O Agente Vermelho
5 Epilogo: Registro #19
Registro #19: Dia 17/01 — Avenida Paulista, Café Boulevard. — 15:25h
Hoff assistia com um sorriso no rosto sua criação em efeito devastador. O desespero dos lacaios ao perceberem que as portas do café estavam lacradas, os vidros reforçados nem sequer moviam aos seus golpes. O ar do local se avermelhava, assim como o sangue daqueles que estavam no estabelecimento, jorros de sangue manchavam as paredes conforme os hematófagos entravam em um frenesi doentio. O agente vermelho fazia novas vítimas, limpava o mundo da praga da doença hematófaga. Os gritos de pavor dos lacaios, tendo seus membros humanos dilacerados e os grunhidos sobre-humanos dos vampiros ao subir em seus corpos e arrancarem pedaços de suas jugulares com mordidas, eram abafados pelas densas camadas de chumbo nas paredes e vidro balístico das janelas. As mesas revirando, o agente vermelho modificando a estrutura muscular dos vampiros, transformando-a em gelatina.
Um dos lacaios pega uma arma e atira em direção a White, que inclina o corpo para trás e parte da carne de seu braço atingido cai no chão numa poça gordurosa. Douglas sentia-se feliz. Algumas pessoas paravam para assistir a carnificina que ocorria do outro lado da vitrine. Alguns filmavam com a câmera de seus celulares e outros apontavam para a cena incrédulos. Uma van preta parou logo atrás de Hoff, suas portas largas "Cine Califórnia, dando vida a universos." deslizaram e um grupo de pessoas, vestidos como se fizessem parte de um staff de uma produção cinematográfica, logo abordava os pedestres, para que não se preocupassem, alegando que tudo fazia parte de uma filmagem para um novo longa-metragem de Terror.
Embora fosse o filme de terror mais real que Douglas já presenciara na vida.
Tudo havia ocorrido conforme o planejado, desde a morte de seu filho havia planejado essa vingança. Pegou o celular e discou o primeiro número que havia em sua lista. O celular tocou e a voz de uma mulher respondera antes do terceiro toque.
– Hoff? Pensávamos que havia nos deixado para trás.
– Porquê?
– Quando o alvo branco sugeriu a aliança com você, perdemos as esperanças. Você por um segundo nos fez pensar na derrota, sabe, por tudo por água a baixo. — a mulher do outro lado da linha riu — Você sabia tudo sobre nós, poderia ter nos traído e nós estaríamos assinando nosso atestado de óbito agora.
– Suas esperanças eram poucas então. — Hoff olhou para os prédios da Avenida Paulista, o sol da tarde refletindo em suas janelas e sorriu. — Continue desconfiada Samanta, é melhor assim. White confiou em mim. E olha no que deu. — Ambos riram.
– Você tem razão Hoff. Não podemos confiar nem em nós mesmos. — Samanta aproximou sua boca ao receptor e perguntou num tom mais casual, quase terno. — Hoff, agradecemos muito sua cooperação. Nós conseguimos dar um grande passo para conter esta ameaça do vampirismo, graças a sua força de vontade. Sua idéia de transformar, através de pequenas reformas sazonais um café frequentado por hematófagos em uma cela, foi maravilhosa.
- Obrigado Sammy. — Hoff suspirou — Tudo que eu quero agora é poder descansar. Aliás foi sua a idéia de fazer o pessoal vir para cá como se fosse um bando de funcionários de uma empresa cinematográfica? Sério, se isso fosse hollywood até que funcionaria, mas isso aqui é Brasil.
- Olha Doug, é complicado, não tivemos tanto tempo para instalar o sistema de mudança de pelicula da vitrine, como você nos havia demonstrado. A tecnologia de colorificação para transformar o painel inteiro em preto, mas visivelmente clean para o lado de dentro era caro demais. Então um de nossos idealizadores teve essa idéia.
- No mínimo ridícula.
- Ridícula, mas pelo tempo que tivemos, e pelo grau de periculosidade da ação, não podíamos tirar todas as pessoas da rua e colocar figurantes. Isso aqui é a Paulista. E não uma produção de Hollywood como você mesmo disse. E cá entre nós, brasileiro é bicho burro. -
Hoff observara a reação do povo, observando aquela cena, o pessoal bloqueando a passagem, alguns com um celular tentando filmar a cena gore com um sorriso de "irei postar isso aqui no meu canal do YouTube". Riu alto virando-se para a rua, ela tinha toda a razão.
– Hoff. Agora que acabou, o que pretende fazer da vida? Você sabe que seu nome agora está marcado pela Legião. Sinto dizer que não mais vai conseguir viver sua vida como antes, certo? — Hoff olhou para o bolso e segurou com força a fita que havia dentro dela.
– Eu não tenho mais minha vida como antes desde a morte da Renata. O que eu quero mais é somente a verdade agora. Obrigado por tudo Sammy. — Hoff desligou o celular e fechou os olhos, depois de anos nutrindo um ódio por aquela síndrome que tirara sua mulher e filho, ter sua vingança era algo diferente do que imaginava.
Estava ciente que jamais os teria de volta, jamais sua vida seria a mesma coisa. Mas nada havia o preparado para aquilo, a sensação de vazio absoluto, a sensação de estar sem rumo e sem propósito. Sentiu as pernas bambearem e sua visão embaçou. Imaginou-se como um prisioneiro que após anos dentro de sua cela, indiciado por um crime que nunca cometeu, ser libertado em plena selva de pedra. Sem rumo, apenas um filhote a caminhar pelo mundo livre.
Olhou para trás, observando atrás da parede humana que bloqueava a visão, o corpo moribundo de White, rondando junto com o de Lisandra, enquanto os dois apodreciam rapidamente. Voltou a olhar para frente, para o painel do Bradesco e com coragem dera o primeiro passo, vacilante em direção à liberdade.
A mão apertava a fita e em sua mente, repetia o mantra várias e várias vezes:
"A verdade, isso é só o que importa."
Arthur Passos --- 14/02/2012
Notas finais
Espero que tenham gostado de meu novo conto.
Aguardo seus reviews.
--- Arth
Fale com o autor