O Albino
2 Capítulo 1: Vira-Casaca?
Notas iniciais
Assim, é muito importante que vocês descubram em que momento cronológico a história está se passando.
P.S.: Não se assustem, esse foi o maior capítulo de todos até agora. Os outros são todos menores. Não tenho problemas em escrever bastante, mas algumas pessoas se desanimam a ler um texto gigante, então tento me controlar ultimamente.
Elesis engatinhava no gramado em frente ao chalé, estendendo as mãozinhas para alcançar uma borboleta de cor azul-escura que passeava pelo jardim.
- Boboleta. — falou ela. Elscud riu, admirando seus cabelos vermelhos que já cresciam até a cintura. Os cabelos da família Sieghart. Agachou-se diante da filha, apontando para o horizonte à frente do chalé, onde o Sol se punha.
- Sol. — falou Elscud, em alto e bom som.
- Sol. — repetiu a filha.
E então, ela olhou para ele de uma forma diferente. Seus olhos rubros mudaram para o verde. O cabelo esbranquiçou-se.
- Titio.
"Não, não ele, ele não é nada, devolva minha filha".
- Titio. — o cabelo tornou-se branco como a neve e foi diminuindo, como se entrasse pelo couro cabeludo....
"Saia daqui, não pedi por você, nunca quis que você viesse. Suma da minha frente"
-
Titio — murmurou Neal. Em suas mãos surgiu um brilho dourado, refletindo o Sol que concedia seus últimos raios de luz a Vermécia. O menino estendeu as mãos até o rosto de Elscud e pressionou suas bochechas. Sangue jorrou. Duas esporas de ouro caíram das mãos de Neal quando o cavaleiro afastou-o, mas o menino, o desgraçado, o amaldiçoado, o albino, o atacou. Seus dentes se tornaram afiados, pelos brancos cresciam por todo seu corpo e seus braços se tornaram patas.
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHH!!! — Elscud berrou, pulando da cama onde dormira pelas últimas oito horas. O móvel rangeu agourentamente, e do outro lado do quarto ouviu-se um som de lamento.
Neal continuava lá.
Depois de um ano, o albino continuava lá.
- Droga. — murmurou Elscud, andando trôpego até o berço onde o menino lentamente acordava, espreguiçando-se como um Oak numa manhã de ressaca.
- Titio — disse o menino, ao ver o cavaleiro ao seu lado. Sentou-se no berço, um tanto pequeno para sua idade, que já beirava cinco anos e meio, e mirou-o nos olhos em silêncio. Uma mania desagradável.
Um ano viajando sem rumo por Vermécia não o havia mudado muito, excetuando-se a estatura e o cabelo, que o garoto insistira em deixar crescer. Quando Elscud aproximara-se dele numa noite nas proximidades da capital de Serdin com uma navalha, fora atacado pelo pequeno mascote birrento dele, arranjado num bosque litorâneo próximo a Eryuell. Um pequeno cogumelo vivo a quem Neal dava o nome de Pepe. Talvez por ser fácil de se pronunciar.
Viajar foi o que eles mais fizeram. Sem saber para onde levar o garoto, e sem nenhuma indicação do "amigo" que o metera naquela enrascada, Elscud decidiu vagar entre os dois reinos, nunca se aproximando da capital de Canaban, a fim de proteger Neal dos perigos que seu amigo temia que o garoto iria enfrentar. Escondiam-se em trilhas de caça e cavernas subterrâneas, vivendo da caça obtida com esforço por ele. O dinheiro providenciado para tal missão era economizado ao máximo para alguma emergência. Mas os perigos nunca vieram, e até agora tudo transcorria com tranquilidade. Elscud às vezes se perguntava se aquela ameaça misteriosa era real ou uma invenção, feita para encobrir outros objetivos com o garoto. Um dia saberia.
Agora estavam numa hospedaria perto da Praia Carry. Neal ficara febril durante a tarde, então Elscud decidiu que seria melhor dormir debaixo de um teto naquela noite, em função de uma massa de nuvens escuras que vinham do norte.
As nuvens acabaram se revelando como uma garoa passageira. Mas a conta da estalagem viria ainda assim. Elscud suspirou e avaliou a situação do garoto. Parecia bem melhor. Já se acostumara à cor de Neal, mas no primeiro dia em que viu o garoto à luz do sol, Elscud tivera um susto. Era tão branco. Sobrancelhas, cílios, os minúsculos pelos que cresciam nos braços e o cabelo liso. Tudo muito branco. Nunca viajava sob sol forte com o menino, e seguira as recomendações de um mago da Academia de Serdin sobre como evitar problemas relacionados à doença.
Mas Neal não tinha uma doença, dissera o mago. Era uma anomalia genética, presente não apenas em humanos. Apesar disso, cuidados se faziam necessários com a pele extremamente sensível do garoto. Elscud comprava cremes especiais em lojas de botânica e cobria Neal o máximo que pudesse quando viajavam pelo dia. Apesar disso, já estava acostumado a fazer sua peregrinação por Vermécia após o pôr-do-sol. Meditou um pouco sobre o que fazer naquele momento, e então decidiu que o melhor a se fazer seria alimentá-lo.
- Buscarei comida lá embaixo e já volto, tudo bem?
Neal acenou com a cabeça, parecendo animado. Sem nenhuma outra palavra, Elscud foi até sua cama, infestada de pulgas, por sinal, e tomou a adaga que estivera escondida embaixo de seu travesseiro durante a noite toda. Deixou a espada no quarto e desceu as escadas até o salão da hospedaria, trancando a porta atrás de si antes disso.
O lugar estava movimentado e alegre. Era apenas uma estalagem normal. Alguns magos da Academia Violeta exibiam truques bobos para algumas plebeias mais bobas ainda. Uma animada roda de cartas causava tumulto na outra ponta da hospedaria, mas Elscud ignorou tudo e se dirigou até o dono do lugar. Este era franzino e de cabelho grisalho, com olhos um tanto arregalados como se estivesse em constante surpresa com o que acontecia ao seu redor. Elscud pediu pela porção de peixe pela qual havia pago na noite anterior.
O homem ruborizou-se.
- Senhor, a provisão de peixes que deveria ter chegado hoje de manhã não está aqui ainda. As carroças dos pescadores não chegaram ainda. Um deles voltou dizendo que o comboio foi atacado por um grupo de harpias.
- Harpias? Roubando humanos? São apenas animais, homem. O que quer que eu faça, coma as pulgas do meu travesseiro? — exclamou Elscud, frustrando-se.
- Não... não há nada que possamos fazer. Posso reembolsá-lo, mas comida não conseguirei providenciar... Estamos lotados para o concurso da Academia Violeta...
"Malditos magos", pensou Elscud, mirando os idiotas que agora haviam ateado fogo às próprias cabeças, sorrindo indolentemente enquanto o fogo, por infelicidade, não consumia seus cabelos. Após reembolsar o dinheiro dos peixes, Elscud voltou rapidamente ao quarto e desceu outra vez, levando a espada e Neal consigo.
Uma hora depois, culpou-se pela decisão estúpida que havia tomado, rastejando pela floresta que circundava a estalagem à procura de alguma caça. Sem escolha a não ser aquela, Neal tivera de vir com ele. O garoto engatinhava ao seu lado e, com sua experiência, de forma bem mais eficiente que ele mesmo. Mas, como Elscud nada tinha de elfo ou de arqueiro, a caçada não estava dando muito certo. Até agora.
Ele agora estava parado e absolutamente quieto, observando um vulto ainda indistinto se movimentar por entre as folhas. Neal, que abençoadamente sabia ficar quieto nas horas certas e fazer o mesmo quando era tempo de falar, apenas olhou para o vulto e apontou-o discretamente para Pepe, que parecia prestes a atacar o que quer que fosse que estivesse atrás das folhas.
"É grande", pensou Elscud. Provavelmente mais carne do que eles precisavam. Se ele fosse feito de carne, obviamente. Expirando o ar para se acalmar, o cavaleiro puxou sua espada da bainha e chamou seu pequeno amigo.
Gon se aproximou, descendo da árvore onde estava observando a floresta para Elscud. O pequeno mascote, encontrado e adotado num período perigoso passado nas cavernas de Gorgos, voou até perto do chão e começou a acertá-lo com o corpo de forma frenética, chacoalhando toda sua estrutura durante o movimento. Elscud só conhecia um animal assim.
O drillmon surgiu numa pequena clareira, as pequenas asinhas mexendo-se irrequietas. A base metálica e pontiaguda do seu corpo reluziu ante uma resga de luz solar matinal.
"Drillmon? Não pode ser. Não existem drillmons em Serdin". Os monstros eram bem seletos em relação à sua moradia, e haviam escolhido para si o vale rochoso onde anos atrás Serdin e Canaban haviam assinado um juramento de não-agressão e de alianças. Antes visitado por escursões escolares, agora o Vale do Juramento era inóspito e povoado por uma horda de drillmons e, segundo alguns, harpias e parentes próximos de seu mascote. O que os lacaios de Gorgos faziam no vale era um mistério, mas interessantes e promíscuas teorias sobre as harpias rodavam pelos bares de Canaban.
-Poderia ser pior. — falou para si mesmo Elscud. Mas aquilo era muito estranho. "Eles não vivem aqui. E esse está sozinho. Fazendo o que?" O animal andava de um lado para o outro, como se esperasse por alguma coisa. Tinha um comportamento estranho para um animal.
Elscud suspirou, segurou firme sua espada, sinalizou para que Neal subisse em uma árvore sendo ele muito bom nisso e fez sinal para Gon. Flexionou os joelhos e partiu para o ataque, pulando para fora dos galhos atrás dos quais ele estava antes. Gon rodeou o animal, posicionando-se atrás dele desapercebido.
O animal fez seu costumeiro rosnado e, como se estivesse esperando por aquilo, voou na direção de Elscud, apontando a extremidade inferior do corpo ameaçadoramente para ele.
O cavaleiro esquivou-se do ataque, vibrando com a emoção da batalha. Brandiu a espada contra o flanco do Drillmon, mas esse ergueu-se no ar, deixando a lâmina chocar-se contra o metal e produzindo uma faísca amarelada. A besta inclinou a cabeça e partiu para cima de Elscud como um touro. O cavaleiro recuou, guiando o Drillmon até seu mascote, que começou a lançar sementes gosmentas e um tanto grandes contra o animal.
Feliz ao perceber que o Drillmon estava atordoado com as sementes produzidas pelo próprio estômago do Gon, que na verdade tinham a consistência e o peso de pedregulhos, Elscud brandiu a espada contra o ventre do animal, pouco acima do metal. Abaixando-se para evitar ser acertado pelas sementes, o cavaleiro perfurou a barriga da besta. Ao soltá-la, tripas amareladas jorraram para fora e foram se depositar aos seus pés.
- Nojeira. — reclamou ele, pulando para o lado e levando consigo parte dos intestinos do animal. O Drillmon caiu de bruços, olhos arregalados e agonizando.
Após o golpe de misericórdia e o lento trabalho de esfolar e
retirar as partes aprovitáveis da carne, quando tudo estava quase pronto, algo aconteceu.
Ao norte, vindo do lugar onde se situava a estalagem, um som de trombetas tomou conta da floresta, abalando o costumeiro silêncio do lugar. Elscud sobressaltou-se. Com as mãos ainda ensanguentadas, ficou em pé e assoviou, um sinal para que Neal viesse até ele. Escutou um som de galhos e folhas se mexendo e logo avistou o albino correndo até ele, o fiel mascote vindo logo atrás. As trombetas soaram novamente.
Após meditar um pouco sobre o que fazer, Elscud deixou todo o seu trabalho lá mesmo, tomou Neal pelas mãos e correu de volta para a estalagem o mais rápido que conseguia. O som estava ficando cada vez mais próximo. Irrompeu a alguns metros da hospedaria, tropeçando num dos sulcos que as pesadas carroças faziam na estrada. Olhou para a esquerda e viu uma incrível confusão.
Pessoas jorravam das portas da estalagem, desesperadas. Muitas gritavam e falavam umas com as outras, mas Elscud nada entendeu. O som de trombetas veio pela última vez muito próximo à sua direita, atrás de uma curva fechada na estrada, e então eles surgiram.
Era seu povo. Sua tribo. Sua família. Os Cavaleiros Vermelhos vinham a cavalo, com vestes e animal pintados da cor que dava o nome da organização militar. A maré vermelha e incrivelmente organizada, salpicada por estandartes da família real de Canaban veio galopando de encontro a Elscud.
Por um louco segundo ele cogitou em juntar-se a eles. Mas, quando os três toques em sequência da trombeta que significavam "Atacar" soaram, Elscud começou a correr na direção da estalagem.
Os clientes da hospedaria corriam para todos os lados, alguns se embrenhando dentro da floresta, outros usando a estrada para correr mais rápido até a cidade mais próxima e ainda haviam aqueles que moravam lá perto, e que corriam para reunir seus pertences e proteger sua família. Elscud pensou em acalmá-los, falando que a companhia não iria fazê-los mal. Mas a trombeta dizia o contrário.
E então, sem aviso ou qualquer motivo declarado, as fileiras da organização que Elscud comandara durante anos colocaram-se em posição de combate e atacaram os civis.
- Por Canaban! — urravam os soldados, vestidos em trajes totalmente vermelhos, com cabelos tingidos em honra da família mais antiga e tradicional do Reino do Leste. E, desembainhando suas espadas, puseram-se a pleno galope, apontando as lanças que tinham os estandartes de Canaban para a frente, a fim de empalar os desafiantes.
Mas não haviam desafiantes. Apenas civis que corriam desesperados em busca de abrigo. Por um instante Elscud viu o estalajadeiro dar as caras na janela da frente de seu estabelecimento, sumindo logo depois para não ser mais visto.
- Neal, suba nas minhas costas. — o garoto obedeceu rapidamente, agarrando-se firmemente a ele, os braços envolvendo seu tórax. Elscud começou a correr, dessa vez realmente rápido, tentando chegar à proteção da hospedaria antes dos Cavaleiros Vermelhos. Mas, ao ver uma grande árvore colocada na beira da estrada, ele pulou para trás dela, escondendo-se atrás de seu tronco gigantesco no momento em que a vanguarda do exército passava por eles.
Olhou para a hospedaria e viu o massacre. Os Cavaleiros Vermelhos descarregaram suas lanças nos incautos que não haviam abandonado a estrada, e que foram atropelados pela cavalaria. Espadachins vinham a pé logo depois das quatro fileiras montadas, e se espalharam pelo local para encontrar os civis que haviam se embrenhado pela mata. A maré vermelha agora não era só composta de roupas e cabelos tingidos, como era o costume da organização, mas também de sangue. Pasmo, observou um garoto ser tirado de uma árvore na qual havia subido para ser assassinado a sangue frio por um dos generais dos Cavaleiros Vermelhos, reconhecido pelas vestes tingidas num tom rubro mais escuro.
- Não — disse Elscud, atordoado. O que era aquilo? — O que vocês estão fazendo? Parem agora mesmo! Parem. PAREM!
Durante um milésimo de segundo ele considerou qual seria sua atitude. Não podia atacar seus próprios companheiros, podia? Não podia combater uma legião inteira, nem salvar todas aquelas pessoas. Mas, ignorando tudo isso e se lembrando de seus ensinamentos sobre honra e justiça, adquiridos enquanto subia nas fileiras da companhia, Elscud emergiu de trás da árvore com sua espada na mão. Sem controle sobre si, o líder perdido dos Cavaleiros Vermelhos correu até as fileiras de seus irmão, erguendo a espada e lançando seu corpo à frente, num pulo diagonal em um ângulo de 30º que o levou até diante do primeiro combatente, o qual avançava a pé até uma mãe com uma criança de colo. Ambos choravam e pediam por misericórdia.
- O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO?
O cavaleiro, com o rosto escondido sob um elmo com viseira estreita, sobressaltou-se tempo suficiente para Elscud acertá-lo com a guarda da espada e salvar a senhora prostrada e chorosa diante dele. O homem olhou com estranheza para ele, fitando seus cabelos com crescente assombro. Mas, olhando ao redor, Elscud percebeu que o que ele acabara de impedir que acontecesse acontecia em vários outros pontos da estrada, onde pessoas se separavam e corriam para dentro da floresta, perseguidas por hordas vermelhas.
Erguendo-se do chão, o cavaleiro nocauteado apontou para ele, as mãos tremendo.
- Elscud.
A sentença foi dada. Ele removeu o elmo do cavaleiro, que estava paralisado ante a visão do lendário líder dos Cavaleiros Vermelhos que estava sumido havia um ano. Mas, ao ver o cabelo rubro e liso do que se revelou um jovem esbelto e bonito, ao ver o penhor de uma jovem donzela em seu pescoço, Elscud não pode baixar os olhos até seu rosto.
- Elesis. — murmurou Elscud, seus olhos enchendo-se de lágrimas enquanto aproximava a espada do coração do jovem. — Ela está bem?
O jovem caducou por um instante. Elscud manteve os olhos em seu cabelo.
- Não. Claro que não está. Como poderia?
A espada perfurou seu coração através da armadura, atravessando todo o corpo do jovem menino.
Olhou para a hospedaria. Ao perceber que nenhum outro cavaleiro estava o perseguindo, Elscud ouviu uma grande explosão e um rugido de algo que parecia-se com um dragão. Aparentemente os magos que estavam na estalagem ofereciam resistência à maré vermelha que batia à sua porta. A distração tirara os Cavaleiros Vermelhos da corrida por civis e, pelo que Elscud ouvia, a briga estava feia dentro da hospedaria. Uma boa oportunidade para fugir. Tinha feito uma promessa.
Uma promessa sem sentido e vazia. Mas tinha ele escolha ao fazê-la?
Só mais tarde, correndo pela floresta com Neal ao seu lado e fugindo dos batedores das tropas de Canaban, foi que Elscud pensou nos cabelos vermelhos do jovem que matara. Tão vermelhos, tão vívidos. Sem qualquer sinal de outra cor em sua raiz. Pareciam até originais....
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