O Amigo Do Meu Pai
24 Como me livro dele agora?
Notas iniciais
Fazia certo frio na manhã de terça-feira, dois dias após minha gritaria com meu pai. Eu ainda estava em Atlanta com a banda (Sam), mas por pouco tempo: tanto a banda quanto eu tínhamos um novo destino. A banda partiria para mais um show em sua turnê, enquanto eu iria para casa: Brasil. É, essa era minha escolha e destino; casa. Refletira muito nesses últimos dias, na verdade só fizera isso, e minha conclusão fora que meu pai era uma cabeça dura e que eu não era forte o suficiente para aguentar a frieza e rejeição dele enquanto tentava convence-lo de que era sua filha. Chega, basta! Meu coração se doía todo, afinal, deixar Sam, os meninos e meu pai também era difícil; apegara-me a eles. Eles formaram uma segunda família para mim, apesar de eu nem ter uma primeira. Mas como diz um famoso ditado, tudo que é bom dura pouco. E minha felicidade tinha de fato durado pouco. Decidira não me despedir de ninguém para não correr o risco de borrar toda minha maquiagem ou me impedirem de partir, como certa vez fizeram no aeroporto. Mas dessa vez não olharia para as janelas na hora de partir, só por segurança.
*
Minhas malas já estavam prontas, e eu também; usava uma calça jeans azul marinho com uma blusa de mangas compridas bege toda rendada, uma bota marrom cano curo de salto feita de camurça, com uma bolsa satchel azul cobalto, um anel que ganhara de Lana no meu dedo anelar direito e meu óculos de leitura (que era mais de charme) no rosto. Minha maquiagem era um simples batom rosa e um pouco de rímel, ambos detalhes indispensáveis no meu dia-a-dia. Eu tinha meu celular em mão, e andava de um lado ao outro do quarto olhando a mensagem que recebera.
“Anne, encontre-me daqui á uma hora no jardim dos fundos do hotel. Te esperarei lá. Temos muito a conversar. Sam”
Ele mandara a mensagem há cinquenta e dois minutos, ou seja, tinha oito minutos para me decidir. Não que eu tivesse acabado de ver a mensagem; vira-a no instante que a recebera. Então isso me deixava á cinquenta e dois minutos zanzando de um lado para o outro do quarto, olhando para o celular e tentando me decidir se ia ou não. De começo pensei ir, mas logo veio os impedimentos em minha cabeça; eu meio que me despediria dele, porque saberia ser a ultima vez em muito tempo, então ele talvez pudesse notar isso e tentar me impedir, não? Sem contar que não poderia me demorar muito, pois o voo era ás duas e meia; dali á uma hora e meia. E até chegar ao aeroporto, fazer o check in e tudo mais demorava. Enfim, estava indecisa ao máximo. E o pior que meu tempo só se diminuía mais e mais. Agora, tinha só três minutos. Suspirei sem saber o que fazer. Então tomei a decisão da qual, certamente, me arrependeria mais tarde: decide ir falar com Sam. Enfiei o celular no bolso traseiro da calça e saí do quarto. O problema era que esqueci algo muito importante lá dentro, esse algo do qual só lembrei-me tardiamente. Peguei o elevador fui até o saguão, passando direto por esse. Segui para os fundos do hotel, onde havia um aconchegante jardim. Sim, era estranho, já que se tratava de um hotel no meio de uma cidade cheia de prédios. Mas era até aconchegante; com bancos e casinhas de passarinhos. E é claro muitas arvores. Assim que pisei os pés nesse jardim encontrei Sam. Ele estava de costas para a entrada do jardim, mais afastado admirando o céu e estava com as mãos nos bolsos da calça. Aproximei-me devagar e me postei ao lado dele, também olhando para o céu. Sam sorriu.
–Atrasada em dois minutos – disse Sam brincando e me fazendo sorrir de leve. Iria sentir falta dessas idiotices dele.
–Atraso dão um charme á mais a coisa – respondi.
–Não na Inglaterra. Lá atrasos dão um belo de um sermão e julgamento antecipado de você – ele disse, fazendo-me soltar uma leve risada.
–Bom, olhando por esse lado...
Olhei para Sam e ele para mim. Sorrimos um para o outro. Era tão bom estra com Sam que, até sem falar com ele, eu sorria. Ao menos por dentro, por vezes. Ele apontou um banco, o mais próximo da onde estávamos, e nós nos direcionamos até ali. Sentamos de frente um pro outro; Sam encostou suas costas no encosto do banco, botando a mãos aonde eu deveria encostar as minhas costas e se virando levemente á mim. Eu só fiquei na ponta do banco e virada totalmente para ele.
–Então? Por que desejava intensamente minha presença? — Perguntei sorrindo.
Por mais que o dia estivesse nublado e frio, estar com Sam me aquecia e iluminava. Estranho, mas era a verdade.
–Precisava falar com você sobre o que você decidiu – ele disse tranquilo, olhando para gente.
Eu gelei. Ah não, me diz que ele não descobriu sobre minha partida silenciosa! Deus, eu planejei tudo para ele e nem ninguém descobrir! Como então ele poderia saber?
–Ah, como assim? — Disse fazendo-me de desentendida.
–Quero falar com você sobre o que você decidiu; se você continua conosco ou vai embora. Você não me disse nada sobre isso – ele respondeu olhando-me.
Suspirei aliviada. Meu coração desacelerou, acalmando-se. Deus, ele não sabia de nada! Ainda...
–AH... Sim! — Disse aliviada.
–Então Anne, você vai conosco ou vai partir de volta pro Brasil? -Perguntou ele na lata.
Mais aí eu, que achava que meus problemas tinham acabado e meu coração poderia voltar a bater normal, percebi que eu estava novamente encurralada. Eu poderia sim mentir para Sam, mas não seria justo com ele. Mas dizer também a verdade era... Complicado. Aí Deuses, o que faço? Respirei fundo, tentando achar um meio termo; iria omitir dele a verdade, não mentir.
–Eu não... Não sei Sam! Eu quero ficar, como você sabe, mas tenho medo que em machuque, entende? — Disse olhando para minhas mãos.
Sam botou sua mão em cima da minha, fazendo-me olha-lo. Ele tinha uma expressão de compreensão total. Me senti segura, mesmo não estando correndo nenhum perigo. Me senti abrigada. Era assim que me sentia em grande parte do tempo quando Sam me olhava; me sentia em casa.
–Eu entendo Anne, e também vou entender se você quiser ir. Mas eu vou pedir á você, até que eu veja que não há saída nenhuma senão aceitar; fique. Não só pelo seu objetivo, que você sabe que pode alcançar, mas também por mim, que infelizmente tem de admitir que você se tornou alguém em minha vida. Infelizmente não sei mais como é viver sem sua tormenta rotineira! — Disse Sam sorrindo sem garça ao final e ainda fazendo gracinha.
Dei uma risada baixa e sorri. Meu olhar cruzou com o de Sam e, por um minuto, perdi a noção de tempo, espaço, tudo. Até meus pensamentos se foram diante daquele olhar verde claro sobre mim. Deuses, até o ar me abandonou! Senti o braço de Sam passar por trás de mim, me abraçando pelas costas. Ele me puxou então para mais perto de si, assustando-me um pouco. Até me desiquilibrei e cai. Adivinhem aonde? Em cima de Sam para variar! Eu caí com minha cabeça em seu peito, e minha mão em seu braço direito. Minhas pernas “ficaram” onde estava, enquanto meu corpo foi levado. Levantei meu olhar para Sam, olhando-o com um pequeno sorriso do tipo “se não tem jeito...!”, mas com os olhos lhe pedindo desculpas. Sam riu dessa minha cara e eu sorri ao ouvir a risada dele. Ia me levantar do peito dele, para me ajeitar, mas ele me segurou impedindo. Eu olhei-o surpresa e ele sorriu acolhedor. Eu dei de ombros rindo baixo e me ajeitei, puxando minhas pernas para mais junto de mim, subindo um pouco minha cabeça e pousando uma mão minha na coxa dele e outra no peito dele na parte onde minha cabeça não ocupava. Ficamos ali, em silencio, só curtindo a mistura de barulhos de pássaros com buzinas de carro por um longo tempo. Me perdi em pensamentos enquanto. A maioria deles era para como Sam me acalmava. O cheiro dele de fragrância masculina suave me embriagava; os seus braços em torno de mim, mantendo-me próxima dele de uma maneira possesiva mais gentil, me aquecia. Ah, tê-lo tão junto assim de mim já me dava uma espécie de paz de espirito. O tempo foi rolando, até que me dei conta de que tinha um voo ainda para pegar. Desencostei-me de Sam e levantei-me tão subitamente que ele tomou um susto.
–O que aconteceu Anne? — Ele perguntou enquanto eu ajeitava minha roupa e olhava para elas.
–Nada. Eu só tenho que... Ahhhhhh... Arrumar minhas malas! — Inventei terminando de me ajeitar e olhando para ele com um sorriso forçado, que torcia para ele não notar.
–Agora? — Ele perguntou meio incrédulo.
–Sim – respondi constrangida dando lhe ás costas.
Saí andando o mais rápido que minhas penas me permitiam, não olhando par trás. Porém quando entrava no elevador, senti uma mão me puxando pelo braço e me trazendo de volta para o saguão.
–Calma garota – disse Sam sorrindo para mim, segurando meu braço.
Sorri falsa á ele e apertei o botão para chamar o elevador, me desvencilhando dele. Sam riu do meu ato, pois demonstrava um leve ar de raiva, que eu de fato sentia.
–Eí bravinha? Dá para você me explicar sua saída repentina? — Pediu ele, enquanto eu lhe dava as costas, com os braços cruzados e batendo o pé no chão olhando o indicador de andares do elevador.
–Preciso arrumar minhas malas- respondi na hora que o elevador chegava e eu entrava neste, seguida por ele. Droga!
–Então irei te ajudar... — ele sussurrou em meu ouvido se postando atrás de mim no elevador, enquanto a porta deste se fechava.
Ok, que legal. Agora como eu me livro de Sam?
Fale com o autor