Prólogo: O Trem Etéreo

Já era seis horas da tarde quando eu finalmente cheguei ao acampamento, meus pais queriam que eu fosse que nem eles, aventureiro e imprudente, eles me colocaram em um “Acampamento de Verão”, pois eles queriam que eu me divertisse uma vez ou outra na minha vida, então eles compraram um diário, queriam que eu registrasse todas as minhas atividades e amizades feitas aqui para que eles analisassem o quanto eu me diverti.

Como planejado, eles me colocaram no “Acampamento do Coral”, um acampamento feito a encosta de uma montanha que de alguma forma conseguiu criar um pequeno recife de coral em seu próprio lago, o acampamento é enorme, possui umas 15 cabines, cada uma com dois beliches onde dormiriam dois meninos e duas meninas, o plano de diversão era aprender sobre a natureza, tanto a mãe quanto os filhos dela, uma analogia sobre como nós não devemos nos importar sobre os nossos sexos e suas diferenças e sim sobre onde nós vivemos e como tratamos a mãe terra, pelo menos uma coisa que eu concordava...

Minha cabana era a numero sete, não era muito suja, mas encontrei uma barata perto do armário, logo depois que eu me situei, chegaram meus companheiros de quarto. O menino que dividiria o beliche comigo se chamava Takatto Mikawa, descendente japonês, não parecia interessado no acampamento também, ele não disse nem um oi, ficou ouvindo musica enquanto digitava algo no celular. As meninas chegaram alegres, Renata e Rebecca pareciam irmãs gêmeas, presumo que elas já se conheciam previamente e concordaram juntas em vir para o mesmo acampamento e ficarem na mesma cabine, Renata era gordinha, ruiva, e não parecia ser do tipo que facilmente se deprime, não parou de sorrir uma vez sequer, usava um aparelho multicolorido, sendo que duas das marquinhas combinavam com seus olhos, ela sofria de heterocromina. Rebecca era intimidadora, morena de cabelos castanhos, era forte, também chegou ouvindo musica, mas já tentou se enturmar.

- Então vocês são os meninos que vamos ter que aturar durante um mês?

- Calma, Rê (este era o apelido que Renata colocou em Rebecca), talvez eles sejam legais!

- É tanto faz...

- Ok, por que nós não nos apresentamos?

Eu comecei:

- Meu nome é Vitor Lavoisier, minha família me mandou para este lugar porque eles queriam “acordar” minha hiperatividade.

- O meu é Renata, Renata Santos, vim com minha melhor amiga para cá por que este ano decidimos passar o verão mais juntas do que nunca!

- O meu é Rebecca, para encurtar, eu vim pelo mesmo motivo da Renata.

Takatto continuou calado, pelo visto aumentou o volume dos fones de ouvido, anti-social...

Depois de arrumarmos nossa bagagem, reunimos na cantina, o jantar não foi tão ruim quanto imaginei que seria, mas ele ainda parecia mais um almoço.

Já eram nove horas da noite, tínhamos que dormir cedo, realizaria uma caminhada pela manhã.

Aproximadamente às onze horas e 15 minutos, um estrondo me acordou, uma forte luz aparecia pela janela, quando decidi ver o que era, quase cai de costas quando percebi o que estava na minha frente, era um trem, SIM UM TREM!

Uma rodovia do nada apareceu em frente a nossa cabana, e um trem enorme passou em disparada, ninguém acordou, será que eles não enxergavam ou não escutavam o apito? Na porta de um dos vagões, tinha uma escritura em um pequeno painel:

O Tolo que aposta sua vida

Um grande tesouro pode encontrar

Um show que ninguém imagina

Em que o anfitrião almeja apresentar

O trem que não aparenta ter fim

E que lhe visita no luar

Tua alma pode libertar

Se a noite você sobreviver, sim

Teu futuro poderá assegurar

Algumas letras brilhavam em azul, pareciam estar em chamas, do nada uma mulher abre a porta do vagão, e me estende a mão:

- Deseja o teu futuro garantir, ou sua vida em desolação deixar fluir?

Nem sei o porquê, mas eu tremia ao mesmo tempo em que desejava com todas as forças entrar naquele vagão, lembrei-me do que meus pais me disseram, eu devia entrar! Eu devia ser imprudente pelo menos uma vez na minha vida, ao estender a mão, ela me puxou para dentro do trem, e ele partiu em disparada mais uma vez.

- Cheio de perguntas presumo estar, mas sente-se, já estarei a voltar.

Ela foi até uma sala, pegou uma xícara de café e voltou ao lugar onde eu estava sentado.

- Por que você fala rimando?

- Perceber eu não percebo, só sei que às vezes cai a inspiração, e a vontade de rimar toma conta de mim, fico meio que sem ação. Mas isto não é o importante, e sim a sua presença neste trem, este é o trem das almas que procuram salvação, o limbo isto não é, mas bem que poderia ser; Esta é sua chance de corrigir seus futuros erros que arruinaram não só a sua vida, como a de outras pessoas que nem imaginam a sua existência ou a própria delas.

- Do que você está falando?

- Este é o Trem Etéreo, é sua conexão consigo mesmo, é o caminho que tu deves seguir para se encontrar! E sobreviver, eventualmente... Mas enfim, deixe-me apresentar-me, meu nome é Lynn, eu sou sua Guia Espiritual.

- Eu morri?

- Não, não, não ainda... Digamos que, quando algumas pessoas perdem a vontade de viver involuntariamente, ou simplesmente não encontram um motivo para isto, nós ajudamos! Nós criamos uma série de 30 desafios onde poderemos ajudar a pessoa a se encontrar... Ou acelerar sua morte e acabar logo com seu sofrimento.

Naquela hora veio um calafrio, aquilo não era normal, eu só podia estar sonhando.

- Mas eu quero viver...

- A é mesmo? Então por que em meus registros você apresenta alto índice suicida alem de falta de motivação, preguiça entre outras coisas que prefiro não comentar se não piora sua condição psicológica instável... Não se preocupe o desafio ainda não começou, mas você agora não tem como abandoná-lo, a cada noite eu virei pessoalmente lhe pegar para você realizar seus diários desafios que podem comprometer sua vida e seu futuro.

- E contra o que eu lutarei como eu lutarei e alias, eu só tenho 12 anos.

- Ah, contra isto não se preocupe, uma arma eu lhe darei, segure-a como se fosse teu coração, desculpe se eu fui rude, se não gostar em outra eu pensarei, mas se prepare para a ação! Próxima noite eu lhe visitarei!

Ela me entregou uma lanterna, como se aquilo fosse me defender de alguma coisa, antes que eu pudesse requisitar por uma arma mais “útil”, ela abriu a porta do vagão, me deu um beijo na bochecha e com o trem ainda em movimento, me empurrou. Eu acordei em minha cama na outra manhã, será que foi tudo um sonho? Não, não sei, pois ao me levantar, percebi que tinha uma lanterna em minha mão e uma marca de batom vermelho na bochecha.