O Alopata
3 Capítulo 3 - Forjamento
Notas iniciais
"Nenhum segredo é tão secreto que alguém não possa descobrir, talvez a realidade não seja um segredo, apenas um desafio'.
"Quem revela o segredo alheio se torna um traidor, quem revela o próprio segredo se revela um imbecil". VOLTAIRE
(Jan-Martin reservou muito conteúdo implícito no seu inventário, mas quem além dele poderia compreender o que ele proferia?)
Capítulo 3: Forjamento
A chamada estendeu-se por algumas dezenas de minutos: conclusões eram difíceis de serem tomadas, mas um desfecho foi enfim concretizado.
Jan-Martin ‘’conhecera’’ a filha da ex-diretora Eunice, como um epílogo de sua dificuldade em se locomover. Perspicaz como se desenvolveu, Jan logo fez um trato com a mesma, se prontificando a ajudá-la em sua missão em troca de uma carona para Dijon, cidade-natal e atual moradia de seus pais.
“Estou desesperada, toda ajuda é bem-vinda. O governo cancelou as investigações por motivos financeiros, então posso contar com você para tentar resolver, ou sei lá, me apontar uma direção no caso?”— Proferiu Margot
“Em se tratando de medicina, posso sim ajudá-la e estudar mais sobre o suposto assassinato de sua mãe, mas saiba que eu não sou nenhum forense, sequer tenho experiência com esse tipo de situação.”— Tratou Jan, encerrando a conversa.
Já era tarde, porém, Jan não conseguia dormir. A insônia tomara conta de sua cabeça e cada minuto em que se portava em 180º na cama parecia equivaler a uma volta de 360º do ponteiro maior do relógio.
A solução estava em sua arca oratória: uma seringa contendo 10ml de Eszopiclona, um composto sedativo muito usado para tratar insônia.
(A Eszopiclona, também vendida pelo nome de Lunesta ou Prysma, apesar de combater significantemente contra os males da insônia, pode causar efeitos colaterais como pensamentos suicidas, inclinação ao abuso sexual e tipos diversos de alucinações).
Jan manteve contato com Margot ao longo da semana, para que finalmente pudessem executar o plano: Margot, que herdou de sua falecida mãe um carro bege modelo Citroën XM 1989, partiu de Dijon buscar o impaciente Jan-Martin.
Completaram-se dois dias, e finalmente chegando na capital francesa, noite fria, neve impiedosa e incertezas emocionais marcaram a chegada de Margot ao apartamento de Jan-Martin. Parecia um local receptivo, com escada grande, lustres e móveis antigos, provavelmente herdados de avós.
“Peço que entre, precisamos colocar logo em pauta como faremos a viagem amanhã de manhã.”— Saudou Jan ao abrir a porta para Margot.
“Amanhã de manhã? Nós deveríamos partir agora, eu vim aqui apenas te buscar para prosseguirmos conforme o combinado!”— Respondeu Margot, questionando-o.
“Mudança de planos: o tempo está instável, está muito frio e a neve pode fundir o motor ao atravessarmos as serras. Eu te convido a passar a noite aqui, pois, os hotéis e as pousadas estão todos fechados por conta da crise. Tenho um quarto só para hóspedes.” – Apresentou Jan
“Acho que tudo bem passar uma noite aqui! Você parece ser uma pessoa certa, é bem sucedido, arrumado, e, sua família também vem do interior, não é mesmo?— Respondeu Margot.
Margot se impressionou com a formosa arquitetura do decorrer de Paris e sua sociedade vívida (diferente do interior, onde tudo era pálido e regressivo) e se prontificou, prometendo consigo mesma, superar o trauma pessoal e tentar seguir em frente em sua vida, talvez se introduzir a novos ares.
A verdade é que Jan mudou de ideia sobre os planos: ele já estava de malas prontas para seguir viagem, porém, sentiu algo diferente ao ver o rosto da “bela” Margot.
No auge de seus 21 anos, Margot se parecia muito com sua mãe, professora de Jan na época do colégio, e isso fez com que o coração dele ignorasse o tempo por alguns milissegundos, suficientes para esquecer da importância de sua viagem, e convidá-la para dormir em sua residência.
“Fique à vontade para comer e beber o que quiser na cozinha. Tenho que me deitar agora, estou me sentindo muito cansado.”— Colocou Jan.
“É melhor eu ir também, não descansei bem nos últimos dias...” – Respondeu Margot e foi-se para o quarto de hóspedes.
“E agora? Como dormir com essa maldita insônia?”— Indagou Margot sozinha, duas horas da madrugada
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