Nós e os muros
1 Tédio
Iniciava-se uma primavera colorida por entre a região e todos os olhos atentavam para a beleza das flores na cidade de Farwey. Crianças corriam, jovens se desafiavam em competições e adultos conversavam conforme o sol diminuía sua força em uma tarde que findava como qualquer outra. O céu tinha tons de púrpura e laranja em sua composição. Nas casas amadeiradas, todos estavam conscientes de que estava próxima a hora de dormir.
Os guardas do local ora espantavam seu sono com água do riacho, ora comiam fartamente – preparavam-se para a bem recompensada noite de vigília.
A cidadela de Farwey tinha uma população considerável e famílias se sentiam seguras conforme a noite chegava, graças aos bem treinados soldados de guarda, que bordeavam todo o território e repeliam ameaças com suas vidas.
Que tipo de ameaças? Falaremos sobre isso depois.
Nesse entardecer, Crowley e Abraham papeavam sobre tudo. Aqueles eram tempos de tédio para as pobres almas adolescentes. Crowley, de cabelos encaracolados e marrons, encolhia-se em seus braços conforme o frio aumentava e encarava o horizonte com curiosidade. O outro, que admirava o voo de uma abelha, coçava a cabeça e alisava seus cabelos claros e arrepiados. Era típico para os garotos estarem ali a admirarem a transição do céu de fim de tarde.
— Não é impressionante, Crowley?
Crowley sai de seu transe no horizonte e volta sua atenção ao seu amigo.
— O que disse?
— Não acha interessante como as abelhas podem voar?
— Talvez. – ambos voltaram sua atenção ao insetozinho – Mas elas têm asas, não? É mais do que natural que possam voar.
— Sim, elas têm. Asas minúsculas, se pensarmos no quanto elas são gordinhas.
O jovem de cabelos encaracolados prestou mais atenção e o silêncio se manteve por alguns segundos.
— Tem razão. Mas deve ter uma explicação pra isso em um livro de ciências qualquer.
— Ou... – Abraham pontua entusiasmado – Esse é um daqueles mistérios que não se pode explicar, sabe?
— Tudo tem uma explicação. Aerodinâmica, teórica, científica, biológica. Se não está no livro das ciências, estará um dia, Abe. Tem muita gente inteligente e curiosa por aí para explicar todos os fenômenos do universo.
— Então posso concluir você ainda não leu Hamlet, não é mesmo? O nosso trabalho sobre o livro já é na próxima semana, hein?
— Ainda estou arrumando forças psicológicas para encarar um amontoado de páginas por horas. Eu realmente detesto estar entediado.
Crowley levou então o dedo à sua própria boca e levantou levemente sua sobrancelha esquerda em sinal de reflexão.
— A propósito, como você sabe que eu não li Hamlet? E o que isso tem a ver com as tais abelhinhas?
— “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”, meu chapa.
— Lá vem você com essas citações...
Fale com o autor