O Último Pedido

2 Esconde – esconde


Notas iniciais
Finalmente começa a trama de Eliza (: Boa leitura!

Chovia lá fora, muito, pra ser sincera. Era começo de inverno e na capital o frio era intenso, ainda mais quando caia um temporal. Depois de dedilhar várias notas no piano do papai, liguei a TV, onde passava “A creche do papai” no Universal Channel pela segunda vez na semana. Eddie Murphy e Jeff Garlin faziam uma bela dupla! E, aliás... Havia “crianças” e “comédia”, o que combina muito (pelo menos pra mim).

Me deitei no sofá de coro opaco da sala de estar um pouco miúda, me cobri e continuei a assistir. Eu já havia esquecido quantas vezes eu já tinha assistido aquele filme, não era tão mais inédito como o canal dizia ser, se fosse... Eu com certeza não teria dormido tão rápido.


– Liza, acorde! – me chacoalhou – Eliza acorde guria!

– Que? Que? Hãm? – disse ao acordar extremamente assustada.

– Ta louca? – gargalhou mamãe sentando no carpete da sala, logo tirando as botas de coro – Tudo bem Tum-Tum-Tum?

– Tum-Tum-Tum mãe? – indaguei esfregando os olhos e procurando meu óculos no meio do cobertor a seguir.

– Ih, nem vem guria, sempre te chamei assim!

– Claro, mas lembro que eu tinha sete anos, certo? – provoquei em tom de brincadeira, achando finalmente minha visão.

– Cala a boca, te chamo como quero! – disse autoritária e eu surpresa arregalei os olhos.

– Tudo bem então.

— Adoro quando você faz essas caretas – riu e beijou minha testa.


Pela primeira vez na semana ela riu para mim. “M-I-L-A-G-R-E.”

Minha mãe é uma pessoa doce e divertida, tem um sorriso bonito e uma voz incrível. Mas nesses últimos dias, ela sempre esta com o telefone no ouvido falando vários idiomas, com um péssimo humor ou estando fora com meu pai, resolvendo “problemas”. Eu estava sentindo falta de toda sexta, quando ensaiávamos. Saudade dela sempre dizendo:

– Querida cante sorrindo, o sorriso é o seu cartão de visita, mostre o que é bonito!

E logo eu sorriria cantando acompanhada com o som de seu saxofone bronze.


– Onde esta a Ming Ming? – perguntei — Elloisa voltará com seu pai hoje, não pude buscá-la, precisava resolver umas coisas – se levantou com sua velha mania de roer o dedo médio e foi até a cozinha.

– Que coisas? – perguntei alto o bastante para ela poder escutar.

– Nada tão... Importante! Problemas de gente grande – mudou a entonação na última palavra, afinando-a.


Sinceramente? Não aguentava mais essa palavra, ela conseguia me tirar do sério, facilmente. Sei que todos têm problemas, mas tantos assim era impossível! Empurrei o cobertor pro lado um tanto injuriada e prendi meu cabelo emaranhado num coque que mais parecia uma casquinha de sorvete e fui até a cozinha onde ela preparava um café. Encostei-me ao batente da porta e cruzei os braços.


– Quer escutar algo engraçado? – perguntei junto à minha amiguinha ciumenta: ironia que com certeza me impedia de fazer novos amigos.

– Fale...

– Era uma vez uma mãe... – comecei

– Ih lá vem ela – revirou os olhos

– Ela tinha uma filha linda e perfeita – ela riu, de novo — e sempre faziam coisas juntas, mas um dia ela conheceu um pé rapado chamado Problema. Ela simplesmente se apaixonou por ele e tinha pouco tempo pra sua linda e perfeita filha. Mas sempre dizia para confortá-la: “Amanhã quem sabe? Não se preocupe, amanhã, juro.” Mas nunca mais teve tempo, por culpa do Problema. Sua linda e perfeita filha odiava o tal Problema, mas ele se casou com sua mãe e logo sua mãe deu cria a mais Problemas e sua linda e perfeita filha foi completamente excluída das coisas, fim.

– Estou esperando a parte engraçada Eliza – encostou no balcão, séria.

– Sinto muito mãe... A história acabou!

– Por que faz isso minha filha? Estou tentando resolver meus... – a interrompi

– Problemas, é claro – ri fraco pelo nariz e balancei a cabeça.

– Sei que às vezes pareço um toca-fitas, mas é porque estou muito cansada, tente entender... – colocou uma mecha de seu cabelo atrás da orelha.

– O que esta acontecendo mãe?

– Nada Eliza, nada que você tenha que se preocupar – disse.

– Acho que não... Nesses últimos dias, eu não vejo ninguém parar em casa, e chegam milhares de correspondências internacionais e todos os dias há problemas e todos os dias há desculpas esfarrapadas... Mãe, o que está acontecendo?

– Eliza, não ta acontecendo nada!

– Ta sim! Se quer que eu entenda, me fala – insisti.

– Da pra parar? – disse irritada.

– Mãe me fala logo, eu já não aguento mais, pensa que eu não te conheço? Me fala logo! – exigi quase gritando.


Sei que não deveria ter falado assim, mas eu sentia falta dela e se não chamasse sua atenção ela ia deixar tudo do jeito que esta e eu não queria mais isso. Mas percebi que seu sangue começava circular seu rosto inteiro, pois o vermelhidão da irritação o denunciava.

Eu havia me arrependido mesmo de ter falado daquele jeito, quando vi ela já estava com o dedo na minha cara.


– Eliza Madeline Agnelli Sartori, eu não lhe devo satisfações, ouviu? Que eu saiba a mãe aqui sou eu, chega com esse assunto – novamente autoritária, sem sorriso, sem doçura.

– Mãe essa casa ta virando um inferno, – gritei – eu tenho 16 anos, eu deveria saber das coisas que se passam aqui... Confie em mim, conte-me o porquê dessa porr... – hesitei – Droga de ausência!

– Chega deste assunto! – gritou – Eu já não aguento mais tanta pressão, me dê um tempo merda! Melhor... Vai pro teu quarto e me deixe em paz!

– Mas mãe...

– Não escutou? Vai agora pro seu quarto Eliza! – apontou para o corredor, me indicando o caminho.


Querendo ou não, eu fui para meu quarto batendo os pés como uma criança de quatro anos, batendo a porta com força como uma guria mimada e ouvindo mais um berro histérico de como fechar a merda da porta. Eu sei, era ridículo me comportar daquela maneira, mas eu não tinha mais saco para aguentar tudo aquilo. As tarefas estavam todas sobre minhas costas, a escola estava uma merda, meu humor, minha estrutura já haviam se esgotado. Meu emocional estava falho, em ruínas...Naqueles dias eu não sabia o que era família. Meus pais pareciam ser mais meus companheiros de “república” do que meus pais. Viviam como se fossem um casal independente como senão tivesse filhas em casa para se preocupar, me dando mais uma vez responsabilidade demais.

O que estava acontecendo? Eu queria muito saber, participar e concluir... Para que aquele inferno parasse de vez e que todos nós voltaríamos a ser como éramos antes.

Depois de algum tempo voltei para sala. Minha mãe estava com seu moletom fajuto, óculos e com sua velha e companheira mania de roer a unha, examinando um papel com letras minúsculas. Sentei na ponta do sofá e ela por um instante tirou os olhos do papel e me encarou sem dizer nada. Não parecia mais irritada, parecia preocupada ao me olhar, me olhava com certa dó.


– O que foi? – perguntei serena.

– Nada – respondeu ela se esquivando.


Depois disso, não se ouviu mais nenhuma voz, exceto as dos personagens da TV. Não demorou muito para que meu pai passasse pela porta barulhenta com Elloisa em seus braços.


– Boa noite – cumprimentou-nos ao encostar a porta.

– Oi – dissemos em conjunto.

– Conseguiu? – questionou, colocando Elloisa no chão.

– Sai em duas semanas – mamãe o olhou com uma careta.

– Será que dá tempo?

– Sim... – concluiu.

– Amor, espero que não tenha esquecido...

– Por favor, Roberto... Agora não! – inclinou a cabeça pro meu lado, com certeza mencionando minha presença.

– Ah... – prolongou a vogal – Claro... Eliza! – chamou – Dê um banho em sua irmã, por favor?

– Ok! – foi tudo que eu disse, sabia que algo muito grande estava sendo escondido, grande demais pra que eu pudesse imaginar.


Peguei minha pequena irmã saltitante e a levei até o banheiro. Elloisa estava mais agitada do que o normal e se chacoalhava toda enquanto eu tirava sua roupa de mini bailarina.


– O que aprendeu hoje Ming Ming?

– Pliê! – respondeu enquanto eu tirava seu tutu azul marinho.

– É mesmo? Como é?

– Pela ai, eu mostlo! – se entusiasmou.

Ello apoiou sua mão direita em meu ombro, pressionou seus pés no chão enquanto a parte superior do seu corpinho se alongava para cima quando se abaixava. Elloisa então se levantou, esticou suas pernas e joelhos e seu pezinho virou para fora.

Era impressionante! Uma guria tão pequena fazendo algo tão sério e com uma postura excepcional.


– Uau – disse orgulhosa e muito surpresa, com certeza muito orgulhosa – como se chama esse?

– Eu não sei... Eu vi a tia fazendo – respondeu como a Ming Ming dos “super fofos”.

– Você gosta mesmo de dançar né?

– Sim, eu adolo! — deu um sorriso com seus dentinhos pequenos.

– Já mostrou seus passos novos para mamãe e papai? – a puxei para frente e tirei seu colã.

– Eu tentei, mas eles não ligalam – fez beicinho e cruzou os mini braços — O que disseram pra você? – perguntei.

– Eles falou: “mais talde lindinha”.


Não era apenas comigo, não pense que é drama de minha parte... Já notava que Elloisa estava mal e sua professora havia comentado comigo um dia que ela não estava a mesma, ela apenas participava e se interessava quando a aula era de balé. Mas era incrível a rapidez que eles mudaram, parecia algo fora do comum e eu fiquei muito preocupada com tudo aquilo, mas odiava quando Elloisa ficava daquele jeito. Ela têm 4 anos, é uma criança e sentia muita carência por parte deles, já que eles a mimaram tanto (claro eu também).

– Estranho né?

– É – suspirou.


Ver aquilo partia o coração, era como maltratar um filhotinho de cachorro.


– Hey... Por que não tenta de novo? – encorajei – Faça algo que eles possam notar você!


É pra isso que serve irmãs mais velhas, não é? Encorajar! E, aliás... A operação “chamar atenção” havia falhado pra mim, mas Elloisa tinha mais chances, já que ela tinha aquele rostinho iluminado, bochechas carnudas e era “criança”. Crianças conseguem fazer isso melhor do que ninguém, elas possuem o dom de cativar.

O rostinho que estava se pondo pra baixo, se levantou com um sorriso no canto da boca e seus olhos verdes vivos se tornaram maléficos.

O que ela estava pensando? Em fugir do banho, ou fazer alguma travessura com sua pobre e inofensiva irmã mais velha?

Elloisa era imprevisível. Fofa e imprevisível.


– Vou fazer! – disse determinada enquanto eu a colocava no boxe.

– Ótimo eles vão gostar muito!


Peguei sua sandália que estava perto do vaso para calçá-la. Porque da última vez minha mãe quase me matou, Elloisa escorregou e fez um escândalo e já sabe né? Ouvi uma palestra de como dar banho em uma criança de 4 anos.

Quando voltava para calçá-la, ela abria o boxe para sair.


– Aonde pensa que vai? – perguntei tentando colocar ela pra dentro novamente.

– Sai! Sai! Sai! – dizia me empurrando.

– Elloisa para com isso, quero terminar logo isso!


Nada. Ela me empurrava e minha paciência estava no zero. Não entendia aquilo, ela estava boazinha uns minutos atrás e agora fazia aquela palhaçada. E se ela fizesse algo, com certeza eu levaria a culpa (como sempre).


– Deixa eu saí!

– Não! – disse brava.


Quando vi, já estava jogada no chão, depois de um empurrão que ela havia me dado. Como ela conseguiu? Eu nem vi direito, foi meio rápido. Garota esperta. Esperta e suja!


.– Por que você fez isso Elloisa? Tem medo de morrer não?

– Vou fazer eles me notar!

– Hã? Volta aqui Elloisa Sophie Agnelli Sartori – levantei enquanto ela abria a porta e saía em disparada.


Quando saí não vi nenhuma pirralha pelada zombando da minha cara.


Estranho! – foi o que pensei.


Procurei em nosso quarto e nada, fui até a sala e lá estava ela debaixo da mesa, rindo em silêncio apontando o dedo pra minha cara.


– Sai daí! – sussurrei.

– NÃO! – respondeu no mesmo tom.


Perdi a paciência e fui para debaixo da mesa a fim de tirá-la de lá.

– Elloisa vem logo!

– Pla que?

– Hã? Pra que? Que pergunta besta! Vai tomar banho sua fedida! – murmurei.

– Fedida é você – deu língua.

– Ela não vai, estou te dizendo – uma terceira voz surgiu. Mamãe.

– Magali, não temos escolha, é temporário passa rápido – disse papai.

– Não acha meio injusto? – suspirou e se sentou na poltrona apoiando sua cabeça em sua mão.

– Sim, eu acho, mas acho que ela entenderia...


Elloisa já ia saindo debaixo da mesa pra fazer seu pequeno show de nudismo, quando eu a puxei pra baixo de novo.


– Que foi? — perguntou

– Shiu! – aproximei o dedo na boca tentando prestar atenção na conversa.


Assim que Elloisa silenciou sua matraca e não exigiu sua resposta, papai tirou uma cadeira para se sentar. Nos esprememos para que nenhum dos dois nos visse e mantivemos o silêncio.

– Querida confie em mim, isso é para o bem do nosso futuro, é temporário – repetiu.

– Ela vai me odiar! Qualquer pessoa odiaria Roberto! Eu a quero perto de mim...

– Eu a amo, mas precisamos fazer isso... É o nosso sonho Magali!

– Meu sonho não realizará se ela não estiver conosco, entenda Roberto, isso esta sendo mais difícil pra mim do que você imagina! Estou me sentindo egoísta, eu odeio isso... – mamãe disse chorosa, tampando o rosto com ambas as mãos a fim de chorar.


Papai então se levantou da cadeira, e caminhou até a poltrona lhe estendendo a mão e ofereceu um abraço, mamãe então segurou sua mão e lhe deu um forte abraço.

– Pra mim é muito difícil também meu amor, mas ela terá a chance dela e nos trará muito orgulho...


Mamãe enterrou seu rosto em seu peito e choramingou. Papai esperou paciente para que ela desabafasse tudo que lhe afligia e afagou seu rosto.

– Você confia em mim? – perguntou papai depois de um tempo.

– Confio – sussurrou num soluço.

– Tem certeza? Olha lá hein! – brincou limpando as lágrimas das maçãs do rosto dela.

– Absoluta! – mamãe riu e logo deu um sorriso tímido.

– Eu te amo – lembrou ele.

– Eu também amo você – falou ela enquanto ele depositava um beijo estalado em sua cabeça.


Por um minuto vi minha família ali, sentia falta daquilo. Mas a conversa deles ficou em minha cabeça, eu não pensava em mais nada, só tentava entender o que aquela conversa significava. Aquela noite passou rápido, eles saíram da sala e foram se ocupar com outras coisas. Papai foi levar o lixo e mamãe se trancou em seu quarto, tempo suficiente da minha irmãzinha e eu sair debaixo da mesa com a toalha grande que nos camuflou muito bem e seguir rumo ao chuveiro.


Notas finais
Espero que tenha gostado! Continue lendo e se você se identificou me fale, seria ótimo ouvir sua opinião (: