O Amigo Do Meu Pai
42 O plano - parte 2
Notas iniciais
O plano estava fluindo. A ideia era que as fãs, com as fotos e testes na ordem correta, recriassem minha história: desde o namoro de minha mãe com Chris até eu conhecendo-o. As fotos poderiam estar um pouco desbotadas, sem poder visualizar bem os rostos das pessoas nas fotos, mas esse era o propósito. Temia que ele percebesse logo do que se tratava e acabasse com minha ideia antes que eu pudesse explicar-me. Porém, até agora, ele pareceu somente desconfiado.
A última fã chegou até Chris com a última foto. A foto que ela entregara a ele era uma minha com ele e se podia ver claramente nossos rostos, ao contrário das outras. Eu respirei fundo e entrei atrás dela na fila. Minha entrava no plano constituía explicar-lhe tudo. Desde o plano em si até o objetivo dele: entregar a Chris o exame de Michael. O exame de Michael era um teste comparativo entre as amostras de sangue que foram usadas no teste de DNA que fiz com Chris e com fios de cabelo meu e dele. O meu fio eu cedi, já o de Chris, Sam "roubara": ele tirara de um casaco de Chris. O exame serviu para provar-me algo que andava desconfiada: que as amostras foram trocas. Ou pelo menos uma delas. E quando o teste saiu, descobri ser a de Chris. O problema era sabe quando fora trocada. Só poderia ser na hora de enviar a amostra de sangue para análise. A troca acabou acarretando no resultado negativo do teste. E o papel que dizia isso tudo, o papel do teste comparativo, estava em minhas mãos.
Chris assinou a foto para a menina a minha frente e ela foi embora. Na verdade, ela foi encontrar as outras garotas e pegar sua foto da banda autografada por todos eles. Como Sam explicou, eram "fotos para emergências" que a banda carregava já autografadas. Eu nem dei tempo de Chris me olhar, só estendi o papel assim que chegou a minha vez na fila. Ele também não olhou: só pegou o papel. Como ele fez com as outras fotos e papéis, ele analisou meu papel. Ele começou a lê-lo e arregalou os olhos. Ele levantou seus olhos a mim e sua expressão confusa começou a mudar para uma compreensiva. Meu nervosismo, entretanto, antes contido, estourou como um balão de festa.
–O que é isto? – Ele perguntou balançando o papel.
–Um teste que comprova que eu sou sua filha – Respondi tentando manter-me calma e confiante.
–Um teste que comprova minha paternidade para com você? – Ele disse com as sobrancelhas arqueadas.
–Sim – Confirmei, apertando minhas mãos uma nas outras para tentar conter a tremedeira – Nesse papel diz exatamente o que eu desconfiava desde que o teste de DNA saiu: que um das amostras de sangue foi trocada.
Ele olhou-me incrédulo e depois olhou de volta para o papel. Sua expressão passou a ser de maior compreensão, o que julguei ser bom.
–Então as fotos foram tudo coisa sua? – Ele perguntou, olhando-me sério.
–Sim – Confirmei acenando também com a cabeça.
Ele riu pelo nariz, sarcasticamente, e meu estomago deu uma volta. Julguei muito precipitadamente.
–Mas que palhaçada está rolando aqui? – Ele perguntou, balançando o papel e elevando a voz.
Engoli em seco, olhando-o sem saber o que lhe responder. Porém, fui salva pela aparição repentina de Sam e Michael. Ambos tinham expressões preocupadas e assim que meu olhar cruzou com o de Sam no começo do corredor, soube que ele estava ciente que as coisas não se encaminhavam como o esperado. Eles andaram até nós e no meio do corredor, Chris notou a presença de ambos.
–Você sabia disso? – Chris balançou o papel na direção de Sam quando este se postou ao meu lado; Michael ficou do outro.
–Chris – Sam olhou-o calmamente – Anne, pode...
–Você sabia ou não? – Ele cortou-o grosso, voltando a perguntar.
–Sim – Sam confirmou.
–Eu não acredito! – Chris riu pelo nariz, sarcástico – E eu te defendendo pra essa garota! Você é igual a ela!
–O que você quer dizer com isso? – Calmamente, Sam perguntou.
–Que vocês dois não prestam! – Chris cuspiu as palavras rancorosamente – E eu ainda te defendi dela ontem!
–Me defendeu? – Sam pareceu confuso, olhando a mim.
A essa altura, a voz de Chris já estava elevada o suficiente para transpassar portas. Logo, os outros integrantes da banda saíram de seus camarins para o corredor, intrigados com o que se passava do lado de fora.
–Eu te defendi dela – Chris continuou ainda exaltado – Disse para ela o que todo mundo sabe, mas ela faz questão de ser sonsa quanto a isso: que você está apaixonado por ela! – Chris jogou a Sam, sem nem um pingo de delicadeza, espantando o amigo – E ainda completei, dizendo que ela faria o que já faz: te deixar na fossa, lambendo o chão por onde ela pisa!
Sam olhou incrédulo ao amigo, com um tanto de rancor também, se voltando para mim logo após com a expressão igual, senão pior.
–Ele disse isso? – Sam perguntou a mim, lentamente, como se o próprio ainda digerisse as palavras ditas.
–Não exatamente, é que... – Encontrava-me aflita, tentando achar uma justificativa.
–Por que você não me disse? – Ele cortou-me parecendo irritar-se.
Todos no corredor encontravam-se em silêncio observando a cena. Porém, ao contrário da maioria que observava constrangida a cena, como se encontrassem-se no lugar errado e na hora errada, Chris assistia a tudo com uma expressão fechada, mas que parecia deliciar-se por dentro.
–Eu não achei necessário – Disse rápido – Mas eu posso explicar outra...
–Não achou necessário, Anne? – Ele pareceu incrédulo com minha resposta – Você vem chorar em meu ombro com o seu “paizinho” te diz umas poucas e boas e quando ele menciona o meu nome, você acha que é desnecessário comentar? Bom, mas dizer que ele te disse coisas horríveis sobre você mesma, você conseguiu, não?
–Eu não queria que você se indispusesse com ele... – Tentei voltar a justificar.
–Bom, mas agora eu também estou indisposto com ele! – Sam riu irônico.
Eu engoli em seco, olhando-o sem palavras. Nunca virá Sam agir assim, o que me assustava e deixava-me sem reação. Sam bufou, passando as mãos pelo rosto e depois pelos cabelos, num ato de clara irritação.
–Olha, se você quer saber, eu perdi a paciência por hoje – Ele confessou, trocando o tom irritado por um cansaço, passando a mão pela nunca com a cabeça inclinada para baixo – Que você fique com seu pai e seu plano perfeito.
–Sam, espera, por... – Apelei também cansada.
–Anne, eu disse que eu perdi a paciência por hoje – Ele olhou-me, com tom e olhar duros, interrompendo-me.
Calei-me, somente encarando-o. Ele desviou o olhar logo após e andou de volta para o começo do corredor, mas parou na frente de seu camarim.
–E, ah...! – Ele se virou para mim, encarando-me diretamente – Se você precisar de um ombro pra chorar hoje, não bata na minha porta.
Abri a boca, mas novamente as palavras não vieram. Sam, que achei que iria entrar em seu camarim, seguiu em frente e dobrou o corredor, sumindo de vista. Todos me olhavam, pois sentia seus olhares queimarem as minhas costas. Mas eu continuava virada ao corredor, encarando-o, sem coragem de ver todos aqueles rostos com olhares de pena.
–Eu acho... – Michael manifestou-se atrás de mim, enquanto fechava meus olhos fortemente – Que eu devia ir atrás dele.
Abri meus olhos no momento em que ele passava ao meu lado e parava encarando-me. Seu olhar perguntava-me se tudo bem sua saída. Assenti, afirmando que sim, enquanto ele abria um sorriso triste e seguia pelo corredor atrás do irmão. Respirei fundo e girei nos calcanhares, encarando Chris.
–Podemos conversar? – Perguntei com o tom mais sóbrio que consegui encontrar.
Ele encarou-me, analisando meu pedido. Meu olhar era indiferente, sem emoção. Ou isso ou o desmoronamento total, que não estava em meus planos. Por fim, ele bufou e entrou no camarim. Entendi aquilo como um sim e segui-o, fechando a porta sem cerimônia e encerrando todos os outros ao corredor. Virei-me a Chris e ele encontrava-se largado ao sofá, com o braço esticado na parte superior das almofadas de encosto e os olhos serrados a mim. O papel do teste, antes em suas mãos, estava ao seu lado no sofá, ligeiramente amassado nas pontas.
–Agora você pode me explicar o que está acontecendo? – Ele questionou.
Respirei fundo, assentindo com os olhos fechados.
–Eu só estou tentando convencê-lo de algo que você já julgou certo – Respondi calma, voltando a abrir os olhos.
–Que você seria minha filha? – Ele levantou uma sobrancelha.
–Sim.
Ele bufou baixo jogando a cabeça para trás, às almofadas.
–Quando você vai desistir? – Ele perguntou cansado, esfregando os olhos com as mãos.
–Quando você aceitar isso por conta própria.
Ele suspirou cansado e voltou a endireitar a cabeça, olhando-me.
–Então você não vai desistir fácil – Ele concluiu, molhando os lábios – Pois bem, comece sua história... – Ele pediu cansado.
Pus-me então a contar tudo a ele. Desde a minha desconfiança de que algo dera errado no teste de paternidade até o plano que acabara de executar com a ajuda das fãs dele. Isso levou uma boa meia hora. Assim que eu terminei, Chris ainda olhava-me atento.
–Então você está tentando me convencer que alguém trocou minha amostra de sangue por outra durante o DNA? – Ele perguntou por fim, quebrando o silêncio.
–Sim – Confirmei.
–E também está propondo um novo teste de DNA?
–Sim.
Ele suspirou, novamente esfregando os olhos. De repente, ele parecia ter envelhecido dez anos. O cansaço parecia emanar de si. E não somente por conta do desgaste do show.
–Se eu fizer o teste – Seus olhos voltaram a me focar, com sua voz calma – Você parará de me encher a paciência?
–Se der que eu sou sua filha, você deixará de magoar-me? – Perguntei cruzando os braços, percebendo que, incrivelmente, não estava mais nervosa, mas sim calma.
–Eu estou tão farto disso, Anastácia – Ele admitiu, jogando a cabeça para trás ao sofá.
Ele suspirou, cobrindo o rosto com as mãos. Eu o encarava, sabendo que ele não acabara ainda.
–Uma hora eu era somete um guitarrista solteiro e sem filhos, pra de repente eu ser um guitarrista solteiro com uma filha com mais da metade da minha idade. Uma menina que nem vi crescer. Filha de uma relação que anos deixara no passado – Ele fez uma pausa, abaixando as mãos com os olhos fechados – No começo não achava possível tudo isso ser verdade, mas o tempo e você me convenceram. Eu vi muito de sua mãe em você. Assim também como eu vi muito de mim. Mas daí chega um papel me dizendo o contrário, que você não é minha filha. No que então devo acreditar? Num papel que quase sempre acerta ou na menina que nem uma prova concreta tinha?
Não o respondi. Ele endireitou-se no sofá e olhou-me, seu olhar sobrecarregado de fadiga, culpa e dúvida.
–O que você faria? Seguiria sua cabeça ou coração? – Ele questionou, olhando-me nos olhos.
–O coração – Fui sincera, sem hesitar um segundo.
Ele soltou um riso baixo, abaixando a cabeça e segurando-a nas mãos apoiadas no joelho.
–Sua mãe escolheria o mesmo – Ele comentou.
–É porque como ela, eu acredito que as decisões racionais são sensatas, mas quando lidamos com amor, nada é sensato.
Chris continuou parado na mesma posição algum tempo. Seu suspiro quebrou o silêncio gelado entre nós e sua cabeça endireitou-se para encarar-me.
–Eu farei um novo teste – Ele anunciou, sem mais delongas.
Sorri contente por os meus esforços darem certo. Girei nos calcanhares e rumei a porta, impedindo-me no meio do caminho. Michael me entregara o envelope pardo com duas cópias de todas as fotos e exames, porém usei no plano somente uma de cada. Eu me virei novamente e abaixei-me ao lado da mesinha de centro. Tirei da bolsa em meus ombros o envelope, com todas as cópias extras bem guardadas dentro, e botei-o ali. Chris olhou-me atento. Voltei meu percurso à porta, abrindo a maçaneta e me retirando sem lhe dirigir ou receber uma palavra de despedida.
Inspirei e expirei fundo, encarando o corredor agora vazio. Andei até a porta do camarim de Sam e bati três vezes, na esperança de encontra-lo ali. Não obtive respostas. Abri a porta devagar e encontrei o ambiente vazio, sem nem mais suas coisas ali. Suspirei derrotada e entrei assim mesmo, fechando a porta a minha passagem. Caminhei ao sofá, jogando minha bolsa nele e jogando a mim mesma em seguida. Levei as mãos ao rosto e soltei um grande suspiro infeliz.
Por que quando o mundo parecia conspirar a favor de uma reconciliação com meu pai, ao mesmo tempo o mundo conspirava contra a mim e Sam? Isso era tão... Frustrante! Refleti sobre o que Sam dissera-me e, ao fim, conclui que hoje precisaria de seu ombro amigo.
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