— ...E é assim que podemos pensar em Hamlet como uma representação Renascentista do tempo de seu autor.

A frase de Abraham foi logo acompanhada por palmas sonolentas e pelo sorriso incógnito da professora Samsa Briggs, que logo cuidou de dar sua opinião sobre a apresentação oral recém-finda do quarteto de estudantes.

— Marissa Phillipo, muito bem. Você tem melhorado bastante sua oratória e me pareceu ter estudado bastante o livro.

Marissa não foi agraciada com uma capacidade intelectual muito grande, mas dotava de uma capacidade enorme de dedicação, perceptível em quase tudo que fazia. A professora Samsa valorizava o esforço e o trabalho de seus alunos e, de certa forma, quase que por consequência, não simpatizava muito com alunos naturalmente inteligentes, como parecia ser o caso do nosso Abraham.

— Crowley Mavis, você precisa tirar as mãos do bolso e ir um pouco mais a fundo do que você enxergar em uma leitura. Contudo, seu resultado foi realmente promissor. — continuava a docente, acompanhando sua fala com anotações em sua prancheta de madeira.

Pode-se dizer que Crowley não se importava muito com a leitura, mas se sentia fascinado pelos números e cálculos. Gostava de teorizar tudo e facilmente se distraía em suas divagações. A professora agia de forma indiferente a ele, contudo assumia por vezes uma postura negativa sobre o jovem, principalmente por conta de seu melhor amigo.

— Dawis D’Oliver, eu não quero que você memorize falas. Quero que interprete páginas, okay? Literatura é sobre pensar e se posicionar. Diminuir esse arte a uma simples memorização soa como um insulto às célebres mentes que escreveram arte com as próprias mãos. Você pode fazer melhor que isso.

Samsa costumava ser bastante rígida, principalmente quanto às literaturas. Exigia o melhor de seus alunos e conseguia sentir só de olhar quem havia estudado ou não em uma apresentação. Tinha uma postura muito firme e cabelos negríssimos presos por uma caneta fincada. Logo após a dura crítica ao terceiro componente, era hora de comentar a apresentação do último e menos querido integrante. Ela respirou fundo sutilmente enquanto fazia mais anotações em sua fiel prancheta e sentiu que estava pronta para tecer comentários ao estudante que aparentemente mais se interessava por suas aulas.

— Abraham Kärl... Sua apresentação foi excepcional. Não tenho quaisquer observações a fazer.

— Muito obrigado, senhorita Briggs. – disse o menino enquanto curvava levemente sua cabeça e deixava sua cabeleira arrepiada à mostra.

— Você parece ter muita intimidade com os livros. – disse a mulher, enquanto mordiscava a tampa de sua fiel caneta preta.

— Eu sou acostumado. Leio desde criança, sem muitas dificuldades.

— Muito interessante. Eu me pergunto se existe algo que você não consiga fazer.

Samsa foi bruscamente interrompida por um blecaute, seguido por um alarme alto e irrequieto. Era o sinal de alerta da cidade. Não tocava sempre, porém quando acontecia, era motivo de muitas preocupações.

Todos eram quase que naturalmente treinados para as emergências de Farwey. Os alunos logo correram para debaixo de suas carteiras e a professora, após acalmar a todos, se ausentou para ter com os demais funcionários da escola.

Gritos eram ouvidos ao longe. Crowley e Abraham, no alto de seus quinze e dezesseis, eram curiosos demais para ficarem parados esperando tudo acabar. Levantaram e observaram as janelas. Criaturas gigantescas haviam passado a forte defesa da cidade e pareciam não ter objetivo na invasão, senão a pura destruição de tudo que era seu caminho. Muitos soldados tentaram pará-los, sem sucesso. O rastro de destruição havia chegado na praça principal do local e muitos cabeamentos elétricos eram abruptamente desconectados conforme esses monstros transitavam.

Os garotos avançaram sorrateiramente pelos corredores da escola. Crowley hesitou em seu passo e sussurrou:

— Isso não é certo, Abe.

— Tem uma aventura logo além desse muros, Crowley. Precisamos tentar ajudar de alguma forma!

— Mas pode ser perigoso!

— O perigo pode ser o tira-tédio que tanto procurávamos, não acha?

— Temo que seja. – respirou fundo e ajustou seus cachos.

Ao cruzar a estrutura da escola, os meninos puderam ouvir algumas vozes alardeadoras vindo da sala dos professores.

— Isso é fruto da nossa ignorância. Precisamos deles! – disse um.

— Não, não precisamos! Somos uma raça evoluída e abençoada, e não precisamos ser governados pelo demônio.

— E quantos de nós precisarão morrer por conta de nossas indecisões?