não quisesse falar o que estava acontecendo. Já era uma figura suspeita – e não negaria isso, pois admitia ter feito coisas estranhas – e não seria bom piorar a situação. Todavia, ainda poderia dar um jeito de falar para Alfred! Tinha de aproximá-los mesmo, então saiu da sala dos professores, por sorte já dando de cara com o americano voltando da biblioteca.

- Alfred.

- Oh! Professor – fitou o inglês, mas dessa vez não sorriu, com um olhar preocupado nos orbes azuis. – Viu o Kiku?

O inglês ficou em silêncio por alguns segundos. Nem precisou falar mais nada. Idiotas tinham seu lado bom.

- Ele estava subindo, então acho que...

- Ok! Obrigado!

Sem esperar o britânico falar mais nada – e este achou isso uma grande falta de educação – Alfred saiu correndo para as escadas, subindo-as de dois em dois degraus. Já tinha entendido naquela frase que o japonês estava no telhado, então se apressou para chegar lá. Abriu a porta, ofegante e olhando para os lados, não demorando a localizar o pequeno corpo agachado contra a grade de segurança. Chegou a ensaiar chamar o nome dele, mas parou ao perceber que ele parecia triste, com o rosto afundado nos braços cruzados sobre os joelhos.

Kiku tencionou os músculos quando ouviu a porta se abrindo e só. Não se atreveu a mover-se do lugar, nem para olhar quem era. Com sorte, simplesmente o ignorariam e iriam embora logo.

Não foi isso que aconteceu.

Percebendo o estado do menor, o loiro se aproximou, sentando-se ao lado dele. Passou um dos braços em torno dos ombros do outro, recebendo um olhar de esguelha. Kiku ficou surpreso e, logo após, se escondeu, não querendo que Alfred o visse daquele jeito.

- Hey... – Alfred tentou falar com um tom macio. – Se aconteceu algo, pode me contar, sabe? Não precisa ficar triste... – Ouviu um soluço, exaltando-se e ficando desesperado. – Oh, pode ficar, sim, sim! Mas também pode me falar o que houve, eu vou tentar te ajudar...!

O menor assentiu, entretanto não parecia que ia parar de chorar tão cedo. Engolindo a seco, sem saber o que fazer, o americano o envolveu, abraçando-o e deixando que ele afundasse o rosto em seu peito, por mais que lhe cortasse o coração sentir as lágrimas molhando sua camisa. Abraçou-o forte – mas moderando para não acabar quebrando o nipônico, já que se achava bem capaz disso – e aconchegou-o, sentindo as mãos trêmulas segurando na barra da sua roupa. Sentiu vontade de protegê-lo.

- Desculpe-me... – pediu o menor após se acalmar, passado vários minutos, enxugando as lágrimas com as mãos. – Estava um pouco nervoso...

Tentou sorrir, fraco. Alfred se inclinava, tentando visualizar a face do menor escondida por entre os fios negros, sem sucesso. Terminou por colocar uma das mãos no topo da cabeça dele, pensativo.

- Kiku, eu... Eu reparei que não se sentiu muito à vontade no clube – sorriu, afagando os cabelos dele. Durante todo aquele tempo tinha pensado também, oras. E achou que era esse o motivo dele estar assim. – Pode sair, se quiser. Não viu me chatear, viu?

Agora sim o oriental queria se afundar no chão, tamanha era a vergonha que sentira. Assentiu, murmurando algo como “ok, vou sair” e assim o americano ficou satisfeito, ficando de pé em um pulo, estendendo a mão para ajudar o moreno.

- Vamos para casa?

Aceitou a ajuda, conseguindo esboçar um sorriso. Fraco, mas sincero.

x

Oito e meia da manhã de um dia de folga. Kiku sempre aproveitava esses dias para ficar jogando de noite e dormir até mais tarde no dia seguinte. Dessa vez, não foi assim que ocorreu. Arthur, com a brilhante de ideia de fazer seu protegido ver os jogos de Alfred – já que entrar para o clube não foi uma sugestão muito feliz da sua parte — e então se aproximarem mais assim, o britânico bateu na porta da casa dos Honda nesse horário.

- Muito prazer, senhora Honda! Sou Arthur, o professor de Inglês do seu filho. Preciso falar com ele...

- Ah... – A mulher estranhou um pouco aquela visita repentina, mas sorriu quando ouviu que era o professor do mais novo, deixando-o entrar. – Só um momento, sim? Vou chamá-lo.

Deixando o loiro sozinho com um copo de chá na sala, subiu as escadas e bateu na porta do quarto do filho. Sem resposta, abriu-a, cutucando-o na cama.

- Acorde, meu filho. Seu professor está aqui.

- Ahhhn...

Cobriu-se até a cabeça, fazendo a mulher suspirar e balançar-lhe mais forte.

- Estou te esperando em quinze minutos lá embaixo, Kiku Honda.

Quando era chamado pelo nome completo, podia saber que ela estava falando sério. Sonolento, trocou de roupa e foi até o banheiro cumprir o ritual diário, descendo no exato tempo em que sua mãe falara. Piscou os olhos com surpresa, só então atentando que sua responsável realmente dissera “professor” e o cumprimentou.

- Ah... Não quer comer, sensei?

- Não, não. Já comi, obrigado. Vim aqui te chamar para o jogo!

- Jogo...?

Franziu o cenho, pensativo. Sua mente não trabalhava muito bem antes de se alimentar, então ficou quieto enquanto comia e aguardava o maior falar.

- É... O jogo em que Alfred vai jogar! Se esqueceu?

- Ahh...

Não disse mais nada, sabia que teria de ir. Quando terminou, juntou a louça e levou até a cozinha, aproveitando para já avisar que iria sair. Sem reclamações, foi junto ao mais velho até o campo em que aconteceriam as disputas.

- Não nos atrasamos muito. Vamos nos sentar!

Pegaram um lugar bem na frente. Tanto Kiku quanto Arthur não estavam achando graça nenhuma no que viam, apesar do nipônico torcer discretamente para o amigo que jogava. Acima do tédio, todo dia em que o clube do colégio jogava, o anjo ia buscar seu protegido e levar até o local. Os pais do oriental não reclamavam, porque gostavam de vê-lo sair de casa, sinal de que tinha amigos mesmo que... um fosse professor e outro um viciado em baseball. Quando os via, Alfred acenava (para Kiku) e até parecia ficar mais animado – se possível. Só no jogo final que o clima ficou tenso, os melhores times jogando contra si. Era final da tarde e a partida estava equilibrada. Foi Alfred Jones, quem tanto se gabava de ser um herói, que realmente “salvou” o time: com um home run, ganharam a final.

O estadunidense até tentou ir falar com o japonês – e este esperava por isso, ficando em pé à espera dele enquanto todos os espectadores iam embora – mas foi levantado com alguma dificuldade pelos colegas de time que iriam a um karaokê comemorar. Kiku abaixou a cabeça, tristonho; o que não passou despercebido por Arthur, que acompanhara todo dia o menor aos jogos e vira que ele sempre se controlava para não ir ao encontro do americano para não atrapalhar a interação do time.

Sim, sabia tudo isso sem que o moreno tivesse de falar uma palavra que fosse. Tinha uma facilidade em ler os sentimentos dele pela ligação que tinham, mesmo que o próprio Kiku não soubesse disso. Tentando sorrir e parecer animado, pousou uma das mãos nos ombros do menor.

- Vamos fazer algo também. Quer sair, Kiku? Podemos comer algo – pensou que poderia levá-lo a um lugar que o menor gostasse e, assim, o animasse um pouco. — Você escolhe.

- Tudo bem, por mim.

Estava sem ânimo até para retrucar. Arthur tentou soltar uma risada, a qual saiu forçada, então desistiu. Percebendo que ele não falaria nada, iria levá-lo por conta própria a um lugar que pudessem comer sukiyaki. Colocou-se atrás do nipônico e empurrou-o para aonde seu carro estava estacionado.

Eles não sabiam, mas Alfred tinha ficado os encarando e não gostou nem um pouco daquilo.

Notas finais
Agora a fic não demora muito a acabar. Ela é meio curtinha, se comparar com tipo... Insanidade [?]
Agradeço a quem está lendo! Não desanimem, sim? ♥
E obrigada pelos reviews, espero que continuem gostando e mandando, haha!
Beijos~