O Último Suspiro
3 Hospitalidade Manda Abraço
Martin me orientou até uma enorme construção que disse ser a Casa Grande (que era grande mesmo) e, antes mesmo de batermos, a porta se abriu e um homem (ou era um cavalo) apareceu. Ele era homem apenas da cintura para cima, mas da cintura para baixo tinha um lindo corpo de cavalo. Arfei, dando alguns passos para trás, observando-o melhor. Ele sorriu caloroso, como se fosse velhos amigos.
— Srta. Brenner, você demorou a chegar. — fez sinal para que entrássemos. — Fez boa viagem?
— Olga nos deu tempo suficiente, Quíron. — sussurrou Martim. — Por muito pouco quase não conseguimos, mas a garota mostrou bravura.
— Olga merece esse descanso. — ponderou Quíron se voltando para mim. — Eu fiquei sabendo de seus feitos, menina.
— Onde estou? — perguntei ignorando completamente sua observação. — Martim, por que estamos aqui?
— Ora, por um motivo muito óbvio. — disse um homem barrigudo (de onde ele apareceu?). — Este é o único lugar seguro para pessoas como você!
— Pessoas como eu? — indaguei ofendida. Quem aquela rolha de poço pensava que era?
— Meios-sangues — esclareceu Quíron. — Filhos dos deuses antigos. Já ouviu falar deles, não ouviu?
Deuses antigos. Gregos e romanos.
— Sim senhor. — sussurrei perdida em pensamentos. — Isso não é possível!
— Assim como não é possível que aquela sua professora de transforme naquilo que acabou de matar? — perguntou o barrigudo.
— Eles são apenas mitos.
— Eu não sou um mito! — um fogo bruxuleante apareceu em seus olhos.
— Hã… Jennett, eu acho que deve ser apresentada devidamente ao diretor de nosso acampamento. — disse Martin. — Este é o Sr. D.
— Lorde Dionísio para essa pirralha!
Quíron e Martin me conduziram até alguns chalés e pararam em frente ao de número 11. Parecia bem pequeno e precário, não deveria havia muitas pessoas lá dentro. Ou foi o que eu pensei. Quando eles abriram a porta vários olhos se voltaram para mim e para eles, alguns mostravam respeito e outros curiosidade.
— Esta é a nossa mais nova campista, Jennett Brenner. — anunciou Quíron. — E ela vai ficar aqui com vocês por um tempo.
— Definitiva ou indeterminada? — perguntou uma garota baixinha de olhos escuros.
— Indeterminada! — disse ele deixando o chalé.
Ganhei um saco de dormir e um espaço do chão. Muito gentil da parte deles. “Agora eu realmente me sinto parte da família” pensei comigo mesma antes de entrar no saco. Uma garota alta e musculosa parou perto da porta e, segurando o riso, pediu que todos se calassem.
— Ei, calem a boca! — gritou ela ainda rindo. — Ok, ok! Sejamos cordiais com nossa nova hospede. Eu sou Margaret Shaw, concelheira-chefe e, obviamente, filha de Hermes.
Quando ela disse isso muitos explodiram em risadas, por outro lado, alguns franziram a cara e fingiram não ouvir. Supus que eram, assim como eu, taxadas de “indeterminadas”. Não sabiam que eram seus pais, não havia ninguém ali por elas. Como não havia ninguém por mim. Suspirei e me senti cansada. De repente tudo o que eu queria era dormi. Desviei-me do falatório de Margaret com um simples “obrigado por me acolherem” e me enfiei no saco de dormir, pronta para acordar em minha cama e em minha casa. Aquilo não passava de um sonho ruim.
Rolei (ou tentei rolar) dentro do saco de dormir e me espreguicei, até aí tudo bem ou foi o que eu pensei antes de abrir os olhos. Deparei-me com dois globos cor de amêndoa me encarando, mas eles não pareciam hospitaleiros ou gentis, muito pelo contrário. Uma garota (que por um momento pensei que fosse um garoto) me encarava de cima e parecia me farejar, atrás dela dois garotos trancavam a porta.
— Olá! — sussurrei ainda com sono. — Eu sou…
— Eu sei quem você é! — disse ela voltando a ficar ereta sobre mim. — Você é a campista nova! Jennett Brenner!
“Campista nova”. “Pessoas como você”. Senti minha cabeça girar completamente num ângulo de 360º e voltar ao lugar. Não foi um sonho. Eu ainda estava naquele lugar de pessoas esquisitas e Olga se foi, era só eu e o mundo. Gemi em desespero.
— Olha, não é nada pessoal, mas é um processo de iniciação pelo qual todos passam por aqui. — disse a garota exibindo dentes sujos em um sorriso maléfico.
— Processo de iniciação? — engoli em seco.
A garota parecia mais um armário com seus braços fortes e torneados, os cabelos curtos também não ajudavam em sua aparência. Naquele momento Margaret apareceu na porta do chalé, mas os garotos impediram sua entrada empurrando-a para traz.
— Taylor, saía agora do meu chalé! — gritou Margaret impaciente. — AGORA!
— Seu chalé? — perguntou a garota sem a olhar. — Enquanto eu estiver aqui, seu chalé e a garota são meus.
Dizendo isso a garota me agarrou pelo braço e me puxou para cima, apenas para me jogar na direção dos garotos que impediam a entrada de Margaret. Os mesmos me empurraram de volta para Taylor e ela me agarrou pela nuca. Senti seu aperto de aço se apertar ainda mais em volta de minha nuca enquanto ela me arrastava para fora do chalé. Tínhamos reunido uma plateia enquanto ela me arrastava pelo pescoço em seu aperto firme e eu me debatia como um peixe para tentar escapar, que ótimo. Observei a garota com mais atenção. Fazia o estilo de valentona, forte, gostava de botar medo. Se eu tivesse que associá-la a algum deus grego esse deus com certeza seria Ares. Margaret ainda era impedida de se aproximar assim como todos os outros que tentavam ver alguma coisa, eles fecharam o cerco. Senti que algo mudava dentro de mim e fiquei em defensiva, tensa, pronta para um ataque, mas anda aconteceu. Então eu resolvi fazer alguma coisa. Com um movimento rápido pisei no pé de Taylor e usei sua mão em meu pescoço como ancora para não cair quando ela me soltou, fazendo a garota cair de cara no chão. Ela rosnou. Rosnou? Sim! Aquilo não era bom. Engoli em seco sabendo que aquilo não era nada bom, eu só a estava deixando mais furiosa.
— Você quer brincar? — perguntou ela. — Vamos brincar!
Pela segunda vez naquela semana eu fui corajosa o suficiente para sair correndo. O que eu estava fazendo? Se não enfrentá-la, ela vai atormentar você para o resto da sua vida. Olhei para Margaret e seu olhar me dizia a mesma coisa. Merda! Girei nos calcanhares e me deparei com a garota correndo em minha direção. Senti minhas pernas ganhavam vida e corriam de encontro à garota, mas que porra é essa? Em um movimento rápido, que eu nunca penei realizar, enfiei meu pé direito em sua barriga e ganhei impulso dado um mortal no ar enquanto a garota caia novamente no chão. Fiquei pronta para um novo ataque, mas ele não veio. A garota levantou e arregalou os olhos, segui seu olhar e senti minha alma gelar. Quíron nos olhava de cima e seu olhar denunciava sua reprovação.
— Srta. Brenner! — disse ele. — Vejo que já começou a fazer novas… amizades! Srta. Forbes, que bom que se disponibilizou a ajudar nossa nova campista a conhecer o acampamento!
Quíron nos virou as costas e trocou algumas palavras com Margaret, que nos lançou alguns olhares nervosos. Quando ele foi embora, Margaret voltou a se aproximar e sorriu preocupada. Taylor foi embora vermelha de raiva, mas não antes de esbarrar em mim.
— Isso não terminou! — sibilou ela.
Suspirei e escondi o rosto entre as mãos. Eu me senti enjoada e faminta. Olhei para meus dedos, estava faltando algo. Meu anel! Onde estava meu anel?
— Está procurando isso? — perguntou Margaret segurando meu anel entre o polegar e o indicador.
— É. — disse pegando-o de volta. — Onde achou?
— Eu sou filha de Hermes, jamais se esqueça disso! — e dizendo isso ela se afastou sorrindo.
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