O Agente Vermelho

4 Registro #16 ----- #18


Notas iniciais
Parte Final.

Registro #16: Dia 16/01 — Centro de Pesquisas Bioquímicas de São Paulo, Setor A, Sala do PhD em Epidemiologia, Douglas Hoff — 01:48h


O celular tocou novamente. Privado. Hoff sentiu as mãos trêmulas e com dificuldade atendeu a chamada, pigarreou duas vezes, tirando fleuma de sua garganta e tentando parecer calmo.


– Senhor White? — Douglas sentia as mãos tremerem com força, ele tinha a noção de que uma hora ou outra iria ter que falar com ele. Afinal todo dinheiro investido em sua pesquisa vinha dele. Ele era seu patrocinador.


– Hoff. — A voz de White era calma e grave, lembrando vagamente um Cid Moreira na juventude. — Soube dos resultados, você confirma os dados que me foram passados? O agente funcionou?


– Bem, acabei de terminar de redigir minha análise acadêmica, pode ter certeza senhor White, a substância é 100% precisa. Finalmente ela está em fase para a produção em massa. — Douglas sentia sua empolgação crescer, estava fazendo um babaca de si mesmo — Mal consigo acreditar que este dia chegou, minha mulher...


– Está morta senhor Hoff, não se esqueça disso. — disse White ríspido cortando a fala de Hoff. — Sim, acredito e sempre acreditei no seu trabalho. Sabia que o senhor era competente. Afinal, vi como você agiu quando entregamos o seu filho a você. Sabia que este ódio podia ser canalizado a algo produtivo. Parece-me que finalmente chegamos a um ponto final em nosso contrato.


– Sim. Sim senhor. Podemos nos encontrar no Café Boulevard? Na Avenida Paulista.


– Eu conheço muito bem este lugar Hoff. – White deu uma pausa considerando a ideia na opção — Amanhã no Café Boulevard? As 15h? Estará livre, certo senhor Hoff?


– Sim. — sua voz vacilou — Estarei sim.


Uma pausa longa, Hoff sentiu os incômodos que geralmente o corpo ignora tomarem conta de seu corpo, a bexiga inchada de não urinar, a respiração pesada, os piscares de olhos, as dores nos pés. White era um belo de um filha da puta.


– Ótimo. — White desligou. Douglas tirou o telefone do ouvido e ficou olhando para tela touchscreen do celular. Sua mente voltou a divagar e seus tremores cessaram. — Merda.


Registro #17: Dia 17/01 — Avenida Paulista, Café Boulevard. — 14:29h


Um sorriso nervoso aparecia e sumia de seu rosto como um tique, os dedos da mão batiam na mesa num batuque afobado e energético. A atendente ruiva veio em sua direção, os quadris balançando com o gingado arrebitado do salto-alto, sorriu nervoso novamente, pediu mais um café e não conteve os olhos de apreciar as pernas esguias da menina. A tatuagem negra de três listras, percorrendo a panturrilha. Hoff era geralmente pontual, mas chegara mais cedo dessa vez para evitar problemas, não podia chegar atrasado a White. White não admitia erros. E isso fazia seu estado ficar ainda pior. Pela sua mente acendeu um cigarro mental e tentou absorver a nicotina da calmaria em tragadas violentas, nada disso melhorava a sua reação. Era apenas um cordeiro, a espera dos lobos.


Agradeceu a ruiva que voltara com seu terceiro café expresso e dera um gole no café enquanto observava o povo a caminhar do outro lado da vitrine. O lugar era o certo. Até então tudo estava de acordo com seus planos.


Registro #18: Dia 17/01 — Avenida Paulista, Café Boulevard. — 14:59h


Como sempre sua pontualidade era digna dos padrões Ingleses dos quais descendia. O chofér de White parou seu Audi R8 em frente ao ponto de encontro, a porta da direita se abriu e uma jovem de vestes brancas saiu de dentro, a garota aprumou-se, colocando a saia curta no lugar e abriu um guarda-chuva igualmente branco. White, acompanhou a abertura do guarda-chuva colocando sua cabeça para fora. Seus cabelos loiro-aguado estava escovado para trás como um cabelo de um gangster das antigas, assim como suas vestimentas lembravam a um jovem Alfonso Capone. Ficou em pé e fitou o interior do café, os seus olhos encontraram-se com os de Hoff, apenas de relance, mas suficiente para ele notar um sorriso no rosto do homem. A moça ao lado de White tinha os seus padrões semelhantes a de uma Angel do catálogo Victoria's Secret, era um palmo maior do que White e seus olhos eram vagos, como os olhos de alguém que estava em uma overdose de cocaína. White deu um passo e a menina o seguia como sua sombra, mantendo o guarda-chuva sobre sua cabeça e sem desviar o olhar, para o povo, que sem perceber, parava para olha-la.


White aproximou devagar da porte e parou esperando que a menina abrisse a porta para ele, Hoff notou que hoje o homem usava luvas brancas. Germofóbico talvez. Hoff nunca havia visto-o cara a cara, apenas conversara por telefone no dia que encontrara seu filho, White era muito esperto para deixar ser manipulado por alguém. Era daquele tipo de pessoa que jamais agia sem planejamento, encarava cada situação como uma partida de xadrez, sempre pensando nos blocos que poderiam levar ao xeque. As visões ensanguentadas voltaram, manchando o ambiente com suas imagens póstumas, as cores vívidas e opostas ao que realmente eram. O verde vívido do sangue e a pele azulada dos corpos hematófagos que havia destruído.

O sorriso de seu filho, antes de mostrar os dentes e projetar a mandíbula em sua direção. O buraco em sua face feita com uma marreta que ele mesmo usara.


– Senhor Hoff, é um prazer conhecê-lo pessoalmente. — disse White em pé do outro lado da mesa, a menina puxou-lhe a cadeira e este sentou devagar, como se as juntas doessem aquela particular hora do dia.


– É um prazer conhecê-lo também, senhor White. — esticou a mão direita em direção ao homem. Sem resposta. Sentiu seu rosto corar ao ver as linhas da boca de White entortarem numa demonstração contida de nojo.


– Lisandra, pegue um café e um brownie para mim por favor. — ergueu a mão como se afastasse uma mosca insuportável.


– Como desejar moi khozyain White. — seu sotaque era carregado de uma pronuncia que Douglas não assimilara, polonesa? Búlgara? Ele não fazia idéia de que raio seria. A menina fez uma pequena reverência, virou nos saltos brancos e saiu a passos largos e firmes. Hoff olhou para as pernas da menina, incrivelmente brancas e sentiu suas bolas encolherem em suas calças.


– Esplendorosa, mas insuportávelmente entediante. — disse White com um tom casual em sua voz, levou ao seu bolso do paletó e tirou uma embalagem de creme. — Sabe, meninas assim são um tanto quanto baratas, você vai pra uma dessas cidades do Kosovo e apresenta uma maleta cheia de dinheiro, uma quantia insignificante na maior parte do tempo, mas para eles dinheiro é coisa rara. Sabe como é esses povos passam parte de suas vidas racionando vodca para ver quem se esquenta mais no inverno. Daí, ele te mostram suas filhas, você escolhe a dedo a mais bonitinha, não importa idade, a partir daquele momento ela é sua. E assim eles tocam a vida deles. Vendendo suas crianças. Triste, não? — White olhou para o rosto imóvel de Hoff — É a vida, mas estamos aqui a negócios, não é? Vamos me diga o que conseguiu.


– Pensei que tivesse lido o arquivo que lhe enviei hoje de madrugada...


– Não, não, não, não! — White riu, enquanto tirava uma de suas luvas — O importante não é a redaçãozinha sua, seu artigo acadêmico, não! Eu não sou a porra do conselho ciência, não estou aqui para lhe avaliar e lhe dar um Nobel da Ciência. Estou aqui para saber como é a experiência a partir do seu ponto de vista Hoff.


– Eu... Bem. Foi horrendo, acho que foi a coisa mais brutal que já vi acontecer a algum ser. Diferente dos filmes, diferente do que já fiz. Ele praticamente virou ao avesso, havia sangue para todo lado, seus olhos estouraram e sua boca puxava o ar, mas o pior foi o guincho que ele fez, me parecia um animal no abate. -



– Entendo, foi realmente cruel então. Mas não pior do que você já fez Hoff. — White abaixou a cabeça e respirou fundo — Bem, trabalharemos para que nossos filhos não sofram tanto. Não que você se importe, seu drama é muito fraco, você é um péssimo ator Douglas Hoff — Hoff sentiu o rosto avermelhar se virou o rosto para olhar a movimentação do outro lado e se imaginou estando lá, vivendo sua vida normalmente sem estas loucuras, só ele e seus mosquitos. White retirou a luva e colocou no colo. A mão desnuda de White estava coberta de diversas erupções cutâneas que percorriam pelo topo da mão, terminando na pele enrugada e descolorida dos dedos. O homem sorriu e abrindo a embalagem de creme começou a espalhar uma substância avermelhada.


– Isso Hoff, isso é a nossa maldição. Por mais que queira, dinheiro não compra longevidade. Cirurgias e transplantes prolongam a vida até certo ponto, mas o corpo cansa, o organismo não suporta envelhecer, o cérebro que é bom apodrece, definha. Já esses cretinos possuem de natureza. Longevidade, mas por mais que se alimente o sol machuca, talvez como um albino sofre a exposição do sol, mas dói. Se você não se alimenta, arde tanto quanto uma medusa enfiada no seu rabo, como se tivesse formigas comendo você por dentro. E por fim te mata.

Mas mesmo assim não lhe dá tanta liberdade. Você pode ser feliz na sua pseudoimortalidade, mas porrinhas simples como a luz do sol te faz ardem em chamas, e agora nosso agente vermelho vai por um controle a tudo isso.


– Você quer dizer...


– Hoff, é lógico que sou um deles. Olha bem pra mim, sou rico, influente. Pra onde eu for, pernas abrem com a mesma facilidade de abrir os olhos. — Hoff sorriu e naquele momento Douglas se sentiu um pouco feliz, imaginava que tinha feito um pacto com um demônio, mas não com o próprio diabo. — Certo, pela feição de estupefação que demonstra, aposto que deve estar passando pela sua cachola do porque de tudo isso. Do porque que eu, um... como é que você fala? Hematófago, certo? Bem, porque um hematófago como eu quer a destruição de nossa raça.


Estava tudo dando certo.


Hoff olhou para os lados, nenhuma das pessoas se importava com o que White falava, sua voz era de fato alta demais para o local, todos continuavam suas vidas, como se nunca houvesse em primeiro lugar um Senhor White e um velho Hoff sentados ali.


"Seu rosto está avermelhando."


– Não se preocupe, eles são da minha estirpe. Aliás. Falando em estirpe, este é um dos motivos do porque que pedi para você desenvolver o agente vermelho. Olha, enquanto o governo recebe dinheiro suficiente para fazê-los fechar os olhos e abrir as portas do departamento de pesquisa, o povo pensa que o agente vermelho é um antibactericida, ou alguma coisa do gênero. O ponto é, Hoff, o fato do mundo estar uma merda todos nós já sabemos, agora o que acontece no submundo, ai sim a coisa se torna mais complicada. -


White tirou a outra luva de sua mão, os dedos longos e deformados terminavam em unhas compridas, mal cuidadas e negras. Passou o indicador sobre a superfície amarelada da mesa, deixando uma linha negra e pegajosa nela.


– Imagine essa linha sendo a linha que separa o conhecimento, nós estamos deste lado. — White fez um xis no lado direito da linha — Nós temos discernimento de quando atravessar essa linha. Nós somos criaturas, digamos, de extremo auto controle. Porém, é fácil sair por ai num frenesi de sangue, o problema maior não é a mídia, isso nós damos conta, apagamos pessoas escandalosas, mexemos em livros, manipulamos a mídia impressa e visual. O perigo real nasce nas novas crianças. Assim como seu filho, ele foi um erro. -


Hoff sentiu vontade naquele momento de enfiar os dedos nos olhos do homem, apertá-los com pressão até eles fazerem um barulho de estouro oco, como pipocas na panela. Ele sabia que o tema era frágil, ele sabia da desvantagem de enfrentar um deles no dia, ele sabia que a idade do monstro também influenciava nas suas capacidades fisiológicas. Segurou forte na cadeira para não saltar em White. White parou, tirou seus óculos e ficou o olhar nos olhos nervosos de Hoff, ele via as veias de seus olhos dilatando, o suor de localizando nas rugas da testa, era óbvio que em diante Hoff iria ficar cada vez mais nervoso. E ele iria se divertir com isso.


"Seus olhos estão dilatando."


– O perigo dessas pequenas pestes lançadas por ai, são que não temos controle de até onde eles irão transmitir nossa benção. — Hoff entortou a boca ao ouvir a palavra benção. — São como os mosquitos que você estuda, você sabe dos focos de ação, sabe das maneiras de prevenir, mas como fazer isso com uma de nossas crias quando não podemos divulgar uma caça de sangue? — White inclinou-se na cadeira e levantou a mão direita para o alto, segurando a xicara de café que Lisandra acabara de trazer. — Muito obrigado minha pequena. — A moça sorrira, colocando o brownie na mesa e fizera uma reverencia pedindo licença. Seus olhos ainda eram vagos e sem vida. — Ah, onde estávamos mesmo? — White tomou um gole do café e seus olhos fecharam numa reação de desgosto – Amargo. — disse dando pequenas tossidas — Mas está bom. Fazia tempo que não tomava um expresso assim, tem certeza que não quer um? Aliás, nem te perguntei, quer um café? É por minha conta. -


– Quero ir embora daqui. — disse Hoff.


– Calma, Calma, ainda não, tenho mais a dizer. Fazia tempo que não tinha um tête-à-tête com alguém, assim de sua espécie. Digamos, sem ele estar morto em seguida. — White sorriu. Hoff sentiu um calafrio passar pela sua coluna numa descarga elétrica intensa, ele estava fuçando na sua mente. Tinha que se acalmar, tinha que tentar virar o jogo.


– Então qual é o significado do Agente vermelho? — perguntou Hoff.


– Uhm — White dera uma garfada no Brownie, levando um pedaço grande demais para sua boca pequena, fendas abriram em seu rosto e sua boca cresceu, mostrando os dentes afiados e projetando devagar a mandíbula para frente. — Isso aqui está muito bom. Uhum. Está. — sua voz era profunda e grave, como se o pouco ar que passava pela sua garganta era tão impuro quanto o sangue que corria pelo seu corpo. — Bem, qual seria o local mais provável para você se esconder de manhã, já que não pode mais ficar em casa? Um local que tenha diversas válvulas de escape para caso algo der errado e que ao mesmo tempo seja de fácil acesso?


"Seu rosto começa a suar, sua gravata aperta o peito, precisa respirar muito fundo."


– Os esgotos? Por isso a questão dos ratos?


– Correto novamente senhor Hoff, viu são pessoas como você que o mundo precisa. Os esgotos de nossas cidades são lugares onde há maior concentração de ratos e como você já estudou de nossa anatomia, nós podemos comer normalmente, desde que uma hora ou outra abastecemos nossa necessidade biológica da troca de sangue. E ratos são uma deliciosa fonte de energia, embora seja estranho eu dizer isso. Nós criamos uma arma, melhor nós criamos uma chave para um mundo melhor. – White colocou o garfo no pratinho e abrindo as mãos num gesto amistoso como um Don Italiano ao receber seus Capos disse:


– Hoff saiba que sua notoriedade é tanta, que nós do concelho lhe oferecemos uma oportunidade para juntar-se a nós. Esqueça-se de toda a Vendeta que causara a si, correndo atrás de nossas crianças anos atrás, deu um trabalho demasiado árduo, mas consegui apagar a chama da discórdia em nosso conselho. – White abriu um sorriso grotesco, os dentes grades naquela bocarra escancarada trazia repulsa ao invés de amistosidade. — Poderá tornar-se um de nossos associados, um de nossos lacaios, usufruindo de nosso poder. O que me diz?


– Não. — O Café parou, rostos se voltaram ao homem que dissera não a White. Sentiu-se hostilizado naquele momento por pessoas que dariam de tudo para poder ter o privilégio dele. Ter o privilégio de falar com White, ter o privilégio de receber a dádiva de ser seu lacaio. Ter o privilégio de desfrutar das maravilhas do outro mundo. O olhar destrutivos daqueles que desejavam ter um chance única daquelas. Um silêncio desconfortável tomou conta do café, apenas os barulhos das maquinas de café e do som do trânsito abafado pelas vitrines preenchiam o espaço. Nenhuma respiração pesada, nenhum arrastar de cadeiras. Apenas o olhar inquisitivo da estirpe de White. — Não. — continuou Hoff, forçando a si a terminar o que ia falar. — Não aceito, jamais deixarei minha humanidade para me tornar um monstro como você White. Quero somente o que nos fora combinado.


– Você tem noção do que você faz, não é? — O rosto de White e se contrai, suas feições adquirem uma ferocidade animalesca, a boca partindo-se na metade expondo os dentes e mostrando a língua bifurcada, como dois tentáculos de músculo balançando dentro da bocarra.

Uma das principais características deles. — Você realmente vai recusar nossa proposta?


– Absolutamente, nunca estive tão certo na minha vida. Me dê a minha fita e terminamos aqui nossa aliança.


"Xeque."


– Muito bem. — White fechou a boca, um liquido preto escorria das fendas que abriram em sua face. Os olhos dilatados lembravam os de um tubarão branco, dilatados e impiscáveis. — Reclinou-se e cruzou os braços sobre o peito estufado. — Lisandra, venha, traga-lhe o pacote.


A menina caminhou na direção dos dois com os passos mais firmes e a pele de seu rosto e pernas estava numa cor avermelhada, o local estava refrigerado o suficiente para parecer um necrotério, mas mesmo assim parecia que estava sobre sol escaldante. Lisandra tirou do bolso do paletó feminino um pequeno pacote amarelo, envolto em barbante. Jogou no colo de Hoff e chiou como uma cobra, seus olhos tinham ganhado um brilho doentio.

– Péssima escolha lixo, você vai se arrepender.


Hoff abriu o pacote lentamente, as mãos vacilantes tentavam não derrubar o conteúdo no chão. Tirou de dentro uma pequena fita D-Vhs com apenas um adesivo escrito 2008. Segurou com força a embalagem da fita e sentiu seus olhos marejarem, finalmente depois de tanto tempo tinha uma recordação do que realmente acontecera aquele dia há quatro anos atrás. E não apenas memórias desconexas de um homem que perdera os dois amores de sua vida. Um cubo de Rubik, cujas formas tridimensionais formavam uma figura maior. A verdade que fora escondida, pela da angústia da perda e da inconformidade da dor. Pela primeira vez em quatro anos Hoff sorrira, não apenas um sorriso social vazio, mas um sorriso de felicidade.

Finalmente sentia os grilhões caindo ao seus pés.


"A dor de cabeça permanece, seus músculos enrijecem, os olhos, sem conseguir se focar em nada, latejam. A dor de cabeça instiga seus instintos."


White inclinou para frente e abriu a boca, a mandíbula projetara-se para frente e suas línguas projetaram como dois tentáculos musculosos. Hoff não movera nenhum centímetro, enquanto a língua áspera lambia sua face. Apenas fitava as íris dilatadas com a mesma frieza que olhava seus experimentos.


– Você tem noção que a partir do momento que sair dessa loja, você está morto não é?


– Eu já tenho o que queria. Você também tem o que quer, aqui acaba nossa parceria White. Você não pode me matar aqui, não em público. Aliás, eu criei o agente vermelho, você não pode me matar.


– O que lhe faz imaginar que isto me faria alguma diferença? Todos aqui neste recinto são nossos irmãos, são lacaios, são pessoas de nossa estirpe. É só eu levantar meu dedo, que eles partem para cima de você e te deixam em pedaços. — Hoff sentiu a tensão do ambiente aumentar a cada palavra vociferada pelo vampiro, afiada e estridente como uma unha na lousa. Dois homens se levantaram da mesa e colocaram as mãos no bolso, seus olhos estavam injetados de sangue. Furiosos, pareciam vê-lo como algo que precisava morrer e não mais somente como alimento.

– Pensa que essa tentativa de me intimidar funciona? Eu poderia matá-lo agora e jogar suas tripas na rua, meu dinheiro pode pagar os melhores advogados do mundo, pode pagar os melhores juízes, pode pagar os melhores repórteres. Eu posso entrar aqui uma vítima de um cientista maluco, um terrorista bioquímico e terminar como um mártir.

Vai tentar a sorte Douglas? — White sorri, sua boca novamente distorce num sorriso maior que o próprio rosto. Havia dentes demais naquela boca. — Eu poderia arrancar seus olhos agora e chupá-los. Gosto de fazer isso Hoff. Gosto muito.


"Suas capacidades cognitivas começam a se fixar em apenas uma coisa. Violência..."


Douglas levanta a mala prateada e coloca-a em cima da mesa, os olhares ao seu redor se fixam em seu movimento, esperando qualquer movimentação em falso, qualquer coisa que pudesse justificar em destrui-lo. Seus dedos antes trêmulos, encontravam-se tensos como os de um cirurgião. Respirou fundo, enquanto abria a maleta e mostrava o conteúdo dela.


Uma grande esfera vermelha estava depositada num compartimento de espuma negra, tubos de ensaio finos percorriam as laterais da mala.


– Você tem razão. Eu mesmo criei a minha própria sepultura, não é? Você não precisa mais de mim White. — suspirou — Você já tem a fórmula, você já tem o controle da distribuição e manufatura do agente. Você não precisa de mim mais para nada — apontou para a maleta — acoplado ao compartimento de contenção hidrofóbico do agente, existe um pequeno destilador onde você pode controlar a quantidade de agente que será eliminado em certa área. Espero que tenha um bom proveito do agente, senhor White. — Levantou-se devagar, pegou a fita e colocou em seu bolso ignorando os chiados de ódio vindo dos hematófagos e dos lacaios na sala. Caminhou até a porta sendo seguido por Lisandra, ouvindo os chiados de sua garganta e cuspidas de palavrões em línguas antigas.


– Irá mesmo rejeitar nossa proposta senhor Hoff? Você sabe que existe mais cópias desse vídeo em um servidor, certo? Se escolher sair por esta porta, uma ligação e a internet estará vendo a nova sensação do momento. O pai assassino. — White não virou, continuou olhando o composto vermelho fluindo pelo compartimento, admirado com a criação. — Porém, caso aceite minha ultima proposta, posso fazer tudo isso apagar com uma ligação.


– E esta seria? — Hoff parou na porta semi-aberta, sua mão direita segurando a maçaneta de alumínio.


– Você poderá conhecer nosso mestre. — White virou, veias negras e azuladas pulavam em sua face pálida, contia seu rosto tentando voltar ao estado normal, mas o que conseguia era parecer ainda mais doentio do que sua forma verdadeira. — Poderá ser um de nós. Feche isso ai, venha para cá. -


Hoff fechou os olhos ponderando a opção. Uma oportunidade única. E logo lembrou da face de seu filho, implorando por perdão antes de tentar arrancar-lhe um pedaço do pescoço.


– Você não me mataria White, sou muito valioso para morrer, porém prefiro aproveitar o pôr-do-sol, do que viver o resto de minha existência fugindo dele. — saiu pela porta ouvindo os gritos e xingamentos débeis dos lacaios.


"Xeque-mate. Eu ganho."