O Amigo Do Meu Pai
50 Sempre na hora errada, Carter
Notas iniciais
Senti uma brisa gélida beijar-me a pele assim que adentrei a varanda. O sol já se fora há algum tempo e as luzes do salão e de tochas em pontos estratégicos eram tudo iluminava a escuridão. A beira da praia, várias casas tinham suas luzes acessas, além de uma fogueira queimar intensamente a alguns metros de distancia; aparentemente rolava uma festa ali. Chris se postou ao meu lado, apoiando-se ao parapeito igual a mim. Por mais que o ar gélido tivesse sido bem-vinda no começo, o frio começava a incomodar-me. Notando que tremia ligeiramente, Chris tirou o blazer e botou sobre meus ombros. Olhei-o agradecida, sorrindo sem mostrar os dentes.
–Então – Olhei nervosamente para meus pés, subindo o olhar hesitante a ele – O que você queria comigo?
–Você está usando os brincos que te dei – Ele observou, abrindo um sorriso fraco. Elevei meus dedos a minhas orelhas, passando-os pela joia involuntariamente.
–Sam insistiu – Murmurei desviando os olhos a água calma. Sua risada soou fraca a meus ouvidos e olhei-o de lado.
–Sam tem tanto poder assim de persuasão sobre você? – Um sorriso frouxo brincava em seus lábios. Contrai a boca, formando uma linha rija e pálida. Meus olhos voltaram-se novamente ao movimento suave das ondas.
–Nunca parei para pensar dessa maneira.
–Deveria...
–Quando eu estiver com tempo e tédio o suficiente... – Dei de ombros.
Chris voltou a soltar uma risada baixa. Ficamos então os dois observando o mar e suas ondas calmas. A festa ao redor da fogueira parecia mais cheia agora, com mais jovens alegres bebendo e dançando ao som de uma música eletrônica que soava baixa de onde me encontrava. Lembrei-me das diversas vezes que desejei ir a festas assim e dos diversos “não” que minha mãe me disse. Recordei-me também, no entanto, das vezes que minha mãe, anos após, insistiu para que eu fosse nessas festas e eu recusei-me a sair de seu lado no leito hospitalar. Suspirei, passando o dedo no parapeito; doía-me lembrar-me de minha mãe.
–Chris, eu realmente não tenho a noite toda – Virei o pescoço, encarando-o. Sua cabeça fez um rápido e quase imperceptível movimento de concordância com a cabeça. Um longo e lento suspiro soou e seu rosto foi oculto pelas mãos.
–Eu queria conversar com você e... pedir desculpas – Sua voz saiu baixa e abafada entre os dedos.
–Estou toda a ouvidos – Disse num tom claro e sereno.
O silêncio pairou por segundos penduráveis. Ele respirava pesadamente, a mão ainda encobrindo o rosto, e eu esperava pacientemente por sua manifestação.
–Eu pensei bastante desde o que você me disse no restaurante — Ele voltou a falar, abaixando as mãos e olhando distante para as águas – E percebi que não podia te culpar por como agiu. Não só por você não estar errada, mas também por ter feito exatamente o que sua mãe esperaria da filha dela. Ou até o que eu esperaria de um filho meu.
Levantei as sobrancelhas, num gesto silencioso de surpresa. Sua aparência parecia mais cansada e velha. Talvez fosse a pouca iluminação, mas suas olheiras pareciam mais profundas e maiores, os cabelos mais desgrenhados e compridos e a barba por fazer só aumentava o aspecto de desleixo.
–Sua mãe sempre dizia que ninguém deveria baixar a cabeça a outro se este outro lhe causava mal, independente de ser mais velho ou uma figura supostamente importante. Como um pai – Chris prosseguiu, com os olhos ainda perdidos no horizonte enquanto a cabeça viajava para longe – E eu sempre fui do tipo rebelde. Sempre desafiando a tudo e a todos, sem me importar com o que pensavam. Vai ver por isso decidi entrar numa banda. Queria ser tipo cara como Mick Jagger.
Um riso baixo escapou involuntariamente de meus lábios e vi os seus puxarem-se de forma discreta para cima, num sorriso torto e tímido.
–Isso é um elogio?
–Acho que sim – Confirmou, o sorriso ainda pairando – Você é mais parecida com sua mãe e comigo do que imagina, Anastácia.
Concordei com a cabeça e voltei a encarar a paisagem. Assenti minimamente, pousando o olhar na praia abaixo. A festa ao longe pareceu esquentar, com um berro animado de uma multidão ecoando até nós.
–Naquele dia no restaurante – Chris voltou a quebrar o silêncio e me voltei a ele mais uma vez – Eu não estava esperando que você me dissesse tudo que disse. Achei que você fosse chorar e me aceitar como pai de novo...
–Porque era o previsível e tudo mundo espera o previsível de mim – Ri sarcástica.
–Pensam erroneamente. Você sempre faz algo que ninguém espera. Você já provou isso para nós, Anne. E mesmo assim, nos esquecemos do que você é capaz.
–E no fim, eu sempre me ferro – Murmurei amargurada.
–Você se arrependeu de tudo que falou para mim... depois?
–Não – Admiti sincera e um pouco abrupta; pareceu até um pouco grosseiro – Mas ainda assim eu não tenho o quero.
–O que você quer Anastácia?
Sentia seu olhar pesado sobre mim. Era paciente e ansioso ao mesmo tempo; triste e esperançoso. Era um olhar pesado demais para eu suportar. Fechei os olhos, tentando me concentrar no som das ondas quebrando na praia por baixo da gritaria do casamento e da festa na praia. E, claro, da gritaria de minha mente.
–Eu quero uma família – Ouvi minha voz sair baixa e distante de meus próprios lábios – Um lar. Alguém que me ligue preocupado quando eu sair; que me chame para os Natais em sua casa mesmo que eu tenha outros mil convites; que me censure ou alerte quando estiver errada; que brigue comigo porque não fui visita-lo de fim de semana... Coisas assim – Suspirei, encolhendo os ombros e abrindo os olhos para a escuridão da noite.
–Mas você tem isso – Chris argumentou sereno e espantado.
Virei-me para ele. Seus olhos fixavam-me de maneira afetuosa: transmitindo amor e sabedoria. Da mesma maneira que minha mãe costumava olhar-me quando eu dizia algo que não tinha sentido, mas mesmo assim ela compreendia.
–Tenho? – Ecoei, sem esconder a dúvida em minha voz.
–Claro que sim! – Ele afirmou abrindo um sorriso – Por exemplo, tenho certeza de que Sam vária todas essas coisas por você. Te ligaria preocupado sempre que você saísse para uma de suas maluquices; te chamaria sem hesitação para Natais junto com ele, mesmo que você pudesse ter outras tantas festas mais interessantes; te censuraria sempre que achasse que você passou do ponto; te ligaria furioso se você passasse um dia sem ao menos falar com ele... Ele faria todas essas coisas e mais por você. Qualquer amigo ou mais que isso, faria.
–"Mais que isso"? – Repeti arqueando as sobrancelhas – O que você quer dizer?
–Não sei – Seus ombros se encolheram e um sorriso de lado se formou – Vocês passam muito tempo juntos, dormiram no mesmo chalé, se olham de um jeito estranho...
–Eu e Sam somos só amigos – Ri balançando a cabeça.
–Amigos? – Ele levantou uma sobrancelha, sorrindo de forma maliciosa. Meu próprio pai!
–Somente bons amigos...
–Bom pra ele – Murmurou, fazendo-me rir pelo nariz. O silêncio voltou a se instaurar, mas de forma agradável. Ambos olhávamos as ondas suaves.
–Eu queria pedir desculpas, Anne – Chris disse em voz baixa.
–Por...?
–Tudo – Seus olhos estreitaram-se. Ao luar, pareciam mais escuros – Por não estar lá com sua mãe quando ela te teve, por não te ver dar os primeiros passos, por não te ajudar com o dever de casa, por não olhar feio para o seu primeiro namorado, por não te aplaudir de pé no dia da sua formatura, por não te consolar quando Lucy se foi... – Ele fez uma pausa, a voz ligeiramente emaranhada — Por, principalmente, te tratar da maneira que te tratei.
Senti minha garganta seca e engoli o resto de saliva que possuía para melhorar: não ajudou. Meu coração parecia apertado em meu peito, mas não de uma maneira ruim.
–Eu te perdoo... – Murmurei e Chris virou-se para mim, me olhando com uma expressão ilegível – Pai.
Chris sorriu de lado, parecendo afetado, e me abraçou. Agarrei-o de volta, como sempre quis. Senti-me mais plena do que da primeira vez que nos abraçamos como pai e filha. Dessa vez, ambos sentíamos que nos conhecíamos mais e amávamos de fato. Não só uma ligação estúpida de sangue nos conectava. Afinal, sangue não significa amor.
Ouvimos um pigarreio atrás de nós e nos soltamos. Em frente à porta semiaberta do salão encontrava-se Sam, esboçando um sorriso com as mãos nos bolsos.
–Desculpe atrapalhar, mas os noivos chegaram...
–Sempre na hora errada, Carter – Sorri fungando.
Ele riu, assentindo com a cabeça. Levei minhas mãos ao meu rosto e percebi que chorava. Abaixei meus dedos molhados e sorri. Olhei a meu pai e sorri, recendo um sorriso de volta. Sua mão foi ao bolso externo do blazer, que ainda se encontrava em meus ombros, e estendeu-me um lencinho. Enxuguei meu rosto, agradecendo por meu rímel ser a prova d'água.
–Vamos? – Virei-me a meu pai, guardando o lenço de volta no lugar.
Ele assentiu e encaixei meu braço no seu, surpreendendo-o. Sorri e ele relaxou. Voltei-me a Sam, que nos olhava ainda com um sorriso contente. Estendi meu braço livre e ele riu pelo nariz, enroscando-nos. Deitei minha cabeça no ombro de meu pai e, lentamente, andei com os dois de volta a mesa, sorrindo de orelha a orelha pela primeira vez em muito tempo.
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