O Albino
3 Capítulo 2: A Grama Sortuda
Notas iniciais
No silêncio da noite, Elscud rastejava por entre plantas rasteiras e uma grama meio morta. Espessas raízes rasgavam o solo e se levantavam em direção ao céu, formando uma floresta quente e úmida que cobria a parte sudoeste de Serdin uniformemente.
À esquerda dele, banhado pelo sol, estava um acampamento militar canabaniano. Ali ficava parte do exército convocado de Canaban: fazendeiros e civis recrutados impulsoriamente para ajudar seu país em tempos de guerra. A eles faltava disciplina, mas a lealdade era firme e duradoura. Barracas desbotadas pela longa viagem desde a capital se amontoavam desordenadamente e, no topo de uma pequena colina, o pavilhão do general de campanha se erguia orgulhoso.
Atrás de Elscud, uma presença mais funesta. Neal rastejava tão bem quanto engatinhava, e se movia silenciosamente seguido de perto por Gon e Pepe, que estavam, pelas Quatro Deusas, em perfeito silêncio.
Neal tinha a cara mais abatida de todas. Após uma semana se esgueirando por entre batalhas e escaramuças que se sucediam por toda a floresta sem nome na qual estavam, o albino estava cansado e faminto. A cobertura das árvores protegia sua pele, mas ele ainda era uma criança. Elscud também se cansava. Mais rastejavam do que andavam ultimamente. E caçar era loucura, considerando todos os batedores de ambas as nações que faziam patrulhas pela floresta. Assim, o outrora nobre cavaleiro Elscud Sieghart passara a roubar comida de seus conterrâneos.
Mas perto dos outros problemas, aquilo era fácil. Com a fuga da estalagem todas as suas mudas de roupa haviam sido extraviadas, bem como os remédios e os cremes de Neal. Estavam imundos e fedidos à dias, e não havia qualquer expectativa de melhora. Quando dois elefantes se enfrentavam quem se dava mal era a grama, costumava dizer seu mestre de espadas. Ele estava certo.
Apesar de todas as dificuldades, Elscud não deixava de pensar numa coisa. Por que? Canaban e Serdin tinham uma sólida aliança forjada com dor e sofrimento. Por que estavam abrindo mão dela? Elscud não ouvira falar nada sobre um ataque de Serdin ao seu país natal, de forma que aquilo não parecia ser uma retaliação. Como o Rei Kristán havia permitido tal acontecimento? E seu leal e pacífico conselheiro, Lorde Euron?
Para Elscud as respostas eram enigmáticas. Mas poderiam ser resolvidas agora. Fez sinal para que Neal parasse. Apesar de não gostar do garoto, não podia negar que ele dava o mínimo de trabalho. Quase não falava. Era soturno, introspectivo e tímido. Talvez melhorasse quando crescesse.
Estalou os dedos.
O estalajadeiro de olhos arregalados e cabelo quase totalmente branco chamado Esrik surgiu de trás de uma árvore, espichando a cabeça e sussurrando para Elscud:
- Chegamos. Eu o trouxe até aqui, como você queria. O pagamento.
Cuidadosamente Elscud tirou de seu bolso esquerdo algumas moedas contadas previamente para aquela ocasião. Se aproximou de Esrik e as despejou em suas mãos.
- Boa sorte com sua audiência. — disse o velho debochadamente, sumindo logo depois na imensidão da floresta. O calor estava quase insuportável, e Elscud passou a mão pela testa, procurando os cabelos que caíam sobre ela e não existiam mais. Cortara-os curtos e cosera alguns pedaços de pano de sua roupa para fazer um capuz. Em suma, estava uma vergonha.
Neal olhou para Elscud, e falou bem baixinho:
- É esse o lugar certo?
- Sim. — respondeu ele, surpreso com a interatividade do menino.
- Agora você irá ficar aqui. Afaste-se um pouco do acampamento e suba o mais alto que puder em uma árvore. As pessoas raramente olham para cima. Leve Pepe com você. Entendeu?
- Sim, titio.
E, com agilidade, Neal partiu também para o meio das árvores.
"Espero que isso valha a pena". Encontrara o estalajadeiro no segundo dia de fuga, fazendo exatamente o mesmo que ele. Como todo bom dono de uma hospedaria, ele obviamente sabia o que estava acontecendo. Canaban declarara guerra à Serdin.
Apesar de isso não ser nenhuma surpresa dados os acontecimentos ocorridos na estalagem, a frase ser dita desse modo, e não ao contrário, perturbou Elscud. Algo de errado acontecia. Era seu país, seu povo. Era sua família. Precisava saber. E assim, ali estava ele.
Respirou fundo e se aproximou do acampamento. Arrastava-se pelo solo, já acostumado àquela brincadeira de esconde-esconde. Ele podia ser sim a grama em meio a uma briga de elefantes. Mas hoje ele era a grama sortuda.
Chegando lentamente ao perímetro externo do acampamento, avistou a primeira sentinela. Era um jovem alto e atlético, com o cabelo oculto por um meio-elmo. Estava sentado num pequeno banco de madeira, amolando sua espada com bastante cuidado. Elscud esperou.
O soldado terminou seu serviço. Levantou-se e seguiu para perto da floresta, embainhando sua espada orgulhosamente. Jovem tolo, pensou Elscud. Preparou-se, erguendo o corpo lentamente e flexionando os joelhos para ganhar propulsão. Quando o jovem estava no ponto exato em que a floresta começava, um som de folhas de agitando freneticamente fez-se ouvir. Quase pulando de susto, o garoto semicerrou os olhos e desembainhou a espada. Pisou dentro da floresta, desviando os pés das plantas rasteiras. Deu mais um passo. Deu outro.
Elscud pulou sobre ele, não em direção em suas pernas, mas sim ao pescoço. Envolveu-o com os braços e apertou firmemente, soltando a espada no chão. Gon desceu do galho onde estava e torpedeou o rosto do soldado com suas sementes. Atordoado, mal resistiu e logo caiu inconsciente.
O cavaleiro cumprimentou seu mascote e então pôs-se a despir o soldado. Era o jeito mais tapado de se entrar em um acampamento inimigo, mas era incrível a quantia de vezes que dava certo. Afinal, era muita gente junta para se ter um controle.
Amarrou uma corda que comprara de Esrik em uma árvore e atou o soldado a ela, enfiando um pedaço de pano em sua boca. E então, dez minutos depois de cautelosamente vestir a armadura canabaniana, que na verdade era uma colcha de retalho cinzenta e com peças de vários conjuntos diferentes, Elscud moveu-se até o acampamento. O segredo era ser calmo. Como águas paradas.
E então, discretamente e com toda a elegância, Elscud emergiu das sombras como um sentinela de Canaban em sua patrulha matinal. Dirigiu-se para o centro do acampamento resmungando algo sobre uma necessidade urgente de visitar a latrina mais próxima. Cumprimentou vários soldados, usando expressões costumeiras naquele meio para que não houvessem suspeitas. E por que haveriam? Ele, antes de tudo, servia a Canaban. Estava entre amigos.
Contornou grandes e horrendas barracas onde os soldados rasos dormiam. O movimento era intenso. Quando chegava ao centro do acampamento avistou o que queria e o que Esrik lhe contara que encontraria.
- Uma mensagem de um dos batedores do norte — falou Elscud com voz autoritária aos dois sentinelas que guardavam o acesso ao enorme pavilhão negro que dominava a parte central do acampamento. O soldado da esquerda o avaliou brevemente e então pediu suas armas.
Não iria precisar delas mesmo. Depositou a adaga e a espada com a bainha no chão ao lado do sentinela. Passou por uma pequena revista e então foi autorizado a entrar.
- Seja breve. Ele está comendo.
Elscud anuiu e adentrou o recinto.
Um enorme banquete se fazia presente no que equivalia a metade do tamanho do pavilhão inteiro. Uma enorme mesa retangular e compridíssima rangia sob o peso de pernis, patos, saladas variadas e um grande javali assado. O lugar era iluminado por velas, pois o ambiente era todo fechado. Sozinho à cabeceira oposta da mesa um homem perigosamente gordo mastigava uma maça que provavelmente estivera antes na boca do javali morto.
Vestia o negro. Apenas o negro. Observou a entrada de Elscud em silêncio, avaliando cada um de seus movimentos. Quando o cavaleiro parou à beira da mesa, um longo silêncio se passou.
- Isso são maneiras de se tratar um rei?
O rei de Canaban mordeu o último naco de sua maça e lançou o que sobrou no chão ao seu lado. Deu um forte arroto, afastou a cadeira ornamentada em que estava sentado para trás e colocou ambos os pés sobre a mesa, na perfeita visão da indolência e do orgulho. Em seus pés, brilhando através das velas, duas esporas de ouro riscavam o tampo de madeira e faziam um barulho irritante e ininterrupto.
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