O Acordar Do Faraó
7 Capítulo 7 - Desejado
Notas iniciais

Khan irrompeu pelo quarto como um tigre faminto caçando a sua presa. – Jafir!
A tensão dentro do espaço era de cortar à faca, os ouvidos de Rouge ensurdeceram-se com a voz raivosa de Khan. Tossiu engasgando-se com a própria saliva, levantou-se, fazendo assim mostrar a sua presença, a metade do seu rosto onde o homem encapuzado colocara a mão para o silenciar doía-lhe e muito provavelmente estaria com a pele muito vermelha ali.
Usou a baixa mesa de vidro como apoio e ergueu-se das almofadas, as suas pernas estavam bambas e tremulas. Sentiu os olhos das pessoas que amontoavam-se no seu quarto sobre si. Sentiu-se como um animal de circo sob tantos olhares de espanto. ''Será que pensavam que estava morto?''
Porém ao colocar-se em pé uma das suas pernas picou-se de dor, fazendo-o perder o equilíbrio e cair de joelhos, caiu dolorosamente. As suas rótulas chocaram com o chão duro, um gemido de dor trespassou os lábios do ruivo.
– Fuckin’ hell! — Nesse momento Khan já estava ajoelhado na sua frente. – Rouge! – A visão do rei desceu para a coxa coberta por grossas veias negras alastrando pela pele cálida. Um temor percorreu o corpo de Khan que transformou-se num vácuo de tão frio que ficou.
Saludja recompôs-se do seu choque e correu para perto dos dois, os olhos alaranjados correram toda a extensão da perna do ruivo. Num ato rápido a mão do Sacerdote foi colocada na coxa do inglês, que começava a sentir um grande ardor por todo o corpo. Rouge estava fervendo pela súbita febre, apoiou-se no peito de Khan que o amparava nos seus braços, os dedos do ruivo cravaram-se no braço musculosos do rei inconscientemente.
– Aquele demônio! – O estado de nervos e raiva aumentava em Khan, apertando o ruivo nos seus braços dando-lhe assim conforto. A palma da mão de Saludja percorria toda a pele afetada pela mancha negra que agora pulsava vibrantemente.
O Sacerdote concentrou a sua energia direcionando-a para a mão sussurrando umas silabas indecifráveis. Apenas magia poderia curar qual quer maleita provocada por magia. O rasto negro começava a ser sugado pela mão do Sacerdote, a gosma negra impregnada nas veias diminuía de tamanho, deixando a pele do ruivo intacta e novamente imaculada.
Saludja fechou a mão iluminada por um freixo de luz dourada. Quando o último pedaço descolou da coxa branca, fazendo assim o fumo negro evapora-se por entre os dedos fechados, acabando com a praga. Ele teve a certeza que Jafir só teve intenção de provocar, se realmente quisesse infligir algo mais sério Rouge não estaria respirando naquele momento.
Rouge voltou a respirar com normalidade, sem o ardor da febre súbita que se alastrara pelo seu corpo. Khan levantou-se do chão com o ruivo no colo, como era leve o rei não teve dificuldade em levantar-lo rapidamente. Andou até à cama e depositou-o lá gentilmente.
Khan sentou-se na beira da cama segurando o rosto rosado com as duas mãos, penetrando os olhos por toda a face em busca de algo que não estivesse normal.
Jafir estava muito ousado e suicida, aparecer no palácio e deixar ver-se por todos, Khan teve a certeza que o traidor escolhera uma nova vítima para atormentar com a finalidade de o atingir.
Soube exatamente quem procurar, os seus filhos eram o alvo principal e agora Rouge, esse sem ter noção estava no meio de uma guerra que não lhe pertencia. Khan iria proteger o ruivo mesmo se custasse o seu sangue e carne ele estaria disposto a pagar esse preço.
Culpou-se por ter deixado o ruivo sozinho, não devia ter ido embora quando foi vê-lo. A sua voz detonava essa culpa. – Me perdoa. – Acariciou o rosto que tanto almejava.
– Perdoar pelo quê? Quem era aquele maníaco? – Rouge estava mais interessado em sentir a caricia e olhar para o rosto daquele homem, do que sentir medo ou ficar na ignorância que tinha corrido um perigo iminente.
O belo rosto do rei distorceu-se em cólera. – Jafir, o maldito.
Sem pensar a boca do historiador libertou a curiosidade. – Jafir Haremakhet? O Sacerdote traidor, que matou as amantes do Faraó por obsessão? Que fugiu exilado para o deserto e nunca mais regressou, assumindo assim que morrera?
Khan gelou, Saludja abriu os seus olhos exageradamente de surpresa, Arkon que entretanto entrava no quarto estancou os passos. Rouge mordeu a própria língua e acrescentou. – Falei demais.
Khan fechou os olhos para abri-los lentamente, encarou Rouge que mordia com força o seu lábio. O moreno passou o polegar no lábio para faze-lo parar de enterrar os dentes no lábio.
A sua voz continha o desagrado de falar sobre esse assunto, porém esqueceu-se que Rouge não era daquele tempo mas estavam ligados de alguma maneira, ele esteve destinado a faze-lo regressar ao palácio depois que fora preso por Jafir. – Sim era Jafir. Haremakhet deixou de existir, ele teve a audácia de regressar novamente, e infelizmente está mais vivo do que eu queria.
Quando alguém cometia um pecado imperdoável o seu nome era encurtado ou retirado, o nome de família era retirado como penitencia. Uma pessoa sem nome era inferior a nada, esse era o segundo castigo mais temido, o primeiro era a morte sem a possibilidade de regressar do mundo do mortos e reencarnar, ficando a sua alma condenada a vaguear eternamente.
Rouge franziu a testa, não era aquilo que alguém deixara escrito, provavelmente fora Saludja que escrevia os eventos acontecidos na vida do Faraó e no Egito. Nos pergaminhos encontrados pelos arqueólogos, que ele teve a sorte de ‘’jogar a mão’’ neles e de lê-los logo nos primeiros dias em que chegara ao Museu do Cairo.
Diziam que o traidor fora engolido pelo deserto morrendo sobre o sol escaldante, já que nunca mais houvera sinais dele. Contudo o tempo podia ter-se distorcido quando fez Khan libertar-se do sarcófago. ''E por quê é que ele voltou? E vir exatamente encontrar-me?'' Rouge esbugalhou os olhos e sussurrou as palavras mais óbvias. – Amantes? Ele pensa que somos amantes. Sou um alvo?
Khan contemplava o rosto do ruivo, quando ele murmurou a sua descoberta, beijou a testa de Rouge. – Eu vou proteger-te.
Como uma magia quebrada os dois tiveram que se separar e perceber que uma multidão os observava silenciosamente, Khan levantou-se e com a aura de um poderoso líder expandindo-se em redor dele, comandou uma ordem soberana.
– Arkon! Trás o traidor que está infiltrado no palácio à minha presença, hoje faremos ele falar. – Depois de receber essas palavras o jovem general virou costas e saiu do quarto.
Saludja recuperado do segundo choque observava Rouge enigmaticamente, desviou o olhar para o rei que estava mais perigoso que nunca.
– Guardas cubram este quarto, não tirem os olhos desta pessoa, se pestanejarem e algo acontecer considerem-se punidos pela morte. – Cerca de dez soldados fizeram a reverencia respeitosa e colocaram-se me várias posições, na porta, varanda, janelas e qualquer outro buraco que servisse de entrada.
Khan saiu do quarto com o Sacerdote calado demais para o seu gosto. – Saludja? Não é hora de ficar nesse estado de idiota.
– Hórus avisou que uma sombra se abateria sobre ti, não pensei que essa sombra caísse sobre Rouge, Jafir escolheu um novo método para chegar a ti. Rouge não está mais seguro, ele não pertence aqui.
Saludja agora começava a ver que as coisas não seriam tão boas para o rei, ele apaixonar-se assim era assinar a sentença de morte da pessoa que gostava, nem queria pensar se algo acontecesse e Khan tivesse que viver com esse peso no coração.
– Jafir só vai chegar perto de Rouge sem cabeça e rastejando. – Os ombros do rei tornaram-se tensos, a sua cólera ganhava um novo sabor, iria caçar o traidor antes que ele pudesse ir correndo para o seu deus com o rabo entre as pernas.
A madrugada continuava negra e carregada, a chuva copiosa silenciava qualquer som, nada se ouvia mais alto do que a água caindo no chão, o início de um novo dia não deveria tardar.
Arkon arrastava consigo Zahin, um jovem homem que tinha pouco mais de vinte anos, o espião idiota o suficiente para pensar que iria permanecer na sombra que ninguém iria descobri-lo. Zahin tremia de medo, todo o seu corpo estava frio, as batidas cardíacas estavam ao rubro, o pavor tomava conta do jovem condenado.
.OoO.
Alertado para o alvoroço nos corredores Ramses levantou-se da cama, amarrou o tecido branco que estava nos pés da sua cama na sua cintura formando o saiote. Retirou de baixo do seu travesseiro uma adaga de metal e cabo dourado, precaução nunca era exagerada no palácio, e saiu porta a fora.
Parou um dos soldados que passava correndo por ali para perguntar-lhe o por quê do alvoroço, o sangue do príncipe gelou quando o homem falou que alguém invadira o palácio. Ramses e Khan tinham o seu próprio método de evacuação em caso de invasão ao palácio, Ramses pegaria em Kanope e Nadhirra e fugiria com eles. Não adiantaria Khan os proteger já que ele seria sempre o alvo principal, por isso não estariam seguros consigo.
Correu para o quarto dos sobrinhos e suspirou de alívio quando viu a porta fortemente guardada como sempre. Um dos soldados informara-lhe que apenas uma pessoa entrara no palácio e conseguira fugir. Momentos antes pôde pensar que seria uma invasão a sério, tomou um tempo para a sua respiração normalizar.
Queria verificar com os seus próprios olhos a segurança das crianças, entrou no quarto que estava silencioso e escuro, os dois dormiam calmamente na cama. Outra pessoa veio-lhe à mente, queria proteger essa pessoa também, agora existia uma pessoa só sua que queria proteger com todas as suas forças, Rai. Saiu do quarto dos sobrinhos e resolveu ir ver o irmão tentando saber o que aconteceu.
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Largado no chão de forma rude, o jovem homem ajoelhou-se perante o Faraó. Tremendo horrores, gotas de suor escorriam do rosto pálido dele, as batidas do seu coração parecia que podiam ouvir-se ribombando nas paredes do salão.
Khan, Saludja, Arkon e o espião encontravam-se na majestosa sala do trono. A voz do Faraó entoou de forma baixa e clara, o tamanho da sua cólera não havia diminuído, a vontade de apertar o pescoço do traidor com as suas mãos e faze-lo vomitar tudo o que queria saber era imensa. – Onde é que Jafir se esconde? – Zahin engoliu penosamente a seco, com o cérebro travado resolveu mentiu, erro básico de todos os espiões quando eram capturados.
– E-Eu não sei! – Os olhos dourados estreitaram-se, não tinha tempo para o reles jogo psicológico.
Com o seu tom calmo prosseguiu a ameaça. – O que é mais importante, a tua família ou a localização do traidor? – O jovem gaguejou, a luta interna entre a consciência, sensatez e lealdade para com um monstro de Jafir estava travando-se na mente dele.
Assim que ouviu ‘família’’ em vez de ‘’a tua vida’’, Saludja soube que o jovem não iria estar mais vivo para ver o novo dia nascer, compadeceu-se daquela vida humana, apenas com a vida e não com a pessoa que não mediu os seus atos inconsequentes.
– Jafir está algures no deserto, mas não sei onde! Eu juro! – Zahin achou melhor dizer a verdade por uma vez, pensando que poderia ser perdoado e assim a sua pena fosse mínima, pelo canto do olho vigiava a espada demoníaca do General.
Khan observou o rosto do traidor em busca de falhas típicas dos perdedores e traidores, estudar as expressões faciais de traidores e fracos era fácil para o Faraó porque eles sempre cederiam à pressão, nenhum aguentava muito tempo o olhar dourado penetrante e felino do rei sem quebrar.
O traidor estava a falar a verdade, ele não tinha mais nada a perder, já estava morto mesmo, só ele é que ainda não tinha consciência disso. Os olhos dourados recaíram sobre Arkon que estava ao lado do condenado, estendeu a sua mão numa ordem silenciosa.
Entendendo e obedecendo, Arkon desembainhou a sua espada, a parte vermelha interna da arma reluzia, como se soubesse que iria ser alimentada em poucos segundos. – Que o Tribunal de Osíris seja justo com a tua alma. – O Sumo-Sacerdote proferiu em forma de oração, fechando os olhos.
Zahin aflito não entendia o que se passava, num momento o rei estava com a espada demoníaca na mão e o sacerdote falando isso. – Quem sentencia um homem à morte deve ser esse que deverá segurar a espada, o teu corpo vai servir de exemplo. – Khan levantou a espada e desferiu um único golpe sobre o pescoço do jovem.
A cabeça desprendeu-se do corpo caindo aos pés do Faraó, as esferas oculares reviram-se para cima deixando o branco total no lugar das iris, o maxilar descaiu deixando a língua cair torta para fora da boca, saliva escorria da boca aberta.
O corpo caiu duro para o lado dando os últimos espasmos musculares, jorrando sangue interminável pelas artérias do pescoço, a carne e espinha dorsal foram cortados com um golpe limpo. Khan olhou para a cena com a expressão vazia e uma dureza no olhar, não arrependeu-se de ter tirado aquela vida.
Entregou a espada de volta para Arkon, o cume pingava no chão de mármore imaculado da sala do trono. O general só a voltou a embainhar quando a lâmina absorveu todo o sangue. Saludja reabriu os olhos sentindo as energias todas perturbadas.
– Guardem o corpo dele como exemplo, e agora vamos revirar o deserto até encontrar o buraco onde o maldito está escondido. – Estava preparado para ficar no deserto por dias vasculhando cada buraco e toca de cobra e escorpião onde Jafir podesse estar.
Contudo uma dormência apoderou-se do seu corpo, a mão de Saludja estava colocada no seu ombro. Khan caiu apoiando-se num joelho sentindo a dormência embaçando a sua visão. – Saludja seu maldito! – Antes da sua visão se apagar e ele entrar na escuridão, o sacerdote e Arkon seguraram-no, apoiando o corpo do rei neles. – Seu idiota impulsivo, como se pudéssemos deixar o Faraó correr para o deserto assim.
O corpo do rei adormecido foi transportado pelos corredores até chegar ao quarto de Rouge, fortemente guardado. O ruivo estava sentado na cama quando os dois homens entraram carregando o moreno inconsciente, pulou da cama e aproximou-se assustado. – O que aconteceu?! – Saludja e Arkon desviaram-se do ruivo e depositaram Khan na cama. – Khan estava fora de si, o idiota impulsivo não sabe que a vida dele é mais importante que qualquer outra, esquece-se que ele é o alicerce fundamental do império. – Saludja rematou olhando para Khan.
– Precisa de acalmar-se, deixaremos ele aqui, faça o melhor que puder Rouge. – O sacerdote sorriu dando a entender o segundo sentido que as suas palavras tinham.
Rouge teve a sensação que seria um pedaço de carne atirado a uma fera. – Acalmar a besta, hm tudo bem.
– E gostaria de falar sobre as coisas que sabe, mais tarde. – Saludja não conseguia deixar a sua curiosidade insatisfeita. – Tudo bem, eu acho. – Rouge iria falar do que sabia, do que estudara, mas pelos vistos as coisas poderiam ter tomado um rumo diferente. Precisaria de situar-se na parte da história em que estava, pelo que parecia o assunto sobre traidor Jafir estava no auge, coisa que devia estar resolvida com o desaparecimento dele.
Perdendo-se nas próprias divagações não apercebeu que Saludja e Arkon já tinham saído do quarto, deixando o ruivo ‘sozinho’ com o rei adormecido e vários guardas no quarto.
Sahib havia saído para trazer comida para ele, a madrugada estava começando a clarear-se, mais um dia renascia próximo ao fim da temporada das chuvas. Um sensação macia deu-se nos pés de Rouge, a pequena bola cor-de-rosa com olhos azuis miava, o gatinho já sabia que o ruivo seria a sua nova ‘mãe’.
Pegou-o no colo e levou-o até á tigela do leite e um pratinho com pedaços de peixe desfiados estavam disponíveis para ele. Pegou num dos pedaços e colocou perto da boca do animal ajudando-o a familiarizar-se com a comida, depois de satisfeito levou-o consigo para a cama onde Khan ainda estava inconsciente.
Rouge sentou-se na beira da cama observando o rosto adormecido do moreno, realmente ele era muito jovem ainda, vinte e seis anos de vida e a responsabilidade de ser rei. Não conseguia imaginar esse fardo, os ombros largos estavam relaxados contrastando com a dureza muscular quando estava acordado.
Inevitavelmente as pontas dos dedos finos tocaram nos cabelos negros, ficou assim sem saber por quanto tempo, até deixou o gato aproximar-se desajeitadamente do rosto do rei. O animal deu pequenas lambidas na bochecha de Khan, sob o olhar divertido de Rouge que sabia se o outro estivesse acordado o gatinho não estaria assim tão próximo a ele.
A curiosidade felina aguçou-se, o gato subiu pelo ombro do rei espetando as finas unhas na pele, quando já estava em frente do rosto dele começou a miar.
Recobrando pouco e pouco a consciência daquele sono forçado, um miar agudo entoava nos seus ouvidos. Sentia o seu cabelo sendo acariciado gentilmente, abriu as pálpebras piscando várias vezes para a visão deixar de ficar desfocada. Levou a sua mão até ao rosto esfregando-o, a imagem do gato pelado em cima de si era mais nítida. – Acordou?
A voz doce da sua joia fê-lo ter o melhor acordar possível, Rouge inclinou-se para poder ver melhor o rosto do moreno. – Está mais calmo? – Quis saber o quanto a fera estava irada, mas ele parecia bem calmo.
– Esse gato odeia-me. – Queixou-se quando o gato começou a ronronar em cima do peito dele e espetando as garras ‘amassando’ o seu peito. O ruivo retirou o bichinho cor-de-rosa dali e colocou-o de volta na cama.
Voltando a inclinar-se para Khan, o ruivo viu-se puxado para um beijo roubado, entrelaçou os dedos nos cabelos rubros puxando-o pela nuca. A posição era estranha e algo desconfortável mas o beijo ‘invertido’ era intenso e caloroso, assim como todos os beijos trocados entre Rouge e o rei.
Descolaram-se pouco depois, Khan levantou-se finalmente com um expressão séria, forçado a encarar a situação urgente que tinha em mãos. Os seus olhos pousaram na coxa recém-curada de Rouge, passou a mão áspera por toda a extensão da coxa certificando-se de que nada de anormal estaria ali. Sentiu a pele, estava macia e translucida como devia estar, Khan pode respirar um pouco mais aliviado. – Rouge casa comigo.
Rouge ficara um pouco arrepiado quando a mão do outro percorria a sua coxa sem permissão, o efeito de gato arrepiado fora quebrado com a súbita declaração a qual ele não pensava que alguma vez viria a ouvir, e muito menos vinda de um Faraó. – Casar? Está com febre?
A incredulidade fê-lo colocar a mão na testa do rei medindo-lhe a temperatura. – Como assim casar?
Khan pegou na mão colocada na sua testa e levou-a aos lábios, obviamente esperava por aquela incredulidade. – Eu estou apaixonado. – Simples e direto, Khan estava apaixonado, queria-o, desejava-o e iria tê-lo para si. Por isso estava sendo atencioso, carinhoso e esforçado para conseguir entrar no coração de Rouge. Os penetrantes olhos de ouro encaravam os azuis-céu que por essa altura o ruivo já suava frio.
– Apaixonado? Quem? Eu não. Não existe a possibilidade de eu voltar para casa? – A voz de Rouge falhou quando falou que ele não estava apaixonado. Era apenas a praxe de negar o inegável como os jovens tolos fazem quando são apanhados por sentimentos desconhecidos, ignoram e afirmam sempre o contrário.
As mãos de Khan subiam e desciam sobre as pernas de Rouge em forma lenta. Levantou a sua perna esquerda fazendo-o perder um pouco o equilíbrio e cair de costas na cama apoiando-se nos cotovelos.
Os dedos longos deslizavam pela perna torneada até os dedos assentarem na tatuagem do Olho d'Hórus que Rouge tinha no tornozelo. O rei meditou nas perguntas. – Por que não casar? Voltar para casa? Já estás em casa, essa marca só prova que pertences-me.
A essência de rei poderoso e egoísta manifestava-se vez ou outra, tudo tinha que ser como ele queria e rejeição não era bem-vinda, se Khan queria ele iria ter. O queixo do inglês despencou-se com o que ouvia, a sua tatuagem não queria demonstrar que fosse posse dele, pelo menos é o que ele achava. – Egocêntrico. A resposta é não, não caso.
Os olhos de Khan afiaram-se porém a sua expressão continuava serena, apenas inclinou-se sobre o corpo de Rouge e capturou os lábios dele com posse.
Sahib regressava com uma bandeja reforçada, com o alvoroço levou uma eternidade para que preparassem os alimentos do seu amo, entrar no quarto repleto com guardas de especto nada amigável deixava a mulher nervosa. Ter vários pares de olhos observando cada movimento seu era enervante, ela achava que se distraísse ou fizesse algo errado teria a sua cabeça rolando no chão a qualquer momento.
Interromper a cena amorosa não era o que desejaria, contudo ela não conseguia ver através da porta o que se passava dentro do quarto, colocou as coisas na mesa e ficou quieta no seu canto.
A ousadia de Khan estava cada vez mais a ser demonstrada, mas isso não incomodava Rouge. Todavia as coisas arrogantes que ele falava deixa-lhe um pouco azedo, uma pessoa do século XXI não tem mais o hábito de se curvar para o machismo, apesar de ele ser um homem também.
Liberdade de escolha, sempre viveu assim, mas isso em nada diminuía o charme e carisma do egípcio, um pouco de arrogância e egocentrismo abonavam a favor seu favor. Rouge não desgostava da maneira como era dominado pelo mais velho, porque no fundo tudo o que ele queria era uns braços onde pudesse se sentir confortável, mas um casamento, isso o ruivo já achava que seria demais. Muitas coisas precisavam ser assimiladas, a sua nova realidade estava sendo vivida lentamente.
Rouge teve mais uma vez os intensos olhos dourados mirando o seu rosto com seriedade. – Onde mais aquele nefasto te tocou? – Rouge levou um breve momento para processar a pergunta, olhar para o rosto do egípcio distraia-lhe.
Quando as palavras fizeram sentindo na sua cabeça o ruivo levou a mão à sua orelha. – A minha orelha, ele tocou aqui. – Khan segurou no queixo dele e virou o rosto de suavemente, aproximou a sua boca da orelha de Rouge e lambeu. Retirando qualquer vestígio e sensação que Jafir tivesse deixado ali, pensar que alguém tocara no que era seu deixava o seu sangue venenoso.
Rouge arrepiou-se com a língua quente do rei lambendo a sua orelha.
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Sem sucesso na procura pelo irmão Ramses encontrou o sacerdote e o general, ambos estavam com os semblantes carregados, depois de ouvir a versão verdadeira dos fatos acontecidos o príncipe também ostentava um semblante carregado.
O seu irmão ter matado alguém, sem ser em batalha, com as próprias mãos era de fazer o estomago revoltar-se, esperava que a pessoa estrangeira desse o conforto que o seu irmão precisava.
Saludja refugiou-se por um tempo no santuário do palácio destinado a oração aos deuses adorados. Tinha esperanças que alguma divindade o iluminasse com algumas respostas.
Colocou as oferendas de frutas no altar, acendeu os incensos e ajoelhou-se sobre o carpete dourado e castanho presente no chão, o sacerdote respirou fundo, relaxou o corpo e fechou os olhos concentrando os seus sentidos nos canais espirituais.
Entrar em contato com Enéade era o privilegio que o poder do Sumo-Sacerdote podia alcançar, apenas ele detinha o poder suficiente de poder entrar no espaço onde as nove divindades mais importantes estavam reunidas. Na linguagem do povo, Enéade era a casa dos deuses.
Um grande impacto retumbou nos ouvidos de Saludja, os sons agudos, que seriam as vozes dos deuses, eram desconexos, elevados e chocavam uns com os outros. Não era um bom sinal, os deuses estavam furiosos e discutiam sobre algo que ele não conseguiu interpretar.
A consequência de entrar na Enéade no meio de uma briga de deuses foi ambos os seus ouvidos estourados e machucados, um filete de sangue escorria dos dois ouvidos. Desistiu de tentar comunicar-se com as divindades, frustrado obteve um pensamento menos próprio. ‘’Deuses são como humanos conflituosos, só têm a imortalidade para diferencia-los dos homens.’’
Os seus dedos tocaram nos ouvidos, ficando sujos com sangue. Saiu do santuário para ir ao seu quarto limpar o sangue.
Depois de ordenar que guardassem o corpo do traidor, Arkon iria preparar as tropas para varrerem o deserto e vasculhar qualquer ninho de serpente e escorpião que existisse no Egipto. Tudo dependeria do Faraó, eles apenas acatariam qualquer que fosse a ordem, se tivessem que ir para o deserto no meio de chuvas torrenciais tanto o General como os soldados teriam que ir sem questionar a perigosidade da missão.
Esperava discutir essas coisas quando Khan acordasse do seu sono ‘relaxante’ involuntário. Contudo sabiam que usar armas comuns com Jafir não era muito eficaz, armas eram inúteis contra a magia.
Virando na esquina, o jovem guerreiro viu o sacerdote entrar no mesmo corredor, a sua visão aguçada reparou no líquido vermelho que não devia estar ali. Caminhou até ele com uma expressão fechada, passou os dedos pela bochecha de Saludja. – O que aconteceu? Divindades exaltadas?
Saludja elevou um pouco o rosto do seu amado e depositou um beijo na bochecha, a diferença de alturas era um complexo para Arkon, por isso adorava provocar o mais novo, e demonstrações de carinho no meio do corredor era o que ele mais detestava. Sempre dizia que um guerreiro não podia ser visto em cenas de baixa guarda, demonstrações de afeto podiam ser consideras como fraqueza.
– Vamos nos preparar para o que vai acontecer, tanto o céu e terra estão tensos. – O sacerdote deu outro selinho na bochecha para tirar a tensão e preocupação que Arkon tinha no rosto, queria fazer a preocupação que ele tinha amenizar um pouco, ou quem sabe faze-la desaparecer. – Khan vai ficar furioso quando acordar.
– Não vai, acordar nos braços da sua Joia vai acalmar a besta. – Saludja recomeçou a andar acompanhado por Arkon.
– Pressinto tempos mais conturbados, a joia não é uma simples joia. – Cada fibra do corpo do general estava alerta, um mau agoiro crescente fazia sentir-se. Já na saleta Arkon fez Saludja sentar-se para ele poder tratar dos ferimentos, ou melhor apenas limpar o sangue existente no rosto dele.
Enquanto o sacerdote matutava no que Arkon havia dito, o que Rouge seria na realidade. Os dois ficaram por ali até um dos criados os chamarem, o Faraó estava esperando por eles.
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Todo o poder faraónico estava mais visível quando Khan saiu do seu quarto trajando o mais rico e fino tecido de linho no seu corpo, compondo-se num saiote plissado, branco e entrelaçado com fios de ouro e prata, na cintura um cinto largo de couro incrustado de pedras preciosas, sobre a fivela figurava o nome real em signos de ouro.
A parte superior do seu corpo era decorada com um peitoral de ouro e de faiança azul com turquesas, cornalinas, escaravelhos de ametista e um falcão engastados, a emoldurar o Olho d'Hórus, nos braços, nos pulsos e nos tornozelos brilham braceletes de ouro combinado com; ágata; lápis-lazúli, jade; cornalina; malaquite verde. Vários anéis ocupavam os dedos do rei, nos pés usava umas sandálias em folha de ouro e estuque.
Nemes uma das coroas do Faraó, reluzia em cobre azul e ouro caindo sobre os ombros largos dele, a cobra naja Uraeus parecia que ganhava vida no centro da coroa. A Naja servia para proteção do Faraó, estava orgulhosamente ostentada na cabeça do rei. Os olhos dourados estavam tracejados com o khôl, na tradicional pintura egípcia.
Khan deixara Rouge no seu quarto, decidido a protege-lo, caminhou imponente para a sala do trono, mesmo que o seu desejo era segurar ele nos seus braços e nunca mais o largar, não estava muito orgulhoso do que mandara fazer ou da vida que tirara horas mais cedo.
Ordenou que chamassem Saludja e Arkon. As pesadas portas do salão abriram-se pelas mãos dos sentinelas, o Faraó, a representação de um deus entrou no enorme salão preenchendo-o com a imponente presença e magnetismo. Tudo isso transmitido por um simples corpo de um homem, todos se curvaram respeitosamente parante ele.
O Faraó caminhou para a varanda principal, os olhos governantes varreram a multidão que estava reunida no pátio. Todos os criados, ajudantes, soldados, moços dos estábulos, até carregadores de água, foram todos convocados para estarem ali, expecto os guardas que estavam no quarto de Rouge e as cuidadoras dos seus filhos.
A multidão aguardavam inquietos e apreensivos não era muito usual aquele tipo de reunião, os vários rostos estavam virados para a cima, para a figura do rei, a chuva miúda escorria por cada um dos rostos. O tempo continuava cinzento e chuvoso naquela manhã, contudo o sol queria regressar, a bola dourada brilhava fraca por entre as nuvens pesadas, sinal que a época das chuvas estava terminando.
Já suspeitando do que se tratava aquele comunicado, Saludja ficou um pouco mais apreensivo, tal atitude poderia aterrorizar os seus súbitos. Khan ordenou que trouxessem o corpo e a cabeça do espião e jogassem na lama aos pés dos criados do palácio. A expressão de horror tomou conta da plateia, as mulheres soltaram expressões de agonia e horrorizadas, os homens olhavam estupefactos para as duas peças do corpo largados na lama, Zahin fora conhecido por quase todos no palácio, o que era normal quando já se estava há algum tempo ali.
– Essa é a consequência para quem trai o rei. — A voz de Khan estrondeou no recinto, os criados ajoelharam-se submissos sob a autoridade imponente do homem que os olhava de cima.
Khan virou as costas e entrou no salão, olhou para os rostos dos seus fiéis amigos, irmão e vários membros conselheiros da corte, obviamente só esses que ficaram chocados porque nenhum deles havia ter ido para uma guerra ou defendido o país com as próprias mãos e muito menos ter matado.
Somente quem havia sujado as mãos com sangue é que podia entender o significado de tal ato. – Quando as chuvas acabarem vamos revirar todos os grãos de areia do deserto e encontrar Jafir. – Essa ordem foi direta para Arkon que curvou a sua cabeça respondendo mecanicamente. – Sim, rei.
Ramses viu o pesar que o seu irmão carregava no olhar, realmente o mais velho era alguém muito superior, todo o poder carismático, a atitude emitida, a mão de ferro faziam de Khan um líder exímio, todavia todas as responsabilidades afastaram um poucos os dois irmãos.
Ambos tinham personalidades e pensamentos diferentes que por vezes chocavam. Rá sabia que ele iria até ao extremo pela pessoa de cabelos vermelhos, por uma vez na vida o seu irmão escolheu uma coisa que queria para si.– Irmão…
Khan cortou a fala ao irmão mais novo levantando uma mão num gesto impeditivo e continuou a andar. – Agora não, tu e eu vamos falar mais tarde sobre o alvoroço na cozinha.
Ramses cerrou os dentes com a atitude do mais velho, nada o impediu de retorquir. – Eu também tenho alguém que quero proteger. – O príncipe lembrou-se do episódio em que apertou o pulso ao homem que batera em Rai, nesse momento ele apenas sentiu uma raiva aquecendo o seu corpo.
Khan parou e voltou-se para o irmão. – E estás a conseguir?
– Estou a esforçar-me. – Um sorriso sincero abriu-se nos lábios do rei, ficou interessado sobre quem seria a pessoa que fazia o seu mimado irmãozinho dizer tais palavras. – Continua, falaremos mais tarde, Ramses. – Khan saiu da sala do trono e caminhou para o sítio onde residia a pessoa do seu pensamento. Ramses esperava sempre que Khan tivesse tempo para as conversas de irmãos.
– É alguém que eu conheça, Alteza? – Os olhos de Saludja brilhavam matreiros, a família real estava a entrar em total clima de romance. O príncipe ficou sem jeito ao responder, uma coisa era abrir a boca para responder quando ele ficava irritado e outra era conversar sobre aquela pessoa. – Não sei, talvez, Saludja alguma vez entrou na cozinha?
– Na cozinha? Algumas vezes, então é uma das humildes ajudantes de cozinha? – Não deixava de ser surpreendente, o príncipe cortesão ter o seu interesse virado para alguém humilde. – Não. É o meu servo pessoal, Rai.
– Vejo que os irmãos Khalil têm um gosto peculiar por estrangeiros. Ele tem uma aparência muito bonita. – Arkon lançou um olhar venenoso para o amante, ele não gostava que Saludja elogiasse outras pessoas, muito menos quem ele não conhecia.
– Sim, ele é lindo mas odeia-me e não consigo arrancar nada sobre ele. – Ramses sentia-se frustrado com isso, manter uma conversa com o seu servo era muito complicado, porém uma brilhante ideia, pensava ele, aflorou na sua mente. – Arkon pode investigar quem é ele? De onde veio, a sua vida?
Arkon franziu a testa com o pedido não era certo bisbilhotar a vida do garoto assim, devia ser feito de forma honesta, conversando, mas ele era o príncipe e ordens era absolutas. – Eu acho que devia perguntar diretamente a ele, se ele descobrir que sabe coisas que ele gostaria que não soubesse pode sentir-se traído. E além do mais eu sou um guerreiro não um espião fofoqueiro.
Ouvindo umas palavras sábias iluminando a razão, Ramses caiu na realidade. Arkon era de poucas palavras, mas quando queria sabia o que dizer apesar de não parecer, ele era bem jovem também e o seu rosto detonando sempre frieza apenas dava a ideia errada do jovem general.
– É verdade. – Os olhos dourados iluminaram-se com a força de vontade e decisão iria fazer Rai gostar dele.
.OoO.
Rouge estava jogado nas almofadas suspirando de tédio quando Khan o deixou ali sozinho, o seu banho foi mais demorado do que o habitual, vestiu uma túnica azul-turquesa de uma só alça, comeu tudo o que Sahib lhe trouxe.
Nem metade do dia passara e já estava assim, sentiu-se um prisoneiro com os guardas o vigiando. Estava quase adormecendo quando a porta se abriu, Rouge sentou-se e mortificou-se com a imagem, um autêntico Faraó entrava no quarto. A sensação de frio dominava o seu estomago a cada passo que Khan dava até ele, o ruivo não desviou o olhar do majestoso homem.
Khan sorriu de canto ao ver o rosto surpreso do ruivo, sentou-se perto dele segurando uma das mãos pequenas, levou aos lábios enquanto penetrava o olhar dourado no azul. – Impressionado? – Rouge acenou a cabeça, estava praticamente babando mentalmente sobre aquele homem.
Khan sorriu rouco retirando a pesada coroa e os adereços peitorais deixando-os no chão sem se incomodar, detestava ter que usar aquilo, por isso apenas usava em ocasiões necessárias, sempre preferiu comodidade no seu dia-a-dia.
A atenção do rei voltou-se de novo para Rouge, sem perder muito tempo puxou ele para mais perto de si, tomou posse dos lábios cheios e cremosos com desenvoltura, um braço rodeava a cintura esguia impossibilitando qualquer abertura de fuga.
O inglês jamais pensou em recusar um beijo dele, a sua mente ficava sempre em branco, o poder de raciocínio ficava nulo quando era tocado. As suas mãos apoiara-se no peito musculado do egípcio, o beijo foi intenso e erótico, mas o beijo não transformou-se em algo mais, fora erótico mas sem tesão carnal.
Foi apenas para que ambos pudessem sentir o gosto um do outro como se tivessem ficado separados um do outro por muito tempo. Quando se separaram Rouge estava anestesiado, os seus lábios formigavam, passou a língua por ali umedecendo-os um pouco mais.
Khan seguiu o gesto insinuante do ruivo, aquela expressão no rosto, o corpo torneado e macio estava pedindo para fazer-lhe coisas nada puras. Sussurrou arrastando as palavras no ouvido do ruivo. – Torna-te meu consorte.
Rouge sorriu, parecia que o outro não ia desistir daquela ideia descabida tão cedo, no fundo ele sentia-se lisonjeado com o pedido, talvez só quisesse testar a insistência do quanto Khan o queria. – Casa com uma mulher, aliás o que eu tenho para um Faraó pedir a minha mão?
– Nunca fui um homem de mulheres, já tenho um herdeiro não preciso de mais, a regra de ouro foi cumprida. E tu tens tudo o que eu não tinha antes. Acariciou os cabelos vermelhos, como ele queria possuir Rouge cruamente ali, mesmo sem se importar com os sentinelas dentro do quarto, mas precisava controlar-se. Ninguém tinha o direito de ver o corpo dele sem ser ele, além que queria tratar Rouge com todo o cuidado como se fosse algo muito frágil.
Nem a possibilidade de Jafir fazer algo contra o ruivo o demovia de torna-lo sua propriedade. Com aquela resposta Rouge pôde sentir-se um pouco desejado, afinal ele era uma pessoa comum que escondia-se dentro de si dando-lhe uma personalidade carente, entretanto não sabia muito bem se aquele desejo todo era carnal ou se realmente Khan gostava dele de verdade.
‘’Amor à primeira vista existe, certo?’’ As borboletas no estomago, a pouca resistência existente contra os beijos e toques que recebia daquele homem, a sensação de sempre querer mais e mais predominavam-no.
– A atração sexual sempre levou os grandes líderes da história a caírem. – Rouge não queria tornar-se numa espécie de ‘’Helena de Troia’’ seria suicídio se apegasse-se demais ao rei. Afinal um louco obcecado tinha-o transformado em um alvo para a sua loucura, as palavras de Jafir estavam plantadas dentro do seu cérebro.
Ele ser apenas um buraco para Khan se satisfazer, isso não tinha como esquecer, afinal não conhecia Khan o suficiente para confiar a entregar-se sem medos. – Cair por atração sexual é mais compensador do que ter uma morte banal, meu amor.
Pensar muito sempre bloqueava a necessidade de fazer o que se gostava e queria. Entregou um beijo na testa imaculada, descendo os lábios dando vários beijos pelo rosto de Rouge, quando ficou satisfeito voltou a encarar os olhos azuis. – Vamos passear, sair deste quarto.
O moreno levantou-se oferecendo a sua mão para ajudar Rouge a levantar-se também. – Passear onde? Está chovendo. – Inquiriu dando uma olhada pela janela, era verdade que a intensidade da água estava diminuindo, mas ainda era chuva.
A sua mão foi enjaulada pelos dedos másculos de Khan e foi arrastado atrás dele para fora do quarto, antes de sair impediu levantando uma mão aos soldados que faziam intenção de os seguir.
– Vamos visitar a biblioteca do palácio, só de olhar para ti posso dizer que adorarias conhecer onde todo o conhecimento está armazenado.
Um brilho de interesse faiscou dos orbes azuis, ir à biblioteca palaciana era o mesmo que encontrar um tesouro enterrado numa praia, pensou em Alexandria por reflexo, em como seria ver uma das mais importantes cidades do mundo antigo com os seus próprios olhos.
Toda a sua exuberante glória e esplendor de uma cidade litoral, o maior porto de trocas comerciais do Egito, a cidade construída por Alexandre ‘O Grande’ quando derrotou e libertou o norte do Egito dos persas, ficando Alexandria como capital do Egito por mil anos.
Não considerou a essa ideia em hipótese alguma, pedir para ir visitar Alexandria, mesmo sabendo que estava perdendo a oportunidade de a ver. – Tenho cara de rato de biblioteca não é? Eu sei. – Rouge sorriu com o próprio comentário.
Khan olhou para ele com uma sobrancelha erguida, o ruivo por vezes dizia coisas que não sabia muito bem como interpretar. – Rato? Que animal sujo para uma comparação. Prefiro a outra, gay, assenta melhor.
Khan sorriu malicioso, adorava ver a coisinha vermelha encabulado. Rouge corou desde da raiz dos cabelos até à ponta dos pés. Khan era desavergonhado e certos comentários eram afiados demais atingindo a timidez dele, também não era para menos o homem havia tirado a sua virgindade.
As suas expressões e voz de prazer eram conhecidas por ele por isso como não ficar sem jeito. – Idiota, pervertido. – O rei riu com gosto, relaxado, Rouge apenas aproximou-se mais do seu lado e apertou os dedos finos entrelaçados em Khan. Um encanto estava puxando Rouge cada vez mais para o Faraó, estar perto dele fazia-o sentir algo estranho.
.OoO.
A rotina do palácio teve que voltar ao normal depois da cena horrenda proporcionada pelo rei, o corpo mutilado foi removidos pelos soldados e queimado no meio do pátio. Queimar um corpo reduzindo a sua carne a cinzas era como impedir a alma de renascer, sem o corpo preservado a hipótese de ter vida para além da morte era impossível.
Os criados trabalhavam em todos os cantos do palácio com as roupas ensopadas, não podiam atrasar mais as tarefas. Rai ajudava na cozinha como era habitual naquela hora, preparar as refeições para todas as pessoas nobres existentes no palácio era um trabalho difícil.
Depois do que viu poucas horas vomitou e um mal-estar apoderou-se do seu corpo, o garoto estava habituado a ver maus tratos físicos em pessoas mas ver corpos decapitados não, obrigou-se a recuperar do choque e controlar a sua mente para voltar ao normal.
Só rezava para que Ramses não o importunasse naquele dia. Contudo não pôde deixar-se de perguntar como ele estaria, quando a confusão toda começou não o tinha visto, apenas deixou a sua comida no quarto dele e saiu. Afastou o príncipe da sua e dedicou-se a cortar os legumes.
Na Casa da Vida Saludja via os seus pupilos com alguma repulsa em mexer nos porcos mortos e abertos especialmente para aquela aula de examinação da anatomia interna. O objetivo era conhecer o sistema sanguíneo e coração, como não podiam ter humanos a servirem de cobaias, porcos de médio porte seriam um bom substituto.
Os alunos estavam divididos em pares e cada um mexia no interior do animal com pinças ou mesmo os dedos, depois do estranhamento inicial os adolescentes estavam entregando-se ao mórbido prazer de mexer nas suaves entranhas dos animais. Em poucos dias Saludja iria espetar na frente deles uma prova escrita e oral, não podia ser sempre condescendente precisava prepara-los para a medicina, então o professor também sabia ser severo quando precisava de ser.
Na área destinada ao exercito um falcão de menor porte saiu de uma das janelas cortando os céus nublosos em direção ao vazio, Arkon pedia informações ao um dos seus aliados. Uma das tribos beduínas que costumavam percorrer o deserto de oásis em oásis, a Tribo do Escorpião.
Lendas contam que essa tribo descende de um dos povos guerreiros extintos mais poderosos que conquistou todo o Baixo Egito em tempos remotos, o sangue do Rei Escorpião, um feroz guerreiro de uma das primeiras tribos guerreiras ancestrais governando o deserto, passou para os seus descendentes.
Os homens da tribo eram exímios guerreiros, caçadores e moviam-se com as areias do deserto, apenas a ferocidade de conquistadores e bárbaros ficou extinta, o povo preferindo viver em harmonia de errantes passando por despercebidos. Quando o perigo das invasões que assolavam o Egito era eminente, a Tribo do Escorpião respondia ao apelo dos tebanos com a sua ajuda, depois voltariam a desaparecer no deserto.
O General real conhecia o chefe da tribo desde adolescente, haviam praticado e treinado juntos antes do pai dele o levar de volta para a tribo. Apenas ficaram na cidade por três meses, para Nehken poder observar como era a vida na capital.
Toda a preparação seria vital, se mais uma invasão de Jafir ocorresse e a segurança do palácio ficasse comprometida de novo ele mesmo cortaria o seu próprio pescoço.
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