O calor úmido do arapóka parecia colar a roupa nos corpos deles. Daniel e Eric caminharam em silêncio de volta ao ponto onde haviam deixado a fogueira acesa. O chão da floresta estava úmido e fedia a matéria orgânica em decomposição. A penumbra quase permanente ali embaixo dava a sensação de que era sempre fim de tarde, o que desorientava o relógio biológico e tornava impossível dizer quanto tempo tinham passado ali.

Quando emergiram por entre as samambaias gigantes, avistaram o acampamento deles iluminado pela fogueira. O militar restante, Batista, havia reavivado o fogo e estava de pé com o fuzil em punho, olhos arregalados vasculhando a escuridão. Bernardo e Lucas sentavam-se sobre um tronco, exaustos e tensos, cochichando nervosamente. Ao ver Daniel e Eric, eles se levantaram num salto.

— Estão bem? — Perguntou Batista, a voz apertada, segurando o fuzil como quem se agarrava a uma esperança longínqua — Encontraram… o Leal?

O soldado apontou para o chão próximo, onde havia manchas escuras, respingadas sobre folhas largas e troncos. Sangue já quase seco.

Daniel balançou a cabeça negativamente.

— Não. Mas encontramos o que levou ele.

Os outros se empertigaram após o comentário dele.

— Vocês viram o bicho que fez isso? — Bernardo perguntou, a voz grave e impregnada de incredulidade. Seus olhos percorriam o grupo como se buscassem cumplicidade, como se precisasse que alguém confirmasse que aquilo tudo não passava de um pesadelo coletivo.

Daniel pigarreou, mas não respondeu de imediato. O olhar dele se voltou para Eric, que estava sentado alguns passos adiante, encarando fixamente as chamas. O paleontólogo tremia levemente, respirando rápido, como quem tentava se agarrar à própria sanidade. Daniel sabia que não era qualquer animal. Algo no comportamento de Eric dizia mais do que palavras.

— Não foi só um animal qualquer. — Disse, num tom baixo mas firme. Depois, inclinou-se para frente e encarou o colega — Eric viu. Viu de perto.

A tensão aumentou. Bernardo, que até então se esforçava para esconder seu nervosismo mantendo uma postura prática, quase debochada, estreitou os olhos. Primeiro fitou Daniel, depois desviou para o paleontólogo.

— E o que você viu, afinal? — Perguntou, tentando soar racional, mas com um resquício de impaciência nervosa — Uma onça? Ou um alien, sei lá?

Eric não respondeu. Continuava imóvel, o rosto iluminado pelas labaredas, os olhos fixos no fogo como se temesse que, ao piscarem, a lembrança do que vira pudesse saltar outra vez diante dele. O silêncio prolongado fez a atmosfera pesar ainda mais.

Lucas, que o observava com preocupação crescente, acabou se ajoelhando ao lado dele. Colocou uma mão firme sobre seu ombro, tentando transmiti-lo de volta à realidade.

— Eric... — Disse suavemente, quase como quem fala a uma criança assustada. — Você precisa nos dizer o que era. A gente precisa entender com o que estamos lidando.

Por um instante, pareceu que Eric não reagiria. Mas então ele puxou o ar de forma brusca, arfando, como se tivesse acabado de emergir das águas de um rio profundo. Passou as mãos no rosto, apertou as têmporas, respirou fundo uma, duas vezes. Quando falou, foi num sussurro trêmulo:

— Um papel. Preciso de um papel.

Daniel não hesitou. Vasculhou a mochila até encontrar o diário que carregava, agora amarrotado e manchado de terra, testemunha muda de tantas intempéries. Entregou-o a Eric, junto com um toco de lápis quase gasto.

O paleontólogo o recebeu com mãos trêmulas. Colocou o diário sobre as pernas, inclinou-se para frente e começou a rabiscar de forma nervosa, traço sobre traço, como se o simples ato de desenhar pudesse aliviar o peso esmagador da memória. Primeiro, delineou uma cabeça alongada e larga. Depois, dentes curvos, numerosos, alinhados em fileiras mortais. O corpo veio a seguir: musculoso, flexível, adaptado tanto para a força quanto para a velocidade. Nos braços, garras longas, dedos como lâminas. Por fim, os olhos: oblíquos, brilhantes, inteligentes.

Quando terminou, ergueu o diário sem dizer uma palavra. O silêncio foi absoluto.

Lucas foi o primeiro a reagir. Aproximou-se, olhou fixamente para o desenho e depois para Eric, os ombros arqueados pela exaustão.

— Eric… — Murmurou — Isso aí é o Indoraptor, do Jurassic World.

O comentário foi meio sarcástico, meio incrédulo, como se aquela fosse a única forma de processar o absurdo que via diante de si.

— Não — Eric retrucou de imediato, balançando a cabeça com força. A irritação em sua voz era nítida. Ele bateu o toco de lápis contra o papel, como se quisesse reforçar o ponto. — Não é um monstro de cinema. Presta atenção. O crânio é mais estreito. O corpo parece mais leve, claramente adaptado para subir em árvores. E vejam isso aqui. — Passou o dedo sobre os traços que representavam as mãos — Polegares opositores. Vocês entendem o que isso significa? Essa coisa consegue agarrar e escalar com precisão. E o corpo... coberto de plumagem. Isso não é invenção minha. Não é um dinossauro genérico. É um predador altamente especializado.

Bernardo abriu a boca, mas fechou em seguida. Espalmou as mãos no ar, num gesto misto de frustração e incredulidade.

— Espera aí, espera aí, espera aí! — Exclamou, a voz subindo meio tom — Eu já vi muita coisa estranha Amazônia afora. Bicho que o homem branco nem sabe que existe. Mas você tá querendo me dizer que isso... — Apontou para o desenho — é um dinossauro? De verdade?

Batista, que até então só observava, soltou um riso nervoso, carregado de sarcasmo.

— Isso é loucura! — Cuspiu as palavras, tentando esconder o próprio medo por trás da fachada de descrença — Dinossauros morreram há milhões de anos. Você bateu a cabeça, só pode!

Lucas virou-se para Daniel, desesperado por algum tipo de resposta racional que pudesse colocar ordem naquela loucura.

— Você acredita nele, Dan? — Perguntou, o tom mais baixo, quase implorando — Você também viu?

Daniel fez que não com a cabeça, permanecendo em silêncio por alguns segundos. Olhou para o desenho, depois para o semblante transtornado de Eric. Por fim, se inclinou para perto dele.

— Mas qual, Eric? — Disse, firme, mas sem agressividade — Você tem alguma ideia do que ele era?

O paleontólogo fechou os olhos por um instante, como se buscasse as imagens em sua memória. Quando voltou a falar, sua voz era quase uma preleção acadêmica, ainda que entrecortada pela emoção.

— Fisicamente, é algo que poderíamos esperar do Santanaraptor. — Fez uma pausa, e os outros trocaram olhares sem entender — Um pequeno terópode encontrado na Chapada do Araripe, no Ceará. Mas esse aqui é muito maior. O porte lembra mais o Spectrovenator, um abelissaurídeo descoberto recentemente em Minas Gerais. Ambos viveram aqui, na América do Sul, no Cretáceo. Só que... — Ele engoliu em seco, encarando o vazio — Isso é impossível. O impacto do asteroide, o inverno global... deveria ter extinguido todos eles.

Lucas franziu a testa.

— Então não era um descendente de Velociraptor? — Perguntou, confuso, tentando relacionar com suas próprias referências da cultura pop.

Eric balançou a cabeça com impaciência.

— Velociraptor era da Mongólia. Não tem absolutamente nada a ver com esse continente. Mas sim, é um animal do mesmo grupo, um celurossauro. Pode ser um tiranossaurídeo adaptado, pode ser um dromeossaurídeo. Ou... — Ele hesitou, a voz baixando como quem se perde em pensamentos perigosos — Ou uma linhagem completamente desconhecida, que sobreviveu isolada até hoje. Mas não dá pra saber. É preciso examinar ossos, fezes, rastros... o próprio animal em si… Não dá pra dizer só olhando.

Bernardo passou as mãos no rosto, rindo de nervoso.

— Vocês estão me dizendo que a gente tá mesmo sendo caçado por um bicho pré-histórico? — A incredulidade em sua voz beirava o desespero.

Eric ergueu o olhar, fixando os olhos arregalados de cada um deles, e disse com uma firmeza assustadora:

— Isso não é só um bicho pré-histórico. — Fez uma pausa, deixando o peso da frase se assentar — É claramente o predador de topo desse ecossistema. O apex. Isso significa que ele não apenas sobreviveu: ele se aperfeiçoou. Ele é perfeito no que faz. Espreitar. Perseguir. Caçar.

Bernardo se levantou de repente, como se não suportasse mais ficar parado. O calor do fogo lambia-lhe o rosto, mas o frio que sentia vinha de dentro. Deu alguns passos pesados pela clareira, a respiração descompassada, até que explodiu.

— Não, não, não! — Gritou, a voz ecoando entre os troncos imensos que cercavam o acampamento — Isso é um delírio! Isso é o medo falando! Um dinossauro… meu Deus do céu, um maldito dinossauro!

A raiva o consumiu. Ele chutou uma raiz grossa que atravessava o chão úmido, a dor subindo pela perna como um choque. O gesto não trouxe alívio; só reforçou o desespero.

Daniel se aproximou com cautela, os olhos fixos no piloto. Não era a primeira vez que via homens quebrando sob pressão, mas havia algo diferente ali: uma sensação de que o mundo inteiro estava desmoronando junto com eles.

— Bernardo, senta. — Disse, firme, mas em tom baixo, quase paternal — A gente precisa manter a calma.

Tentou impor segurança com a voz, mesmo sem senti-la. Apontou para o fogo.

— Vamos colocar mais lenha, acender outras fogueiras. Se ele caça no escuro, talvez a luz o mantenha afastado.

Bernardo estava ofegante, o peito subindo e descendo como se tivesse corrido uma maratona. Por um instante, seus olhos marejados brilharam sob a luz da fogueira, como se fosse chorar novamente. Depois fechou as pálpebras com força, respirou fundo e assentiu com um aceno quase imperceptível.

— Tá. Tá bem.

Daniel não esperou mais. Voltou-se para os outros.

— Precisamos de madeira. Quanto mais fogo, melhor.

Lucas e Batista, ainda em choque, pegaram facões e se juntaram a Daniel. Avançaram cautelosos até a borda da clareira, onde a escuridão parecia viva, pulsando com ameaças invisíveis. Cada passo era acompanhado por estalos de galhos e o farfalhar de folhas. Seus olhos reviravam-se em todas as direções, atentos a qualquer som que destoasse da cacofonia da selva.

Logo, três novas fogueiras ardiam em volta do acampamento, dispostas de forma triangular. As chamas se erguiam e tremulavam, projetando sombras monstruosas contra as árvores titânicas, mas mantinham uma boa área bem iluminada floresta adentro — e acima. As raízes pareciam serpentes adormecidas, as copas balançavam como cabeças agitadas por um vento pesado. A luz rasgava a escuridão por muitos metros floresta adentro, criando um círculo frágil de segurança no coração daquela noite sufocante.

Eric, no entanto, parecia alheio ao pânico. Continuava sentado perto da fogueira original, o diário aberto sobre os joelhos. Escrevia e desenhava febrilmente, como se temesse perder algum detalhe. O grafite do lápis riscando o papel se misturava ao estalar das brasas.

Quando os outros retornaram, encontraram o paleontólogo imerso em sua própria excitação. Ele havia preenchido páginas com rabiscos: árvores colossais de raízes aéreas, as aves cinzentas de cauda azul que corriam de um lado para o outro, insetos grotescos que ele observara nos dias anteriores. No centro, dominando o espaço, estava a figura sombria do anhangaúna — não como simples animal, mas como um senhor antigo, soberano daquele reino esquecido.

Eric não ergueu a cabeça quando falou, a voz saindo quase num sussurro, como se conversasse consigo mesmo.

— Eu tenho uma teoria de como esse lugar pode existir…

Seus olhos permaneciam fixos no desenho enquanto os outros se reuniam em volta para ouvi-lo.

— A América do Sul é um continente granítico, diferente dos basaltos vulcânicos da África e da Índia. Bastante estável, em sua maioria. Mas de vez em quando, movimentos tectônicos isolados acontecem e podem abrir falhas. Afundar blocos inteiros de terra.

Daniel e Lucas, mais próximos, assentiram, entendendo o raciocínio dele.

— E foi numa dessas que se formou essa cratera? — O assistente perguntou, com a voz incerta.

Eric assentiu, animado.

— Exato. O arapóka é um pedaço de floresta que simplesmente afundou. Isso explica os paredões verticais que cercam esse lugar e impedem qualquer coisa que vive aqui de sair. Todo esse pedaço de terra veio abaixo bem antes da queda do meteoro, trazendo consigo tudo que estava em cima e isolando do resto do mundo. Mas não foi só isso. — Ele ergueu o lápis, apontando para o alto — Quando estávamos no avião, notei que havia vapor subindo por fissuras ao pé dos paredões, provavelmente causado por algum aquífero subterrâneo em contato com algum veio de magma mais superficial. Eu acredito que a liberação desse vapor forma as correntes de ar ascendentes por aqui. Isso explica a lenda do “buraco no céu”, porque as nuvens se dissipam aqui. A floresta é úmida, mas quase não chove. O microclima é completamente diferente do resto da Amazônia.

Fez uma pausa e olhou para cima, para o retalho estreito de céu entre as copas.

— Quando o asteroide caiu, há 66 milhões de anos, gerou um inverno global que durou muitos anos. Mas, aqui dentro, a poeira talvez nunca tenha chegado a cair. As correntes de ar podem ter mantido o céu relativamente limpo e evitado o colapso da vida por aqui. E talvez o calor vindo do subsolo tenha protegido esse lugar. Como uma estufa isolada do mundo.

Batista, suado e desconfortável, coçou a cabeça.

— Tá dizendo que essa floresta nunca morreu? Que os bichos daqui são… são…

— Relíquias. Sobreviventes de outra era. — Eric completou, com brilho nos olhos, o lápis em sua mão desenhando círculos sobre o esboço do anhangaúna — Esse animal é o produto de milhões de anos de isolamento. Refinado ao máximo para caçar aqui. Como um tubarão.

Apontou para Batista, como se desse uma aula.

— Tubarões existem há mais de 400 milhões de anos e não mudaram quase nada porque já eram eficientes. E eu acredito que o mesmo aconteceu aqui. O anhangaúna é a expressão máxima de um predador que nunca precisou se adaptar a nada além deste lugar.

Bernardo, ainda trêmulo, soltou uma gargalhada nervosa, mais desespero do que humor.

— E por que agora ele quer a gente, hein? Por que não pega só os bichos daqui?

Eric fechou o diário por um instante, encarando o piloto.

— Eles não estão atrás de nós por maldade. Não há maldade em predadores. Eles estão agindo por puro instinto, como qualquer animal agiria.

Abaixou a voz, como se a própria selva escutasse.

— Mesmo que por acidente, nós invadimos o território deles. Primeiro, eles nos observaram à distância. Depois, arriscaram se aproximar e atacaram a minha ave. Depois, levaram o César. E agora… — Deixou a frase suspensa, o silêncio preenchendo o espaço como um veneno.

O grupo mergulhou em mutismo. O crepitar das fogueiras parecia mais alto, mais urgente. Lucas aproximou-se da maior, sentando-se diante das chamas. Seus ombros tremiam levemente, fosse de frio ou de medo.

— Então o que a gente faz? — Perguntou, sem olhar para ninguém, com um tom desesperançoso — Como diabos a gente sobrevive a um troço desses?

Daniel se ajoelhou ao lado dele, tentando inspirar confiança.

— A gente vai bolar algo. Primeiro, manter o fogo aceso. Ele parece não gostar da luz. Depois, vamos continuar seguindo o plano: tentar chegar naquele acampamento de mineradores. Talvez tenham armas melhores. Ou rádios. Qualquer coisa que nos dê uma chance.

Bernardo balançou a cabeça, o rosto iluminado pelas chamas que distorciam seus traços. Olhou para a floresta negra ao redor, onde sombras se moviam como espectros.

— Se chegarmos vivos até lá…

Daniel pousou a mão em seu ombro.

— Vamos chegar. Um passo de cada vez.

As palavras saíram firmes, mas nem ele acreditava totalmente nelas.

A floresta respondeu com seus próprios sons: estalos distantes, folhas se agitando sem vento, um uivo abafado de algo desconhecido. O calor era sufocante, impregnando a pele como um manto de suor. As fogueiras, contudo, mantinham à distância o que quer que rondasse nas trevas.

Por enquanto.