O Amigo Do Meu Pai
39 Segurança em meio ao caos
Notas iniciais
Acordei deitada sozinha na cama. Olhei em volta e não achei Sam. A porta do quarto estava fechada. O céu ainda estava em tons escurecidos, mas era mais intenso do que de quando eu desembarcara aqui. Deveria ser madrugada. Eu senti meus pés frios e meu rosto um tanto quando "grudento". Como geralmente fica quando a maquiagem escorre e seca. Não havia espelhos ali, mas apostava que minha aparência não era das melhores.
Levantei-me da cama e olhei pela janela. Havia uma neblina fina encobrindo a cidade de Boston, que agora estava mais silenciosa e escura. Eu suspirei e puxei meu sobretudo para mais junto de mim. Eu fui à porta e notei meus sapatos ao lado dela, postos com cuidado. Eu abri a porta do quarto lentamente e encontrei Sam e a garota que vira mais cedo, acho que seu nome era Carol, sentados lado a lado no sofá. Sam tinha a cabeça baixa e as mãos no cabelo, além de estar meio curvados para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Já sua amiga estava olhando-o preocupada, com uma mão em suas costas, alisando-as. A porta fez barulho ao ser aberta e meus pequenos passos também. Isso me denunciou, avisando-os que eu despertara. Sam levantou a cabeça e encarou-me com preocupação e a mulher a seu lado também, porém mais leve.
–Como você está? – Perguntou ele se endireitando no sofá e quebrando o silencio constrangedor e mortal.
Eu balancei a cabeça de um lado ao outro, dando de ombros e comprimindo fortemente os lábios. Fazia tanta força que minha boca chegou a esbranquiçar. Sam se levantou e se dirigiu até mim. Ele voltou a me abraçar e eu voltei a aperta-lo como se ele fosse a segurança em meio ao caos. Não voltei a chorar, mas por muito pouco. Sam me soltou e deu-me um sorriso triste, que foi retribuído da mesma forma.
–Quer se sentar? – Ele apontou ao sofá, coçando a nuca.
Afirmei com a cabeça e dirigi-me ao sofá, com ele acompanhando-me as minhas costas. Sentei-me ao lado da loira, enquanto Sam permaneceu de pé.
–Anne, esta é Carol. Carol, esta é Anne – Sam nos apresentou.
–Prazer – Ela disse sorrindo de leve com simpatia.
Tentei sorrir também, querendo mostrar simpatia, mas deve ter saído mais como uma careta.
–Me desculpe por mais cedo. Achei que você e Sam... – Tentei me desculpar com a voz rouca a ela.
–Eu entendo. Não precisa se desculpar: foi um grande mal entendido – Ela disse delicadamente.
Concordei com a cabeça. Carol parecia simpática. Senti-me mal por ter imaginado coisas ruins dela. Voltei-me para Sam e a culpa só aumentou. Eu o tratara tão mal. Dissera e imaginara coisas tão ruins dele, tratara-o com frieza e agressividade. E como ele reage? Amparando-me e levando-me para seu quarto de hotel quando eu desabo. Cuidando de mim, para resumir.
–Sam... – Comecei dizendo, abaixando a cabeça e sem ideia de como continuar a frase.
–Não precisa dizer nada Anne – Cortou-me ele, olhando-me de pé com os braços cruzados – Eu te entendo. Só te peço que da próxima vez tente não julgar precipitadamente as coisas e pare para entender e ouvir as pessoas e a situação – Pediu ele cansado.
Concordei com a cabeça. Uma parte de mim pesou menos. Nem saberia como agir e o que falar se Sam não tivesse se adiantado e adivinhado o que viria a dizer.
–Anne, o que Chris fez? – Perguntou Sam logo depois, acabando com o alivio que acabar de se instalar em mim.
Engoli em seco. Queria e não queria contar. Queria desabafar e lhe contar o que ocorrera, mas também não queria reviver a cena em minha cabeça e proclamar em voz alta o que Chris dissera. Principalmente a parte em que ele falava sobre Sam.
–Anne, confie em mim – Ele insistiu – Diga o que Chris falou para vocês. Me conta como foi. Você se encontrou com ele?
Contrai mais meus lábios, pensando e me concentrando em um modo de contar sem cair em prantos. Antes de achar esse modo, Carol se levantou e se postou em nossas frentes.
–Bem, apesar de ser madrugada, vou ver se o serviço desse hotel é realmente bom: vou buscar um café. Alguém quer? – Ela perguntou sorrindo simpática.
–Eu quero um sim, obrigado –Sam logo aceitou – E Anne vai querer um chá – Acrescentou sem nem me consultar.
–Tudo bem – Ela assentiu aos pedidos – Volto num estante... – Ela deu um último sorriso antes de ir à porta e abri-la, saindo.
Assim que ela fechou a porta com delicadeza, Sam se voltou para mim novamente.
–Então? O que Chris lhe fez? – Ele perguntou direto, com os braços cruzados ainda.
Eu respirei fundo e "desembuchei":
–Eu estava em Nova York quando Michael me ligou e disse que o exame ficara pronto. Nós conversamos um pouco e depois que desligamos resolvi vir vê-lo. Para contra pessoalmente... Mas assim que cheguei aqui dei de cara com Carol, e como sempre, entendi tudo errado. Saí correndo, com raiva, e quando chego ao saguão esbarro, literalmente, em Chris. Ele... Ele...
Vacilei no meu de minha narração. Sam olhou-me nos olhos. Aqueles olhos verdes me hipnotizavam e encorajando a seguir com minha história. Engoli em seco e continuei com a cabeça baixa, olhando a minhas mãos:
–Ele não gostou de me ver e começou a dizer um monte de coisas a mim quando pedi para que nós conversássemos. Ele me disse coisas horríveis, que me fizeram me sentir pior ainda do que já estava... Assim que ele saiu, eu comecei a chorar. E, bem, o resto você já sabe...
Arrisquei-me a levantar a cabeça e vi Sam concordar com a cabeça ao fim de meu relato, olhando para a janela. Suspirei, achando que a reação de Sam seria diferente. Decida a não ficar naquele silêncio, que eu atribuía a culpa a mim mesmo, decidi me desculpar com Sam pela minha atitude.
–Sam, me desculpe... Eu fui uma idiota e você estava querendo me ajudar. Mas eu entendi a história com a Carol errada, como sempre, e... Eu...
Sam soltou uma risada baixa e me interrompi, levantando os olhos e olhando-o incrédula. Ele rira de mim? Eu poderia esperar tudo dele, menos isso. Já estava começando a me magoar, quando levantei e Sam me segurou pelos braços. Olhei-o magoada e ele sorriu a mim.
–Você não precisa se desculpar, Anne – Ele sorriu – Mas admito que foi bom ouvir você admitir que sempre entende tudo errado...
–Você estava rindo de mim e eu fiquei chateada, imaginado ser pra valer... – Admiti envergonhada por ter levado a sério.
–Esse é o seu problema – Ele pontuou – Você sempre entende tudo da sua maneira e não procura concertar isso.
Abaixei a cabeça e encolhi os ombros, com ele soltando mais uma risada baixa. Ele soltou meu braço e pegou em meu queixo, levantando-o.
–Mas sabe que isso é bem típico de Chris também? Essa personalidade de cão... – Ele comentou com um sorriso brincado nos lábios.
–Está me xingando? – Levantei a sobrancelha, conseguindo dar um sorrisinho também.
–Não, mas se você pudesse mudar esse seu jeito, agradeceria... – Ele deu de ombros.
–Impossível.
–Bom, então se você pudesse parar de insinuar que eu vivo contratando prostitutas para me chupar, já melhoraria – Ele me olhou sorrindo.
Ri, abaixando a minha cabeça de vergonha. Sam voltou a levanta-la pelo queixo e encarei-o constrangida.
–Vou tentar – Murmurei.
–Obrigado – Ele sorriu.
Soltei mais algumas risadas baixas, e ele também, antes dessa irem morrendo e no lugar delas, o silêncio predominasse. Acabamos cr4uzando nosso olhares, que se fixaram um no outro como imã. Sam tinha os olhos mais hipnotizantes que eu já vira, o que poderia eu fazer! Era como olhar o mar cristalino, verde, de tão pura que a água era. Eu me perdia fácil em seu olhar, mas isso eu já falei um milhão de vezes.
Sam puxou lentamente meu rosto para junto do seu, através de seu dedo em meu queixo. Eu podia sentir sua respiração cada vez mais próxima da minha. Minha mente já criava mil e uma ideias do que aconteceria em seguida, todas imaginando que envolveria um beijo ao fim. E isso, estranhamente, me agradava. Porém, eu sou Anastácia Cooper, quando é que a sorte vira a meu favor?
A porta do apart foi aberta e Carol, junto de um garçom empurrando um carrinho, adentrou o cômodo. Sam soltou meu queixo rápido e em segundos estávamos separados um do outro, com uma distancia apropriada. Porém, tive a impressão de que nossos esforços não foram suficientes para que Carol deixasse de notar algo que interrompeu.
–Bem, o serviço de quarto daqui é realmente muito bom – Ela concluiu brincando, fazendo-nos sorrir e acabar com a tensão do cômodo.
O garçom deixou a mesa num canto que Carol indicou e ele se foi. Eu tinha meus braços atrás de meu corpo, que balançava para frente e para trás, enquanto mordia meu lábio inferior de nervosa. Sam não olhava a mim, como eu não o olhava, e coçava sua nuca de cabeça baixa. Carol se virou para a mesa e começou a servir o chá nas xicaras.
–Eu pedi que preparassem de camomila, tudo bem? – Ela questionou enquanto botava um pequeno biscoito de leite em todos os pires de xicara.
–Tudo – Eu e Sam concordamos juntos.
Nós nos entreolharmos após o episódio e sorrimos sem graça um ao outro. Novamente, acho que Carol notou pelo canto dos olhos.
Ela serviu Sam e a mim, que agradecemos. Eu beberiquei um pouco e achei bom até, considerando o fato de odiar chá. Sempre tendi mais ao café. Ao contrario de mim, porém, Sam pareceu não gostar da bebida.
–Aí Deus! Esqueci que você não gosta de chá! – Carol lembrou-se tarde, batendo na própria testa e olhando-o.
–Não faz mal... – Sam comentou gentil, botando a xicara no móvel, uma espécie de raque, abaixo da janela.
–Não sabia que você não gostava de chá – Comentei bebericando um gole de minha xicara.
–Não gosto. Prefiro café a essa água cheia de erva com cheiro de aromatizante – Ele olhou torto para sua xicara, fazendo Carol e a eu rirmos.
–No Brasil, o café é mais popular do que o chá – Comentei.
–Anne, quando mesmo você disse que ia me convidar para passar uns tempos lá? – Ele se voltou a mim, fazendo-me gargalhar baixo.
Notei que Carol, calada, nos observava bastante. Voltei a beber meu chá, corando a este fato, e Carol botou seus olhos em mim, para observar-me atenta.
–Que anel lindo, Anne...! – Ela comentou gentil.
–Ahh... Obrigada! – Agradeci sem jeito, botando minha xicara num móvel ao meu lado e admirando o anel.
–Sam, não é parecidíssimo com o anel de sua avó? – Perguntou Carol sorrindo sugestiva a ele.
–Na verdade, é o anel de minha avó... – Sam respondeu coçando a nuca.
Tenho certeza que vi Carol lançar um sorrisinho a Sam.
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