O Amigo Do Meu Pai
41 O plano - parte 1
Notas iniciais
O show decorreu bem. A banda arrasou como sempre. Eu e Michael ficamos na área VIP. Eu não queria ficar na coxia e correr o risco de esbarrar em Chris, e dessa maneira, iniciar uma discussão. Pois ultimamente, sempre que nos vimos, é isso que acontece. Michael pareceu também curtir o show. Afirmo que passar um show ao lado de Michael é uma experiência engraçada, afina, ele e a "língua santa" dele são uma coisa! Mas apesar de ter-me divertido a valer, quando a banda se preparava para tocar a última música, eu voltei a me preocupar. Dali a uns instantes o plano seria posto em prática e eu estava ansiosíssima. Aquilo sim iria definir que rumo a minha história com Chris iria tomar. Tentei relaxar e curtir a última música. Deu um pouco certo, ainda mais com Michael palhaço ao lado tentando cantar e imitar o irmão. Digo que ele poderia ser um excelente médico, mas era um péssimo cantor! Definitivamente. Depois de rir bastante da imitação péssima, a banda encerrou o show. A ansiedade, portanto, voltou com tudo.
Olhei para Michael e ele murmurou "chegou a hora". Concordei com a cabeça e ele saiu para ir procurar as fãs da entrada. Elas eram uma parte importante do plano. Eu, em contra partida, fui para os bastidores. Conhecia bastante gente que trabalhava "por trás das cortinas" e eles me cumprimentavam ao passar. Apesar de que algumas pessoas nos bastidores, notei, assistiram a aquela repórter horrível e pareceram acreditar. Eu rumei para o camarim de Sam, ignorando esses olhares ruins sobre mim, e entrei batendo na porta para prevenir. Ele gritou "entra" e eu acatei. Abri a porta e deparei-me com ele de cabelos molhados e camisa grudada ao corpo devido ao suor. Tudo isso, porém, não o deixava menos sexy, ainda mais porque o cheiro de colônia masculina recém-aplicada estava no ar, rodeando-o.
–Nervosa? – Ele perguntou sorrindo a mim, enquanto fechava a porta as minhas costas.
Eu estendi minhas mãos à frente de meu corpo, lhe dando a resposta: minhas mãos estavam tremendo. Ele sorriu de lado, compreensivo, e veio até mim. Ele me abraçou e beijou o topo de minha cabeça, gentilmente, como um pai faria a sua filha. A camiseta suada dele grudava a minha, molhando-a levemente. Não me importava, por mais que soubesse que o tecido de minha blusa marcaria meu sutiã e isso não seria nada legal: só continuava a abraça-lo, com a cabeça deitada em seu peito. Inalava de olhos fechados o perfume de sua colônia, tão tipicamente masculina, sexy e... Familiar. Em meu cérebro, aquele cheiro já era automaticamente associado à paz, calma, acolhimento e amor, ou seja, a tudo que Sam me transmitia e sentia com ou para com ele.
–Tudo vai dar certo, não sei por que você duvida... – Ele sussurrou em meu ouvido, afagando meu cabelo e soltando-me sem pressa.
Confesso que não queria que ele desgrudasse-se de mim, porém acho que agarrar sua camiseta e puxa-lo de volta a mim não seria uma atitude muito comum.
–Porque Chris é um turrão – Expliquei-o com a voz elevando uma oitava sem intenção.
–Agora já sei de onde você puxou... – Ele murmurou, fazendo-me dar um tapa leve em seu braço.
–Agora eu vou ter que executar o plano toda cheia de suor! – Brinquei, olhando com nojo para meu corpo e para Sam.
Como preverá, minha camiseta estava grudada ao meu corpo, marcada principalmente nos seus. Meu sutiã, por sorte, não era de renda, por tanto marcava somente os contornos e o bojo liso. Caso contrário fosse de renda, até os detalhes dela seriam marcados, tornando-me mais ruborizada do que já estava, sentindo os olhos de Sam queimarem de uma forma discreta em minha blusa.
–Cheia do melhor suor – Ele corrigiu, olhando ainda a minha blusa.
Levantei os olhos a ele, e notei que ele desviou o olhar rapidamente a meu rosto. Pelo menos não era como Michael, que tinha a certeza que continuaria encarando e me deixaria mais constrangida do que me encontraria.
–Coitado – Murmurei.
–Diz isso depois de ficar me fungando... – Ele murmurou no que parecia uma voz irritadiça.
–Você quer dizer depois de ficar fungando sua colônia, certo? – corrigi-o de cenho franzido.
Ele mostrou a língua e soltei um riso fraco. Sam saiu para o banheiro e aproveitei para aproximar-me da mesinha de centro, pegando o envelope pardo. Sentei-me no sofá com o envelope no coo e abri-o, examinando com cuidado o seu conteúdo. Poderia saber de cor o que encontraria ali dentro, mas decidi dar uma última conferida. Olhei atenta às fotos, as cópias de exames, anotações e tudo mais que pedi para que Lana procurasse e digitalizasse para mim e que, digitalizadas e bonitinhas, se encontravam ali em minhas mãos.
A maioria das coisas ali eram pertences que foram de minha mãe. Depois que ela falecera, eu fiz uma espécie de limpeza em suas coisas: decidi me mudar com Lana para o apartamento onde eu crescera e ela morara boa parte de sua vida, uma vez que não conseguiria me desfazer dele, porém algumas suas coisas dela tive de me desfazer, ou por ocuparem espaço e não serem valiosas para mim ou por serem valiosas demais que chegavam a doer. Algumas coisas delas, entretanto, ficaram: anotações, cadernos, fotos e até diários que ou vira uma vez na vida ou nem nunca soubera da existência. No meio dessas anotações e paginas de seu diário, continha algumas coisas sobre Chris e muitas coisas sobre mim. Todas essas coisas eu guardei e pedi para Lana vasculhar nelas atrás de páginas especificas. Todo esse material adicionado ao exame de Michael espalhado no sofá, sendo conferido pelo milésima vez. Tudo isso, acreditava, poderia convencer Chris de algo que ele já acreditara e que eu ainda acredito.
–Achei as garotas e daqui a pouco elas estão aqui – Michael entrou no camarim, falando e me despertando de meus devaneios.
Desviei o olhar das provas e olhei-o.
–Então é só aguardar... – Conclui, abaixando o olhar de novo e suspirando, encarando uma das fotos.
POV Chris
Mais um show acabara e eu descansava em meu camarim. O show fora normal, o de sempre. O que estava me desgastando mesmo era saber que Anastácia estava aqui. Vira-a andando nos bastidores com o irmão de Sam, Michael. Ela ainda não desistira de bancar a inocente diante de Sam? Não sabia de quem me compadecia mais: de Sam, por ser cego o bastante para acreditar nela, ou dela, que não tem mais o que fazer da própria vida. Mas eu estava só esperando o dia que ela mostraria suas garras novamente e Sam cairia na real. Eu daria meu apoio a ele, afinal ele é como um irmão, mas também não perderia a oportunidade de dizer um "bem que avisei".
E olha que eu avisei mesmo: não posso nem contar nos dedos quantas vezes eu disse a ele que ela era problema. Mas parecesse que para ele eu era só um amargurado. Entretanto, como não ser quando se é enganado da maneira que fui? Ela jogou da maneira mais suja que se pode. Um filho, ela tem noção do quão grande e importante isso é? Por um momento eu senti como se ela fosse minha filha mesmo, mas bastou o DNA sair para eu descobrir a falsaria que ela era. O pior ainda foi usar a Lucy no meio de toda essa farsa. Lucy fora meu primeiro amor, e eu querendo ou não, eu ainda a amava de alguma maneira. Usa-la para tecer o plano diabólico dela era golpe mais que baixo. Ela até poderia ser filha de Lucy, mas usar a "própria mãe" para me tentar dar o golpe era falta de caráter. Eu me decepcionara imensamente com esta garota e prévia um fim igual, senão pior, a Sam. E como dizem: quem avisa amigo é...
Estava deitado no sofá de meu camarim, de olhos fechados, quando ouço uma batida na minha porta. Bufei. Tentava descansar, coisa que se tornara bem difícil ultimamente. Levantei-me relutante e abri a porta. Era uma das assistentes da banda.
–Desculpe incomodar, Chris, mas é que tem algumas fãs pedindo seu autógrafo.
–Tudo bem – Suspirei, concordando – Pode pedir para elas virem até aqui.
Ela assentiu e foi fazer isso. Por mais que quisesse descansar, quis atender as fãs. Elas não têm culpa de tudo que tem me acontecido. Esperei em meu camarim, que tinha voltado a ficar de portas fechadas, e logo ouvi mais batidas na porta. Atendi e lá estava novamente a assistente com as fãs. Eu achei que fossem algumas, porém eram bastante. Umas doze, talvez. Elas sorriam felicíssimas em me ver.
–Olá garotas – Cumprimentei-as sorrindo.
–Oi – Disseram elas em coro.
–Bem, eu darei autografo para todas, mas primeiro eu preciso de uma fila, certo? – Pedi.
Elas assentiram e fizeram. O que antes era um bolo se transformou numa fila indiana. Como não era possível que todas se enfileirarem na frente da porta, elas formaram uma fila ao lado da porta. A primeira garota segurava uma foto junto ao peito e sorria de canto a canto do rosto.
–Olá, qual é o seu nome? – Perguntei.
–Stacy – Respondeu ela. Ela deviria ter uns 13 anos e cabelos bem escuros, encaracolados.
–Tudo bem então, Stacy — Disse pegando a foto que ela estendeu – Você quer que eu dedique a alguém ou a você mesmo?
–Não, quero só sua assinatura – Ela sorriu.
Dei de ombros, olhando para a foto. Achei que seria uma foto da banda, como geralmente era, mas me surpreendi quando notei que não. Eram dois adolescentes em baixo de uma árvore, mais ao longe. Eles pareciam felizes, mesmo que não desse para ver nitidamente o rosto deles. Observei a foto com a impressão de que já a vira em algum lugar. Olhei para Stacy e logo espantei a sensação: deveria ser de algum filme, só poderia ser. Assinei a foto e entreguei a Stacy, que agradeceu e saiu sorridente. A próxima menina veio e ela parecia ser um pouco maior do que Stacy, porém com cabelos lisos e curtos acima dos ombros. Lisos e loiros escuros.
–Qual é o seu nome?
–April – Ela respondeu, sorrindo tanto quanto a anterior.
–Nome bonito – Elogiei.
–Obrigada – Ela agradeceu tímida.
–Então, eu dedico a você ou a outra pessoa? – Perguntei.
–Para outra pessoa – Ela respondeu – Minha irmã mais velha, Gabriela.
Ela estendeu um papel e eu peguei. De primeiro, achei que fosse um rascunho. Contudo, notei que era um papel impresso com o resultado de um teste de sangue. Pela rápida batida de olho que eu dei no papel, a pessoa que fizera o teste estava grávida. Arregalei os olhos, imaginando que fosse aquela menina. O nome da dona do teste, porém, estava meio apagado e pela fonte das letras e o jeito do teste, parecia ser antigo. Perguntei-me então se a escolha desse papel era proposital ou não, e se fosse, o porquê. Assinei o papel e entreguei a ela, que fez igual a primeira menina: se retirou sorrindo.
–Qual é seu nome? – Perguntei a próxima da fila.
–Jéssica – Uma menina de uns quatorze, de cabelos escuros e lisos abaixo do ombro respondeu.
–Para você ou outro alguém? – Perguntei na lata.
–Para ninguém, só “com amor, Chris” – Ela sorriu e logo notei, que diferente das outras, esta não devia ser tímida.
Ela me estendeu uma foto e eu a peguei. Era de uma mulher jovem, aparentemente, grávida. A mulher, que devia ter uns 20 no máximo, estava na praia com um vestidinho solto e acariciava a barriga já evidente. Certamente ela estava grávida. Ela sorria, mas não dava para ver muito bem seus traços na foto, porém era certeza que ela era bonita. Achei estranho ela me dar uma foto dessas para autografar, mas logo pensei que pudesse ser a mãe da garota. Assinei e ela agradeceu indo embora. A fila continuou andando e parecia que todas as meninas tinham fotos um tanto quanto inusitadas. As fotos eram: uma mãe com sua criança recém nascida no colo; uma criança, uma garotinha, dando os primeiros passos; uma mãe observando sua filha brincando alegre; uma menininha sorrindo banguela... O mais estranho era que todas as fotos pareciam ser da mesma mãe e filha, mesmo seus rostos estando sempre borrados. A evolução continuava nas fotos, até que uma foto um tanto quanto triste apareceu: a filha, já moça, chorava perto de um caixão. Achei aquilo depreciativo e esquisito, mas assinei o nome da menina a quem a foto pertencia, devolvendo a ela e vendo-a partir logo após. A outra garota chegou e eu perguntei seu nome. Ela era ruiva dos olhos escuros, aparentemente de 17 anos e várias sardas no rosto.
–Alexia – Foi o que ela respondeu.
Ela me estendeu um papel e neste estava escrito algumas coisas, só que em outra língua. Examinei um pouco e notei ser português. Eu distingui algumas palavras, que aprendera há muito tempo com Lucy: pai, ela, saber, verdade, filha, minha, ele, e mais algumas. O que mais me chamou minha atenção era que estava escrito Christopher, meu nome. Achei aquilo muito estranho, mas como todas as outras coisas que assinara eram estranhas, não liguei muito também. Assinei e a menina agradeceu se retirando. A próxima menina e se apresentou como Olivia. Ela entregou-me uma foto: era a garota, a filha que eu vi crescer pelas fotos, com um homem. Eles estavam rindo um do outro e pareciam estar sentados num café. A menina já era adulta, como na foto do enterro. O que chamou a minha atenção foi que a cena não parecia estranha a mim. Parecia que eu já vira aquela foto, assim como a primeira foto que me apresentaram. Assinei novamente e a garota se foi. A próxima garota veio e eu repeti o "ritual" de questiona-la o seu nome.
–Katy – Respondeu uma garota loira de 16 anos.
Ela me estendeu uma foto e dessa vez eu estranhei mesmo. A foto era uma minha com Anne. Mais especificamente, uma que eu tirara com ela na época que ainda erámos "pai e filha". E era evidente nossos rostos. Mas o mais estranho era que essa foto era uma foto pessoal, tirada pela própria Anne e, que eu saiba nunca mostrada a imprensa ou algo do tipo. Ia perguntar a garota como ela conseguira essa foto quando a ideia de Ane tê-la vendido a imprensa me apareceu e aceitei-a. Vindo dela, eu já não duvidava nada. Assinei a contragosto. A garota foi embora e a próxima veio. Ela já estava com o papel esticado, então nem me dei ao trabalho de levantar o rosto e perguntar seu nome: a foto anterior me deixara aborrecido, então somente assinaria "com amor, Chris". Sem nem mesmo perguntar o nome da garota. Peguei o papel e quando o vi, estranhei novamente. Era um teste de comparação de DNA entre amostras de fios de cabelo e amostras de sangue. Na realidade, eram dois testes: um com amostras de sangue e cabelo de um homem e outro com os de uma mulher. As amostras da mulher eram compatíveis, porém os do homem não. Olhei melhor aquilo e me surpreendi mais quando olhei o nome dos pacientes. A mulher era Anne, e o homem era eu. Eu olhei para a garota que trouxe o papel e na hora as coisas fizeram mais sentido. A menina era, na verdade, Anne.
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