O Agente Vermelho
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Notas iniciais
Registro #14: Dia 15/01 — Centro de Pesquisas Bioquímicas de São Paulo, Setor A, Sala do PhD em Epidemiologia, Douglas Hoff — 21:41h
– Conforme o esperado o experimento C-05b, desenvolveu as características esperadas para um hematófago de seu nível. Devido a exposição frequente ao agente vermelho, seguintes características puderam ser notadas:
– A diminuição da razão e a transformação da identidade, para um padrão mais animalesco. Fato que precisava ser confirmado ainda, já que os dados presentes para a presença de uma besta interior eram insuficientes.
– A fome e a líbido atiçada, características de uma hematófago, tornam-se mais presentes e estimuladas pelo agente. Tornando esta, uma forma simples, de se caracterizar e distinguir um hematófago em meio a pessoas não-infectadas.
– Há a perda da comunicação como meio normal, havendo uma influência, talvez do hospede da doença com o primeiro infeccioso, através da mudança da estrutra de seus genes, onde o hospedeiro recebe informações da pessoa que lhe transmitiu a doença. Alguns chegam a apresentar diálogo em línguas estrangeiras, geralmente dos países Europeus antigos e Asiáticos.
– Foi notado que em ratos, o agente vermelho desativa as áreas responsáveis do cérebro por emitir sensações de medo e instigar a curiosidade. No entanto não foram conclusivas as experiências com outros animais como gatos, cachorros e seres humanos.
Alguns seres humanos tiveram reações colaterais ao agente, quando este injetado em seu organismo em escalas de 10 à 20mg, sendo algumas com sequelas graves e irreversíveis. Sendo assim inviabilizado seu o uso para possível imunidade.
– Quando exposto a níveis extremos do agente vermelho diretamente em seu organismo, o Hematófago responde as ações normais de um predador até o ponto em que seu sistema é combatido pelo agente. Os resultados são variáveis, indo de uma morte lenta e agonizante, a uma rápida e suja.
– Os hematófagos apresentam uma fome atiçada quando expostos ao agente, não apresentando nenhuma forma de rejeição aos alimentos que contém esta substância misturada. Exemplos:
Bolsas de Sangue, ratos, grãos e líquidos. E pelo contrário apresentando uma certa instiga para se alimentar.
[...]
Registro #15: Dia 16/01 — Centro de Pesquisas Bioquímicas de São Paulo, Setor A, Sala do PhD em Epidemiologia, Douglas Hoff — 01:26h
Ele havia terminado. Suas mãos, cansadas de redigir o texto acadêmico num ritmo frenético, agora repousavam sobre o teclado de seu macbook. Sua respiração era lenta e profunda, embora seu coração batesse cada vez mais num compasso frenético de antecipação. Manchas coloridas brilhavam em seus olhos, pulsando e deslizando pela íris numa valsa constante. Sorriu, finalmente após meses de árduo trabalho havia terminado o que começara naquela noite de Setembro. Toda a sua fúria, seu ódio e angústia agora poderiam deixar de consumir aquele corpo e mente, sua mente se esvaziava numa calma que não estava acostumado a sentir há anos.
Seus olhos deslizaram devagar para a janela, olhando através da janela de 14 milímetros de película balística para um mundo escuro e selvagem. Por um momento, sentado naquela pequena sala, onde passara anos de sua vida trabalhando, deixando de viver sua vida devido ao medo, teve a sensação de voltar tomar a rédeas de seu futuro. Sabia que mesmo sendo Brasileiro, sendo apenas um cientista, havia puxado a barreira do conhecimento adiante. Finalmente entendera o significado ao que Neil Armstrong quis dizer quando pisou pela primeira vez na lua. Uma pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a humanidade. Ou algo assim do gênero.
Assistiu o ritmo frenético das ruas da metrópole, a vida noturna pulsar por entre correntes elétricas e luzes de neon, táxis e prostitutas em cada esquina. A vida da metrópole que possui parte de sua vitalidade sugada por aqueles que se denominam Pais da Noite. Hematófagos. Infecciosos. Vampiros.
Não conseguia tirar o sorriso de seu rosto, ele havia acendido uma luz no fim do túnel. Uma chama de esperança para a humanidade. O agente vermelho era a criação suprema da humanidade. Imaginou um mundo onde andar a noite seria normal, pessoas deixariam de sumir sem deixar rastros, um mundo onde a noite seria segura, um mundo que antes era utópico. Era a hora da humanidade contra-atacar. Era a sua hora. Salvou o arquivo no macbook e fechou-o, a tela mudou para o desktop com a foto de seu filho e sua ex-mulher. Ambos infectados.
Registro #{*'%0]: Quatro anos atrás — Douglas Hoff
Hoff estava cansado, trabalhava na contenção de um surto de dengue hemorrágica na zona leste de São Paulo, passando horas em frente do computador e nos laboratórios. Sua mente naquele momento estava cansada, a massa cinzenta havia endurecido e virado concreto, sua cabeça capengava para frente e para trás, num esforço hercúleo para manter-se lúcido, pilhas de copos de café do Starkbucks empilhavam-se ao lado, numa pirâmide vermelha e verde. O riff introdutório de Sweet Child o' Mine preencheu a sala de análises, pescoços viraram e olhares acusatórios perfuraram-no. Hoff pediu desculpas e ele levantou-se para ir para o corredor. Por um momento estava grato de receber uma ligação.
– Hoff. — sua garganta estava dolorida e sua voz soara arrastada.
– Pai, me desculpe. — a voz estava baixa, quase como um sussurro — Desculpe... Mesmo. Eu não queria. -
– O que? Filho? — ouviu um choramingo fraco e uma risada ao fundo. — O que houve filho?!
A ligação ficou muda, deixando apenas o barulho de estática invadir os ouvidos de Hoff. Suas pernas perderam a força e o cansaço mental deslizara pelas pernas, mudando sua consistência para a mesma de um pudim de leite. Tentou outras vezes ligar para o mesmo número e nenhuma das vezes conseguira alguma resposta, a tela do celular acusava desvio de chamada interrompida. Um vestígio fraco de adrenalina começou a correr pelo seu corpo, instigando o cérebro dar uma lubrificada nas engrenagens enferrujadas. A partir daquele momento seu mundo virara um caos. Visões ensanguentadas de um mundo bizarro tornaram-se parte de seu cotidiano, sua mulher havia sido assassinada, sua cabeça arrancada do corpo e jogada no meio da cozinha, seu corpo havia sido violado de maneiras tão absurdas que um dos médicos legistas vomitara ao ver a obra de arte bizarra. Os peritos haviam determinado que seu filho havia a matado, deixando tantas provas como um cachorro que rola no chão.
Meses se passaram em claro, chorando, imerso em névoas de desespero e dor. Estudou os motivos daquele assassinato, cada linha que lia, cada palavras que ouvia, cada informação que obtia, sentia seu corpo chafurdar numa lama pegajosa e sentia seu fôlego se perdendo. Sabia que dali em diante o mundo que conhecia não mais fazia sentido. Verdades antes irreveladas, vinham a tona nas entrelinhas de manuscritos, nos olhos famintos dos frequentadores de nightclubs, nas batidas drum'n bass, nos fluxos econômicos, na televisão, nos jornais, no apartamento ao lado. Eles estavam em todo lugar. Então deixou sua paranoia dominar a alma. Sentia sua indignação ferver o sangue, seu ódio eclodir em sua razão, até o momento que derramara o sangue do primeiro, continuou assim, numa cruzada pessoal para enfrentar a frustração, até que recebera a ligação que mudara sua vida dali em diante. Uma ligação de seu filho, ele havia sido preso e queria vê-lo e pedir desculpas. Hoff sorriu alegre com a noticia de poder ver seu filho novamente.
Mas ele não tinha mais intenções de desculpar.
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