O Último Caçador
15 Capítulo 14
A floresta parecia suspirar com eles. Quando o sol se pôs atrás dos paredões da cratera, o céu tingiu-se de um roxo profundo que logo cedeu ao breu total. As árvores enormes, cobertas de líquens e cipós, formavam silhuetas negras, retorcidas, lembrando garras apontadas para cima. Entre essas sombras, o grupo encontrou um pequeno vale de pedras empilhadas, como se fosse o leito seco de um rio antigo. As pedras altas formavam uma espécie de anfiteatro natural que abafava sons e ecoava outros de modo imprevisível, como se a noite tivesse adquirido várias bocas escondidas.
Ali decidiram passar a noite.
Bernardo, Lucas e Lorenzo foram logo recolher galhos, gravetos e pedaços maiores de madeira caída. Os três se moviam com rapidez contida, mas qualquer galho que partisse sob as botas fazia todos gelarem por dentro. Daniel e Eric ajudaram a empilhar as toras mais grossas, formando duas grandes fogueiras à frente da abertura do abrigo improvisado, um recesso entre rochas protegido dos ventos mais fortes. Usaram pedras para construir meia-luas diante das pilhas de lenha, uma tentativa de refletir o calor para dentro e projetar a luz para fora, como duas línguas de fogo que mordessem a borda da escuridão. Levi ficou de guarda com seu fuzil, o cano tremendo sutilmente toda vez que ele trocava o peso de uma perna para a outra.
Quando o fogo pegou, crepitando alto, lançando labaredas que dançavam contra as pedras, o calor pareceu oferecer a primeira carícia de segurança em dias. Eric observava as fagulhas subirem e se perderem na noite, a fumaça espiralando preguiçosa até se dissolver no breu. A chama devolvia cor às coisas: o couro das mochilas, o metal amassado de uma cantil, a pele suada nos rostos. Mas além da luz pulsante, a cratera continuava uma boca aberta, paciente.
— Isso deve manter aqueles filhos da puta afastados. — Comentou Lorenzo, olhando em volta, com a mão sempre apoiada no cabo do facão.
— Pelo menos até o fogo começar a baixar. — Murmurou Bernardo, que ficou observando o entorno, o olhar preocupado.
Levi ajeitou a arma em riste, aproximou-se um passo da borda do círculo de luz e ficou ali, imóvel, como um totem. A cada rajada de vento, as lonas improvisadas chiavam, e o estalo das brasas parecia responder. Por algum motivo, aquela conversa entre madeira e vento lhe parecia uma língua estrangeira que dizia: “esperem”.
Mesmo assim, naquela noite, os anhangaúnas não se aproximaram. Eles podiam ser predadores ferozes, mas o fogo parecia fazê-los hesitar. Ainda assim, eles não estavam longe. Às vezes, surgia um estalo seco entre as árvores, o barulho de cascas quebrando. Outras vezes, o rugido grave ecoava tão distante que era quase um sussurro gutural, mas que arrepiava a pele. Uma vez, todos sentiram uma vibração longa, lenta, como se um peso passasse em algum ponto escondido e a terra respirasse por baixo das pedras. Ninguém comentou, mas todos ergueram a cabeça ao mesmo tempo.
A noite avançava como um animal silencioso. O calor das fogueiras fazia a pele formigar, mas o ar que rondava as pedras era frio, úmido, e trazia um cheiro de folhas esmagadas misturado com um traço acre que, vez por outra, se insinuava: algo como sangue antigo, ferro, água parada. Daniel girava os olhos sem mover a cabeça, acompanhando a borda do claro, e contava mentalmente os segundos entre um estalo e outro, tentando identificar um padrão. Não havia.
Bernardo, que ajudara Lucas a recolher mais lenha para um terceiro monte de reserva, começou uma ronda curta ao redor das fogueiras, sempre passando pelo mesmo trajeto — três passos, virada, quatro passos, virada — como se forçasse o corpo a obedecer uma geometria para não ceder ao caos que vinha de fora. A lembrança de Pedro às vezes lhe vinha com tanta nitidez que ele precisava piscar duas, três vezes, para reaprender onde estava.
Levi, com os lábios ressecados, deu um assovio baixo que significava “atenção”. Os três do círculo de luz se calaram e olharam para onde ele apontava. O fogo, por um instante, pareceu inclinar suas chamas todas para a mesma direção, como grama curvada pelo vento. Lucas engoliu em seco. De algum ponto na mata, folhas muito altas tremularam de uma vez — não um animal pequeno, não um macaco, mas algo que tocava as folhas de cima para baixo, como se um dorso ou um pescoço deslizasse contra elas. O movimento cessou sem consequência, sem som de fuga. Parecia pura observação. O tipo de curiosidade que precede a certeza.
— Eles estão memorizando a gente — Sussurrou Eric, sem perceber que falava. — Cheiro, vozes, o caminho da fumaça, a altura das chamas.
— Fala baixo — Pediu Daniel, quase sem som.
Lucas ajeitou os óculos no nariz com mão trêmula. O rosto dele estava pálido onde o fogo não chegava. A garganta emitiu um ruído seco quando ele tentou engolir a saliva que não tinha.
Em algum momento entre duas vigilâncias, entre duas idas de Bernardo até a borda do escuro, o bosque devolveu um som que não quiseram decifrar: um roçar prolongado, como escamas passando por cascas de árvores; depois, um silêncio tão inteiro que o crepitar das fogueiras pareceu gritar. Levi ergueu a arma apenas um dedo, suficiente para sinalizar “não disparem”. O dedo indicador repousou ao lado do gatilho, adestrado pelo medo.
As horas se alongaram, e a fadiga começou a desenhar sombras sob os olhos. Lorenzo cochilava em trancos, o facão apoiado no joelho, acordando sobressaltado sempre que a lâmina pendia e batia na pedra. Lucas fazia contas com gravetos na terra — linhas, setas, distâncias — e apagava tudo com a palma antes que alguém pudesse ver. Bernardo mantinha os lábios cerrados com tanta força que um filete de sangue desenhou um risco no canto da boca. Daniel passava em revista mental cada peça: as mochilas, o pouco de água, as rações que restavam, as armas e a lenha. Eric, por sua vez, tentava ancorar o pânico no método: listava dentro de si comportamentos observados, padrões de aproximação, respostas ao fogo, possíveis rotas de fuga por terreno pedregoso (“garras escorregam nas lajes?”, “evitar capim alto onde as caudas podem varrer?”), e a cada hipótese vinha o pensamento intruso: “e se eles aprenderam mais rápido do que nós?”.
Três vezes durante a noite, o fogo precisou ser alimentado com pressa, quando uma lufada de vento empurrou as chamas para um lado e deixou o outro lado do claro em penumbra. Nesses momentos, o silêncio lá fora recolhia-se, como se coisas se movessem para além do alcance da luz só para testar o nervo dos homens. Em uma delas, Lucas jurou ter visto dois pontos de reflexo entre as folhas — não olhos, mas algo que os imitava, duas gotas de luar presas em um rosto que ele não conseguia desenhar. Piscou e sumiu.
— Fica comigo, fica comigo. — Murmurou Daniel para as brasas, como quem tenta convencer um animal arisco. Atirou mais um punhado de gravetos finos, depois uma tora média. As chamas lamberam o ar com fome.
O tempo, no vale de pedras, era um fio esticado que qualquer ruído podia romper. Os rugidos distantes voltaram uma ou duas vezes, baixos, graves, tão vagarosos que pareciam vibrar no estômago. Não era um chamado — era uma afirmação. Um “estamos aqui” que dispensava testemunhas. As respostas vinham mais adiante, ecoando pelos paredões, e então se calavam, como se o próprio breu concordasse que a negociação ficaria para depois.
Lá pelo meio da madrugada, Daniel, Eric e Lucas sentaram-se num círculo apertado ao lado de uma das fogueiras para comer. O jantar era o de sempre: pedaços de carne-seca, umas raízes que Lorenzo reconheceu como comestíveis e parte das rações militares que ainda restavam. Não era nada saboroso, mas mantinha todos de pé. Comer parecia uma atitude insolente diante do que rondava, e, ao mesmo tempo, era a única forma de manter a mente no eixo.
Eric segurava o recipiente de alumínio com a comida, mas mal comia. Os olhos fixos na chama, como se ali estivessem gravados os desenhos dos anhangaúnas. Lucas percebeu primeiro e quebrou o silêncio:
— Eu tenho pensado... — Disse ele, a voz baixa para não ecoar além do círculo de luz — Quando a gente sair daqui... se sair... como a gente vai explicar tudo isso? Ou melhor, a gente vai contar?
O paleontólogo suspirou, os ombros caindo. Ele parecia carregado por um peso maior que as próprias mochilas.
— Eu já falei isso antes, mas... preciso repetir. — Eric levantou o olhar, procurando o rosto dos colegas — Não podemos contar. Não de verdade. Vocês viram o que esses animais são. Não são monstros assassinos, como nossos instintos querem acreditar. Eles são parte de um ecossistema delicadíssimo. Altamente especializados. Essa cratera é um mundo isolado que existe há dezenas de milhões de anos. Qualquer perturbação externa pode ser fatal pra eles.
Lucas cutucou uma brasa com um graveto, o brilho alaranjado subindo e morrendo em segundos.
— Mas e se fosse divulgado de forma controlada? — Arriscou — Tipo, uma reserva biológica fechada, pesquisadores altamente supervisionados…
Eric soltou um meio sorriso triste.
— Lucas, você sabe tão bem quanto eu. O ser humano é péssimo em manter segredos. Hoje é um pesquisador responsável, amanhã é um político corrupto vendendo concessão pra caçadores de troféu. Depois, empresas de turismo querem trazer gente pra “safáris de dinossauros”. Logo vão caçar esses bichos até o último exemplar pra pendurar a cabeça na parede ou vender filhotes para zoológicos clandestinos.
Daniel estava em silêncio, o queixo apoiado na mão. Olhava para Eric com uma intensidade que fez o paleontólogo se sentir exposto.
— Você está certo, Eric — Disse por fim, com um nó na garganta — Mas... não sei, fico triste por tudo isso não servir pra dar o reconhecimento que você sempre sonhou. Que sua carreira merecia.
Eric abaixou a cabeça, dando uma risada curta e sem alegria.
— Eu pensei muito nisso, sabe? Em como a chance de me tornar o maior nome da paleontologia mundial está bem ali... ao alcance da mão. Mas quer saber? Não importa mais. Eu vi esses animais vivos. Eu vi como eles se comportam, vi o medo que têm do fogo, o jeito como escalam árvores, o modo como rugem um pro outro. A minha criança interior — aquela que colecionava miniaturas de dinossauros, que recortava fotos de fósseis das revistas — essa criança está feliz. Satisfeita. Realizada pro resto da vida. — Eric ergueu o olhar, e seus olhos brilhavam à luz do fogo — E não tem prêmio, medalha ou citação científica que pague isso.
Daniel estendeu a mão e apertou o ombro dele. Lucas também assentiu, e por um instante o trio ficou ali, unido por algo mais profundo do que o medo ou a necessidade de sobreviver. Eram três meninos fascinados pela ideia de que monstros do passado ainda caminhavam sobre a Terra. E, por ironia, agora eram também seus protetores.
Mas a conversa não se encerrou aí. O fogo estalou, e Eric prosseguiu, como se abrisse um mapa invisível sobre a areia.
— Pensem comigo. — Disse, baixo — Isto aqui é uma ilha. Não cercada por água, mas por geologia. Isolamento. A natureza daqui evoluiu num equilíbrio finíssimo. Se a gente revela o lugar, mesmo com boa intenção, a primeira onda é de curiosidade científica. Depois vem outra: curiosidade midiática. A terceira é econômica. E nenhuma das três sabe parar. A gente abre a porta um centímetro e, quando percebe, derrubaram a parede.
Lucas franziu a testa.
— Mas uma reserva de proteção integral, barreiras, autorização só pra gente extremamente qualificada…
— E quem define “extremamente qualificada”? — Eric o interrompeu, gentil, mas firme — Quem garante que não vai entrar um vírus junto com um pesquisador? Um fungo, uma bactéria. Já pensaram nisso? Essas populações daqui não tiveram contato com o nosso mundo por eras. Uma gripe nossa, uma micose de pele, uma larva num solado de bota… e pronto, você cria uma epidemia aqui dentro. Do nosso lado, a gente levaria pra fora patógenos que não conhecemos. Do lado deles, sem anticorpos, o colapso pode ser em semanas.
Daniel assentiu, os olhos escuros.
— Biosegurança, quarentenas, protocolos…
— Que se quebram na primeira pressa, no primeiro corte de verba, na primeira vaidade. — Completou Eric. — E não é só doença. É efeito cascata. Se levarem um anhangaúna pra estudo, só um, o suficiente pra desequilibrar uma região, essas aves de cauda azul se multiplicam mais do que a vegetação aguenta. A vegetação cai, o solo erode, o fluxo de água se altera. Aí morre um grupo de insetos que polinizava só uma planta daqui, e essa planta era o ninho de um anfíbio que regula os mosquitos, e… — Ele parou, percebendo que corria — Bom, vocês entenderam. “Tragédia dos comuns”, versão jurássica.
Daniel deu uma risadinha de lado.
— Parafraseando Jurassic Park: é a “Teoria do Caos”.
Lucas observava o círculo de luz e sombra projetado na pedra, como se pudesse ver ali o diagrama das relações citadas.
— E mesmo se a gente conseguisse esconder a localização — Daniel continuou — ainda haveria o risco de vazar por outra ponta. Uma postagem inocente com fundo geológico reconhecível, uma foto num servidor errado…
— Um GPS esquecido ligado. — Acrescentou Eric. — Um piloto curioso. Um mapa vazado por alguém que acha que “o mundo tem direito de saber”. O mundo, Daniel, não tem direito de destruir. E esse é o destino quando o mundo sabe.
O silêncio que se seguiu não era vazio; era saturado de imagens que nenhum deles queria ver: helicópteros, grades, gente em fila para “ver os dinossauros”, lixo, ruído, a mata domesticada em trilhas. A palavra “parque” ecoou sem ser dita, e todos tiveram vontade de cuspir.
Lucas ergueu de novo o olhar.
— E se só avisássemos as autoridades para impedir a mineração e manter afastado o resto? Eles têm meios, certo?
Daniel e Eric trocaram um olhar amargo.
— Eles têm meios. — Disse Daniel — E têm interesses. E têm inimigos. E têm vazamentos.
— E têm preços. — Completou Eric, sem vitupério, só cansaço — Gente compra tudo. E o que a gente viu aqui vale muito. Em dinheiro, em poder, em ego. Não confio em nenhuma estrutura que envolva… pessoas demais.
Lucas respirou, quieto. Havia no seu rosto algo como desgosto por concordar.
— Então o que sobra? — Murmurou, claramente insatisfeito por contemplar a possibilidade do silêncio diante de uma descoberta tão gigantesca — Sair e calar?
— Sair e proteger — Corrigiu Eric — A melhor proteção, neste caso, é o desconhecido. A ignorância do restante do mundo é o escudo que esses animais têm. Se a gente tiver alguma dívida com eles — e eu acho que temos, pela simples invasão do território deles — é a de não trazer mais ninguém.
Ele levou a mão ao bolso interno, onde seu diário repousava, quente do corpo.
— Eu vou escrever tudo — Disse, com voz nova, firme — Mas vou escrever sem coordenadas, sem rotas, sem detalhes logísticos. Vou escrever para que, se um dia alguém achar, entenda que o maior feito aqui não é provar que eles existem, mas aceitar que eles devem continuar sem nós.
Daniel encarou a fogueira. A chama subia e descia, como um músculo respirando. Ele pensou no peso das palavras, na história tecendo ausências e meias verdades. Pensou, também, nos mortos — e na necessidade de que suas mortes não fossem o primeiro capítulo de um livro de conquistas, mas a epígrafe de um voto silencioso.
— E se o nosso plano não der certo? E se precisarmos de resgate? — Questionou Lucas, mais por dever do que por esperança — Se a única forma de sair for pedir ajuda de cima?
— Aí a gente fala do “acidente”. — Respondeu Daniel — Do avião, do lago, de um território de difícil acesso. Sem nada além. Numa latitude ampla, meia dúzia de graus. E torce para que, no mapa-múndi da cobiça, isso seja pouco.
Eric assentiu. Ficaram alguns segundos escutando as fogueiras. O estômago de Lucas rangeu. Eles retomaram a comida morna, cada um com o próprio ritual para engolir o que parecia não descer. Depois de mastigar em silêncio, Lucas encontrou coragem para perguntar o que perseguia seu pensamento desde o começo:
— E você? — Disse, encarando Eric — Como você vive com isso? A vida inteira sonhando com a descoberta absoluta e… calando?
Eric demorou. Não por dúvida, mas porque procurava um lugar seguro dentro de si para guardar a resposta.
— Eu vivo lembrando que o que me fez amar dinossauros não foram os holofotes — Disse enfim — Foi a sensação de espanto. De gratuidade. Aquela primeira imagem de um esqueleto num livro velho, a ideia de um mundo inteiro que existiu sem nós. Aqui eu tive isso com juros. Eu vi o “sem nós” me olhando de volta. Se eu transformar isso em produto, eu traio o meu primeiro amor. Prefiro ficar com o segredo e a gratidão.
Daniel sorriu de leve, um canto de boca que tinha cansaço e ternura.
— E se um dia te acusarem de covardia científica? — Provocou, mais para testar a solidez da convicção do colega.
— Aí eu aceito a acusação. — Respondeu Eric, sem hesitar. — E durmo melhor.
A fogueira estalou alto, como se aprovasse. Em algum lugar longe, um rumor de folhas denunciou uma passagem, lenta, sem aproximação. O vento mudou de direção e trouxe um perfume quase doce de flores que abriam à noite. Misturado a ele, veio o cheiro conhecido de couro molhado, de algo grande tendo passado há pouco. Não mais perto, não mais longe. Apenas ali.
Levi, que ouvira pedaços da conversa com a atenção lateral de quem está de guarda, se aproximou um passo e falou sem olhar para eles:
— Se quiserem falar em voz mais alta, falem agora. Quando o cansaço vier de vez, eu vou mandar calarem. — Havia uma ponta de humor em sua rispidez, a única que ousou mostrar naquela noite.
— Falamos o suficiente — Respondeu Daniel, e olhou de novo para Eric e Lucas, como se selasse um pacto que não precisava de papel.
O trio voltou a comer. Lucas, entre uma mordida e outra, encontrou no chão uma pena azul perdida das aves cinzentas que haviam avistado dias antes. Empunhou-a e a pena brilhou na luz com um azul frio, profundo, e pareceu um lembrete: beleza e perigo, do mesmo lado.
— Sabe qual é a parte mais difícil? — Comentou, quase para si mesmo — É aceitar que o certo, desta vez, é parecer errado.
— O certo é o que mantém vivo — Respondeu Eric — Mesmo que ninguém saiba que fomos nós.
A madrugada os recebeu sem mais sinais além dos de sempre: estalos ocasionais, um rugido longínquo, o bater repetido de alguma coisa contra um tronco — talvez cauda, talvez vento. O círculo de fogo manteve seu perímetro, e os homens, seu limite. Quando o primeiro pálido indício de dia tocou o topo negro dos paredões, nenhum deles tinha dormido de verdade; mas o fato de estarem sentados, inteiros, contava como milagre.
Levi abaixou o fuzil e alongou os ombros, os ossos estalando como gravetos.
— A noite passou. — Murmurou, como quem não acredita no que diz.
— E nós passamos com ela. — Respondeu Daniel, levantando-se devagar. — Agora é sair daqui.
Eric guardou o diário junto ao peito e, por reflexo, tocou a capa como quem cumprimenta um amigo. Lucas soprou um braseiro que insistia em se fingir de vivo e o espalhou com a sola para que morresse rápido, sem deixar rastros fáceis.
A cratera, lá fora, ainda parecia suspirar. Mas, por um momento curto, breve como o tempo entre duas batidas de pálpebras, os três acreditaram que aquele suspiro os deixara passar. E que a melhor forma de honrá-lo seria não ensinar ninguém mais a ouvir.
Quando o primeiro raio dourado do dia surgiu no céu, espantando timidamente o breu, foi como se a floresta inteira respirasse junto com eles. A noite havia passado, mas não deixara alívio. Apenas um cansaço atroz. Olhos vermelhos, rostos tensos, músculos rígidos como cordas esticadas prestes a se romper. Ainda assim, estavam vivos — e isso já era vitória suficiente.
A caminhada começou assim que o sol nasceu. O céu ainda era um amontoado de nuvens pesadas, filtrando a luz em tons apagados, quase metálicos. Eric estimava que estavam a pouco mais de oito quilômetros da pista de pouso, mas a distância não era o problema. O terreno era traiçoeiro, hostil em cada centímetro. Raízes grossas se erguiam como serpentes adormecidas, obrigando-os a erguer alto os pés a cada passo. O mato crescia cerrado, cortando os braços e enroscando nas botas. Trechos inteiros eram alagados, forçando-os a atravessar com água até os joelhos, enquanto o lodo sugava as pernas e cada movimento parecia exigir o dobro de esforço.
Levi ia na frente com o facão, abrindo caminho com golpes firmes que ressoavam abafados entre os cipós. Logo atrás vinha Lorenzo, atento a qualquer movimento ao redor. Daniel e Lucas acompanhavam, dividindo a responsabilidade de vigiar o entorno, sempre com os olhos varrendo a densidade das árvores. Por fim, Eric e Bernardo fechavam a formação, os passos pesados de quem carregava mais do que mochilas — carregavam o peso da noite anterior, das mortes que testemunharam, do medo que ainda ardia no peito.
Após algumas horas de caminhada que ninguém se preocupou em contabilizar, foi nesse ritmo arrastado que chegaram ao lago onde o avião havia caído. O lugar se abriu diante deles como uma cicatriz na floresta. A água estava calma, quase imóvel, mas escura, refletindo o céu azul como um espelho rachado que distorcia tudo o que tocava. O cheiro, no entanto, era insuportável. Um odor pesado de morte, que se misturava ao lodo e penetrava pelas narinas até o fundo do estômago, forçando todos a conter o impulso de engasgar.
Bernardo parou. O grupo seguiu mais alguns passos antes de perceber que ele havia ficado para trás. Parado à beira da água, a pistola pendendo frouxa ao lado do corpo, ele fitava o lago por longos segundos. Seus olhos estavam marejados, mas não de surpresa — e sim de dor antiga, de lembrança.
— Pedro... — Murmurou, quase como se falasse apenas para si mesmo, mas o silêncio do grupo amplificou suas palavras — A gente tinha prometido vencer na vida juntos, sabe? Voar pra onde ninguém mais queria ir. Ser irmãos de céu. Agora ele tá aí…
A frase morreu no ar, engolida pelo reflexo distorcido da água. Daniel aproximou-se devagar, respeitando a intimidade do momento. Colocou uma mão firme no ombro do piloto, a mesma firmeza que usava para manter o grupo unido.
— Eu sei, cara. Eu sei. — Disse em voz baixa, quase um sussurro para não ferir a dor que Bernardo expunha — Mas ele estaria orgulhoso de você. Do que está fazendo agora pra tirar todo mundo daqui.
Bernardo respirou fundo. O peito subia e descia num ritmo irregular, como se cada inspiração carregasse peso demais. Passou o antebraço pelo rosto, limpando as lágrimas sem cerimônia. Era prático, direto — mas a vulnerabilidade ainda estava ali, pulsando sob a pele.
— Ele acreditava em mim... — Continuou, num tom mais firme, como se quisesse convencer a si mesmo — E eu não vou deixar que a morte dele seja em vão. Se a gente sair dessa, vai ser também por ele.
Endireitou os ombros, bateu no cano da pistola e assentiu com determinação. O brilho ainda estava em seus olhos, mas agora misturado a algo mais: uma faísca de propósito, de força para continuar.
— Bora. — Disse, em voz clara o bastante para o grupo ouvir — Ainda tem muito chão até aquele avião.
E então voltaram a caminhar, deixando para trás o lago silencioso, que parecia observar cada passo deles como um túmulo líquido.
—X—X—X—
Pouco depois do meio-dia, finalmente emergiram da trilha para o clareado onde ficava a pista de pouso improvisada. Quando os primeiros a pisarem no espaço aberto viram a faixa de terra batida, estreita mas longa, ladeada por árvores imensas e alguns montes de cascalho, foi como se um peso enorme se desprendesse dos ombros. O grupo inteiro parou por alguns segundos em silêncio, apenas respirando fundo, deixando que a simples visão daquele corredor amplo entre a vegetação trouxesse um alívio quase indescritível.
A claridade do sol refletia no solo ressecado, criando ondulações quentes que tremulavam no horizonte. Depois de dias sufocados pela floresta fechada, aquele espaço aberto parecia quase surreal. Lorenzo deixou escapar uma risada nervosa, balançando a cabeça.
— Eu já achei que nunca ia ver essa pista de novo…
E mais à frente, lá estava o avião. Era um Embraer EMB-120 Brasília, parcialmente coberto por uma lona surrada, mas inteiro, sólido, como um monumento esquecido de um mundo mais seguro e civilizado. Mesmo parado e empoeirado, a aeronave parecia carregar a promessa de fuga. A simples visão da fuselagem metálica reluzindo sob a luz do sol fez os olhos de todos brilharem com um misto de esperança e incredulidade.
Bernardo foi o primeiro a se mover. Avançou com passos largos, quase correndo, como se o avião fosse um velho amigo perdido. Chegou até ele e, sem cerimônia, agarrou a lona e a arrancou com um puxão impaciente. A cobertura desabou no chão, levantando uma nuvem de poeira. O piloto passou as mãos pela fuselagem, examinando cada detalhe: o trem de pouso, as hélices, as emendas metálicas.
— Parece estar inteiro — Murmurou, com a voz embargada, mas firme — Se tiver combustível suficiente e baterias decentes, eu faço esse bicho voar.
O brilho em seus olhos deixava claro: naquele momento, não havia obstáculo que ele não estivesse disposto a enfrentar para levantar aquele avião. Ele abriu o compartimento de carga, esperando encontrar suprimentos ou pelo menos algumas ferramentas necessárias para uma manutenção básica na aeronave. Em vez disso, viu vários caixotes empilhados, cuidadosamente lacrados. Logo seu tom ficou mais prático, realista:
— Vai ficar pesado com tanta coisa dentro.
Curioso, tentou puxar o primeiro, mas antes que pudesse afastá-lo, Lorenzo surgiu do nada, a mão firme agarrando seu pulso.
— Não toca nisso aí.
Bernardo o olhou com sobrancelha arqueada, surpreso não apenas pela força com que o grileiro o segurava, mas pelo tom ríspido, quase possessivo. Seus olhos, duros como pedra, denunciavam mais do que simples preocupação. Bernardo então notou as marcas que o esforço deixava nos braços de Lorenzo, os músculos rígidos, tensos como cordas prestes a arrebentar.
Com um gesto rápido, levantou a tampa de um dos caixotes só o bastante para espiar o conteúdo. O brilho que escapou dali era inconfundível: pedras polidas, pedaços grandes, alguns tão transparentes quanto vidro, outros faiscando como brasas sob a luz do sol.
Bernardo fechou o caixote com um estalo e o empurrou de volta, rindo sem humor.
— Ah, tá. — Disse, seco — A carga de vocês. O motivo pelo qual todos nós estamos vivendo essa merda aqui.
Lorenzo não respondeu. Apenas soltou lentamente o braço de Bernardo e se manteve imóvel, os olhos fixos nele como um cão guardando o osso. O silêncio entre os dois era carregado, denso, quase palpável. Eric observava de longe, a expressão fechada, e Daniel, que sempre percebia as tensões do grupo, notou como aquele momento revelava mais do que Lorenzo pretendia deixar transparecer.
Bernardo bufou, sacudindo a poeira das mãos.
— Foda-se. — Disse, afastando-se alguns passos — Mas vou precisar que vocês descarreguem um pouco. Esse avião não vai subir pesado assim.
— Ninguém vai descarregar nada deste avião. — O tom de voz de Lorenzo evidenciava que ele não aceitaria ser contrariado.
Ele continuou parado ali, como se a simples menção de retirar os caixotes fosse uma ameaça direta à sua sobrevivência. Levi, que até então mantinha-se calado, apenas trocou um olhar com o chefe e desviou a vista, claramente desconfortável. Havia um pacto silencioso entre os grileiros que ninguém ali conseguia decifrar totalmente.
— Tudo bem. — Bernardo resmungou, dando as costas e mostrando que também não estava disposto a ficar batendo boca por aquilo — Tenta pelo menos perder uns 50 quilos de pança nas próximas horas só pra garantir que o avião vai estar mais leve.
Enquanto isso, Daniel tomou a dianteira e chamou Levi para ajudá-lo no depósito, onde ficavam guardados os explosivos. Um a um, começaram a tirar os caixotes, arrastando-os com esforço para fora e empilhando-os na sombra ao lado da pista. O suor escorria em seus rostos, misturado à poeira. Eric e Lucas logo se juntaram a eles. O paleontólogo, embora magro e claramente esgotado, fazia força em silêncio, a mente trabalhando tanto quanto os músculos. Ele olhava para os caixotes como se cada um fosse uma incógnita perigosa: pedras, dinamite, munição... tudo parecia gritar por tragédia.
Foi então que Bernardo reapareceu, decidido. Sem pedir ajuda ou dar explicações, pegou um dos caixotes de explosivos e jogou-o sobre o ombro, equilibrando o peso com uma facilidade que surpreendeu os outros.
Eric o viu de relance e franziu a testa.
— O que você vai fazer com isso? — Perguntou, desconfiado.
Bernardo não respondeu de imediato. Apenas virou o rosto, deixando que a sombra da fuselagem ocultasse parte de sua expressão. Quando finalmente falou, sua voz saiu baixa, firme, com uma gravidade que calou os demais.
— Confia em mim, doutor.
Eric quis insistir, mas algo na postura de Bernardo — a firmeza quase estoica, o olhar endurecido de quem já havia tomado uma decisão inegociável — o fez recuar. Ninguém mais parecia ter notado, ocupados com o trabalho de esvaziar o depósito. Só Eric guardou aquele detalhe consigo: o piloto carregava mais do que um caixote de explosivos. Carregava um propósito que ninguém ainda entendia.
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