O Alopata

1 Capítulo 1 - Diplomacia


“A morte é a rainha da vida”

“Todo homem se destrói, tal qual a si mesmo lhe convém”

(Escritos amassados na gaveta do quarto de Jan-Martin, que não tem uma personalidade tão ligada a literatura, mas arriscara versos em sua ‘’poesia tanatalógica’’.)

Capítulo 1: Diplomacia

Filho de pai católico de uma linhagem francófona religiosa de longa data e mãe holandesa também erradicada nesse contexto, Jan-Martin se via preso entre ser um adepto da tradição ou desonrar sua família. Os domingos de futebol na quadrinha do bairro nunca se traduziram em dias de diversão para Jan-Martin que apenas via seus amigos da escola carregarem a bola entre os braços após a catequese e a missa.

Tal qual a inquisição impedia os ‘’hereges’’ de desvendar a anatomia e desenvolver a ciência, os pais do protagonista o impediam de encontrar a alegria e desenvolver a adolescência, e isso foi interceptado “medievalmente” quando Jan conseguiu com seu esforço secreto, ser recompensado com bolsa integral para cursar medicina.

Com 18 anos de idade, saiu de casa contra a vontade dos para se formar então no que refletia seu maior sonho: ser um doutor que pudesse continuar a desvendar e desenvolver a ciência humana, assim como faziam os iluministas; no entanto, após sua formatura, as engrenagens não rodaram conforme Jan-Martin esperava;

Assim como os dedos estalam ao forçar sua flexão contra as juntas, o relógio da parede do jovem Jan também estala indicando cada segundo desperdiçado de seu dia-a-dia; muito tempo sem fazer nada acomoda a mente, a falta de rotina inibe o cérebro de desenvolver uma tranquilidade e sensação de ‘’dever cumprido’’ e a cada dia procrastinado, Jan se tornava mais desolado e estressado.

Longe da família desde que se tornou adulto, Jan-Martin, que não mantinha contato com os pais desde então, recebeu um telefonema de sua mãe com uma notícia não muito confortante.

‘’Boa tarde querido, sei que sua vida está resolvida, e que não gostava de seu pai, mas ele não está muito bem, e tememos que não haja mais tempo para recuperação, por isso, gostaria que nos reuníssemos pelo menos uma última vez para compartilhar, talvez, os últimos momentos do Vincent...’’

Jan-Martin nunca foi bom em ser acolhedor e respondeu sem eufemismo algum:

"Posso considerar voltar para a cidade, mas não quero conversar com alguém que me deve uma infância, uma adolescência e por virtude da minha própria escolha, não fez e não fará parte da minha vida adulta”.

O que em sua concepção, foi uma excelente escolha de palavras por parte do jovem, não foi surpresa para sua mãe, que sempre soube da relação nada estreita entre os dois, e que com medo de que o filho não comparecesse, continuou o diálogo com uma proposta:

“Sei que seu pai nunca te confortou em nenhum momento, mas ele tem uma coisa que pode te interessar, e precisa que se...”— A ligação caiu nessa exata separação silábica da Sra. Louise.

No início da década de 90 as ligações domésticas ainda não tinham um padrão de qualidade, então era comum que as linhas perdessem o vínculo no meio da chamada e não funcionassem mais, ainda mais no interior do hexágono francês onde não havia serviço eficiente para resolver esse problema.

O translado de Jan seria uma viagem de Paris para a cidade de Dijon, situada a 262 quilômetros, o que não é tão simples para um jovem que ainda não tem o próprio automóvel e tem um compromisso de última hora.

“Existe uma linha de trem que leva até Dijon, que foi a que eu peguei a seis anos atrás, mas não deve estar funcionando com essa crise política que a capital está passando”.— Exclamou Jan para a parede de seu quarto, como se estivesse conversando com alguém.

O que será que minha mãe quis dizer? Como assim ele tem uma coisa que interessa a mim? Logo ele?”— Completou.

[...]

Notas finais
*Jan-Martin de Préville - se pronuncia "Ian Martan d-Previl".