O Acordar Do Faraó

12 Capítulo 12 - Saludja & Arkon


Notas iniciais
Hello! O faraó ficou dormindo tempo de mais! HUHSUASH Saudades de escrever esta fic! Um cap. extra, assim como efeito de pausa na história principal. Vai ser dividido em duas partes para não ficar muito extenso. A história terá quatro eventos principais junto com as histórias paralelas, ainda não aconteceu nenhum, mas está-se aproximando o primeiro :3 Este cap. é meio paradinho e mais filler e flashbacks, mas tá fofinho, a 2ª parte será mais fofinha ainda haha Capa nova! Yaay! Boa leitura!

Alguns anos antes dos dias atuais.

Vagueando pelos pátios do palácio depois de ter desafiado o tutor da Per Ankh, dizendo que os ensinamentos dele não estavam muito precisos. Saludja ousou questionar os ensinamentos antigos e dado a pouca capacidade de argumentação do tutor, o jovem saiu da sala a fumegar. Sempre que atrevia-se a opinar e duvidar de algo, os seus mestres ficavam indignados, assim como ele por isso preferia abandonar o estudo antes de piorar a situação. Não era como se Saludja questiona-se os deuses, mas sim os métodos com que os sacerdotes transmitiam esses ensinamentos.

Com quatro anos fora viver para o palácio, deixando os seus pais. Segundo lhe diziam que a escolha dele ser o próximo sumo-sacerdote era escolha dos deuses. Assim o pequeno Saludja de quatro anos viu-se sem o conforto da sua mãe para ser educado por um exército de estranhos. Contudo a sua mente não era totalmente moldada à medida e aos desejos dos seus mestres, mantendo a sua individualidade e personalidade. Aos quinze anos Saludja já mostrava uma grande força de caráter, assim como os seus poderes floresciam.

Suspirando passou a mão pelo cabelo castanho-alaranjado com exasperação, mais tarde teria que pedir desculpas, mais uma vez, para o seu comportamento. Mesmo que a sua atitude em questionar não lhe pareça errada. Sempre o surpreendia por que nunca ninguém lhe dava chicotadas como punição para o seu comportamento. Deveria ser por que o atual sumo-sacerdote e o faraó não permitiam castigos físicos aos servos dos deuses, o que jovem impulsivo agradecia.

Uma pequena figura captou a visão periférica do jovem, sentado na borda de mármore da fonte Safira estava uma criança solitária. Saludja aproximou-se do pequeno e com tom arrogante de adolescente falou com o garoto, ajeitando as mãos nos quadris. — Fugindo das aulas garoto? Que feio.

O garoto virou o seu rosto para encarar a voz de quem perturbara a sua solidão.

Franzindo a testa ao olhar para os olhos mais castanhos-escuros mais mortiços que já viu, Saludja fez outra pergunta. — Qual é o teu nome garoto?

— Arkon. — O garoto respondeu estoico. Instintivamente Arkon tapou a ferida fresca no seu braço com a mão. Movimento que não foi passado despercebido ao jovem aprendiz de sacerdote. Saludja ajoelhou-se na frente do menino e tirou a mão que tapava o outro braço com cuidado. Arkon não protestou, apenas ficou olhando como se não importasse.

Analisou com cuidado o machucado, pensando em várias possibilidades de alguém ter machucado uma criança, sem sombra de dúvida a ferida foi feita por uma espada. — Como é que conseguiste esta ferida Arkon? — Os olhos alaranjados permaneceram sérios, enquanto observavam o rosto inexpressivo do garoto.

— Foi o Medjay. — Arkon não conseguia retirar os olhos do desconhecido. A sua natureza esquiva estava permitindo ser tocado pelo estranho.

— Medjay? — Saludja repetiu com confusão, os poderosos guerreiros nunca machucariam uma criança, então um pensamento de que o garoto poderia ser um aprendiz surgiu. Seria menos incrédulo se Arkon não fosse pequeno e muito magro, o garoto parecia tão frágil que poderia quebrar só com o olhar. — Certamente tu não estás treinando para ser um medjay?

Sentindo a sua fraqueza exposta em voz alta pelo estranho, Arkon ficou irritado. Ninguém precisava de atirar a sua inutilidade na sua cara, ele mesmo sabia. Como o seu próprio pai fazia questão de mostrar-lhe com as surras sangrentas que lhe dava. O garoto sentia-se abençoado de certa forma por ter sido atirado para o exército, com apenas nove anos, não teria que ficar mais à mercê das tareias do seu pai abusivo. Já que ele era solitário apreciaria a sua solidão longe da sua casa em paz. — Eu vou ser um medjay e o general deles no futuro! — Respondeu indignado.

O que ouviu em outras alturas daria vontade de rir, Saludja só não fez isso porque a determinação do garoto era real. — Tudo bem, mas precisamos tratar dessa ferida homenzinho. — Juntando as palavras ao ato Saludja levou o braço ferido de Arkon até à água fresca da fonte.

— Eu acho que veneno de escorpião negro não se cura com água. — Arkon gemeu, com a picada de dor que sentia com o contato dos dedos do estranho no seu braço.

Abrindo os olhos grandemente com a informação, a expressão o jovem aprendiz tornou-se grave, achando um absurdo esses treinos bárbaros. Depois de passar o braço ferido pela água, Saludja levantou-se e com cuidado fez o garoto fazer o mesmo. — Vem, eu vou cuidar do teu machucado e extrair o veneno.

Surpresa ficou estampada no rosto de Arkon, a primeira emoção quente que experimentou havia muito tempo. Normalmente ninguém se ofereceria para cuidar do garoto que não mostrava emoções. À conta disso ouviu milhares de vezes que ele tinha rosto de assassino frio e sem remorsos. Bem era isso que Arkon estava treinando para ser. — És capaz de fazer isso?

— Claro que sim, eu sou o próximo sacerdote do palácio. Saludja, o magnífico. — Para finalizar a sua apresentação Saludja deu o seu melhor sorriso, aquele que deixava as garotas e mulheres derretem-se por dentro.

— Oh… — Não sabendo ao certo o que dizer ficou-se pela admiração. Aquela pessoa era alguém muito importante. Isso deixou Arkon nervoso e com medo de fazer algo imperdoável, por não saber como se comportar com pessoas importantes.

Sentindo a apreensão e o leve tremor do garoto sobre a sua mão, Saludja olhou para o garoto tentando acalma-lo. Piscando um olho enquanto abria outro sorriso fácil. — Calma, eu vim do mesmo nível social que tu. Então somos os dois com raízes modestas.

Pelo tom de pele claro e pelos bonitos olhos da mesma coloração do cabelo, o jovem sacerdote podia dizer que Arkon era estrangeiro. Arkon preferiu ficar em silêncio enquanto era guiado pelos corredores do palácio.

Ao virarem na esquina uma voz jovem fez parar Saludja parar, Arkon embateu nas costas dele distraído. — Ei, Sal o magnífico, outra vez fugindo do sacerdote Ma’hat?

— E vossa realeza está fugindo da sua penosa vida real de comer uvas servidas à boca? — Saludja respondeu no mesmo tom sarcástico. A amizade entre o príncipe herdeiro e o futuro sacerdote desenvolveu-se de uma forma inusitada, bastou umas palavras e olhares para se tornarem amigos e parceiros do crime.

A conversa esquisita fez Arkon sair de trás de Saludja, e olhar espantado para o príncipe herdeiro, desde que chegara ao palácio meses antes era primeira vez o viu de perto. A sua apreensão disparou a níveis astronómicos, obviamente Arkon sabia que o contato com os membros da família real deveria fazer-se na sala do trono, e não em uma conversa sarcástica no meio do corredor. A primeira regra que ensinaram-lhe foi que nunca devia olhar diretamente para o faraó, e baixar o olhar para os restantes membro da família real.

Arqueando as sobrancelhas, Khan olhou com curiosidade para o garoto. — Quem é o nanico?

Arkon apressou-se a baixar os olhos e evitar desrespeitar o príncipe. Com um aperto amigável da sua mão no braço franzino do garoto, Saludja tentou transmitir calma. Transmitindo que estavam em presença amigável. — Arkon é o meu pequeno paciente. Khan por acaso sabia que usam veneno de escorpião negro nos treinos dos medjay?

Khan lançou-lhe um olhar de verdadeira confusão. — Sim, eu sabia. Três vezes por semana treino com eles. Por quê?

— Sério? E não achas perigoso? Eles não são brandos com os novatos. — Saludja mostrou o braço ferido de Arkon a Khan.

— Bem os guerreiros nunca chegam perto de mim o suficiente para me machucar, por razões óbvias. — Khan sentiu-se mal com o que os seus guerreiros, mesmo que a intenção deles seja criar soldados. — Eu pensava que não aceitariam crianças abaixo de nove anos. No mínimo o garoto tem uns sete.

— Mas eu já tenho nove anos… — Arkon murmurou mais alto do que pretendia. Dando-se conta disso o garoto olhou assustado para o príncipe, e rapidamente abaixou o rosto para o chão, ficando com o rosto muito vermelho.

Saludja e Khan olharam para o garoto, como se só naquele momento estivessem cientes da presença dele.

— Outra coisa errada precisa ser revista, crianças são sagradas no nosso país, não foram feitas para sofrer! — A indignação inexistente até há pouco tempo sobre o assunto inflamou Saludja.

— Eu não posso fazer nada sobre isso, Sal. Mesmo o faraó não tem muito poder sobre os Medjay. Essa raça de guerreiros existe muito antes de este império ser construído. São soldados nascidos do sol e da areia, nómades. Basicamente são os nossos ancestrais. — Khan explicou tentando entender a súbita fúria do jovem aprendiz de sacerdote. — Mas eu posso conversar com o meu pai sobre isso.

Assentindo em concordância satisfeito com a resposta do príncipe, Saludja mudou a sua expressão tenaz para a habitual passividade. — Obrigado.

— Posso perguntar de onde veio essa raiva? É por causa do garoto? São parentes? — O príncipe estava curioso além da conta.

— Não. Não o conhecia até pouco. Agora se sua alteza real não se importa tenho que tratar do meu pequeno paciente. — Sem mais Saludja continuou o seu caminho para uma das salas médicas, passando por Khan deixando-o atónico.

Arkon ouviu a troca de palavras entre os dois em silêncio e incredulidade. Saludja estava praticamente discutindo com o príncipe herdeiro por sua causa. O garoto esperava que não fossem enforcados por tal ousadia. O jovem sacerdote definitivamente era a pessoa mais estranha que já conhecera, decerto seria alguém que ele não queria estar perto.

Quando chegaram a uma porta de madeira talhada com os símbolos dourados representando a medicina, Saludja abriu a porta para o garoto entrar primeiro. Àquela hora a sala encontrava-se vazia. O jovem aprendiz sentou Arkon e foi providenciar o material necessário.

Saludja manuseava com extra cuidado a ferramenta cortante no braço do garoto. As aulas práticas de medicina do jovem sacerdote eram frutíferas e bem aproveitadas. O jovem possuía a destreza necessária. Somando a realmente gostar da medicina e de ajudar as pessoas, no futuro queria dedicar-se a ser médico e servir os Deuses. Nada impedia-o de fazer as duas coisas. A habilidade médica ainda não estava aperfeiçoada, contudo o aprendiz ainda teria uns bons anos de aprendizagem para tornar-se um bom médico.

Colocando todo o seu esforço Saludja tratou o braço do garoto o melhor que pôde.

— Ei, Sal estás bem? — Khan inquiriu quebrando o silêncio. — Então de onde apareceu esse garoto?

— Bem, o seu nome é Arkon e vai ser o próximo general dos medjay e servir o faraó. — Saludja respondeu calmante. — Acho que vou adota-lo. Olha para ele, parece que vai-se quebrar se tiro os olhos dele. Sem ofensa, mas os cães do palácio estão melhores alimentados. — Para dar ênfase às suas palavras, Saludja agarrou o braço não ferido e muito magro do garoto e levantou-o no ar, observando o restante corpo muito magro com desaprovação.

O rosto de Arkon avermelhou-se tanto pela vergonha e embaraço como por irritação. Ele não era magro porque passava fome, era magro por natureza mesmo e com os treinos Arkon esperava formar o seu corpo à medida de um homem como devia ser. O garoto pegou no pulso do mais velho, e apertou-o para dar-lhe um gostinho da sua suposta fraqueza e pelos absurdos que dissera.

O aperto dos dedos ao redor do pulso apanhou Saludja desprevenido. Arkon satisfez-se ao observar a surpresa no rosto do mais velho. — Não fiquei ofendido, senhor.

Sem querer arranjar problema Arkon soltou o pulso do mais velho, e levantou-se muito rapidamente. — Muito obrigado pelo seu cuidado. — Os seus pés formigavam para correr dali, e se só parasse no meio do deserto ele não se importaria. Curvou-se muito respeitosamente para o príncipe herdeiro, não olhando-o diretamente nos olhos e fez a sua rápida saída.

— Ah, senhor nada me chama de papá. — Saludja gritou antes da porta se fechar.

Arkon murmurou uma blasfémia que se espantou por um raio não ter caído sobre ele. Definitivamente, ele queria distância do maluco de cabelos laranja.

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Algo frio e molhado escorrendo pelo seu rosto despertou Arkon das lembranças do seu passado. Todo o seu corpo dolorido e fatigado aclamava por mais um tempo de inconsciência. Não contendo um gemido de dor que explodia do lado esquerdo da sua cara. O general alertou a quem quer que estivesse por perto que estava acordado. Passos logo aproximaram-se da beira da cama improvisada. — Arkon? Fica deitado. — Com os sentidos mais atentos Arkon reconheceu a voz de Nehken.

A coisa molhada subitamente saiu do contado com a sua testa. Contudo a dor do lado esquerdo do seu rosto permaneceu. Arkon levantou a mão com intenção de examinar a metade tapada do seu rosto, mas foi impedido. — Não, Arkon. Ainda está sarando. — Nehken segurou o braço do general, recolocando-o ao lado do corpo.

— O quão ruim está? — Arkon permaneceu quieto, olhando para o amigo com o seu olho bom. Desde que começara a usar uma espada Arkon já ficara com inúmeros ferimentos, mas nenhum no rosto, muito menos um que incapacitava alguma parte do seu corpo.

Parecendo hesitante com a resposta Nehken preferiu ser direto. — Está muito ruim. A nossa curandeira diz que… o teu olho está muito danificado impossível de reparo.

— Eu perdi o meu olho não foi? — Subitamente Arkon sentiu-se inseguro pensando no quanto o seu rosto poderia estar desfigurado. Como guerreiro isso não poderia importar menos, seria somente uma consequência de luta. Contudo o motivo de apreensão era pensar no que o seu companheiro diria, se ficaria de alguma forma perturbado com o seu desfiguramento.

— Sim. — O líder da tribo do escorpião deu-lhe um olhar incómodo.

Empurrando a autopiedade para fora da sua cabeça, Arkon entrou no seu modo de general. — Os meus homens?

— Todos estão bem alimentados e cuidados. Estiveste inconsciente por três dias, meu amigo. — Nehken ajudou o seu amigo a sentar-se, ajeitando as almofadas nas suas costas. Depois trouxe uma farta bandeja com comida e assentou no colo de Arkon. — Deves comer tudo e restabelecer as tuas forças, a curandeira virá ver-te mais tarde.

Arkon amaldiçoou-se por ter usado a força da Deusa Sekhmet, a terrível deusa da guerra não fora branda com ele dessa vez. Nunca antes havia ficado inconsciente por tanto tempo, normalmente as consequências do extremo uso concebido pela Deusa leoa, eram fortes dores de cabeça e musculares. Por isso desmaiar era algo novo, ou um aviso para não usufruir demais desse poder, por ser um mero humano.

Deixando as suas dúvidas e confusão emergindo na sua cabeça, Arkon concentrou-se em comer e restabelecer as suas forças, para fazer a viagem de regresso ao palácio. Ainda faltavam vinte e sete dias para Saludja regressar do seu trabalho com os deuses. Somente com três dias separados e ele já sentida terrivelmente falta da sua raposa traiçoeira.

Arkon nunca achou bom presságio, sonhar com coisas do passado, fazia-o sentir vulnerável e carente, consequentemente fraco.

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Dor dominava todos os seus músculos, e a fadiga domava a sua mente. Ao terceiro dia de oferendas e veneração aos Deuses, Saludja após ter cedido um ano da sua vida para salvar Arkon, sentia-se esgotado. Mas não arrependido, obviamente. Ser o sumo-sacerdote não o transformava em imortal, Saludja continuava a ser humano com o tempo de vida normal que os homens tinham. Contudo o esforço de ser um hem-netjer o seu corpo ressentia-se claramente, por isso é que os rituais aos Deuses tinham somente a duração de um mês. Trinta sóis e trinta luas.

O complexo de santuários e outros edifícios formavam uma enorme cidade religiosa, várias avenidas interligavam os templos uns aos outros. O Templo de Ipet-sut era dedicado a Amon-Rá, Mut sua esposa e Khonsu seu filho. Durante todo o dia e noite o sumo-sacerdote teria que visitar todos os templos, e repetir o processo de purificação dos santuários e fazer as oferendas.

Antes do nascer do sol, abatiam-se os animais que seriam oferecidos às Divindades. O sumo-sacerdote e os sacerdotes purificavam-se com água e vestiam trajes brancos, depois disso entravam em procissão no templo. No pátio do templo os sacerdotes apresentavam as suas oferendas e queimavam incenso. Saludja dirigia-se ao santuário da Divindade, uma sala especialmente consagrada, localizada na parte mais reservada do templo. Aqui o sumo-sacerdote acendia um archote e abria o naos, tabernáculo onde se guardava a estátua da Divindade.

Saludja apresentava-se à Divindade e anunciava vir cumprir os seus deveres. Limpava o tabernáculo, queimava incenso, lavava a estátua e aplicava sobre ela óleos, vestia-a, maquilhava-a e colocava-lhe a coroa. Terminado este processo o sacerdote colocava a estátua no naos, abandonando a sala apagando o archote e as pegadas que fez. Ao meio-dia poderia ser feita uma nova cerimónia na qual se oferecia alimentos.

Durante o resto do ano um grupo de sacerdotes dedicava-se a manter a Divindade cuidada sem descurar o seu culto, recebendo as pessoas que quisessem rezar aos Deuses pessoalmente.

O sono do sumo-sacerdote era inexistente, apenas contentava-se em fechar os olhos por momentos. No início do terceiro dia longe do palácio, Saludja cumpriu o seu ritual privado quando estava fora do palácio, escrever a Arkon e mandar a mensagem por um falcão. A inquietação de não receber uma resposta no mesmo dia aumentava o seu mal-estar. Isso quereria dizer que Arkon ainda não regressara ao palácio da sua missão ao deserto.

Saludja não estava gostando nada disso. O pedido de auxílio à Deusa leoa somente era feito em caso de extrema necessidade. Arkon contava-lhe absolutamente tudo, e a estranha ligação com a deusa da guerra. O sacerdote sabia que a deusa alimentava-se esporadicamente de sangue através de Arkon.

Desequilibrava-lhe o seu Ib e Ka qualquer coisa relacionada ao seu companheiro. O seu coração e alma estremeciam tanto no bom e no mau sentido. Mesmo depois de vários anos de relacionamento, Arkon não consentia muito bem a sua obsessão pelo seu bem-estar. De fato ele irritava-se por ser paranoico demais sobre a necessidade constante que Saludja possuía sobre a sua segurança.

Todavia o sacerdote não podia evitar, foi assim desse jeito que se conheceram, Saludja começou logo por cuidar do pequeno Arkon desde então. Havia vezes em que certas lembranças regressavam à mente do sacerdote, lembrar da sua vida com o seu amor fazia qualquer mal-estar desaparecer. Saludja estava morrendo de vontade de voltar para o palácio, incapaz de permanecer quieto levantou-se do seu assento e foi para a varanda do seu aposento provisório, no templo.

A noite estava serena, o pátio principal do templo estava deserto. A rara brisa fazia as chamas dos archotes ondularem de vez em quando. Suspirando pesadamente, Saludja pousou os braços na borda de pedra da varanda, apoiou-se contra ela tentando buscar a tranquilidade que precisava, na noite. A sua paz ilusória foi interrompida por uma voz jovem provinda do quarto. — Hem-netjer tepy? O seu jantar está servido.

Um breve olhar por cima do ombro, o sacerdote agradeceu ao jovem servo. — Shukran.

Decidido a colocar a sua cabeça em ordem Saludja passou a mão pelos cabelos alaranjados. Se algo estivesse errado, ele saberia, ele sentiria. Ainda haveria vários templos para visitar, muitas oferendas às divindades, que precisavam que o sumo-sacerdote estivesse focado e concentrado nas suas obrigações. Voltou a entrar no quarto e servir-se da sua comida, depois umas poucas horas de sono ajudá-lo-ia na ansiedade.

Assim que chegou na cama a conversa com o rei ecoou na sua mente. ‘’Este ano vai ser o teu último de servidão aos deuses. Chegaste ao teu limite, não te quero perder, meu irmão.’’ Como se fosse tão fácil assim, o sumo-sacerdote não poderia abandonar o seu cargo até que o próximo servo dos deuses nascesse. E esse não era o caso, o seu sucessor ainda não nascera, pois por essa hora já teria sido retirado dos seus pais e levado para o palácio para ser educado, e moldado aos critérios sacerdotais.

Alguém com marcas tribais parecidas às suas no rosto precisaria nascer para tomar o seu lugar. Pois aos vinte e seis anos o seu corpo humano já começava a ressentir-se com a sobrecarga, mas mesmo assim, Saludja não poderia permitir que uma criança tomasse aquele cargo difícil enquanto ele ainda respirasse.

Khan não podia simplesmente desejar que se retirasse do serviço aos Deuses, por vontade própria ou por uma mera falha do seu fraco corpo mortal.

Excessos de pensamentos perturbaria o seu escasso tempo de sono, resistindo a perder-se mais em pensamentos Saludja despiu a sua túnica e deitou-se, relaxando os músculos doloridos contra a maciez do colchão, e fechou os olhos.

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Abastecendo o seu cavalo com os mantimentos necessários para a estadia no deserto por dois dias, o general medjay colocou o último cantil com água fresca na bolsa lateral. Sete dias depois do ataque e de estar razoavelmente curado do seu ferimento do rosto, Arkon decidiu que estaria na hora de voltar para Tebas. Secretamente uma das razões para querer partir rapidamente era a falta de notícias do seu companheiro, com toda a certeza já devia haver dezenas de mensagens para ele. Saludja devia estar possesso por não retribuir as suas mensagens e dar sinal de vida.

Arkon sorriu ao lembrar do temperamento do seu amante. A outra razão fez o sorriso desaparecer instantaneamente, o súbito ataque enquanto patrulhavam a área quereria dizer que estavam chegando perto demais ao que não deveriam. Precisavam regressar ao palácio, e traçar uma estratégia para finalmente conseguirem deitar as mãos no bastardo do Jafir. Com o seu cavalo e mantimentos prontos, Arkon virou-se para verificar os seus homens, o restante deles.

Desprevenido Arkon teve o seu rosto puxado contra os lábios de Nehken. O guerreiro da Tribo dos Escorpiões sorriu travesso, enquanto acariciava os cabelos de Arkon. Esse por sua vez revirou os olhos com desaprovação, quase todas as vezes era apanhado de surpresa por Nehken. Todavia o general não estava com vontade de bater no seu amigo como despedida. — Imbecil.

— Ah tenho que aproveitar sempre as tuas curtas visitas. — Nehken piscou um olho, com o seu sorriso a ampliar-se mais.

— Hum, Salduja vai ficar muito feliz por saber que tu foste um excelente e dedicado anfitrião. Vai vir pessoalmente para te agradecer. — Um sorriso maldoso transformou o rosto de Arkon em sarcasmo. A expressão matreira de Nehken logo saiu do rosto. Como seu ponto franco e muito conhecido de Arkon, ele não tinha medo de fazer uso disso. Nehken jamais se cruzaria no caminho de Saludja. Todavia intimida-lo era divertido.

— Não farias isso! Não mesmo, não é? Ainda sou muito novo para ser mumificado. — Nehken relaxou do seu choque inicial quando viu Arkon rindo dele. Em todos esses anos de convivência, Nekhen soube do lado sarcástico do normalmente estoico de Arkon. O seu sorriso era uma dádiva que iluminava a aura de Arkon, impossível para Nekhen ficar furioso com ele.

— Bem, hora de partir, antes que o sol se levante mais. — A aurora estava iluminando o céu. Percorrer o máximo de quilómetros sob o sol ainda morno era uma das prioridades, pois nas condições de ainda em recuperação. Nem os guerreiros mais fortes conseguiam ganhar contra a natureza.

Os dois amigos abraçaram-se em despedida com promessa de se voltarem a ver em breve. Arkon montou o seu garanhão e logo os medjay o seguiram, para o meio do deserto saindo do oásis Kharijah.

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Colocando o manto de leopardo cerimonial, Saludja saiu do seu quarto para mais um dia e noite de rituais. Os dois bois sacrificados estavam sendo preparados no pátio principal, em cima das mesas das oferendas. O pelo dos animais era limpo ao cuidado para tirar os parasitas, depois besuntado com óleos, nos chifres os símbolos do deus para quem os sacrifícios eram endereçados, eram pintados com ocre vermelho e preto. A estátua colossal dourada do Deus Amon-Rá ocupava todo o centro do pátio principal. O ritual das oferendas complementava-se com cantoras, músicas e dançarinas, chemait, hesit e khebait em perfeita harmonia para a ocasião.

Como sumo-sacerdote Saludja inspecionou os preparativos do ritual, evitar imprevistos era prioritário. Aos primeiros raios de sol Saludja e os demais sacerdotes ajoelhar-se-iam para a oração ao deus Amon-Rá.

Na sala reservada à divindade Saludja iniciou a preparação do altar. O que ele estava fazendo não consistia em esforço físico, mas ao levantar a estátua mediana do seu poiso, sentiu dificuldades em segurar o seu peso nos braços. Os sintomas estavam a acentuar-se cedo demais, e mais rápido do que gostaria. Notou algo úmido saindo do seu nariz, Saludja levou a ponta dos dedos e limpou o fio de sangue. Isso não o iria perturbar, sem dar a mínima para hemorragia nasal, o sacerdote terminou a sua tarefa. Mais vinte dias para voltar para o palácio.

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— Sal? Por quê a demora? Sal? — Arkon chamou o jovem sacerdote quando entrou no quarto do sacerdote. Os últimos três anos haviam-se transformado em uma estranha amizade entre os dois. Com doze anos o aprendiz de medjay tinha finalmente uma figura próxima. Mesmo que Saludja não fosse muito mais velho que ele. Ambos dedicavam um ao outro a maior parte do tempo livre, entre jogos, leituras de papiros antigos ou a banquetearem-se nos aposentos do príncipe Khan. Arkon ainda não estava completamente confortável com a proximidade do príncipe herdeiro, mas sempre fora tratado como um irmãozinho mais novo para ele.

O idiota, como Arkon gostava de ser referir ao sacerdote, não voltara da sua ida em busca do Mehen. Jogos de tabuleiros era um dos passatempos preferidos dos dois para lazer, e ajudava bastante a capacidade de concentração e estratégia de ambos, qualidades importantes para o aprendiz de guerreiro e sacerdote.

Irritado pela demora do sacerdote, desistiu de ficar no jardim à espera dele e foi procura-lo. Não viu sinal dele na sala nem na saleta médica, o garoto andou até ao quarto. — Sal? Sons baixos provinham da direção do quarto até aos ouvidos de Arkon. Franzindo a sua testa com desconfiança o garoto afastou as cortinas e entrou no quarto.

Saludja estava prensando uma criada na parede enquanto a beijava afoitamente, as mãos dele tocando e beliscando o corpo da mulher. Não era muito difícil chegar às partes intimas devido às roupas serem finas e facilmente descartáveis. A visão periférica do jovem sacerdote alertou-o para a presença intrusa. Tomado pela surpresa Saludja separou-se da mulher, o sentimento de aperto e culpa encolheu o peito do jovem.

Simplesmente tinha feito aquilo num ato irracional. Saludja queria libertar-se e aliviar-se da estranha sensação que a companhia de Arkon lhe proporcionava. Havia meses que o jovem sacerdote havia começado a olhar para o garoto com outros olhos, diferentes de como costumava olhar, diferente da maneira como se devia olhar para um irmão mais novo. — Arkon o que estás fazendo aqui?

Chocado pela cena Arkon não conseguiu reagir. Ver os lábios de Saludja maculados pelo brilho das salivas enojou-o. O rosto corado, o peito arfante e os visíveis mamilos duros, e empinados sob o leve tecido, foi o suficiente para o estômago de Arkon remexer-se em agonia. Ver que Saludja, a única pessoa na vida que mostrara interesse e carinho por ele, preferir estar curtindo com uma mulher qualquer, do que querer estar na sua companhia, magoou-lhe para além do que poderia suportar. Indiretamente isso queria dizer que Arkon não deveria depender tanto do sacerdote. Pois ele afinal também teria que viver a sua vida, independentemente do quanto Arkon quisesse manipular o tempo de Saludja, para seu próprio proveito.

A simples ideia de realmente não ser nada ou ninguém importante para Saludja, magoava-lhe profundamente. Colocando a sua habitual máscara para esconder os seus sentimentos, o garoto deu um passo atrás virando-se para ir embora. Com um breve olhar inexpressivo Arkon saiu do quarto do mais velho, tão rapidamente quanto humanamente possível, não parando até chegar à beira do rio Nilo. Correra através da cidade inteira.

Sentindo-se pessimamente, Saludja afastou-se da mulher, não sabendo sequer o nome dela. Depois de conseguir afastar-se um pouco de Arkon para ir buscar o Mehen, aproveitou-se da criada, a cada minuto que se passava na companhia do garoto não estava fazendo-lhe bem. Contudo não conseguia ver-se evitando Arkon ou não estar ao lado dele, mesmo com a confusão dentro do seu coração e cabeça não dava para ficar longe dele. Ao ver a criada arrumando o seu quarto, viu a oportunidade perfeita para descarregar nela o que queria fazer a Arkon. Aos dezoito anos, e com os ensinamentos do sacerdócio e medicina quase terminando, Saludja era uma mente e corpo confuso. Suportando as suas dúvidas, anseios e medo sozinho sem ter a quem recorrer.

Contar a Khan, o príncipe herdeiro e seu melhor amigo, estava fora de questão. Khan ficaria chocado e indignado se ele chegasse e dissesse que queria entrar no templo de Arkon.

Sentando-se na borda da cama Saludja enterrou o rosto nas mãos e afundou-se na sua depressão. ''Arkon só tem doze anos!'' A mórbida ideia de ele não se importar de ficar cego, para não conseguir ver a tentação, era agradável. Era uma punição muito aceitável.

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O barco real navegava pelas águas tranquilas do Nilo, de regresso a Tebas. Depois do rei lidar pessoalmente com algumas manobras e velas do barco, procurou o seu prêmio vermelho pelo convés. Não sendo muito difícil de localizar a beleza debruçada na borda, Khan andou até ele, olhando para o sol alto sabendo que estariam chegando a casa brevemente.

Encaixando o seu corpo no de Rouge, colocou as suas mãos na borda de madeira, prendendo o ruivo nos seus braços. Deleitou-se com o tremor do corpo menor contra o seu. Rindo roucamente Khan enterrou o rosto nos cabelos rubros e beijou a nuca de Rouge. O suspiro audível que o ruivo deu aumentou o sorriso do rei.

A felicidade de Khan era astronómica, depois da visita ao seu tio e do seu aniversário, ele voltava noivo. Desde da noite em que Rouge aceitara ser exclusivamente dele, os sorrisos idiotas não eram possíveis de serem contidos. Rouge não se encontrava mais tão arrisco como no princípio, aceitando bem os seus toques e caricias, mas a adorável timidez ainda permanecia. Vez ou outra, o temperamento do ruivo aparecia cada vez que Khan excedia-se no seu entusiasmo. Xingamentos era uma coisa nova que o rei achava divertido na sua joia.

Em resposta à sua animação, o seu pênis apareceu duro nas costas de Rouge para o cumprimentar.

— Khan!! — A voz esganiçada do ruivo não saiu tão firme e alta o quanto pretendia. As bochechas pálidas tingiram-se de escarlate. Rouge não aguentava com firmeza as seduções do outro, cada vez que estavam sozinhos ele sucumbia em segundos, como uma abelha perante uma flor colorida. Sentir o pênis duro nas suas costas não era o mais apropriado, num barco cheio de pessoa no meio do dia para se sentir.

— Calma precioso, não tenho intenções de fazer nada aqui… — O moreno deslizou os lábios para o ombro descoberto. O cheiro da pele aquecida pelo sol era afrodisíaco. Apercebendo-se que a pele delicada estava avermelhada, e que Rouge não estava apropriadamente vestido para estar exposto ao sol durante tanto tempo, Khan retrocedeu nas suas provocações e virou-o. — Vem, já estiveste demasiado tempo no sol, amor.

A súbita mudança de comportamento e ser virado de repente, surpreendeu Rouge, que ficou olhando para o rei com os olhos arregalados. De repente as palavras de Khan fizeram sentido, a fina túnica de linho e de alças não era o apropriado para ele. E sofrer com queimaduras solares de novo não estava nos seus planos. — Que foi? — Franzido a testa em confusão, Khan estava encarando-o intensamente. Os olhos dourados que apareciam ouro líquido davam-lhe calafrios na espinha.

A resposta veio em forma de ato, os braços musculosos rodearam a cintura como uma barra de ferro. Os dedos da outra mão subiram pelas costas pressionando as pontas nas vertebras, ponto muito sensível para Rouge, a mão exploradora acariciou a nuca.

Khan aproximou os rostos sussurrando rente aos lábios cheios do ruivo. — És lindo demais para o teu próprio bem, e para a minha sanidade. — A boca possessiva do faraó apoderou-se do que era seu com total fervor.

Não tendo por que resistir Rouge abriu os seus lábios, para a língua dominante entrar no domínio da sua boca. Beijar Khan era um desafio, a diferença de alturas obrigava Rouge a colocar-se em pontas dos pés e apoiar as mãos nos ombros do moreno.

O aperto de ferro em torno do corpo esguio do ruivo apertou-se mais, fundindo os corpos. Querendo sentir os cabelos macios entrelaçando os seus dedos, Khan desfez o rabo-de-cavalo e deixou os fios livres. Para ele era outro afrodisíaco, mexer na maciez vermelha enquanto devorava o interior de Rouge com a sua língua.

Os gemidos de Rouge abafados pelo beijo, impelia Khan a aprofundar mais a sua língua na doçura dele.

Totalmente desnorteado pela intensidade do beijo, o ruivo ficou meio tonto quando terminou. Não sabendo o que expressar primeiro, descontentamento por ter acabado ou alívio por sentir o oxigênio de novo nos seus pulmões. Ficando firme nos seus pés Rouge deslizou as suas mãos pelos ombros, até ao peito musculoso e nu do seu amante, adorando a sensação e as ondulações que o corpo forte possuía.

O rei suspendeu a respiração para se controlar, não queria atacar Rouge no chão do barco. Os dedos tocavam no seu peito com leveza e os olhos azuis repletos de desejo. Khan passou o polegar pelos lábios rosados, úmidos e inchados do beijo. — Vamos sair do sol, joia.

De bom grado Rouge seguiu o seu glorioso faraó para a parte resguardada do sol impiedoso. A mão calejada segurando a sua deixava-o de certa forma orgulhoso. Era impossível para Rouge e Khan permanecerem sem se tocarem todas as vezes que se cruzavam.

Ambos foram recebidos por duas crianças elétricas, imparáveis e demasiado felizes. Rouge não se impediu de sorrir para a sua futura filha ir até ele com cara de caso, e com os dedinhos tocar na sua perna em busca de atenção.

.OoO.

O acampamento levantou-se pelo menos três horas antes do nascer do sol. Os seis homens vestidos de negro cortavam o ar gelado da noite desértica. Os turbantes negros protegiam os rostos do ar frio e da areia. Chegariam ao palácio quando o sol estivesse no ponto mais elevado no céu.

Arkon sentia-se extremamente cansado e dolorido, os seus ferimentos ainda não estavam sarados, coisa que antes não demoraria mais de dois dias para ficar como novo. O seu olho esquerdo estava perdido, mas o general não poderia importar-se menos com isso. O general ainda não havia classificado a sua missão como perda de tempo ou proveitosa. O inesperado ataque dos hiscos, poderia dizer que estavam a chegar perto demais de algo, que não queria ser descoberto.

A entrada de hiscos em Kemet em si já era muito problemático, o palácio e ele deveriam saber da existência de estrangeiros hostis no reino. Teria que verificar pessoalmente as fronteiras e os responsáveis por elas, que os deuses os protegessem dos traidores e vendidos aos inimigos.

Horas depois como o previsto, a paisagem árida mudou para verdejante e viva à medida que se aproximavam do rio Nilo. As horas solitárias e silenciosas rodeando os guerreiros, dispersava-se com os camponeses trabalhando nas colheitas, entre cantorias e louvores aos deuses. Uma breve paragem na beira do rio para os cavalos beberem água e descansarem, assim como os seus donos. Desmontaram os cavalos, retiraram os turbantes e enfiaram as mãos e cabeça na abençoada água.

Arkon bebeu água e lavou o seu rosto, não tirando o seu tapa olho que viria a fazer parte da sua aparência até ao fim dos seus dias. Um marco da sua sobrevivência. Aos vinte anos o jovem general ainda não havia participado numa guerra real, apenas de conflitos entre poucos hiscos selvagens, mas nada de muito significativo. A paz de Kemet era a primeira prioridade do faraó, o reino não participava em guerras alheias que proliferavam em outros reinos.

Os interesses de Kemet jamais seriam recolocados em segundo plano em proveito da destruição das guerras. Guerras, não eram nada mais que jogos de poder e inveja, um país saudável e rico causava sempre a ganância e inveja de outros soberanos. Kemet era um exemplo disso.

Saciados e refrescados os guerreiros retiraram as túnicas de tecidos grossos, que usaram durante a noite, e subiram nos cavalos para terminarem o resto do caminho até ao palácio.

O som dos portões principais do palácio rangeram pela segunda vez. Isso fez o faraó e a sua família pararem para receber a comitiva. — Mas o que… — Khan ficou pálido por ver Arkon.

O general real e os guerreiros medjay desmontaram os cavalos, subiram o lance de escadas até ao faraó. Ninguém precisava ajoelhar-se em frente ao faraó, mas todos precisavam tapar os olhos com uma das mãos e baixar a cabeça colocando o raio de visão para baixo do corpo do faraó, para que assim não pudessem fitá-los diretamente. Era extremamente proibido para o resto dos mortais olharem diretamente para os olhos do faraó.

O general era uma das muito poucas pessoas que tinham a liberdade e intimidade com o rei. — Sim, meu amo. Sim, meu mestre. O que queres que eu te faça? — A saudação ao faraó foi dita em coro pelos medjay.

Khan reduziu a distância entre ele e Arkon, segurou o rosto do mais novo com ambas as mãos chocado. — O que aconteceu?

— Hiscos selvagens. Estavam esperando por nós nos desfiladeiros. Existe alguma coisa que quer permanecer escondida por lá. — O general deu o seu relatório calmamente, olhando diretamente para o seu soberano.

— Arkon o teu rosto… — O rei virou e revirou o rosto de Arkon analisando milimetricamente. O aspeto cansado e o profundo círculo escuro de baixo do olho visível, não era muito comum no seu general. Assim como os outros medjay. — Descanso, repouso e muita comida para todos por vinte dias. É uma ordem do rei!

— Isso não será necessário rei! — Arkon tentou contradizer Khan, havia muitas coisas que ele precisava lidar, e ficar sentado sem fazer nada não era uma delas. Tentou chamar a razão do rei. — As fronteiras precisarão de uma vistoria e os soldados trocados.

— Saludja. — Khan disse esse nome com muita seriedade no seu rosto.

A mera pronúncia do nome do seu amado fez o jovem general ficar tenso.

— Saludja vai ficar muito chateado com o teu ferimento. — Khan continuou com o tom carregado. — Eu não quero um sumo-sacerdote nervoso no palácio. Correção, eu não quero Saludja mais furioso do que ele vai ficar com o teu ferimento. Restabelece-te e descansa, porque mereces. Eu trato do resto.

Impossível contrariar a palavra do rei, Arkon engoliu em seco. A obsessão de Saludja pelo seu bem-estar poderia chegar a algum desconforto. O homem ficava louco cada vez que ele se cortava com os seus próprios punhais. O general baixou a sua cabeça em sinal de condordância.

Mais aliviado pela colaboração de Arkon, o rei ficou um pouco mais aliviado. Todavia a fúria tomou o lugar da tensão, ele, o faraó Khan El Khalil não aceitava ofensas físicas ou verbais à sua família. Nem o seu povo ficaria à mercê da violência exterior. No topo de tudo a prioridade de eliminação constava Jafir. A cobra escorregadia teria a sua cabeça decepada. Khan abraçou o seu irmão de coração e deixou-o ir. Pediria a alguém para manter um olho no teimoso para mante-lo vigiado, a fim de evitar que colocasse o dever acima da sua saúde. — Nos veremos mais tarde.

Arkon despediu-se do rei e cumprimentou o resto da família real com um ligeiro acenar de cabeça. A sua audição aguçada permitiu-o ouvir o amante do rei, perguntar com curiosidade sobre a Saludja e ele. O general sorriu, ele gostava assim, o seu relacionamento permanecesse no secretismo. Aos seis anos de relacionamento tornava-se quase impossível ninguém no palácio ter-se apercebido, mas Arkon gostava de pensar que a sua vida amorosa não era o tema principal de fofocas, tendo em conta da reputação de Saludja.

A breve passagem do general no quartel do palácio deixou-o mais aliviado. Nenhuma ocorrência de maior gravidade acontecera no período da sua ausência. Arkon sentiu-se orgulhoso dos seus oficiais encarregados na sua ausência. Daria a si mesmo umas horas de sono primeiro para recargar as energias, posteriormente atualizar-se-ia dos acontecimentos de Tebas e dos que trouxe do deserto.

Caminhando pelos corredores do palácio até aos aposentos de Saludja, não iria para o seu quarto. Quando estava prestes a chegar à porta do quarto, um garoto dos recados abordoo-o com vários pedaços de papiros nas mãos. — Mensagens do hem-netjer. — O rapazinho parecia feliz por ter tido uma tarefa importante. Qualquer coisa vinda do Sumo-Sacerdote era de extrema importância.

Arkon recebeu as mensagens, querendo rir do termo pomposo e aristocrático com que as pessoas tratavam Saludja. ''Servo de Deus… está mais para idiota.’’ Xingou mentalmente. — Obrigado garoto. Por favor, poderias ir buscar um falcão mensageiro para mim?

Pedido e feito o garoto saiu correndo quase voando para executar a tarefa.

Entrou no quarto e inspirou profundamente, tudo estava igual, mais arrumado claro. Olhou em redor, sentindo-se em casa finalmente. Sentou-se na cadeira e mesa de escrever de Saludja, e começou a ler as mensagens. ''Desesperado…'' O conteúdo dos papiros iam de extrema saudade, preocupação e ameaças contra qualquer coisa que pudesse prejudica-lo. Retirou uma folha de papiro, um pincel e o potinho da tinta da gaveta da mesa, e começou a escrever a sua resposta.

''Idiota, eu estou bem. Não consegui mandar-te mensagem porque estava mesmo muito ocupado, desculpa. Nos veremos daqui a vinte dias. Estou com saudades. Albi maaak Saludja.

Terminando de escrever as batidas infantis na porta alertaram-no. Soube que eram infantis pelo jeito frenético e impaciente das batidas. Abrindo outra gaveta, retirou um pequeno baú de madeira e retirou duas moedas de ouro. Não era permitido dar mais de duas moedas a crianças, pois elas seriam alvos fáceis para alguém lhes fazer mal para as retirar.

O garoto parecia mais elétrico que antes, o falcão parecia gigante no braço dele. Arkon estendeu o seu braço para o falcão, que obedientemente subiu para o braço estendido.

— Obrigado garoto. Podes ir. — Deixou as moedas cair na mão do garoto, fazendo os olhos do pequeno se brilharem, pois aquelas dariam para sustentar a sua família inteira por umas semanas. — Obrigado senhor.

Arkon entrou no quarto de novo, e amarrou o papiro à pata do falcão com um cordel de couro. Levou a ave até à varanda do quarto e deixou-o ir, aquele falcão em especial sabia todas as rotas de Saludja durante a temporada das oferendas aos Deuses. Regressou ao quarto, passando pela parede onde o punhal que atirara a Saludja antes de partir, ainda permanecia no mesmo sítio. Retirou-o da parede suspirando, pousando-o na mesa de escrever. Sentindo-se levemente deprimido, Arkon dirigiu-se para a ala do banho. Rapidamente tirando as roupas surradas e suadas do corpo, enfiou-se na piscina e banhou-se preguiçosamente. Para logo a seguir desmaiar na cama macia.

Notas finais
Vocabulário~ hem-netjer - Servo de deus. Albi maaak - O meu coração está contigo Espero que tenham gostado, e que aparecem por aqui :3 Mesmo depois de um tempinho sem postar esta história, mereço um incentivo não é? Ah eu retirei as fotos dos personagens dos caps e coloquei aqui num álbum, toca a babar neles shuashaas só falta adicionar os filhotes do Khan. http://www.pinterest.com/madhighness/o-acordar-do-fara%C3%B3-personagens/ Até ao próximo! Que não vai demorar muito