O dia começou com uma penumbra opressiva, mesmo que o sol já estivesse alto no céu. Dentro da cratera, a luz mal conseguia se infiltrar pela muralha viva que eram as copas das árvores gigantes. O resultado era um ambiente permanentemente enevoado, úmido, frio, dominado por sombras esverdeadas. Tudo parecia exalar uma respiração silenciosa e constante, como se a própria floresta estivesse viva e os observasse.

Daniel não dormira, atormentado por pesadelos confusos nos quais vultos negros o perseguiam por corredores apertados de pedra. O suor escorrera por seu corpo durante toda a noite, apesar do clima úmido e frio. Olhou ao redor: o acampamento improvisado era uma bagunça de galhos, folhas largas amarradas com cipós e os restos da fogueira, as cinzas enegrecidas ainda soltando um filete de fumaça. Cinzas do medo e da desesperança.

Eric, por sua vez, tinha olheiras profundas, a barba começava a despontar, e parecia ter envelhecido anos em apenas alguns dias. Lucas vinha junto dele, calado, a expressão carregada. Bernardo permanecia sentado próximo à fogueira apagada, abraçando um fuzil contra o peito como se fosse uma tábua de salvação. Seus olhos estavam vermelhos — provavelmente chorara durante a noite, o que era totalmente compreensível.

Os soldados Batista e Leal rondavam o perímetro, checando o chão, atentos a qualquer sinal. Nenhum deles parecia confiante ou animado. A floresta os oprimia, do mesmo modo que o medo do anhangaúna os prendia em correntes invisíveis.

Pondo-se a agir, Daniel abriu o mapa sobre uma pedra plana, pressionando-o com as mãos para evitar que a brisa constante o levasse. O papel estava úmido e manchado, mas ainda servia. Batista se aproximou, e juntos tentaram traçar o próximo movimento.

— Temos que chegar àquele acampamento que vimos do avião. — Disse Daniel em voz baixa, quase num sussurro conspiratório, como se temesse que a floresta ouvisse. — Não importa se são mineradores ou quem quer que sejam. Lá provavelmente há comida, abrigo e talvez até um rádio.

O soldado assentiu, mas com o cenho franzido.

— E se eles não quiserem conversa? O senhor viu o que fizeram com o avião. Atiraram sem pensar duas vezes.

Eric apareceu por trás deles.

— Então faremos o necessário. Não vim aqui morrer de fome nem virar bicho pra esse monstro comer. — Pontuou.

Daniel respirou fundo, passando a mão pela nuca.

— Podemos ao menos tentar conversar primeiro. Quem sabe eles estão tão assustados quanto nós.

— Ou são assassinos que não querem testemunhas do que fazem. — Lucas emendou de onde estava — Mineradores ilegais costumam resolver as coisas do jeito mais rápido.

— Se ficarmos aqui esperando, vamos morrer de um jeito ou de outro. — O arqueólogo reforçou — Não temos água, só temos uns pacotes de ração e biscoito que não duram dois dias. E não dá pra depender de caça. Precisamos tentar.

Os demais trocaram olhares entre si, mas, reforçando o ímpeto da madrugada, assentiram. Daniel olhou para Bernardo, que permanecia sentado, meio alheio.

— E você? Tem algo a dizer?

O piloto ergueu o rosto, o olhar vidrado.

— Só quero sair vivo daqui, doutor. Seja qual for o plano, me diz pra onde apontar a arma.

Não houve mais objeções. Começaram a desmontar o acampamento, guardando o pouco que tinham. Daniel enrolou o mapa com cuidado e prendeu na mochila, conferindo o cantil quase vazio antes de pendurá-lo ao lado. Lucas ajudou Eric a ajustar o equipamento — o paleontólogo estava com um ombro roxo desde a queda do avião, e naquela manhã o local parecia inchado.

Leal e Batista circularam em volta mais uma vez, armas empunhadas, tentando farejar qualquer sinal do predador invisível. A floresta, por sua vez, parecia zombar deles: as sombras dançavam a cada lufada de vento, folhas estalavam como pegadas imaginárias, e a sinfonia de insetos — embora constante — tinha momentos estranhos de silêncio absoluto, como se algo passasse por perto e calasse a natureza.

Quando tudo estava pronto, Daniel tomou a dianteira. Começaram a caminhar por entre troncos largos como pilares de catedrais, desviando de raízes expostas que lembravam serpentes grossas. O chão era coberto de folhas em decomposição, fungos coloridos despontavam aqui e ali, exalando odores doces e enjoativos. As copas das árvores eram tão frondosas que barraram grande parte da luz do sol, e em alguns momentos a escuridão era tanta que precisavam conferir as horas em seus relógios para terem certeza que a noite não vinha caindo.

Lucas andava quase colado a Daniel, que se mantinha calado, olhando para cima a cada ruído. Eric e Bernardo vinham logo atrás, este último com o fuzil apertado contra o peito. Leal e Batista fechavam a retaguarda, trocando olhares tensos a cada galho que quebrava.

Depois de quase uma hora de caminhada, Eric puxou conversa num tom baixo, tentando abafar a própria ansiedade.

— Vocês já pararam pra pensar o que exatamente pode ser o anhangaúna?

Lucas virou o rosto para ele.

— Você é o especialista. Devia ter algum palpite.

— Se fosse pra chutar... poderia ser algum tipo de felino grande, isolado aqui por milhares de anos, evoluindo por conta própria. O rugido não parece nada que eu conheça, mas vai saber… — Fez uma pausa, engolindo em seco. — Lembram dos leões de Tsavo, no final do século XIX? Dois machos sem juba mataram mais de trinta trabalhadores ingleses. O biólogo que os examinou depois disse que nunca vira algo tão bem adaptado a caçar humanos.

Daniel bufou.

— Isso aqui não é a África. E não encontramos rastros de patas, nem fezes. Nem carcaças meio comidas. Nada.

— O que é mais preocupante. — disse Eric, encarando o chão coberto de folhas — Animais grandes costumam deixar evidências.

Leal se meteu na conversa com voz rouca.

— E esse nome… “anhangaúna”… por que diabos os índios o chamariam assim?

— “Anhangá” é um espírito ruim na mitologia tupi, pra resumir. — Explicou Eric, com um leve tremor na voz — E “úna” quer dizer negro, escuro. Então “anhangaúna” é algo como “demônio negro”. Pode ser uma lenda para explicar um predador que eles temiam. Ou talvez seja mesmo algo tão assustador que só esse nome faça sentido.

Bernardo resmungou baixo.

— E “arapóka” mesmo, o que é?

Daniel respondeu sem virar.

— Literalmente “buraco no céu”. Imagino que seja por causa das correntes ascendentes. O ar quente sobe daqui e forma turbulência lá em cima. Por isso á gente quase morreu pousando.

— Quase? — Bernardo deu uma risada sem humor. — O Pedro morreu, doutor. Eu só não tô morto porque Deus me odeia o bastante pra me manter aqui.

O silêncio voltou, cortante, quase palpável. Prosseguiram entre arbustos que chegavam ao peito, desviando de cipós que pareciam querer se enrolar nas pernas. Às vezes passavam por troncos tombados cobertos de líquens laranja, de onde saíam colônias de cogumelos violáceos. Tudo tinha cheiro úmido, forte, adocicado demais. E, vez ou outra, surgiam manchas grandes no chão, como se algo pesado tivesse deitado ali — mas nenhuma pegada clara.

No meio da tarde, pararam para beber um pouco da água que ainda restava. O ar estava abafado, pesado, e todos suavam. Lucas tirou os óculos, abanando o rosto, depois olhou para Eric.

— E você e o Daniel? Já vão se entender ou vão continuar se odiando até morrerem abraçados por esse bicho?

Eric soltou um riso breve, mas sem alegria.

— Não é tão simples. — Lançou um olhar de canto para Daniel — A gente foi amigo por muito tempo. Na universidade, éramos inseparáveis. Até surgir aquela bolsa… uma oportunidade única. Eu achei que venceria pelos meus méritos, mas o Daniel foi… mais persuasivo.

Daniel suspirou, cansado.

— Já pedi desculpa. — Rosnou — Eu não tinha família rica pra me bancar caso não conseguisse a bolsa. Estava desesperado.

Eric fitou o chão, a voz saindo baixa.

— Pois é. Eu também. Mas escolhi outro caminho.

Leal pigarreou, desviando o constrangimento geral.

— Podemos continuar nos concentrando na caminhada, senhores? Quero montar o próximo acampamento antes que escureça.

Voltaram à marcha. O dia parecia interminável, mas a luz diminuía rápido. Dentro daquela cratera, anoitecia cedo demais. Quando finalmente pararam, encontraram um canto entre pedras altas, cobertas de musgo espesso, que formavam uma meia-lua quase protetora. Ali montaram o acampamento: galhos dispostos em pirâmide, folhas largas por cima, uma fogueira que Lucas acendeu com esforço, soltando fumaça branca que subia preguiçosa.

Enquanto dividiam a pouca comida, um som cortou o ar. Um assobio longo, grave, quase musical, mas tão deslocado do ambiente que causou calafrios imediatos. Lucas largou a ração, os olhos arregalados. Bernardo apertou o fuzil contra o peito. Daniel ergueu a cabeça, tentando adivinhar de onde vinha.

Então ouviram o farfalhar intenso, como centenas de folhas sendo pisoteadas. E viram novamente aquelas aves esguias, parecidas com seriemas, atravessarem o acampamento correndo, batendo as asas curtas, emitindo grasnados estridentes. Fugiam de algo. Um predador.

— Fiquem juntos! — Ordenou Daniel a meia voz.

Formaram um círculo apertado ao redor da fogueira. Batista apontou o fuzil para a escuridão, Leal tremia discretamente ao lado dele. Bernardo olhava em todas as direções, o dedo no gatilho. Lucas segurou Daniel pelo braço, que sussurrava sem parar.

E então, algo pesado caiu de cima deles. Um galho quebrou num estalo alto, e então um vulto imenso despencou, erguendo folhas, poeira e faíscas do fogo. Era escuro demais para ver detalhes, mas o cheiro que veio junto era azedo, rançoso, quase químico. Um rugido semelhante ao de um motor explodiu tão perto que o peito de Daniel vibrou. O som parecia vir de dentro da própria terra.

Leal se virou num impulso e disparou. O clarão da rajada iluminou escamas negras, olhos enormes e garras que pareciam foices. O monstro avançou num pulo, e o grito do soldado foi interrompido num estalo grotesco, seguido de um som molhado. O sangue espirrou quente contra os rostos de Daniel e Lucas.

— Corram! — Gritou Bernardo.

Tudo virou caos. Daniel viu Lucas desaparecer à esquerda, Eric tropeçar à direita, Batista correr direto para a escuridão. Galhos batiam nos rostos, raízes prendiam os pés, gritos ecoavam. O arqueólogo tentou gritar para todos ficarem juntos, mas outro rugido preencheu tudo.

A floresta tragou cada um deles em direções diferentes.

Eric corria sem rumo, o peito queimando, o corpo arranhado por galhos que se estendiam como garras vivas. Cada passo era um tropeço, os músculos reclamavam, mas o pavor era maior que a dor. Tudo ao redor parecia girar — o som de sua respiração ofegante abafava qualquer outro ruído, exceto pelo estalo dos galhos e o bater frenético do próprio coração.

Até que seus pés engancharam numa raiz grossa. O corpo projetou-se para frente, e ele rolou morro abaixo. Galhos chicotearam seu rosto, pedras menores cravaram-se em suas costas e braços. Um tronco interrompeu a queda, e ele parou abruptamente, soltando um gemido de dor.

Tentou se levantar, mas o tornozelo latejava com força. Pôs a mão no ponto dolorido e gemeu alto, depois olhou ao redor. Estava no fundo de uma ravina, cercado por paredões de terra escura cobertos de raízes pendentes como cabelos mortos. A luz da lua, filtrada pelas copas, mal iluminava o lugar — um brejo raso coberto por folhagens encharcadas e fungos bioluminescentes que emitiam um brilho azulado, sinistro.

Então ouviu. Um som rouco, quase um ronco, que subiu lentamente até virar um rosnado gutural. Eric prendeu a respiração. Seus olhos varreram a ravina. Entre duas raízes grossas, viu movimento: algo negro, enorme, que parecia fazer parte do próprio chão. Lentamente, aquilo ergueu a cabeça, revelando duas orbes amarelas, que refletiram a pouca luz e brilharam como brasas.

O anhangaúna.

O animal avançou um passo, saindo da sombra. Era como se a floresta tivesse cuspido um pesadelo em forma de carne. Os olhos eram grandes demais, a boca larga demais, repleta de dentes longos e úmidos — exatamente como o dente que o motivara a ir até ali. Garras curvas rasgavam o chão a cada movimento, e das narinas largas saía vapor quente, que subia em pequenos redemoinhos.

Eric engoliu o grito que ameaçou escapar. Suas mãos bateram em seus bolsos vazios, não havia arma nem qualquer outra coisa que pudesse usar para se defender. O pavor entorpeceu seus pensamentos. Podia apenas encarar a morte chegando.

O anhangaúna avançou mais um pouco, seu corpo robusto ondulando a cada movimento, e se deteve a menos de três metros do paleontólogo, o pescoço comprido arqueando como o de uma serpente prestes a dar o bote. As narinas dilataram-se, farejando o medo que escorria de Eric em suor, e sua boca se abriu, deixando as duas fileiras de dentes pontiagudos à mostra enquanto rosnava de forma gutural. Estava prestes a saltar sobre ele.

Então, do alto da ravina, um clarão vermelho estourou. Uma chama intensa iluminou a noite, tingindo tudo com tons carmesins. O monstro virou a cabeça abruptamente, fitando a luz com os olhos arregalados. Daniel estava lá em cima, brandindo um sinalizador aceso.

— Eric! Eric, você está aí?! — Chamou ele, a voz reverberando pelas paredes da ravina.

O anhangaúna soltou um rugido surdo e recuou um passo, as garras arranhando a terra num som que fez Eric estremecer. Os olhos da criatura cravaram-se na luz por um instante, e o paleontólogo pôde ter um rápido vislumbre do animal em si: era tão grande quanto uma onça, bípede e esguio, com braços fortes e mãos com garras curvas longas e — ele quase engasgou — um polegar opositor. Seu corpo era negro e recoberto por plumas também pretas, exceto por uma faixa branca ao redor do pescoço e pelo topete e cauda laranja-avermelhadas.

Do alto da ravina, Daniel balançava o sinalizador de um lado para outro, aparentemente ouvindo os sons que vinham lá de baixo e tentando enxergar alguma coisa. Incomodado, o animal girou o corpo de forma quase elegante e desapareceu em silêncio absoluto por entre as raízes, como um fantasma noturno.

O silêncio que se seguiu foi tão pesado quanto o rugido anterior. Eric desabou de joelhos na lama, tremendo descontroladamente. Lá em cima, Daniel o chamava.

— Eric! Me responde, por favor! Você está aí?

Eric respirou fundo, o peito arfando como se fosse explodir. Tentou se erguer, mas o tornozelo protestou com uma pontada aguda. Mesmo assim, apoiou-se num galho e subiu, centímetro por centímetro, ofegante, até ficar de pé.

— Estou aqui embaixo. — Conseguiu pôr pra fora.

— Consegue subir? — Insistiu Daniel.

Eric balançou a cabeça.

— Meu pé... acho que torci. Não vou conseguir escalar.

Daniel xingou alto, depois desapareceu por um momento. Eric ouviu o barulho de pedras rolando e galhos quebrando. Pouco depois, o arqueólogo surgiu descendo a lateral da ravina com cuidado, o sinalizador ainda aceso na outra mão, iluminando o rosto suado e manchado de terra.

— Vem cá. Se apoia em mim. — Passou o braço pelas costas do outro, puxando-o.

Eric deixou-se amparar, o corpo ainda trêmulo. O cheiro do fogo químico do sinalizador se misturava ao suor e ao cheiro de terra molhada, criando um aroma acre, quase nauseante.

— Achei que fosse morrer — Sussurrou Eric, a voz falhando.

— Não hoje. Não comigo aqui.

Os olhos deles se encontraram por um segundo. Eric quis dizer algo, agradecer ou, por alguma razão que ele não entendia, pedir desculpas por todos os anos de ressentimento, mas a garganta fechou. Apenas assentiu, apertando o braço de Daniel com força.

Juntos, começaram a subir a lateral da ravina. O sinalizador clareava o caminho, projetando sombras monstruosas dos galhos retorcidos. Cada passo era um desafio para Eric, mas Daniel o incentivava, murmurando ordens calmas, puxando-o com firmeza sempre que ele ameaçava escorregar.

Quando finalmente chegaram ao topo, Eric escorregou e quase caiu de novo. Daniel o segurou pelo cotovelo, ofegante. O sinalizador apagou naquele momento, lançando-os de volta ao escuro da floresta.

— Precisamos encontrar o Lucas e os outros — Pontuou o arqueólogo, olhando ao redor — Vamos, devagar.

Seguiram se arrastando entre as árvores. O silêncio agora parecia mais hostil. Não havia grilos, não havia aves noturnas, nem o distante coaxar dos sapos. A floresta inteira parecia contida, em suspense, como se aguardasse algo acontecer.

— Ele era… — Eric hesitou, a voz embargada — Era real. Não era felino nenhum, Daniel. Aquilo era um maldito dinossauro.