O Último Sayajin
4 A calmaria antes da tempestade
Trunks fez uma careta quando a agulha deixou seu braço. Bulma pressionou um algodão embebido em álcool contra a pele dele, guardando a amostra de sangue com a outra mão. Teve que usar dos recursos da corporação para criar uma agulha feita de metal modificado, já que nenhum dos modelos comuns conseguia atravessar a pele do filho.
– Mãe, eu ainda não entendi para quê precisa de tudo isso. — Trunks perguntou, ocupando-se em pressionar o algodão contra a pele.
Bulma demorou alguns segundos antes de responder, enquanto escrevia alguma coisa em etiquetas para colar nos vidrinhos de sangue.
– É para um projeto no qual estou trabalhando. Você vai saber em breve. — comentou, distraída, guardando as amostras de sangue em um pequeno refrigerador. Ao terminar, virou-se para ele outra vez. -Trouxe as amostras de urina que eu pedi?
– Trouxe, mas...
– Ótimo. — Ela sorriu, retirando uma lâmina estéril e virando-a para ele. — Vou precisar de um pouco de pele e cabelo. Acho que por enquanto isso deve ser o bastante para começar.
– O bastante? O que mais você pode retirar de mim? — Trunks brincou.
– Saliva seria bom. — Bulma comentou, distraída. — Um pouco de sêmen também e...
– Mãe! — Trunks protestou, um pouco corado.
Bulma sorriu para ele.
– Eu sei que isso parece muito estranho agora...
– Você nem faz ideia. — Trunks interrompeu, passando a mão pelos cabelos.
– ... mas eu prometo que fará sentido. Quando você souber aquilo em que estou trabalhando, vai me agradecer muito por isso. Muitas coisas dependem desse projeto, talvez até o futuro da Terra.
– O futuro da Terra? Mãe, eu sei que você não gosta de revelar seus projetos antes de estarem prontos, mas se importaria de me explicar no que é que está trabalhando? Eu ficaria muito mais confortável em saber o que é que você planeja fazer com todo esse acervo do meu material genético.
Bulma ergueu as sobrancelhas, um pouco surpresa. Depois olhou-o com uma expressão séria.
– Estou mapeando o seu genoma. — ela disse, sem nenhuma ênfase em particular, como se dissesse que estava plantando lírios.
Trunks suspirou, contente por sua mãe não estar tentando fazer um clone dele ou algo assim.
– Você é o último saiajin vivo, Trunks. — ela fez uma pausa, olhando-o nos olhos como que para garantir que ele absorvera o impacto daquelas palavras. — Vegeta, Goku e Gohan estão mortos e você é o último. Entende o que isso significa?
Trunks assentiu. Nunca tinha parado para pensar naquilo, esteve sempre tão focado em destruir os andróides que mal tivera tempo para pensar no que isso significava.
– Mas por quê isso agora? No que é que mapear o meu DNA pode ajudar a salvar a Terra? — perguntou.
Bulma desviou os olhos, um pouco corada.
– Eu só... Eu pensei que... Eu queria... — Trunks largou o algodão pressionado em seu braço e cruzou os braços sobre o peito, esperando.Não fazia sentido apressá-la. Ele sabia que ela falaria quando estivesse pronta. Bulma olhou-o e não pôde evitar um sorrisinho sem graça. Parecia encabulada, como uma criança pega em flagrante.
– Eu sou sua mãe. E eu nunca serei forte o suficiente para proteger você, Trunks. Já tinha me dado conta disso a muito, muito tempo. Mas nunca foi tão claro como agora, sabe? Nunca foi tão claro. — ela disse, com um ar pensativo.
Bulma se afastou, caminhou até uma janela e ficou encarando a rua, com um olhar perdido.
– Uma vez, quando você era bebê, apanhou uma faca de cozinha para brincar. Aquilo me gelou até os ossos, eu fiquei com tanto medo de que você se ferisse! Então eu corri até onde você estava e puxei a faca de sua mão e a joguei longe. Você começou a chorar e espernear, e eu tentei te conter. Sem querer, você me acertou com as costas da mão. Nem foi com muita força, sabe, eu fui pega de raspão. Mas naquele dia, você quebrou três costelas minhas. Uma delas quase atravessou meu pulmão esquerdo. Eu tive muita sorte.
– Você nunca me contou isso. — Trunks comentou, um pouco envergonhado.
– Vegeta sempre zombava de mim, como eu era fraca, como a minha raça era patética. Uma parte disso é verdade. — ela se virou para ele e quanto seus olhos encontraram os dele, havia uma determinação férrea neles. — Mas isso nunca me impediu de fazer nada antes, e não vai me impedir de proteger você, Trunks. Eu sou uma cientista brilhante, e também sou a mãe do último saiajin vivo. O inferno vai congelar antes que eu perca você também.
Trunks se levantou da cadeira e a abraçou. Por sobre o ombro dele, Bulma continuou falando:
– Você mencionou que no passado, Vegeta costumava treinar sozinho em uma Câmara de Gravidade que eu e meu pai construímos para ele. — Ela se afastou e encarou-o. — Eu vou fazer uma para você, dez vezes melhor, inteiramente adaptada ao seu DNA. Quando terminar, você será o guerreiro saiajin mais forte do universo e eu terei cumprido o meu dever de proteger você, como uma mãe deve fazer.
– Seria fantástico. — ele elogiou, comovido com a preocupação dela.
– Será fantástico. — Bulma corrigiu, com a voz dura. Depois, deu um sorrisinho animado e perguntou. — E então? Saliva e sêmen?
____
Quando desceu para o laboratório dois dias depois, Trunks ainda estava vestido com suas roupas de dormir, que seria apenas um par de calças largas. Esperava encontrar sua mãe e entregar logo as amostras que ela pedira.
Não foi sem surpresa que ele encontrou outra pessoa trabalhando no laboratório. Uma garota, talvez um ou dois anos mais jovem que ele, observava interessada uma placa de petri no microscópio, com algumas gotas de algo que parecia ser sangue. De vez em quando ela parava de olhar e fazia anotações em um bloco próximo. Tinha cabelos muito curtos e castanho escuros, mais curtos do que sua mãe alguma vez ousara cortar os dela. Era um pouco pálida e tinha olhos castanho escuros.
– Isso é muito interessante. Fascinante — murmurou, enquanto se virava outra vez para anotar qualquer coisa no bloquinho. Foi quando o viu, parado no corredor. Pareceu um pouco chocada. — Oh. Você deve ser o espécime que estamos estudando. Trunks, não é? Eu sou Jenna.
– É, eu sou Trunks. — ele confirmou, um pouco desconfortável com o termo "espécime". — A minha mãe está? Ela pediu algumas amostras e...
Imediatamente os olhos da garota brilharam e ela se aproximou dele, praticamente arrancando os vidrinhos de sua mão, olhando através deles, interessada. Trunks não soube exatamente se deveria parecer chocado ou constrangido, de modo que acabou ficando das duas maneiras. Ela pareceu não se importar, etiquetando as amostras logo em seguida, escrevendo nas etiquetas "sêmen" e " saliva" em letras garrafais.
Trunks tentou o seu melhor para não corar, falhando miseravelmente enquanto uma estranha registrava as amostras do seu DNA em etiquetas. Foi quando ela pareceu notar algo de errado com a amostra de saliva.
– Esta amostra está comprometida. — ela anunciou, erguendo o vidrinho na altura dos olhos dele. — Não foi fechada corretamente. Preciso de outra.
– Eu...- ele tentou protestar, em vão.
– Você comeu? — ela perguntou, de cenho franzido.
– Não.
– Ótimo! — ela sorriu e duas covinhas simpáticas surgiram em suas bochechas. — Espere aqui.
E se virou, seguindo por um corredor enquanto ele apenas assistia, boquiaberto.
Ouviu passos atrás de si e voltou-se para o som. Bulma marcava alguma coisa em uma prancheta, com um ar absorto. Um pouco antes de esbarrar nele, ergueu os olhos do que estava fazendo e seu rosto de iluminou ao vê-lo.
– Trunks! Não esperava vê-lo tão cedo. — ela sorriu, deixando a prancheta em uma mesa próxima.
Trunks deu uma espiada rápida, vendo papéis repletos de diagramas e equações complexas nas quais ela vinha trabalhando.
– É... Bom, eu vim trazer as amostras que você tinha pedido. Mas tem uma garota...
– Jenna. — Bulma o interrompeu, assentindo para si mesma. — Minha área é a mecânica e engenharia robótica, então eu a contratei para me ajudar com o mapeamento do seu DNA. Ela tem apenas dezenove anos e já é Phd em Engenharia Genética. Um grande achado!
O "grande achado" voltou, carregando um pequeno vidrinho transparente. Deu um sorriso largo ao ver Bulma.
– Jenna, vejo que você já conheceu o meu filho. — ela comentou, despreocupada.
Trunks lançou um olhar nervoso para a mãe. Estava tudo bem dizer para uma estranha que o único herdeiro da maior corporação tecnológica da terra era metade alienígena? Bulma não perdeu o movimento, apressando-se em tranquilizar o filho.
– Não se preocupe, Trunks. Jenna sabe que você é um saiajin, e concordou em não revelar detalhes sobre a nossa pesquisa.
– E também assinei um termo de confidencialidade. — a geneticista assegurou, com um risinho. — Mas não se preocupe. Eu sei que foi você quem derrotou os andróides, então, mesmo que eu não tivesse assinado termo nenhum, jamais diria nada a ninguém. Agora, se não se importa, poderia abrir bem a boca?
Trunks abriu a boca para falar, mas em menos de nada Jenna já esfregava um cotonete na boca dele, coletando a amostra de saliva. Bulma parecia muito divertida com a situação, observando o filho totalmente desconcertado, enquanto Jenna lacrava a amostra corretamente.
– Eu farei alguns testes com as amostras, então talvez eu precise de mais material genético. — disse Jenna, ignorando o olhar de desespero de Trunks. — Mas eu deixarei você saber quando eu precisar de mais.
– Meus fluidos corporais estão à sua disposição. — ironizou Trunks, mas Jenna pareceu ignorar o sarcasmo na voz dele.
Talvez ele pudesse se habituar a uma vida assim. Uma vida em que a maior de suas preocupações era uma garota bonita e incrivelmente inteligente manipulando sêmen e saliva que pertenciam a ele. E não ter que se preocupar em deixar sua mãe sozinha no laboratório sob o risco de perder a vida no ataque de algum inimigo. Paz.
Era por aquilo que ele tinha lutado, era o que fazia sua mãe se empenhar tanto. Podia se dar ao luxo de saborear os pequenos momentos, comer seu café da manhã sem pressa, ligar o rádio sem esperar notícias de morte e destruição, ver cidades sendo reconstruídas do zero...
Mas havia o incômodo, sempre presente, de que aquela situação não iria se estender por muito tempo.
E mal sabia ele que estava realmente certo.
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