O Amigo Do Meu Pai
21 Cuidando-te
Notas iniciais
Enjoy
Eu despertei lentamente, sentindo-me mal. Meu corpo estava todo dolorido, como se tivessem me dado uma surra. O mais estranho é que eu despertei em uma cama, com um cobertor bem quentinho e um travesseiro confortável. E o mais estranho ainda era que eu estava só de lingerie (ou achava que sim). Eu ainda não abrira os olhos para comprovar se de fato estava com somente peças intimas, mas podia sentir a macies do cobertor por quase todo meu corpo sem a barreira das roupas. Abri meus olhos lentamente e vi que eu realmente estava certa; estava em uma cama em um quarto de hotel. Mas espera, o quarto era idêntico aos do hotel que a banda estava hospedada, e eu fiquei hospedada também. Ou melhor, que ainda estava hospedada, mas que não fazia questão nenhuma de voltar. Olhei para os lençóis, para ver se tinha o nome do hotel bordado, e tirei a prova que me faltava; era o hotel da onde eu saí correndo, onde a banda estava hospedada. Mas também não era um quarto qualquer: tinha roupas masculinas em algumas partes e parecia já ocupado. Meus olhos então pousaram na poltrona ao lado da janela e tomei um susto. Sam estava sentado na poltrona, sem camisa, e aparentemente cochilando. Não acreditei no que meus olhos viam. Não sabia se ficava com raiva ou se chorava de tristeza; Sam desacreditara em mim justo no momento que mais precisava dele, e agora estava ali, como se nada tivesse acontecido. Aquilo era perturbador a mim. Decidi, num impulso, sair imediatamente dali. Não ficaria nem mais um segundo com Sam. Eu empurrei as cobertas para baixo e confirmei mais uma de minhas desconfianças; estava só de lingerie. Sentei-me na cama e botei meus pés para fora, ficando sentada na ponta da cama. Eu levantei-me, porém rápido demais. Eu me desequilibrei e segurei-me na parede. Espere uns segundos, para me recompor, e comecei a caminhar pelo quarto, apoiando-me nas paredes. Como eu era uma azarada nata, minhas roupas estavam em cima de uma mesa, ao lado da poltrona de Sam. Eu me encaminhei lentamente até ali, mas o trecho de parede que me apoiava acabou, e continuava atrás somente da poltrona de Sam. Resumo: teria que me equilibrar sozinha. Respirei bem fundo, e retirei a mão da parede. Mas novamente não estava pronta, e desequilibrei-me. E caí, para minha total “sorte”, em cima de Sam. Sim, caí sentada no colo de Sam. Ele, lógico, despertou assustado.
-Anne? Que? Como você veio para aqui? Ele dizia surpreso olhando-me em seu colo.
Quis morrer naquela hora. Tudo que consegui fazer foi bufar e cruzar os braços, desviando o olhar da direção dele. Não queria olha-lo. Teria levantado e corrido, claro, mas com que forças? Eu só cairia no chão e teria que ter mais ajuda de Sam, o que seria bem pior.
-O que você estava fazendo Anne? Ele tornou a repetir, mas menos assustado e mais mandão.
-Eu estava indo pegar minhas roupas – respondi grossa, sem olha-lo.
-Para...?
-Para doar ao Papai Noel... Para vesti-las e ir embora, né! Respondi ainda grossa.
-E por quê? Você nem se recuperou! Ele disse o obvio.
-Por quê? Você ainda tem a coragem de perguntar isso? — Disse ainda mais indignada – Você me abandonou, não confiou em mim, quando eu mais precisei e agora quer que eu aceite suas ajudas como se tudo estivesse ok?
Sam suspirou triste e olhou me cansado e... Deuses, arrependido! Ele estava arrependido!
-Anne, por favor, não vamos falar disso. Eu estou aqui agora, e isso é tudo que importa... — Sam disse.
Eu não quis insistir, mas que por mim não tinha ficado só por aquilo, ah não tinha mesmo! Eu só olhei para outro lado, cruzando mais os braços.
-Posso... Levantar-nos? Perguntou Sam pegando em minhas costas e pernas.
Olhei-o mal-humorada, como um sinal que sim. Ele entendeu e levantou-se comigo no colo. Ele botou-me na cama e eu imediatamente sentei nessa. Sam postou-se ao lado da cama, olhando-me com os braços cruzados.
-Como eu vim para aqui, no seu quarto? Perguntei ácida, olhando para meus pés com os braços cruzados.
-Uma mulher me ligou, uns vinte minutos depois que você saiu correndo, dizendo que você estava no restaurante dela desmaiada. Eu fui então te socorrer. Chegando lá, você estava pálida, desacordada á uns dez minutos e com o rosto todo manchado de rímel – ele respondeu com os olhos pregados em mim.
-E como eu acabei só de calcinha e sutiã? Perguntei de novo olhando meus pés.
-Eu te peguei no colo e saí com você, mas começou a chover e nós molhamos todos. Como você estava muito molhada, tirei sua roupa para você não ficar doente.
Balanceie minha cabeça em um sim e fiquei em pleno silencio. Sam também. Porém, uma crise de espirro me atacou, e Sam evidentemente notou.
-Acho que você devia tomar um banho; pra tirar a friagem do corpo – ele comentou.
-Claro! Não consigo nem dar dois passos sozinhas, quem dirá tomar banho! Respondi irônica.
-Eu te ajudo – se voluntario ele.
Olhei-o séptica e respondi seca:
-Não, obrigada.
Sam bufou alto e, me surpreendendo, catou-me no colo novamente e me levou para o banheiro, mesmo entre meus protestos.
-Me larga Sam! Dizia impaciente.
-Isso é para você aprender á ser menos orgulhosa e chata! Disse Sam entrando no banheiro comigo.
Eu continuei esperneando, mas Sam só me botou no chão, segurando em minha cintura para não me deixar cair. Eu olhei-o, muito irritada, e disse irônica:
-Então, agora vai tirar o resto da minha roupa?
-Se você permitir... — Ele disse sério.
Eu ri debochada.
-Ah claro! Vá em frente! Desnude-me! Disse irônica.
Sam bufou impaciente, dizendo:
-Ok, se você quer se fazer de difícil e não quer ceder...
Ele pegou-me pela cintura, e botou-me dentro do box. Ele ligou o chuveiro e sem dó nenhuma, deixou a água cair em ambos. Eu quase grite. Eu estava quente e a água gelada, e isso causou um choque térmico em minha pele. Eu tremi um pouco pela temperatura da água, e Sam notou. Ele fechou um pouco mais o chuveiro, esquentando a água.
-Melhor? Ele perguntou.
Fiz que sim com a cabeça e o olhei. Ele tinha um olhar cansado, preocupado e carinhos ao mesmo tempo. Muita coisas, sei, mas era o que via em seu olhar. Pousei minha mão direita no ombro de Sam e minha mão esquerda em cima da mão de Sam em minha cintura.
-Porque você não pode confiar em mim? Perguntei de repente, com a voz baixa e triste.
-Anne, por favor, não agora – ele pediu mais uma vez cansado.
Eu, mais uma vez, concordei e só abaixei a cabeça. O resto do banho foi em silêncio; na verdade, nem foi um banho de verdade. Como eu estava de lingerie, e não iria tira-la de jeito maneira, o “banho” foi mais uma ducha para esquentar-me e molhar-me inteira. Saímos d’baixo do chuveiro cinco minutos depois. Sam catou duas toalhas para nós e ele me envolveu em uma delas. Eu já conseguia me equilibra bem melhor. Eu, para minha infelicidade, não tinha roupa nenhuma ali. Mas para minha surpresa, Sam tinha uma camiseta minha no quarto dele. Como fora parar lá nem em pergunte! Era uma camiseta preta básica, mas também era só isso. Não tinha mais nenhuma peça minha. Resumo: fiquei de camiseta preta, sem sutiã, e com uma calcinha ensopada. Fazer o que! Sam, que tinha molhado a calça que vestia, trocou-a (no banheiro) e depois foi se juntar á mim. Ele sentou-se na poltrona onde estava quando cai em seu colo. Eu olhava-o e ele fazia o mesmo, ambos em silencio. Até que eu não me aguentei, e perguntei novamente a pergunta que ele tanto evitava responder:
-Sam... Por favor, não fuja dessa pergunta. Eu preciso de uma resposta para ela! — Pedi antes de chegar aonde queria- Porque você não confiou em mim quando eu mais precisava?
Sam olhou-me melhor, mas permaneceu me silencio. Eu decidi insistir.
-Sabe, eu vi meu mundo desabar lá naquele quarto. E você, que sempre foi o mais próximo de mim, devia ter me dado apoio! Mas a única coisa que você fez foi ajudar a desabar mais ainda. E depois, o mais irônico, é que você foi me ajudar...
Sam abaixou a cabeça até os joelhos, passando a mãos no cabelo. Quando tornou a levanta-la, tinha um olhar muito culpado.
-Anne, eu sinto muito – ele disse começando a se “explicar” – Você nem faz ideia do quanto! Mas se põe no meu lugar? Você chegou falando ser filha do Chris, ele acreditou e até anunciou em um show que você era, anunciou pra o mundo inteiro, mas o teste de DNA dá negativo! Como você se sentiria? Eu te ajudei, e no final era uma farsa? Você era uma farsante!
-Não Sam, não era uma farsa... Não é! Eu não sou uma farsante. Eu tenho certeza que sou filha do Chris! Minha mãe jurou-me isso! Ela nunca mentiria ou se enganaria! Ela não era do tipo que saia dormindo com todos. Se ela disse que sou filha do Chris, é porque sou! E o exame, eu tenho certeza, esta errado!
Sam, depois de absorver minhas palavras, ficou um tempo em silencio, olhando-me apenas.
-Então, porque você me ajudou se eu sou uma farsante? Por que foi até o restaurante me socorrer? Perguntei. Queria quebrar o gelo que se formara, além de estar curiosa sobre aquela questão.
Sam molhou os lábios e respondeu-me, olhando-me fixo:
-Porque além de você não ter mais ninguém, eu conheço você Anne... Não poderia simplesmente ignorar a ligação sabendo que você não estava bem. Você se tornou alguém especial...Uma amiga. E mesmo revoltado, chateado e desacreditando-a, eu não poderia deixa-la na mão. Infelizmente, é isso que amigos fazem.
Eu não sabia como me sentir quanto à resposta dele. Era confusa... Mas fazia sentido. Mas a única coisa que eu não compreendia era...
-Então você ainda gosta de mim? Perguntei um tanto séptica.
Sam jogou a cabeça para trás, suspirando, e confirmou com a cabeça:
-Não tenho como deixar de gostar de uma hora para outra...
Aquilo me deixou um pouco mais aliviada. Não apagava o fato de Sam não ter me apoiado naquela hora, mas melhorava um pouco. Suspirei fundo e fechei os olhos. Nessa rápida fechava de olhos, eu pensei em um turbilhão de coisas; mas principalmente minha rejeição paterna. E isso, que era uma ferida ainda bem aberta, foi o suficiente para em fazer querer chorar. Nem querer, chorar mesmo. Lágrimas começaram a descer pelo meu rosto (mesmo com os olhos fechados) e eu botei minhas mãos em meu rosto, para escondê-las. Eu também flexionei meus joelhos, deixando na altura de meu rosto. Era um choro silencioso, sem ruído. Sam, que estava em minha frente, notou sem dúvida. Ele levantou-se da cadeira e abaixou-se ao meu lado da cama. Ele tocou minha perna suavemente, fazendo-me olha-lo.
-Você acha que ele um dia vai acreditar em mim? Eu perguntei á ele.
-Eu... Não sei. Espero que sim – ele disse sincero.
Aquilo me fez ficar pior. Tudo que queria naquele momento era um consolo... E fui isso que fiz: procurei por consolo. Eu praticamente me joguei da cama em cima de Sam, que caiu para trás. Eu o abracei forte, e ele fez o mesmo. Eu já não só deixava as lágrimas rolar; já chorava abertamente.
-Calma, calma! Sussurrava Sam – Tudo vai ficar bem! Você verá...
Eu queria acreditar naquilo, tinha que acreditra naquilo; naquelas palavras. Acreditar que tudo se resolveria e ficaria bem. Que eu viria as coisas começarem a fluir novamente. Depois de incontáveis minutos ao chão, abraçados e em silencio, meu choro foi sessando e parou. Mas mesmo assim eu não tinha energias, ou melhor vontade, de levantar-me dali.
-Anne? Sam chamou-me baixo.
Eu o olhei.
-Vou fazer o seguinte: vou te rodar para baixo de mim para poder conseguir te levantar e botar-te na cama, ok? Ele disse baixo.
Eu concordei com a cabeça. Sam nem me perguntar se eu poderia levantar, ele só falou que em botaria na cama. Ele fez o planejado: Ele me pegou pela cintura e rapidamente me girou para baixo, ficando por cima de mim. Ele saiu de cima de mim e foi para meu lado. Ele catou-me em seu colo e deitou-me gentilmente na cama. Ele puxou até as cobertas para cima.
-Nossa, você me molhou toda! Ele disse olhando para sua camiseta, que tinha marcas de molhado – Quer dizer, sua calcinha me molhou todo... Nossa, se alguém ouvisse isso com certeza não iria cair bem para nós! Sam disse divertindo-me e arrancando-me um fraco sorriso.
Ele então se virou e eu o impedi, chamando-o.
-Sam... Você poderia dormir comigo hoje? Perguntei baixo e timidamente.
Ele sorriu fraco e disse:
-E você achava que eu dormir onde? Na poltrona?
Eu sorri fraco e ele deu a volta na cama, deitando-se em meu lado. Eu virei-me para ele e ele também se viro para mim.
-Boa noite Sam – disse cansado, já fechando os olhos.
-Boa noite Anne – ele disse docemente.
Aos poucos eu fui sentindo o sono me envolvendo... E os braços de Sam também.
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