O Agente Vermelho
2 Registro #08 ---- #13
Notas iniciais
Registro #08: Dia 15/01 — Centro de Pesquisas Bioquímicas de São Paulo, Setor C, Área 05 — 18:32h
DH: Senhor Douglas, como você se sente?
MP: Fedido.
DH: Alguma dor em seu corpo? Sente algum mal-estar?
MP: Uma dor de cabeça dos infernos, eu acho que foi a porcaria dos camarões. Devo ser alérgico a esta merda. Não nasci para ser riquinho, nasci para comer no Bom Prato mesmo.
DH: *risadas ao fundo* Senhor. *Douglas se aproxima para abafar o som das risadas do pessoal* Preciso que o senhor levante-se novamente a marca no chão e repita o procedimento anterior.
MP: Não. *olha pra ventilação pequena* Porra, que cheiro de sangue desgraçado. Estas merdas não funcionam não?
DH: Senhor, eu garanto que estão em perfeito funcionamento. Peço novamente que se levante, deixe o prato de comida na passagem e vá até o ponto no chão.
MP: Que ponto? Não tem ponto nenhum no chão, apenas manchas.
DH: Senhor, apenas fique em pé de frente ao nosso painel.
MP: * Levanta-se rápido e deixa o prato de comida na passagem de mantimentos, a micro câmera interna o capta olhando para dentro dela, no intuito de observar alguma coisa. Após desistir, caminha até um ponto específico perto da marca, seu caminhar é mais firme e rígido.* Aqui está bom?
DH: Ótimo, agora...
MP: *levanta os braços e os desce com rapidez brusca*
DH: Certo, muito obrigado senhor Pereira.
MP: Marcos.
DH: *pigarreia, surpreso com a mudança de personalidade do indivíduo* Certo, me diga o que vê agora. *Douglas aperta o botão vermelho novamente, as luzes diminuem de intensidade e uma imagem de um exame de roschach aparece.
MP: Um borrão preto. *a imagem muda* Uma buceta preta. *imagem muda* Um preto sorridente. *imagem muda para a foto de um homem de 15 anos alto, uma menina de 14 anos encontra-se aninhada debaixo de seu braço esquerdo. Ambos sorriem. Calado, Marcos volta para o seu local seguro e continua a murmurar, as luzes se acendem e este rosna.*
Registro #08: Dia 15/01 — Centro de Pesquisas Bioquímicas de São Paulo, Setor C, Área 05 — 18:45h
– Individuo apresenta sinais de alteração nos padrões psicológicos, demonstrando dificuldade de comunicação e mudança de humor. Ondas cerebrais disformes e irregulares.
Aumento exponencial de temperatura na área torácica, atingindo padrões sobre-humanos de 52°C, como previsto em outros experimentos, vide registros C-04h e C-12a. Visão alterada podendo enxergar manchas de sangue, depois de limpas. Olfato registra cheiro de sangue mesmo com a ação do desodorizador composto na substância vermelha. O número de bactérias contidas em sua saliva, colhidas em amostra às 18:34h, aumentaram em 250%, confirmando a possibilidade infecciosa do sujeito, conforme o esperado.
Aumentar o nível da substância vermelha no ar da sala, de 1mg/cm² para 3mg/cm².
Registro #09: Dia 15/01 — Centro de Pesquisas Bioquímicas de São Paulo, Setor C, Área 05 — 19:03h
– Sujeito apresenta mudança nas características de seu sistema, seu corpo tende a ficar arqueado e sua respiração é quase inexistente. Nossos microfones captam sons guturais gorgolejantes, ocorre uma repetição constante em sua fala, um dialeto primitivo. Sujeito começa a ter seu calor na área do tórax transferida para a área craniana, termostatos das câmeras infravermelhas marcam oscilantes 51-52°C. Seus olhos apresentam uma fase de movimentação similar ao REM, porém em estado de alerta consciente. Surge uma tendência à autoflagelação dos braços e peito.
Registro #10: Dia 15/01 — Centro de Pesquisas Bioquímicas de São Paulo, Setor C, Área 05 — 19:07h
DH: Marcos pode me ouvir?
MP: *sussurros e resmungos*
DH: Marcos? Pode me ouvir?
MP: Cala a boca, seu filha da puta! *Marcos salta como um felino em direção ao painel, seus punhos ensanguentados deixam marcas na película primária. Douglas dá um passo para trás, mesmo anos trabalhando com estes desgraçados, sua reação era sempre a mesma. Fugir.* Porque não vem aqui e dá um beijo na minha bunda, hein? Hahahaha!
DH: Senhor Marcos, peço para se afastar do painel.
MP: Senhor Marcos, Senhor Marcos *o homem faz uma voz de deboche, imitando um gay escrachado com as mãos desmunhecadas* Pode parar com essa merda toda, eu quero ir embora! *dá um murro no painel* Dessa! *dá outro murro* PORRA! *Marcos dá uma cabeçada e afasta-se gritando, no painel as marcas sangrentas de seus ataques escorrem pela camada protetora*.
DH: Por favor, já que está em pé, peço para o que diga o que vê.
MP: Vou dizer o que sua mãe gosta que eu faça, quando visito ela de noite e... *As luzes se apagam e o homem para ao ver a imagem refletida no painel. Uma mulher cortando os pulsos, seu olhar era de extrema angústia.* Kri... *seus olhos parecem estar hipnotizados, a imagem muda num passar de slides para uma ainda mais violenta de um infanticídio em Uganda.* Lepota... *um sorriso largo e agressivo se abre no rosto de Marcos, suas mãos agarram-se a virilha onde ele massageia seu membro. Os dentes tornam-se protuberantes, como a mandíbula de um tubarão. A imagem muda e vai para uma imagem de uma mulher nua numa cena de sexo explícito, alternando para uma versão manipulada desta, cheia de sangue.* Lacni... Pohoten...
*O homem anda para trás até encostar na parede, tira seu falo endurecido e se masturba freneticamente, as luzes voltam a ficar mais intensas, o homem grita e ataca as lâmpadas sem proteção. A sala fica toda escura.*
DH: *silêncio*
Registro #11: Dia 15/01 — Centro de Pesquisas Bioquímicas de São Paulo, Setor C, Área 05 — 19:15h
– Individuo apresentando modificações principais de caça. De fácil manipulação, através de estímulos visuais e olfativos. Sua personalidade adquire características primitivas, como perda de capacidade comunicativa, trejeitos animalescos, intensão sexual acima da lógica racional, comportamento alternante entre a agressão e a defensiva de seu pressuposto território, visto em consideração que marcara toda a cela de seus dejetos. Nossos leitores não assemelham um padrão nas ondas cerebrais do sujeito. As câmeras infravermelhas notam uma modificação na temperatura craniana, onde nota-se uma decadência no valor, diminuindo para extremos 14°C, enquanto o corpo encontra-se em deploráveis 3ºC, mais do que letal em condições normais. As taxas de infecção coletadas, em sua saliva aumentaram em mais 50% atingindo o seu ápice, após colocado 5ml de sangue na capa de coleta, foi notada uma drástica mudança na coloração desta, de um vermelho vivo para acobreado-corrosivo. –
Aumentar o nível da substância vermelha no ar da sala, para níveis extremos, de 3mg/cm² para 5mg/cm².
Registro #12: Dia 15/01 — Centro de Pesquisas Bioquímicas de São Paulo, Setor C, Área 05 — 19:27h
DH: Marcos, pode me ouvir?
MP: *silêncio*
DH: Marcos, pode me ouvir?
MP: *Grunhidos, risadas e gritos*
Douglas inclina-se em direção ao painel e aciona a visão noturna do painel. O homem se encontra no meio da sala sentando em meio aos cacos, cortando seu pênis. Marcos sorri e mordisca o falo, arrancando o prepúcio e projeta a língua para fora para beber o sangue. Seus olhos gibosos, brilham um verde ofuscado, como os de um animal. Sofia, uma das assistentes mais novas do grupo vira o rosto enojada pela cena. Douglas assiste a cena com uma expressão impassível.
Registro #13: Dia 15/01 — Centro de Pesquisas Bioquímicas de São Paulo, Setor C, Área 05 -19:29h
– Indivíduo apresenta um estágio avançado de morbidez, autoflagelação peniana seguido de um processo de canibalismo. A verdadeira natureza do sujeito se demonstra a este estágio, o processo de fala antes caracterizado por uma mudança no idioma, encontra-se degradado ao ponto de tornar-se apenas grunhidos e risadas. A fome começa a desestruturar o indivíduo, a sede de sangue descontrola a besta que habita em sua psique. Neste momento há a formação de um padrão semelhante ao que outros experimentos obtiveram um padrão inclinado ao destrutivismo e obscenidade. Ao que indica os testes, feitos com uma cultura de seu tecido fino e estriado, antes de ter sido posto em restrição, o tecido fino apresenta uma atrofia grave. Decorrente a degradação do sistema, necessitando proteínas e oxigênio. Enquanto os tecidos estriados apresentam um aumento de 180% em sua resistência e força, sendo estes lugares apenas funcionando pela sua capacidade de criar energia, com células que não existem em nosso organismo. –
Aumentar o nível da substância vermelha no ar da sala, para nível máximo, de 5mg/cm² para 10mg/cm².
-----------------------------------------------------------------------------------
Gritos são ouvidos vindo do alto-falante, Marcos balbucia algo incompreensível. O homem se joga ao chão, rolando entre os cacos, sua mandíbula se projeta para frente e para trás, como um peixe tentando respirar, abocanhando o ar.
– Preparem o rato. — disse Douglas, cruzando os braços.
Alicia, uma das veterinárias da equipe, caminha até a estante de jaulas, coloca a mão dentro de uma caixa de madeira e retira de lá, um camundongo grande e gordo. Deita-o sobre a pequena superfície cirúrgica de aço inox e aplica-lhe uma injeção de 20mg da substância vermelha. O rato chia alto, seu barulho estridente faz com que Marcos pare de gritar e apenas se contorça no chão. O camundongo amarronzado é então colocado uma pequena plataforma que divide a sala de análise de dados e a cela, onde o sujeito estava. A pequena comporta se fecha e abre novamente lançando o rato dentro do ambiente onde Marcos se encontrava. O rato corre pelos cantos, raspando o corpo parrudo nas paredes defecadas.
Marcos não se move. O sensor não nota nenhum tipo de calor emanando de seu corpo. Um corpo morto aparentemente. O animal, então sentindo o cheiro da carne envelhecida e do altamente ferroso do sangue no corpo do homem e corre em sua direção.
Por um momento Douglas, cujas mãos estava cerradas tão firmes de tensão, sentiu o sangue quente escorrer por entre os dedos. Seu projeto estava ali em sua frente, a hora final, o teste definitivo, o futuro de seu trabalho e o restante dos investimentos finais. Sentiu na garganta seca a dificuldade de engolir a saliva que se acumulara.
O rato pulou no corpo do homem, aparentemente sem reação. Douglas e a equipe estavam imersos num silêncio tenso, nem o barulho das máquinas de ar condicionado, nem os bipes das maquinas de estatísticas conseguiam penetrar no silêncio psicológico que os envolvia.
Num movimento brusco, Marcos levanta as mãos e aperta o dorso do animal. Sua boca parece desprender e mostrar os caninos avantajados, solta um grito e abocanha a cabeça do animal. Parece engolir a cabeça por inteiro e começa a roer a barriga do camundongo como uma piranha a fustigar o corpo de sua presa.
São os três segundos mais longos da vida de Douglas.
Depois disso, a sensação de vitória conquistadas dominou a equipe e seus gritos e choros de alegria romperam o silêncio que os engolfava. Hoff continuou impassível.
Notas finais
Kri - Do Esloveno - Sangue.
Lepota - Do Esloveno - Beleza.
Lacni - Do Esloveno - Fome.
Pohoten - Do Esloveno - Sexualmente excitado, desejo sexual, tarado.
Prepúcio - A chamada "cabeça do pênis".
Psique - Termo da saúde relacionada a mente racional do ser humano.
Tecido fino - Tecido que compoem os órgaõs internos.
Tecido estriado - Os músculos que nós malhamos, responsáveis pela movimentação e molde do corpo.
Fale com o autor