O Último Suspiro
4 Meu Pai Não Quer Pagar Pensão
Alguns dias se passaram até que eu começasse a me acostumar com aquela nova vida que eu levava. Quíron havia orientado Margaret para que me ajudasse a aperfeiçoar a leitura de grego antigo. Michael Bauer, do chalé de Atena, era meu mais novo instrutor de esgrima, embora não fosse muito mais velho que eu. Emilly Rushman, chalé de Apolo, me ajudava com as aulas de música que aconteciam duas vezes por semana no anfiteatro do acampamento.
— Você é muito boa! — disse ela durante a pausa. — Onde aprendeu a tocar violino dessa maneira?
— Ninguém! — dei de ombros. — Eu fui a um concerto, vi uma garota tocando e quis tocar também. Fui a uma loja com minha tutora, compramos um violino e eu aprendi a tocar em casa.
— Com um professor?! — pressionou ela.
— Não, sozinha. — ela me olhava divertida. — Por quê?
— É que, admito, poucas pessoas tocam assim. — ela sorriu. — Qualquer filho de Apolo que seja amante da música invejaria você.
Eu estava com dor de cabeça das aulas de música e de grego. “Qualquer filho de Apolo que seja amante da música invejaria você”. Aquelas palavras pareciam ser placas de luz neon dentro da minha cabeça. Vinham de todas as direções e em todas as cores. Estavam até me deixando zonza. Senti meu braço formigar e vi a gota de sangue deslizar até meu pulso, de meu pulso até a ponta de meus dedos e cair no chão. Michael havia me acertado.
— Foco Jennett! — disse ele analisando o corte. — Precisamos limpar isso!
— Não, está tudo bem! — eu disse colocando a mão sobre o machucado.
— Jennett, você está ferida. — insistiu.
— É um corte pequeno. — não sabia como eu sabia daquilo, mas eu sabia. — E ele vai fechar, vai cicatrizar e vai sumir. Simples!
Ele me encarou como quem diz “você não é médica, cale a boca”. E eu realmente não era. Como poderia? Tinha apenas 13 anos, mas eu sabia que aquele era o ciclo com o qual as coisas aconteciam. Machucado algum ficava aberto para sempre os cortes do corpo cicatrizavam mais rápido do que os da alma.
— Deixe-me ver! — pediu ele.
Estiquei o braço e virei o rosto, não queria ver se o sangue havia coagulado ou ainda escorria devagar até meus dedos.
— Onde está? — perguntou ele.
— Está bem aí… — deixei a frase morrer quando percebi que o corte havia desaparecia. Puf. Sumiu. — O que você fez?
— Eu? — ele riu incrédulo. — O que você fez?
— Ora, não me venha com essa! — rebati. — Você queria cuidar do corte, não eu!
— Vamos falar com Quíron!
Eu disse que não queria falar com Quíron, mas é óbvio que Michael não levou minha vontade em consideração. Adentramos a Casa Grande no mesmo momento em que Emilly e Margaret desciam os primeiros degraus da escada cor de osso. Elas olharam para mim e depois para Michael, que trazia meu cotovelo preso em seu aperto firme, me arrastando para onde que eu fosse. Quíron pareceu não notar nada de estranho naquela cena, como se todos fossemos velhos amigos.
— Precisamos conversar! — disse Michael.
— Não precisamos! — rebati.
— Precisamos! — ele me fuzilou com os olhos.
— Não. Precisamos. Não! — eu quase gritei em sua cara.
Quíron pigarreou.
— Crianças, tenhamos calma, porque não entramos e tomamos um suco ou qualquer outra coisa que queiram?
Margaret e Emilly nos acompanharam de volta até uma sala com algumas poltronas e uma mesinha de centro, muito confortável. Michael só largou meu braço depois que pisei em seu pé. Ele contou sua versão da história, me fazendo parecer uma idiota e uma maluca ao mesmo tempo, mas todos escutavam com atenção e, quando chegou a minha vez de contar, eu percebi que não tinha uma versão dos fatos.
— Então admite que você fez aquilo? — perguntou Quíron.
— Não! — disparei. — Quer dizer… Essa coisa sobre deuses e filhos metade isso e metade aquilo…
— Semideuses é o termo politicamente correto. — disse Michael.
— Isso — sibilei. — Já é bem estranho para mim. Agora vocês querem me transformar no que? Uma super-heroína? Fui picada por uma aranha radiativa? Vim de outro planeta?
Todos ficaram em silêncio, mas eu não quis ficar para saber qual seria a resposta deles. Era só o que estava me faltando. Se eu fosse embora dali e contasse tudo para Ohana ela acharia que eu estava louca. Ohana! Como pude me esquecer de Ohana. Voltei à casa grande à procura de um telefone, mas tudo o que encontrei foi Quíron pensativo trotando de um lado para o outro.
— Em que posso ajudá-la senhorita? — perguntou coçando a barba.
— Quíron, tem alguém lá fora… eu gostaria muito de fazer uma ligação se não se importa. — pedi.
— Sinto muito, criança, mas não temos telefones ou celulares no acampamento. — ele me encarou por alguns minutos. — Mas amanhã Argos vai ir buscar algumas coisas na cidade, se quiser que ele ponha uma carta no correio para você.
— Muito obrigada! — disse correndo até o chalé de Hermes.
Margaret conseguiu papel e caneta para mim, mas eu nem me importei em perguntar como ela conseguiu aqueles artigos. Agradeci, sabendo que já tinha feito uma grande amiga, e escrevi para Ohana. Ela deveria estar achando que fui embora sem me despedir, que me cansei dela. Como eu havia esquecido? Era minha única amiga e eu ainda me esqueço dela. Egoísta. Insensível.
Ohana,
Estou escrevendo agora, pois sei que já estou segura. Uma vez que estou segura, não a ponho em perigo com está carta. Infelizmente, onde estou você não pode estar. Porém, estou mais próxima do que você pode imaginar. Não posso usar celular, mas lhe mandarei cartas de tempos em tempos, para saber que não me esqueci de você. Eu adoraria que estivesse aqui, iria adorar o lugar. Temos lindos e extensos campos de plantações de morangos, um lago de água reluzente e até aulas de música. Fiz um amigo ou dois desde que cheguei, mas não é o suficiente. Sinto sua falta! Gostaria de lhe dar mais informações, dizer onde estou para que viesse me visitar, mas infelizmente isso colocaria nós duas em perigo e não é o que queremos.
Com amor e saudades,
Jennett Brenner.
Reli a carta algumas vezes para saber se estava tudo certo, se não havia nada que nos comprometesse. Até pedi para que Margaret lesse também, para que eu me sentisse mais segura.
— Está tudo certo! — disse ela colocando a carta em um envelope e me entregando já lacrado. — Você vai se apresentar no anfiteatro não vai?
Balancei a cabeça em afirmação.
— Então faz o seguinte, eu entrego sua carta para o Quíron e você se concentra no violino. Ok?
— Ok! — disse lhe passado de volta o envelope.
Emilly havia se dedicado a ensaiar comigo rigorosamente antes da apresentação. Eu já estava até suando quando passamos a última nota e ela declarou o fim do ensaio.
— Você realmente gosta do que faz. — disse ela se afastando.
Margaret havia me certificado de que Argos havia colocado a carta para Ohana no correio àquela manhã e que estaria entregue até vinte e quatro horas. Na hora do jantar, depois que nos lavamos, eu estava tão cansada que nem queria mais me apresentar com Emilly e os outros campistas. Porém, eu meio que não tive escolha. Estava no modo automático, quando dei por mim já estávamos todos em voltada da fogueira no anfiteatro conversando animadamente e comendo guloseimas, até Quíron chegar e dar início as apresentações que faríamos ali. Emilly me puxou pelo braço me arrastando para junto dos outros.
— Sei que está cansada, que está triste pela sua amiga. — sussurrou ela. — Porém, não pense nisso agora. Esse é um dos poucos momentos que podemos nos divertir e esquecer que coisas lá fora querem nos matar.
No começo eu realmente esqueci tudo o que havia lá fora. Senti que o violino fazia parte de mim, era um membro do meu corpo. Fechei os olhos e deixei que a música fluísse, Emilly cantava lindamente junto com o som da flauta doce e do violão. Tudo aquilo nos dava uma linda harmonia, como se todos fossemos um só. Era como se não houvesse mais ninguém, apenas eu e a música. Então a música parou, apenas o violino. O que havia dado errado? Abri os olhos e encontrei Emilly, e todo o resto dos campistas, me encarando chocada. O que estava acontecendo? Não era para a música parar, não estava certo?
— O que aconteceu? — sussurrei para Emilly.
Ainda emudecida, ela apontou para mim e eu segui seu olhar. Acima da minha cabeça pairava um instrumento, uma harpa, brilhante. Dourada como o sol. Porém, aos poucos ela foi desaparecendo. Quíron se pôs de joelho no meio dos campistas, que imitaram seus movimentos.
— Ave, Jennett Brenner — disse Quíron sério. — Filha de Apolo, senhor do sol, deus da profecia.
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