Bernardo permaneceu na pista de pouso, ocupado em fazer uma vistoria final no avião. O Brasília repousava sob a luz do sol da tarde como uma promessa de salvação. Era uma máquina robusta, projetada para suportar décadas de serviço, mas mesmo assim não escondia as cicatrizes do tempo e das operações precárias que servira para Lorenzo e seus homens. O capô dianteiro estava levemente torto, denunciando uma manutenção de segunda categoria, e as carenagens dos motores traziam manchas escuras de óleo que o tempo havia impregnado, como tatuagens de descuido. Para qualquer leigo, aquilo talvez fosse um risco, mas para Bernardo, cada detalhe contava uma história — e nenhuma delas era suficiente para apagar o sorriso que insistia em surgir em seu rosto.

Ele enxergava naquele avião algo mais do que um amontoado de metal: era um cavalo velho, mas confiável. Um parceiro de guerra que ainda tinha forças para mais uma corrida. E se dependesse dele, aquela seria a corrida mais importante de todas.

Carregava consigo um dos fuzis que sobraram, revisado e carregado minutos antes. O peso do metal sobre o ombro não lhe trazia conforto, mas segurança. Ao contornar o avião, passava a mão firme pelas superfícies, verificando os flaps, puxando e empurrando para garantir que nenhum mecanismo se prenderia no momento decisivo. Batia com a palma aberta na fuselagem, sentindo a reverberação do som metálico. Estava acostumado a confiar no toque, no instinto, mais do que em qualquer checklist. A última coisa que aceitava era a ideia de escapar da cratera apenas para despencar do céu como um tolo.

Do outro lado da pista, Lorenzo observava. A postura dele denunciava que não estava apenas de guarda — era um vigia silencioso, sombra constante, como se cada movimento de Bernardo fosse digno de registro. Seu olhar estreito e fixo deixava claro que estava ali não só por cautela, mas para assegurar que ninguém ousasse mexer nos caixotes de pedras preciosas embarcados no porão de carga.

A mão de Lorenzo descansava sobre o coldre de uma pistola, o corpo inclinado numa pose quase relaxada. Mas Bernardo conhecia bem homens daquele tipo. O piloto sabia reconhecer a tensão invisível de alguém preparado para sacar em questão de segundos. Era um jogo de poder, silencioso e desconfortável.

O piloto soltou um assobio baixo, quase divertido, enquanto conferia os pneus. Sabia que Lorenzo não desgrudaria dele até o último minuto. Foi nesse momento que Eric se aproximou, o rosto ainda coberto por poeira e suor. Seus olhos carregavam a urgência de quem calculava o tempo em batidas de coração. Ele parou ao lado de Bernardo, passando a mão pela fuselagem como se buscasse partilhar um pouco da confiança que o piloto parecia sentir.

— Assim que ver as explosões lá no paredão, você liga esse troço e se prepara pra decolar. — Orientou o paleontólogo, firme, sem rodeios.

Bernardo ergueu os olhos para ele, limpando o suor da testa com o antebraço. Apesar do calor, sua voz saiu calma, quase controlada.

— Pode deixar. Só quero ver aquela boca do inferno fechada pra gente poder sair daqui.

O paleontólogo assentiu, mas seu olhar se desviou de imediato para Lorenzo, que fingia ignorar a conversa. Eric sabia que era apenas teatro: cada palavra, cada gesto, era registrado nos olhos do grileiro. Aquilo reforçava o clima de pólvora que pairava no ar.

Eric suspirou e se afastou, seguindo até o ponto de encontro onde Daniel, Lucas e Levi já ajustavam as mochilas carregadas com os explosivos. O peso dos caixotes parecia dobrar seus ombros, mas ninguém reclamava. Cada passo, cada aperto de fivela, era um lembrete de que estavam se preparando para desafiar não apenas a floresta, mas a própria cratera — e as criaturas que ainda rondavam nas sombras.



—X—X—X—

O trajeto até a base do paredão consumiu quase uma hora, mas pareceu mais longo para Eric, Daniel, Lucas e Levi. A trilha era traiçoeira, cheia de raízes grossas que se enroscavam nos tornozelos, blocos de arenito soltos que ameaçavam a cada passo e pequenos aclives que testavam a resistência dos músculos e a paciência de cada um. O suor escorria pelas testas, pingando nas mochilas pesadas carregadas com dinamite, cordéis e ferramentas. Cada passo exigia atenção total: um deslize, e uma queda poderia significar ferimentos sérios. Mas o pior não era a trilha em si, e sim o peso da tarefa que carregavam — o temor constante de que qualquer descuido poderia transformar aquela missão em um desastre fatal.

A cada curva da trilha, o paredão se erguia mais alto diante deles, imponente e silencioso, como se a própria natureza os estivesse testando. De longe, a rocha parecia uma muralha viva; cipós e bromélias pendiam dela como bandeiras verdes, balançando ao ritmo do vento morno que soprava do interior da cratera. Eric, ofegante, parava de tempos em tempos, apoiando as mãos nos joelhos, olhando para cima e tentando compreender a magnitude do que tinham que enfrentar. A sensação era esmagadora: uma parede de pedra que parecia tocar o céu.

Quando finalmente alcançaram a base, Eric parou e esticou o pescoço, boquiaberto. Mesmo naquela borda mais rasa da cratera, o paredão tinha facilmente 150 metros de altura, talvez mais. Cada fissura e cada veia da rocha se destacava sob a luz intensa do sol, criando sombras que pareciam se mover lentamente, como se a própria montanha respirasse. O céu azul vívido acima deles contrastava com a ameaça silenciosa que se abria à frente — uma fenda escura e profunda, cortando a montanha como uma cicatriz.

Levi apontou para o centro da fenda, o olhar carregado de uma mistura de orgulho e cansaço.

— Foi aqui que a gente abriu — Disse, quase com reverência — Usamos cargas para abrir a brecha, depois trouxemos os tratores para remover o entulho. Levou mais de um mês pra ficar assim.

Eric aproximou-se da rocha e tocou a superfície fria e rugosa. Sentiu a vibração leve que o vento trazia de dentro da cratera, como se a montanha estivesse viva, respirando profundamente. Percorreu a lateral, examinando cada fissura, cada veia escura cortando o granito — marcas deixadas pela implosão inicial que abriram a passagem.

— As bordas estão todas comprometidas — Murmurou para Daniel e Lucas — Se instalarmos os explosivos nas áreas mais baixas, o peso do paredão fará o resto. Será uma implosão vertical; a própria montanha enterrará a ferida que vocês abriram.

Levi, meio contrariado, cruzou os braços e bufou.

— Faz do jeito que você mandar, professor — Disse, mas a tensão na voz denunciava preocupação — Só espero que isso não me mate no processo.

— E como vamos saber se não ficou nenhum anhangaúna do lado de fora depois que fecharmos a passagem? — O questionamento foi de Daniel.

— Não vamos. — Eric devolveu — Só vamos saber caso os ataques continuem. Mas como pudemos observar nos últimos dias, os hábitos deles são majoritariamente noturnos. É bem provável que eles voltem aqui pra cratera pela manhã e só saiam de novo à noite. Se explodirmos agora, eles não têm mais por onde sair.

O arqueólogo assentiu, e o trabalho começou devagar. Daniel e Lucas abriram pequenos buracos na base do paredão, usando marretas e ponteiros. Cada golpe ecoava pelo paredão, misturando-se ao som abafado do vento e à respiração ofegante. O esforço era extenuante; os estilhaços cortavam a pele, a poeira se infiltrava nos pulmões, e os músculos queimavam a cada batida do martelo. Eric vinha logo atrás, posicionando as bananas de dinamite e fixando-as com cordéis coloridos que se enrolavam pela parede como serpentes. Cada ligação era verificada três vezes, porque ele sabia que não haveria segunda chance.

O sol subiu alto no céu, refletindo no granito, tornando a paisagem quase ofuscante. O calor combinava com o esforço físico, drenando a energia dos homens, que suavam por baixo da poeira e da tensão. O cheiro de pedra moída e de terra úmida se misturava ao suor, criando um ambiente sufocante. Mas, mesmo cansados, os homens continuavam; cada pedaço de rocha perfurado, cada cordel fixado era um passo mais próximo do sucesso — ou da sobrevivência.

Quando terminaram, Eric deu alguns passos para trás e estudou a teia mortal de explosivos diante dele. Cordéis serpenteavam pela parede, conectando dinamites cuidadosamente posicionadas.

— Pronto. Agora recuamos uns quatrocentos metros para detonar — Disse, a voz rouca pelo pó.

O caminho de retorno foi lento. Avançaram por um trecho de mata mais alta, agachando-se atrás de grandes rochas de quartzito que ofereciam cobertura caso fragmentos fossem arremessados para fora pela explosão. Eric segurava o detonador com as mãos sujas e os dedos tremendo — não de medo, mas de uma estranha e intensa antecipação.

— Vamos fechar as portas do inferno — Murmurou, quase para si mesmo.

O silêncio reinou por alguns segundos. Podiam ouvir o farfalhar das folhas nas copas das árvores, o canto distante de algum pássaro. Então, Eric acionou o detonador. Por um instante, nada aconteceu, e a tensão quase os sufocou. Mas, de repente, veio o som agudo, metálico, seguido de um estouro colossal.

O paredão pareceu inflar, como se algo empurrasse de dentro para fora. Fragmentos de rocha voaram para cima, alguns descrevendo parábolas preguiçosas antes de despencarem. As laterais da fenda explodiram para dentro de si mesmas, como se a montanha, ferida, decidisse cicatrizar. O chão tremia violentamente, e nuvens espessas de pó cinza subiam, envolvendo tudo como uma cortina de fumaça.

Daniel, Lucas e Levi abaixaram-se instintivamente, protegendo a cabeça. O som era ensurdecedor, uma espécie de trovão prolongado que vibrava nos ossos. Massas inteiras de rocha caíam em cascata, esmagando a fenda e engolfando o espaço com força bruta. Era uma visão ao mesmo tempo aterradora e grandiosa: a natureza mostrando seu poder em um espetáculo de destruição controlada.

Quando o tremor finalmente cessou, erguia-se diante deles um paredão contínuo — irregular, feio, cheio de cicatrizes, mas sólido e vertical. A passagem estava selada para sempre. Silêncio e poeira dominavam o local. Os homens permaneceram ajoelhados por alguns instantes, recuperando o fôlego, ainda absorvendo a magnitude do que acabara de acontecer.

Eric, com o peito arfando, ergueu o olhar, contemplando a obra que a força humana e a gravidade haviam criado em colaboração. Lucas soltou um suspiro de alívio, quase incrédulo.

— Conseguimos. — Sussurrou, ainda sem acreditar.

— Conseguimos. — Repetiu Eric, com a voz rouca, mas carregada de triunfo.

Levi, finalmente permitindo-se sorrir, esticou os ombros doloridos e deu uma risada baixa, nervosa, mas cheia de satisfação. Daniel ainda examinava a parede, as mãos sujas e os músculos doloridos, mas a expressão nos olhos dizia tudo: vitória. Eles haviam enfrentado a dureza da trilha, a imensidão da montanha e o risco da explosão, e haviam vencido.

Por alguns minutos, permaneceram ali, silenciosos, admirando o paredão que agora se erguia entre eles e o mundo. Cada fissura contava uma história de esforço, de planejamento e de coragem. Cada fragmento de rocha que havia caído era uma marca de seu triunfo. E, apesar do cansaço extremo, havia uma sensação de leveza no ar — uma mistura de alívio, êxtase e respeito pela magnitude do que haviam enfrentado.

Finalmente, Eric levantou-se, esticando os braços como se tentasse abraçar a própria vitória.

— É isso. — Disse, com um sorriso cansado, mas genuíno, enquanto olhava nos olhos de cada um — Nosso trabalho aqui acabou. Vamos pra casa.

Eles começaram a caminhar de volta, lentamente, sentindo cada músculo dolorido e cada passo pesado, mas com a confiança tranquila de quem sabe que enfrentou algo impossível e saiu vitorioso. O paredão, agora imponente e silencioso, continuava lá, testemunha eterna da coragem, da técnica e da determinação daqueles homens.

—X—X—X—

No caminho de volta à pista, o clima entre eles era de alívio silencioso. O peso que carregavam durante toda a missão parecia finalmente se dissipar, embora o cansaço extremo mantivesse os corpos rígidos e as pernas bambas. Cada passo sobre o terreno irregular da floresta parecia mais leve do que antes, como se a certeza de terem conseguido fechar a cratera apagasse, momentaneamente, todas as dores e preocupações. Mas o alívio era frágil, quase ilusório.

Quando alcançaram a clareira onde o avião os esperava, a cena que se revelou os atingiu como um soco no estômago. Bernardo estava no alto da escada do Brasília, acenando e sorrindo, o que inicialmente deu uma falsa sensação de segurança.

— E aí, fecharam a cratera? — Perguntou, com aquela mistura de entusiasmo e alívio que só um piloto veterano poderia exibir depois de um voo tenso e uma missão perigosa.

— Fechamos. — Eric respondeu, firme, sentindo a satisfação de ter completado a tarefa mais perigosa de suas vidas — Pra sempre.

Mas antes que pudessem sequer respirar aliviados, veio o som seco do ferrolho. Um estalo que atravessou a clareira e fez o coração de todos disparar. Levi havia levantado o fuzil, apontando diretamente para o grupo, e a expressão monótona no rosto dele transformava o que antes parecia um retorno triunfante em uma armadilha.

Eric ergueu as mãos lentamente, sentindo o choque percorrer a espinha. Lucas trocou um olhar rápido com Daniel, a lembrança instantânea de uma situação semelhante na Bahia trazendo memórias amargas — quando Rômulo Orleans os havia traído por pura ganância, e a sensação de déjà vu era dolorosa.

— De novo isso? — Resmungou Daniel, a voz carregada de frustração e incredulidade.

Levi, com a calma de um predador, começou a falar, sua voz baixa e controlada, mas carregada de ameaça.

— Vocês realmente acharam que Lorenzo e eu íamos largar tudo isso pra trás? Vocês são bravos, eu admito. — Disse Levi, a voz calma, quase admirativa, enquanto mantinha o fuzil apontado — Enfrentaram aqueles monstros, mantiveram o grupo vivo, não posso negar: eu respeito a coragem de vocês. Eric, Lucas, Daniel… vocês fizeram o que poucos teriam coragem de fazer.

Ele deu um passo à frente, a expressão endurecendo.

— Mas agora, honestamente, vocês não são mais necessários. A missão de vocês acabou. O chefe e eu vamos sair daqui de avião, voltar para a civilização e chamar reforços. Homens capazes de reiniciar o trabalho da maneira certa, com planejamento, disciplina e devidamente armados. Vocês cumpriram seu papel, salvaram a pele de todos aqui, mas a partir deste ponto, a gente segue sozinho.

Eric ergueu as mãos, tentando manter a calma, sentindo o choque das palavras de Levi crescer como uma onda gelada. Lucas estreitou os olhos, a raiva misturada com incredulidade brilhando no olhar, enquanto Daniel respirava fundo, tentando não perder o controle.

Levi balançou a cabeça lentamente, como se antecipasse a reação deles.

— Não pretendo matar ninguém. Em respeito a todo o esforço que vocês tiveram, por toda a coragem que demonstraram. — Anunciou, sério — Em vez disso, vou deixá-los presos no depósito. Lá estarão vivos até que eu e Lorenzo estejamos longe o suficiente, e talvez tenham uma chance de esperar até que seus reforços cheguem. Não é um presente, é reconhecimento.

Ele apontou o fuzil com firmeza, reforçando a autoridade da situação.

— Agora, entrem no depósito.

Enquanto eles caminhavam lentamente em direção ao barracão, Daniel lançava olhares fulminantes para Levi, a tensão crescendo a cada passo. Lucas balançava a cabeça, resignado, murmurando algo sobre maldição, enquanto Eric sentia o peso absurdo da ironia — haviam acabado de salvar o mundo de dinossauros assassinos para, logo em seguida, serem encurralados pela ganância humana. O ar parecia denso, carregado não apenas de tensão, mas de traição, e cada segundo que avançavam até o depósito parecia prolongar a sensação de perigo iminente.

Bernardo observava tudo da porta do avião, sem entender de imediato o que estava acontecendo. No início, pensou que Levi estivesse apenas checando o carregamento, talvez conferindo uma última vez os caixotes. Mas os detalhes — o corpo rígido de Lucas, a postura resignada de Daniel, o olhar contido de Eric — acenderam um alerta em seu instinto de piloto veterano, treinado para detectar perigo em frações de segundo. Seu coração acelerou quando finalmente compreendeu: Levi e Lorenzo haviam traído todos.

Mal havia se dado conta disso quando percebeu Lorenzo subindo a escada do avião, a mão firme na coronha da pistola, os olhos fixos nos dele, um sorriso cruel surgindo em seu rosto. Sem hesitar, apontou a arma diretamente para o piloto.

— Pilote o avião, ou eu te mando para o inferno — Ordenou, a voz carregada de ameaça.

Bernardo recuou um passo, os sentidos alertas, o corpo tenso. Ele sabia que qualquer movimento em falso poderia ser fatal. Mas não pretendia se render. Num impulso, desviou-se para o lado quando Lorenzo apertou o gatilho. O disparo passou rente, ricocheteando com um zunido metálico, e Bernardo aproveitou a distração para avançar.

O confronto se tornou físico em questão de segundos. Bernardo investiu contra Lorenzo, bloqueando a arma com o braço e forçando o corpo do grileiro para o lado. O grileiro tentou golpear Bernardo com cotoveladas e socos, mas o piloto era rápido, esquivando-se, aproveitando cada movimento para ganhar vantagem.

Eles rolaram pelo corredor do avião em um equilíbrio precário, o metal rangendo sob o peso dos dois. Bernardo agarrou Lorenzo pelo ombro e tentou desequilibrá-lo, mas o grileiro resistia com força bruta, tentando recuperar a arma. Cada golpe trocado parecia amplificado pelo barulho do metal da fuselagem.

Até que finalmente Bernardo encontrou a abertura que precisava. Empurrando Lorenzo para longe de si e fazendo-o se desequilibrar com um golpe na parte de trás dos joelhos, se apoiou em uma das poltronas, girou o corpo e ergueu a perna, atingindo o grileiro com um forte chute no rosto. Lorenzo recuou, cambaleando, e tombou para trás. Seu corpo bateu contra as poltronas antes de despencar para o piso do avião, a arma escapando de suas mãos. Uma vez no chão, permaneceu ali, imóvel.

Bernardo, respirando pesado, saltou o corpo do grileiro, pegou o revólver caído no caminho e se lançou, escada abaixo, indo em direção a Levi.

— Larga essa porra, Levi! — Berrou, apontando a arma para o outro com firmeza.

Levi reagiu com velocidade quase sobre-humana. Girou o fuzil num movimento elegante e atirou. A bala passou raspando pela fuselagem do Brasília, ricocheteando com um zunido metálico. Bernardo se jogou para o lado, rolando no capim alto, levantou e começou a correr em zigue-zague, seus sentidos totalmente alertas, cada músculo tenso.

Eric, Lucas e Daniel aproveitaram a distração para se lançar na mata densa, cada um movendo-se com cautela, mas com velocidade suficiente para escapar do fogo inimigo. O choque de ver Levi traindo-os em plena clareira misturava medo, raiva e incredulidade — sentimentos que se entrelaçavam, tornando cada passo uma batalha entre instinto e prudência.

Levi, frustrado e confuso sobre quem atacar primeiro, gritou, xingou e finalmente mergulhou entre as árvores, o fuzil pronto, o som de suas botas esmagando folhas secas e galhos partidos denunciando sua trilha. A floresta se tornou um labirinto mortal, cada sombra escondendo possíveis emboscadas.

O impacto psicológico sobre Daniel e seus companheiros era profundo. Eles haviam enfrentado a cratera, sobrevivido à missão que parecia impossível e agora percebiam que o maior perigo poderia vir de dentro do próprio grupo. Cada olhar para trás reforçava a percepção da traição, cada estalo do fuzil no ar aumentava o medo e a adrenalina, e o terreno que antes parecia seguro agora se tornava terreno hostil.

— Vocês viram aquilo? O que foi aquilo? — Sussurrou Lucas, os olhos arregalados, a mão tremendo levemente.

— A gente caiu direitinho na armadilha deles. — Respondeu Daniel, a voz curta e carregada de indignação — Devíamos ter previsto que algo assim podia acontecer.

— E agora? — Lucas tentava manter a calma — A gente não tem chance se Levi nos achar e decidir atirar de verdade.

— Temos que nos mover, rápido. — Emendou Eric, apertando os punhos — Se ficarmos parados, estamos mortos.

— Então vamos — Finalizou Daniel, a voz firme, embora a tensão fosse visível — Um passo de cada vez. Mas nada de heróis.

Bernardo, por sua vez, mantinha-se absolutamente focado, cada músculo tenso, cada sentido alerta. Calculava cada movimento, cada posição de cobertura, cada oportunidade de neutralizar Levi sem se expor. O coração dele batia acelerado, não apenas pelo risco imediato, mas pelo choque de testemunhar a ganância humana se sobrepondo à coragem e ao sacrifício dos amigos. Ele sabia que qualquer segundo desperdiçado poderia significar a diferença entre a vida e a morte — não só a dele, mas a de Eric, Lucas e Daniel.

À medida que a situação se desenrolava, o choque e a tensão se transformavam em ação pura. Cada gesto, cada salto, era guiado por adrenalina e instinto de sobrevivência. O cenário, que até pouco tempo atrás era marcado por alívio e satisfação, transformara-se em um campo de batalha improvisado. A floresta e o acampamento pareciam se fechar ao redor deles, criando corredores de sombra e perigo, onde o inesperado podia surgir a qualquer instante — um galho estalando, uma folha caindo, ou o estalo metálico de Levi se aproximando. Sobreviver dependia tanto da habilidade física quanto da rapidez mental.

Escondido atrás de uma moita densa, Bernardo respirava ofegante, o corpo encolhido, os olhos varrendo cada centímetro do terreno à frente. Segurava a pistola junto ao peito, o cano úmido de suor, os dedos retesados sobre o gatilho. Adiante, mais adiante, finalmente conseguiu distinguir Levi, movendo-se cuidadosamente em direção contrária, mas ainda alerta, como um predador. O coração de Bernardo martelava no peito, cada batida como um tambor de guerra. Ele esperou, imóvel, cada músculo preparado para reagir ao menor sinal. Quando julgou seguro, ergueu-se e correu rapidamente em direção ao acampamento, saltando sobre raízes e pedras soltas, o capim alto raspando suas pernas, os olhos fixos no objetivo.

Ao atravessar o pátio silencioso do depósito, Bernardo manteve a atenção total, varrendo cada canto à procura dos demais. O silêncio era pesado, cortante. Um leve arrastar atrás de um tronco caído fez seus reflexos dispararem: apontou a arma, o dedo quase apertando o gatilho, mas parou ao reconhecer Lucas, com Eric e Daniel agachados logo atrás. O alívio foi imediato, mas breve.

— Porra, vocês quase viraram queijo suíço. — Sussurrou Bernardo, a voz baixa, carregada de tensão.

— Achamos que era o Levi. — Respondeu Lucas, a voz embargada, os olhos ainda percorrendo a mata ao redor — Cadê o outro, o Lorenzo?

— Tá lá no avião, babando dente. — Apontou Bernardo, com um sorriso rápido e nervoso — Dei uma pisada bonita na cara dele.

Um meio riso nervoso escapou dos quatro, um momento curto de alívio em meio ao caos. Mas o silêncio logo foi quebrado por uma voz grave e ameaçadora, ecoando à distância:

— Eu vou achar vocês! E quando eu achar, vou acabar com essa merda toda! Vocês não vão ter uma segunda chance!

O som fez todos congelarem, os corações dispararem novamente. Bernardo levantou um dedo, sinalizando silêncio absoluto, e apontou na direção do avião, começando a guiar o grupo de volta, contornando pelas moitas mais altas e mantendo-se o mais discreto possível. Cada passo era calculado; o ranger de galhos partindo fazia seus nervos se retesarem, o medo de que qualquer movimento denunciasse a posição deles era constante. Era impossível saber se o barulho vinha de pássaros, de pequenos animais ou do próprio Levi, movendo-se silencioso, impiedoso, determinado a encontrá-los.

O caminho de fuga exigia precisão. Bernardo conduzia os outros por corredores estreitos entre árvores e moitas, aproveitando sombras e troncos caídos, cada respiração controlada, cada olhar atento. A tensão era palpável, o ar parecia denso, carregado de perigo. A cada instante, a sensação de que Levi poderia surgir de repente, armando uma emboscada, mantinha o grupo em alerta máximo. Nenhum deles ousava falar, nem mesmo respirar com força, enquanto avançavam, passo a passo, na esperança de chegar ao avião e enfim escapar daquela ameaça iminente.

Quando finalmente atravessaram a pista improvisada correndo, cada passo parecia um esforço sobre-humano. O peso do cansaço acumulado, a tensão da perseguição e o medo constante de Levi os pressionavam, mas Bernardo não perdeu tempo. Subiu correndo para a cabine do Brasília, as botas batendo contra o metal da escada, os dedos tremendo de adrenalina enquanto ligava a chave principal. Começou os procedimentos para dar partida nos motores, cada gesto automático, fruto de anos de treino, mas carregado de urgência.

Lucas e Daniel ajudaram Eric a fechar a porta traseira do compartimento de carga, prendendo o trinco com cuidado. O som familiar dos motores turboélice começando a girar trouxe um alívio quase infantil: aquele rugido mecânico representava civilização, representava segurança, representava a chance de escapar de um pesadelo que parecia não ter fim. Cada vibração transmitida pelo chão da cabine enquanto o avião começava a se mover e se alinhava com a pista ainda fazia os músculos se retesarem, lembrando-os de que a corrida ainda não havia terminado.

E o alívio que sentiram durou apenas um instante. Do meio das árvores, Levi surgiu de repente, a figura disforme e selvagem, o rosto sujo, os olhos arregalados, a boca torcida num grito silencioso de fúria. Apontou o fuzil e começou a disparar. Cada rajada cravou marcas na fuselagem, estilhaços saltando e cortando o ar. Uma bala quebrou a janela traseira, espalhando cacos sobre Eric, que se abaixou rapidamente, o coração disparado, sentindo o perigo quase palpável.

Bernardo não hesitou. Com a mente fria e concentrada em cada segundo, empurrando os manetes de potência para frente e sentindo o avião começar a correr, o piloto enfiou a mão no bolso da jaqueta de voo e puxou um pequeno controle com um botão vermelho. Sem pensar duas vezes, apertou.

O resultado foi imediato e devastador: a pista inteira explodiu em chamas e estilhaços. Por toda a extensão do caminho aberto para o avião, cargas cuidadosamente plantadas nos troncos das árvores começaram a explodir em sequência, criando um tapete de fogo rolando em direção a Levi. Árvores enormes balançaram violentamente, foram partidas ao meio, algumas simplesmente tombaram em montes de galhos e folhagem. O estrondo ecoou pela cratera, reverberando nas paredes rochosas e elevando a tensão a níveis quase insuportáveis.

Levi, surpreso e atordoado, virou-se para correr, mas foi engolido por uma daquelas copas gigantes que caiu exatamente sobre ele. O som foi abafado, o corpo desaparecendo sob uma montanha verde. Bernardo, ainda concentrado no manche, sentiu o suor escorrer pelo rosto enquanto cada pedaço de árvore e terra ameaçava o trem de pouso. As explosões finais sacudiram a pista, jogando terra, raízes e pedaços de madeira contra o avião, que vibrava sob o impacto.

Com força e precisão, Bernardo segurou firme o manche e puxou o nariz da aeronave para cima. O Brasília respondeu com um rugido alto de seus motores, quase roçando as últimas copas antes de finalmente ganhar os céus. Cada segundo no ar parecia duradouro, cada raio de luz e sombra do solo em chamas acelerando a percepção do perigo que haviam deixado para trás.

Dentro da cabine, todos explodiram num grito simultâneo — um som carregado de alívio, adrenalina pura e exultação. Daniel e Lucas se jogaram num abraço, emocionados e aliviados, e Eric bateu no ombro de Bernardo, que continuava pilotando com a respiração pesada, os olhos fixos no horizonte e a boca torcida num sorriso quase maníaco, resultado de tensão, êxtase e sobrevivência.

— Caralho, Bernardo, você plantou explosivos na pista? — Eric quase não acreditava no que acabara de acontecer.

— Nunca confio em bandido, doutor. — Respondeu o piloto, a voz firme, os dedos ainda apertando o manche — Eu imaginei que eles poderiam fazer algo assim. Então achei bom ter um plano B.

Ele se inclinou levemente sobre o manche, olhando pela janela lateral para o caos deixado na pista.

— Aproveitei quando o Lorenzo se distraiu conferindo a carga de pedras preciosas. — Continuou, com um sorriso curto e satisfeito — Enquanto ele estava ocupado babando nos caixotes, instalei os explosivos ao longo da pista. Cada tronco, cada árvore — tudo preparado para dar um bom susto. Não dava para arriscar, doutor. Se eles tentassem alguma gracinha, eles também não sairiam de lá. E agora ninguém usa mais essa pista pra porra nenhuma. Fechamos todas as brechas. — Finalizou, um misto de ironia e triunfo na voz.

Eric sorriu, satisfeito, dando mais dois tapinhas de aprovação no ombro de Bernardo.

— Você fez bem. Muito bem.

—X—X—X—

O Brasília estabilizou a 3.500 pés, cortando o céu com uma suavidade quase surreal depois da tensão insana dos últimos dias. O horizonte se descortinava limpo, azul, com pequenos cúmulos de nuvens espalhados como flocos de algodão, flutuando preguiçosos. A cratera sinistra que quase lhes servira de sepultura ficava para trás, diminuindo lentamente à medida que se afastavam, uma cicatriz escura cravada na imensidão verde da floresta.

Bernardo respirou fundo, os olhos fixos no horizonte, mas a mente voltou por um instante a uma lembrança mais pessoal. Com cuidado, puxou do bolso interno da jaqueta de voo uma pequena foto amarelada. Era Pedro, seu amigo de longa data, com o sorriso largo que ele nunca esquecia. Bernardo segurou a foto por um momento, sentindo o peso da perda e das lutas recentes. Com delicadeza, prendeu a imagem no painel do avião, de modo que pudesse vê-la a cada olhar.

— Consegui, amigo. — Murmurou baixinho, a voz carregada de emoção, quase para si mesmo — Eu consegui… Sobrevivi. A gente sobreviveu. — Ele deu duas batidinhas de leve com o dedo na foto — Eu prometo que vou continuar, que vou lutar todos os dias e tentar ser alguém de quem você se orgulharia… por nós, por tudo que a gente sonhou. Eu te amo, amigo.

Ele engasgou, sentindo uma onda de alívio e emoção percorrer seu corpo. Por alguns segundos, a turbulência emocional do passado e do perigo presente encontrou um ponto de ancoragem na memória do amigo. Bernardo fechou os olhos brevemente, um sorriso discreto se formando nos lábios, e então voltou toda a atenção para os instrumentos do avião, pronto para guiar a equipe para longe do perigo.

Lá atrás, Eric retirou os óculos embaçados de suor e limpou a lente com a camisa, o rosto iluminado por um sorriso que misturava exaustão, alívio e uma felicidade profunda, quase infantil. Cada músculo de seu corpo ainda doía, lembrando-lhe das horas de esforço e da tensão constante, mas a sensação de sobrevivência e de missão cumprida lhe trazia uma espécie de euforia contida.

Lucas, por sua vez, mantinha os olhos colados à janela, contemplando a floresta que se estendia abaixo, os rios serpenteando como fitas de prata entre a vegetação. Os olhos marejados refletiam uma mistura de incredulidade e alívio. Cada árvore, cada clareira que passavam, lembrava-lhe do horror e da beleza que coexistiam naquele vale. Daniel, finalmente, se recostou em uma das poltronas, permitindo que o corpo relaxasse completamente pela primeira vez em dias. O peso físico e psicológico que carregara parecia dissolver-se no ar rarefeito, e ele sentiu-se inteiro, quase novamente capaz de respirar normalmente.

— Então, pra onde? — Perguntou Bernardo, a voz agora leve e bem-humorada, carregando um rastro de alívio e brincadeira — Manaus direto ou damos uma paradinha em São Joaquim pra beber alguma coisa?

— São Joaquim. — Respondeu Daniel, com um sorriso de canto de boca — Preciso de um banho quente, uma pinga e uns três dias de folga antes de dar qualquer entrevista.

O comentário arrancou risadas, curtas, nervosas, mas genuínas, e por um momento o peso da tensão desapareceu, substituído por um riso que parecia limpar o ar ao redor deles. Eric se sentou numa poltrona do outro lado do corredor, olhando para o horizonte pela janela como se tentasse capturar cada nuance do azul infinito.

— Não vamos mesmo dizer nada pro mundo? — Daniel perguntou, ainda tentando se desligar da adrenalina que ainda corria em seu corpo.

— Nada. — Respondeu Eric, firme, a voz carregando a determinação de quem sabe que alguns segredos não podem ser revelados — Nem sobre dinossauros, nem sobre cratera, nem sobre paredões explodindo. Vamos só dizer que foi um acidente. Que o avião caiu e ficamos dias perdidos. Só isso.

Daniel assentiu, concordando silenciosamente, os olhos voltados novamente para a floresta que se perdia atrás deles.

Eric ficou em silêncio por um instante, o peito subindo e descendo, absorvendo a magnitude do que haviam vivido. Então, soltou um suspiro longo, pesado, quase como se limpasse a memória do horror, mas não completamente.

— Oficialmente, foi só um acidente. Mas dentro da minha cabeça… — Tocou o peito, fechando o punho — Dentro da minha cabeça vai ter sempre o som daquele rugido. Vai ter sempre o brilho dos olhos deles no escuro. Nunca vai sair de mim.

Da cabine, Bernardo sorriu, um sorriso simples, misto de gratidão e triunfo, e deu dois tapinhas no painel do avião, como se agradecesse à própria máquina por tirá-los daquele inferno verde. Apontou o nariz do Brasília para o leste, acelerando os motores com firmeza e confiança. Cada aumento de potência parecia um gesto de liberdade, um recado silencioso de que eles haviam sobrevivido, que a coragem e a estratégia ainda podiam superar a ganância e o perigo.

Enquanto o avião ganhava altitude e velocidade, carregava com ele o maior segredo biológico do planeta — não registrado em relatórios ou artigos científicos, mas guardado no silêncio cúmplice de quem soube respeitar aquilo que pertencia apenas àquele vale remoto.

O sol refletia na fuselagem, iluminando rostos exaustos e aliviados, e o azul do céu parecia absorver toda a tensão que ainda persistia no corpo e na mente de cada um. E assim desapareceram no horizonte, pequenos pontos contra a imensidão azul, deixando para trás o perigo, a violência e a floresta misteriosa, levando consigo apenas a memória, o segredo e a sensação de terem sobrevivido a algo que a maioria dos humanos jamais poderia compreender.